Aliados almoçam em clima de Babel
Aliados almoçam em clima de Babel
Presidentes do PSDB, PFL e PMDB tentam acertar o passo na campanha presidencial, mas vão se separar por um tempo
Agência JB
SÃO PAULO - Durante sete anos, dividiram o poder. Agora, vivem uma Babel. Os presidentes do PSDB, José Aníbal, do PFL, Jorge Bornhausen, e do PMDB, Michel Temer, tentaram, mais uma vez ontem, falar a mesma linguagem. Não conseguiram. Saíram do almoço, uma hora e meia depois, expressando o desejo de ''convergir'', mas certos de que, por mais algum tempo, estarão em campos opostos na campanha presidencial.
presidente do PFL, Jorge Bornhausen, delimitou o tempo de separação - até maio, quando, imagina, os três partidos terão condição de avaliar qual candidato terá mais chances de enfrentar o petista Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas. De pronto, o tucano Aníbal ceifou a idéia. O PSDB, avisou, não abre mão de ocupar a cabeça da chapa aliada. ''O candidato do PSDB é o ministro José Serra e vamos trabalhar esta candidatura'', afirmou.
De tão convencido está que se recusou a admitir a realidade. Negou que existam divergências no tucanato em torno da escolha do ministro da Saúde. Recusou-se até a admitir a insatisfação do governador do Ceará, Tasso Jereissati, excluído do processo graças à preferência do Planalto pelo nome de Serra. ''Há um clima de convergência no PSDB'', jurou Aníbal . ''O Tasso vai estar junto com o partido no palanque e em campanha pelo Serra.''
O presidente do PMDB, Michel Temer, em meio a uma profusão de interessados em vestir a faixa de candidato do partido, embora sem aparente chances de vitória, acautelou-se. Aceitou ''a hipótese'' da unificação, mas reafirmou que, num primeiro momento, a legenda vai trabalhar por nome próprio, seja Itamar Franco, Pedro Simon ou Raul Jungmann. Com a prévia marcada para 17 de março, foi dúbio. ''Há chances dessa unidade ainda acontecer, mas vamos lançar nosso candidato'', disse. O PMDB é a noiva cobiçada da aliança? ''É sim...o noivo ideal.''÷
Na verdade, um partido com três pretendentes a noivos. O último, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, apareceu de supetão e fez a legenda pisar em ovos. ''÷O lançamento foi meio atabalhoado'', reconheceu Temer. ''Candidatura não pode nascer sem respaldo do partido, mas ele já admitiu o erro.''÷
O Planalto está por trás desse lançamento para dividir o PMDB e levar a legenda a apoiar Serra? Pelo menos nessa hora, Temer e Aníbal esboçam discursos complementares. ''÷Se houve essa intenção, foi uma inabilidade do governo''÷, afirmou o presidente do PMDB. O tucano esforçou-se para abafar a suspeita. ''÷Isso é totalmente fantasioso. O Jungmann se lançou por iniciativa própria.''÷
De concreto, o almoço serviu apenas para reafirmar promessas de ''não agressão'' durante a campanha. ''÷É fundamental não apenas para uma eventual aliança, independente do turno, mas também em nome da civilidade''÷, disse Temer. O presidente do PFL brincou: ''÷Divisão aqui, só a da conta''÷. Estranho no ninho,o vice-presidente nacional do PPB, Pedro Correa, ouviu tudo e nada comentou.
Entidades contestam números de Jungmann
Ministro teria apresentado dados superestimados sobre reforma agrária na TV
BRASÍLIA - Os movimentos sociais ligados à reforma agrária contestaram os dados apresentados pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, em cadeia de rádio e TV ontem. Segundo a Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), que usou números oficiais do Incra, o ministro superestimou os recursos gastos no assentamento de famílias durante os sete anos de governo Fernando Henrique. Jungmann afirmou que foram ''mais de R$ 12 bilhões na distribuição de terras''. Mas só um terço do valor foi destinado à reforma agrária.
Os R$ 12 bilhões anunciados equivalem ao orçamento geral autorizado para o ministério nos sete anos. Mas nem todo o dinheiro saiu do Tesouro. O liberado para o ministério no período foi cerca de R$ 10 bilhões, usados para todos os gastos, desde compra de materiais até pagamento de pessoal.
