Aliados criticam programa medíocre da Frente
Aliados criticam programa medíocre da Frente
Líder do PTB diz que produção de TV de Ciro é “anódina”. Candidato a vice-presidente acha que falta mostrar os partidos coligados e ACM recomenda agressividade contra o governo. Especialistas concordam que o programa é ruim
A propaganda eleitoral do candidato da Frente Trabahista a Presidente da República, Ciro Gomes, tem sido uma sucessão de erros. Faltam propostas, emoção, indignação com os problemas do país e cenas de apoio explícito por parte de políticos, empresários e outros aliados. ‘‘Tudo está muito centrado na figura do candidato, que já é bastante conhecida pelo eleitor’’, avalia o cientista político Francisco Meira, diretor-presidente do instituto Vox Populi. ‘‘O programa está anódino (insignificante, medíocre, segundo o dicionário Aurélio)’’, protesta o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), um dos coordenadores da campanha. ‘‘E ele ainda sumiu com a mulher’’, emenda a cientista política Lúcia Hipólito, se referindo à atriz Patrícia Pillar.
Mas algumas mudanças começam a partir de hoje. A grande atração do novo programa de Ciro será mesmo Patrícia Pillar. Ela fará uma espécie de reestréia no horário gratuito de TV do candidato, uma vez que sua participação se resumiu, até agora, a cenas externas ao lado de Ciro, sem pronunciar uma única palavra. Patrícia vai falar no programa de hoje. E dirá que o marido-candidato não é nada do que a campanha do adversário José Serra (PSDB-PMDB) tem propagado: em vez de mentiroso, Ciro é um político comprometido com a verdade; ao contrário de irritado e desequilibrado, é um homem calmo e carinhoso.
Com menor apelo para o telespectador, o sindicalista Paulo Pereira da Silva, candidato a vice-presidente na chapa de Ciro, também aparecerá no horário eleitoral na TV. Sua primeira participação foi gravada ontem, em São Paulo. No intervalo das gravações, Paulinho — como o sindicalista é conhecido — fez críticas ao programa. ‘‘Não está claro, até agora, que Ciro é apoiado por uma grande central sindical e que existem quatro grandes partidos por trás de sua candidatura. Isso tem que ser mostrado’’, disse Paulinho aos marqueteiros do candidato.
A grande questão em torno do programa eleitoral de Ciro é a necessidade de usá-lo para atacar seus adversários, principalmente o candidato José Serra. A própria noção de ‘‘atacar’’ causa divergências. Para uns, como os aliados do PTB, o programa deveria expor denúncias de corrupção no governo federal que podem envolver Serra. A investigação desses casos, assim como sobre a vida pessoal do tucano, já começou. Mas assessores mais próximos de Ciro negam que o programa será usado com essa finalidade. Para eles, o ataque será político.
Ataques
O ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), aliado e estrategista da campanha de Ciro, defende que ‘‘é preciso tratar (no programa) do combate à corrupção, do problema da segurança pública, do desemprego e ligar Serra ao governo Fernando Henrique Cardoso, que produziu esse caos econômico que o Brasil está atravessando’’.
A mais recente pesquisa eleitoral Vox Populi/Correio revelou que os eleitores, independetemente do seu candidato, têm uma avaliação semelhante dos programas de Ciro Gomes e José Serra. De zero a 10, o programa de Ciro é avaliado em 6,74, enquanto que o de Serra recebe uma nota de 6,46. Para Francisco Meira, do Vox Populi, essa semelhança mostra que uma boa parte dos eleitores de Ciro gosta do programa de Serra. ‘‘Considerando essa volatilidade do eleitor, o maior tempo de Serra no horário eleitoral gratuito o beneficia na disputa pelo voto’’, afirma Meira.
O QUE DEU ERRADO
As respostas aos ataques de José Serra foram tímidas e só aconteceram no início desta semana
Há pouca indignação do candidato contra as mazelas do país. Seu discurso está muito contido
Faltam imagens de aliados, como líderes da Frente Trabalhista e da Força Sindical
A participação de atriz Patrícia Pillar, mulher do candidato, é tímida. Ela ainda não falou
O sindicalista Paulo Pereira da Silva, candidato a vice-presidente, também não apareceu até agora
Receita de Serra na TV
Com o maior tempo na televisão e no rádio, candidato do PSDB consegue reverter tendência de queda com estratégias de marketing bem planejadas, como divulgar trecho de entrevista em que Ciro Gomes chama de burro um eleitor
O horário eleitoral gratuito chegou na hora certa para José Serra. As pesquisas começavam a detectar problemas na candidatura de Ciro Gomes quando os brasileiros passaram a assistir aos programas na televisão. Os responsáveis pela campanha de Serra investiram pesado na exploração dos defeitos de Ciro, como o temperamento explosivo e as contradições nas declarações. Cuidaram também de usar todos os recursos tecnológicos disponíveis para apresentar propostas e tornar os programas mais atraentes aos telespectadores.
A fórmula adotada pelos marqueteiros deu certo, de acordo com a avaliação de alguns dos principais especialistas em análise de campanhas. ‘‘O horário eleitoral é um marco e faz a diferença porque é onde a informação é mais homogênea’’, diz a diretora de opinião do Ibope, Márcia Cavallari. ‘‘É quando a maioria dos eleitores se informa sobre as eleições e passa a prestar atenção na campanha. Até então, estavam informados apenas aqueles que lêem jornais e revistas, que é um universo pequeno’’, completa.