Para Jungmann, ''quem não deve, não teme''. Segundo o ministro, o Movimento dos Sem- Terra e os demais movimentos sociais poderiam ter pedido auditoria nos números da reforma agrária. ''Jamais o fizeram, porque os números estão corretos''.
Um dos coordenadores do MST, João Paulo Rodrigues, acusa o ministro de manipular dados: ''Jungmann está esquizofrênico.''
No pronunciamento, o ministro comemorou o assentamento de cerca de três milhões de pessoas. ''Gente que hoje tem escritura na mão, casa e trabalho - o que é mais importante'', afirmou.
Mas segundo o estudo da Abra, usado como referência pelo MST e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número real é bem menor. Entre 1995 e 19 de dezembro de 2001, apenas 267.331 famílias teriam recebido terra. Para efeito de cálculo, se cada família tiver cinco membros, seria pouco superior a 1,3 milhão o número de pessoas assentadas. Haveria, então, uma defasagem de 1,7 milhão em relação aos dados de Jungmann.
Segundo o presidente da Abra, Gerson Teixeira, o ministério levou em consideração a capacidade total de assentamento de cada área, não o número real de assentados. Além disso, entram no balanço famílias beneficiadas por projetos antigos, outras que devem ser assentadas por projetos que ainda não existem e regularização de invasões. ''Se descontarmos dos números alardeados pelo governo as previsões e outras inclusões indevidas, chegaremos a um número real medíocre de assentados no período FHC'', diz Gerson.
A maioria das famílias de sem-terra no Brasil está cadastrada na Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). O presidente da entidade, Manoel José dos Santos, concorda com os números da Abra. ''O ministério registra como reforma agrária todos os locais que sofreram qualquer tipo de intervenção do governo, sem levar em conta o assentamento efetivo.''
FH veta parte da Lei Antidrogas
BRASÍLIA - O presidente Fernando Henrique Cardoso deve vetar 25 dos 59 artigos da nova lei antidrogas, ao sancioná-la, provavelmente hoje ou amanhã, dez anos depois do início das discussões do projeto no Congresso Nacional. Na lista de artigos, está todo o capítulo III, sobre crimes e penas. O governo poderá enviar em 45 dias um novo projeto de lei ao Congresso, para tratar das penas.
Segundo técnicos do Ministério da Justiça, deverão ser vetados os artigos 14 a 24, que representam todo o capítulo das penas, o mais importante da lei. Seriam suprimidos os pontos mais polêmicos, como o da liberdade provisória facultada aos traficantes. Também cairia o artigo que relaciona medidas específicas para os usuários de drogas, estabelecendo penas alternativas como a suspensão da carteira de motorista e prestação de serviços à comunidade.
Serão vetados ainda outros artigos em todos os capítulos da lei, incluindo as disposições gerais, prevenção, tratamento, procedimento penal, instrução criminal e efeitos da sentença.
Ontem à tarde, o deputado Elias Murad, autor do projeto de lei antidrogas, ainda manifestava esperanças na promulgação da lei, sem o esfacelamento completo do texto. Disse ter recebido do chefe do Gabinete Institucional da Presidência, general Alberto Cardoso, a informação sobre o veto de apenas três artigos e dois incisos da lei. Além de Murad, participou da reunião com Cardoso o senador Ricardo Santos (PSDB-ES).
Cardoso informou aos parlamentares que deverá ser vetado artigo que determinava a prisão de usuário, nos casos de recusa em se submeter a tratamento médico ou penas alternativas.
Segundo Murad, outro artigo da lei já proíbe que o consumidor seja preso. ''Fica prevalecendo o artigo que limit a a quatro horas o tempo que o usuário pode ficar na delegacia prestando depoimento, quando detido'', disse o deputado. O dispositivo é para evitar que os policiais tentem achacá-los.
Secretário se explica sobre racionamento
O secretário estadual de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo, Wagner Victer, disse não haver contradição entre a carta que enviou ao comandante do Ministério do Apagão, Pedro Parente, e a liminar obtida pelo governador Anthony Garotinho no Supremo Tribunal Federal suspendendo o pagamento de 80% das parcelas mensais da dívida do Estado com a União, por conta das perdas com o racionamento. Na carta, Victer se diz apreensivo com as notícias de que o governo federal estaria pensando em acabar com o plano de redução do consumo de energia.
''A ação do STF visa a recompor perdas do passado e retomar o equilíbrio financeiro em função dos erros do gerenciador do setor elétrico'', explica Victer. ''O documento enviado por mim não prega contra o fim do racionamento, e sim contra a suspensão dele neste momento''. O secretário teme que, sem critérios técnicos coerentes, o racionamento possa ser retomado novamente este ano, o que geraria mais perdas.
Victer lembra que os níveis de água nos reservatórios do Sudeste ainda são inferiores aos equivalentes em 1999. ''Isso demonstra um grande risco'', afirma. Segundo ele, o Rio de Janeiro já vinha alertando sobre a possibilidade da crise energética há três anos, desde o momento em que Anthony Garotinho enviou correspondência ao presidente Fernando Henrique Cardoso comentando o assunto.
Boicote - O secretário afirma que o Estado recusou-se a adotar uma postura de boicote ao plano do governo, escolha que não reduziria tão drasticamente a arrecadação mensal e evitaria o prejuízo estimado em R$ 630 milhões. Foi este o número apresentado por Garotinho ao presidente do STF, ministro Marco Aurélio Mello, alegando que o Estado perdeu na arrecadação de ICMS.
Victer lamenta o fato de a decisão do STF, suspendendo o pagamento de 80% da dívida fluminense com a União, ''não ter obtido a aceitação necessária para um regime democrático, principalmente pelo governo federal, que foi o principal responsável pela crise e não aceita qualquer decisão que incorra contra seus anseios''.
Governo investiga cartel da gasolina
Grupo de trabalho vai apurar se distribuidoras e postos estão combinando preços. Há 120 processos já em andamento
BRASÍLIA - O governo vai criar um grupo de trabalho para investigar a formação de cartéis de distribuidoras e postos de combustíveis do país. O anúncio foi feito pelo secretário de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça, Paulo de Tarso Ribeiro. Caso sejam comprovados que empresários ou sindicatos estão combinando preços, a punição prevê multas de até 30% da receita anual ou mesmo a cassação da licença de funcionamento. Empresas condenadas administrativamente poderão ser processadas pelo Ministério Público.
Dos 212 processos sobre cartelização em curso na SDE, 120 referem-se a revendas de combustíveis. A secretaria recomendou também ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) que puna o Sindicato de Postos de Goiás (Sindiposto). No ano passado, segundo Ribeiro, o presidente da entidade José Batista Neto teria defendido uniformização da margem de lucro em 15% nas revendas de Goiânia.
Cartéis - O secretário confirma que existem investigações contra donos de postos de gasolina de Manaus, denúncia confirmada pelo ministro de Minas e Energia, José Jorge. Para o presidente da BR Distribuidora, Júlio Bueno, há postos cobrando cerca de R$ 1,73 pelo litro da gasolina, bem acima do valor ideal (R$ 1,55) para os consumidores daquela cidade.
O titular da SDE informou também que há duas investigações contra revendas no Distrito Federal e em Florianópolis (SC). Denúncias feitas nas últimas horas, indicam, segundo Bueno, prática de combinação de preços em Vitória (ES), Teresina (PI) e em algumas cidades da Região Nordeste.
Preço ideal - O presidente da BR Distribuidora disse ainda que o preço do litro da gasolina nos municípios do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte não deve ficar 20% mais barato como quer o presidente, porque nessas capitais os preços estão bastante depreciados. Para o Rio, Bueno acredita que o preço ideal na bomba é de R$ 1,55, e em São Paulo, R$ 1,50. No entanto, há revendedores na capital fluminense que estão cobrando R$ 1,47 pelo litro da gasolina conforme pesquisa da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Para traçar uma estratégia de diminuição de preços dos combustíveis, Fernando Henrique comandou reunião, ontem, no Palácio Alvorada, com ministros, a cúpula da Petrobras e com o diretor-geral da ANP, embaixador Sebastião do Rego Barros. ''Desenhamos o contra-ataque'', disse José Jorge. ''O consumidor não deve abastecer nas revendas que cobram caro.'' Além de pressionar a BR para baixar os preços, o governo decidiu convocar para a próxima segunda-feira, em Brasília, uma reunião com os sindicatos nacionais dos distribuidores e revendedores de derivados de petróleo.
Lucros - Segundo o presidente da BR, os donos de postos ainda estão recuperando prejuízos causados por outras revendas que vendiam derivados sem o recolhimento de impostos aos cofres públicos, respaldados por liminares. Outro fator para não chegar a redução de 20% nas bombas, segundo Bueno, é que a maioria dos Estados não reduziu o preço presumido dos combustíveis que serve de base para o cálculo do ICMS.
A fim de resolver mais esse entrave, o governo vai tentar sensibilizar os 27 secretários de Estado de Fazenda hoje, na reunião do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), a usarem uma base de cálculo menor para a cobrança do imposto.
Energia extra vai custar R$ 4 bilhões
BRASÍLIA - A Comercializadora Brasileira de Energia Emergencial (CBEE) assinou ontem com grupos privados 20 dos 24 contratos para a oferta de 2.155 Megawatts de energia pelo período de três anos. O presidente da CBEE, Mário Miranda, informou que o Tesouro Nacional alocou recursos da ordem de R$ 16 bilhões para serem gastos com a compra de energia, no caso de necessidade de consumo desta carga de eletricidade no período de 36 meses. Ele antecipou que no mínimo o governo desembolsará R$ 4 bilhões apenas para assegurar a colocação de energia à disposição do país.
''O mais importante é que 88% das empresas ou consórcios são nacionais, um indicativo de que as divisas permanecerão no Brasil'', afirmou Miranda. ''Ao término dos contratos, as unidades geradoras poderão servir de ''seguro'' para eventual racionamento.''
A idéia é que estas usinas entrem em operação ainda no primeiro semestre deste ano para fazer frente à demanda. Pelo menos 1.555 MW serão destinados para o Nordeste e 599 MW para o Sudeste e Centro-Oeste. O ministro de Minas e Energia, José Jorge, afirmou que a colocação desta energia será um alívio para o país que deve sair, no próximo mês, do racionamento de energia elétrica.
Emergência - Para assegurar uma oferta de energia em regime de emergência, a Câmara de Gestão da Crise de Energia elétrica (GCE) criou a CBEE. De setembro do ano passado até ontem, foram analisadas 117 propostas de empresas ou consórcios que pretendiam colocar no mercado 4.048 MW de eletricidade.
Artigos
A bandeira da continuidade
Alberto Gomes
No dia de Natal, remexendo papéis, encontrei fotografia do governador Carlos Lacerda recebendo, na Estação de Tratamento de Água do Guandu, à época recém-inaugurada, o xá Reza Pahlevi, do Irã. Corriam os anos 50. Constatei, mais uma vez, que muito pouco se fez em saneamento no Estado do Rio de Janeiro de Lacerda até o século 21.
Para mim ficou muito c lara a razão de só agora estar se fazendo o esgotamento sanitário da Barra da Tijuca, do Recreio dos Bandeirantes e de Jacarepaguá. Além do emissário da Barra, da reforma do emissário de Ipanema, do Cinturão da Lagoa, da troca de rede de esgotos do Leblon, da despoluição da praia de São Conrado e da duplicação da adutora da Baixada Fluminense, entre tantas outras obras.
Se não bastasse ser caras e exigir perícia, além de profundo conhecimento técnico, essas obras foram transformadas, durante todo o período pós-Lacerda, em projetos e programas de políticos que se elegeram à custa de promessas não cumpridas. Época de eleição era época de levantar a bandeira das obras de saneamento. Urnas lacradas, bandeira guardada.
Quando comecei a trabalhar com o governador Anthony Garotinho, percebi que estávamos diante da oportunidade de zerar todas as necessidades de saneamento básico da população do Rio de Janeiro. E também de cumprir as promessas esquecidas de políticos que passaram. As obras começaram a ser feitas e, para minha surpresa, surgiram críticas.
Com a passar do tempo, entendi claramente a razão dessas críticas. Estávamos tomando a bandeira do saneamento das mãos de oportunistas e mexendo com interesses contrários aos da população. Mais do que isso. Como sobreviverão os ''pipeiros'' (donos de caminhões-pipa), se toda a população do Rio receber água em casa? Como ficarão os donos de empresas que fatuarm alto com os esgotos dos grandes condomínios da Barra da Tijuca? E como falsos ecologistas vão conseguir notoriedade e projeção profissional, se não houver mais vazamento de esgoto na Lagoa e nas praias?
Estou curioso para descobrir o que alguns políticos prometerão na próxima campanha. Transporte coletivo em naves especiais? Sinceramente, não sei. Com certeza, terão de ser criativos. Mas não poderão deixar de carregar a bandeira da continuidade dos projetos de saneamento executados no governo Garotinho. A necessidade da população, hoje, está acima de interesses pessoais.
Colunistas
COISAS DA POLÍTICA – Dora Kramer
Falta causa à rebeldia
O Tasso Jereissati que no início de dezembro passou por Brasília avisando que era, antes de tudo, um tucano, e que, por isso mesmo, estava pronto para apoiar - se fosse o caso - a candidatura de José Serra, não é o mesmo Tasso Jereissati que agora ameaça bandear-se para a candidatura do PFL.
Ninguém, no PSDB e fora dele, está entendendo direito qual é a causa da rebeldia do governador do Ceará. Entre outros motivos porque ela manifestou-se de repente e com uma violência que não combina pelo menos com o que se conhecia da habilidade e temperamento de Tasso.
No momento em que a direção executiva do partido se reúne para proclamar unidade em torno de José Serra e o presidente do partido, José Aníbal, se desloca até Fortaleza para comunicar reverencial e pessoalmente o desfecho ao governador, o que ele responde?
Que continua com sua candidatura à presidência à disposição do partido, enquanto o partido não decidir, e que vai ''esperar'' para ver se Serra consegue bom desempenho.
Nesse caso, ou Aníbal e Tasso falaram um em grego outro em sânscrito, ou o governador se fez propositadamente de desentendido. Com que propósito é que não está claro. Da mesma forma, como parece ainda obscura a razão pela qual um homem cordial e partidário como ele, expõe sua mágoa de maneira tal, que só lhe poderá render prejuízos de imagem. Iguala-se a um Itamar Franco, que foi aos poucos perdendo o crédito junto à opinião pública, justamente por escolher o fígado como arma política.
O que assusta e entristece é que Tasso não é feito da mesma matéria e, já provou na prática - com a extinção da era do coronelato no Ceará -, capacidade de dar contribuição ao país. Política e administrativamente falando.
Portanto, seus gestos continuarão sem fazer sentido - já que do mal da pirraça nunca padeceu - enquanto ele não esclarecer devidamente por que, afinal de contas, está tão magoado com Serra e, principalmente, com o presidente Fernando Henrique.
A argumentação oficial é a de que não se conforma com o apoio de FH ao ministro da Saúde. Ora, todo mundo que circula pelo mundo do poder sabe que Fernando Henrique insistiu em dar a Serra o Ministério da Saúde justamente porque achava que ali estava a catapulta ideal para a candidatura à presidência. Ou seja, o projeto não sendo novo, se Tasso queria entrar nele deveria, no mínimo, tê-lo feito antes.
Mas não, ficou uma enormidade de tempo reafirmando sua amizade e lealdade a Ciro Gomes, enquanto este desencava FH cada vez mais fortemente. No mínimo, por isso, como poderia se imaginar o predileto?
Tasso não construiu - como fez Serra - a candidatura ao longo do tempo e, num repente, exige com sua irritação que tenha igualdade de condições. É evidente que alguma coisa na relação do governador com o presidente da República existe, e ainda não foi revelada, porque, se não, seremos obrigados a concluir que o governador está querendo algo que não diz o que é. Se for abrir uma dissidência, faltam-lhe aliados para tal. E fica maior a dificuldade de entender onde Tasso quer chegar.
E tão estranha está a história que, para afrontar a candidatura do próprio partido, insinua apoio a Roseana e, não, ao amigo Ciro. Que, aliás, não deve estar achando graça nenhuma nessa situação.
Fadiga de material
Não será surpresa enorme se, no dia 17 de março - data marcada para as prévias do PMDB - o governador Itamar Franco simplesmente não aparecer para disputar coisa alguma. Considerando que uma pessoa normal que entre numa luta o faça com a disposição de ganhar, Itamar praticamente anunciou sua desistência ao avisar que não vai fazer campanha.
Uma vez que não há no PMDB exatamente uma febre itamarista que o faça candidato ungido por geração espontânea e que, além disso, o comando adversário faz campanha contra, não parece lógico que o governador compareça às prévias apenas para perder.
Ainda mais agora, que foi substituído por Tasso Jereissati na lúdica tarefa de azucrinar o juízo de Fernando Henrique, sua batalha perdeu muito do sentido.
Nessa linha, até mesmo a realização das prévias é discutível. Se não, vejamos: Raul Jungmann a direção do partido não aceita e Pedro Simon os mesmos personagens acham que a candidatura é inócua. Portanto, o que está faltando às prévias do PMDB é exatamente matéria-prima.
Desejo mútuo
Se é fato que os tucanos querem tirar o publicitário Nizan Guanaes da campanha de Roseana Sarney, é fato também que não se trata de um desejo unilateral.
Nizan, além de se definir como ''um tucano'' para quem quiser ouvir, lá, no fundo da alma, não acredita que a governadora do Maranhão resista às intempéries da uma campanha e à logomarca do PFL.
Além disso, adoraria fazer a campanha de Serra.
Editorial
NOÇÃO DA HORA
Os desencontros que assolam o PSDB em matéria de sucessão presidencial não serão acertados apenas mediante a opção por um dos candidatos cogitados. O partido que foi o núcleo do governo durante dois mandatos presidenciais perdeu condições de prolongar a vantagem na sucessão já em curso. O PSDB foi o último a reconhecer que a sucessão estava andando independente dele.
O alheamento social-democrata à eleição presidencial não custará apenas as conseqüências já manifestadas. Haverá outras, igualmente com custos políticos, no correr da campanha. Foi prematuro o tema eleitoral para um governo a braços com problemas também adiados para serem resolvidos com o passar do tempo. A necessidade de gerar candidatura que seja a continuidade do compromisso federal deveria refletir-se num candidato que exp rimisse o governo que sairá e o sucessor que o substituirá. Nem os partidos da aliança nem o governo pensaram nisso. A encruzilhada pede, portanto, o exame imediato das dificuldades do governo em conduzir a própria sucessão e as conseqüência que possam ser previstas. Melhor prevenir.
Os últimos dias registraram efervescência descontrolada para definir a candidatura do ministro da Saúde, que adiou em vão o lançamento do seu nome. Foi natural que, entre os pretendentes, o governador do Ceará se sentisse preterido quando nada pela maneira como tudo se passou. O ministro José Serra está reunindo em torno do seu nome uma preferência tardia. Ela teria poupado naturais ressentimentos se conduzida com gestos de conciliação e entendimento. O primeiro a tomar posição pública foi o governador Tasso Jereissati e, com a iniciativa, precipitou um processo tumultuado por absoluta falta de coordenação oficial. O Palácio do Planalto não teve noção da hora.
Os tremores de terra, embora de pequena escala, denotam despreparo e improviso em matéria que não podia ter sido negligenciada. Em cima da delicada negociação para apressar a candidatura, outro ministro - o da Reforma Agrária - propõe a definição ideológica numa questão interna do PSDB, como se fosse mais do que uma escolha política para fim eleitoral. O ministro Jungmann não entendeu a questão.
A necessidade de restabelecer o mínimo de ordem é o desafio para a aliança de legendas incapazes de encontrar, no prazo certo, a solução responsável. O desgarrado PFL, abonado pelas pesquisas para apresentar candidato próprio, não arredou pé do inesperado privilégio. Quanto ao PMDB, esse é eterna arena de disputas internas repartidas entre a nostalgia oposicionista e as vantagens materiais do poder. Eleitoralmente falando, o PMDB nunca fez boa figura em eleição presidencial. E, pelo que lhe toca, o PSDB se move com ímpetos de legenda estudantil. A continuar assim, o presidente Fernando Henrique terá de entender que as conseqüências recairão sobre o julgamento final dos seus dois mandatos. Com a elevação das tensões, os presidentes do PFL, Jorge Bornhausen, do PMDB, Michel Temer, e do PSDB, José Aníbal, decidiram em almoço ontem, em São Paulo, pedir audiência ao presidente da República para tratar da reforma política.
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01/11/2002
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