Foi na TV que a maioria do eleitorado soube que Ciro Gomes havia chamado um ouvinte de burro durante entrevista numa rádio, na Bahia. Até então, essa informação estava restrita às pessoas que tinham lido sobre o assunto nos jornais ou na Internet. ‘‘Quando colocamos isso no ar, não estamos partindo para baixaria. Estamos dando ao eleitor a oportunidade de comparar o comportamento dos candidatos perante diversas situações’’, comenta o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), um dos principais aliados do candidato governista. ‘‘Ciro vinha perdendo votos e o horário eleitoral acentuou os erros que ele estava cometendo’’, afirma Guilherme Sodré, ex-funcionário da agência de publicidade Propeg, especialista em marketing político.
A receita escolhida foi mesclar ataques a Ciro com a apresentação de propostas detalhadas. Decidiu-se investir cada vez mais na divulgação de propostas de geração de empregos, tema que deve cada vez mais ocupar a campanha do candidato governista. O primeiro programa foi visto por 85 milhões de pessoas, segundo informações de institutos que medem a audiência de TVs, muito mais do que os 60 milhões que assistem ao Jornal Nacional, da TV Globo.
O principal marqueteiro de Serra, Nizan Guanaes, tomou alguns cuidados extras para causar impacto no eleitorado. ‘‘Nós sempre decidimos o formato final do programa um dia antes, dentro da conjuntura do momento. Um dos segredos do sucesso de um programa eleitoral é o sigilo’’, comenta o publicitário Nelson Biondi, outro integrante da equipe de Serra.
Na campanha isso é levado tão a sério que nem mesmo os políticos têm acesso ao estúdio, à exceção de Serra e da candidata a vice, Rita Camata. Certa vez, Serra iria dar uma entrevista e chegou a propor que os jornalistas entrassem. Na hora, um dos responsáveis pela campanha ponderou: ‘‘Só se esperarem uma hora para cobrirmos tudo isso aqui’’.
Isso aqui eram os diversos cenários do programa, montados na produtora em São Paulo. Ali estavam o Bar da Jura, onde a atriz Solange Couto, da novela O Clone, grava suas participações e o cenário de Valéria Monteiro, para as entrevistas com o candidato e convidados. Estava ainda o cenário do trabalho, trabalho, trabalho, onde Elba Ramalho, Chitãozinho & Xoror ó, o grupo KLB e Gugu Liberato aparecem segurando carteiras profisisonais — simbolizando a principal plataforma de Serra que é a criação de 8 milhões de empregos nos próximos quatro anos.
O mesmo sigilo foi dedicado aos ataques a Ciro. Na véspera da estréia, dia 19, o coordenador político da campanha, Pimenta da Veiga, anunciava um programa restrito à apresentação de propostas. Como a equipe de criação fica em São Paulo, fechada na produtora, nem ele tinha sido informado de que o publicitário Nizan Guanaes colocaria a imagem de Ciro chamando um ouvinte da Bahia de ‘‘burro’’.
O segredo tem dois objetivos: o impacto junto ao eleitor e a possibilidade de evitar que o adversário possa responder no mesmo dia. Assim, quando a resposta vem, a onda já se propagou. E um detalhe: Nizan jamais mostra Serra criticando ninguém. Nos programas aparecem notícias de jornais e declarações produzidas pelo próprio Ciro que, nas últimas três semanas, produziu um farto material, xingando de ‘‘burro’’ um ouvinte na Bahia e de ‘‘pilantra’’ um cinegrafista no Ceará. ‘‘A única coisa que fizemos foi comparar os candidatos’’, comentava ontem o presidente do PSDB, José Aníbal.
Um dos maiores trunfos para os próximos programas será um
depoimento emocionado da novelista Glória Perez para um programa sobre segurança pública. Glória fala da morte da filha, Daniela Perez, e faz apelos em favor do candidato a quem ela manifestou apoio durante encontro no Rio. Os cachês dos artistas são mantidos em sigilo, mas assessores políticos do candidato explicam que 80% de toda a arrecadação da campanha foi destinada ao programa eleitoral.
A confiança de Nizan na propaganda da TV era tanta que ele dispensou o chamado pé na estrada, grupos de caminhões que percorriam o país na campanha de Fernando Henrique Cardoso de 1994. Tem a seu favor os mais de dez minutos de Serra em cada programa, mais do que Ciro e Lula somados. ‘‘A campanha hoje é TV, rádio e Internet. Comícios só mesmo para gerar as imagens para a TV. São caros e o público que se atinge é pouco’’, comentava o próprio Nizan em julho. Hoje, todos acham que a receita dele começa a dar resultados.
O QUE DEU CERTO
Emprego: é tratado no programa como a chave-mestra para abrir as portas de desenvolvimento do Brasil
Humor: Serra aparece sempre bem disposto e com uma fala pausada, didática.
Carreira: mostra a trajetória política de Serra em momentos importantes da política brasileira nos últimos 40 anos
Tecnologia: Uso de imagem de cinema, com equipamento de última geração
Ataques: nunca são feitos pelo candidato, mas usam imagens e frases dos próprios adversários
Ciro começa ataques a Serra
Candidato da Frente Trabalhista busca munição contra o representante do PSDB. Coordenadores da campanha tucana estão prontos para contra-atacar
O presidenciável Ciro Gomes, da Frente Trabalhista (PPS-PTB-PDT), colocou em prática o estilo bateu, levou para devolver os ataques que tem sofrido na disputa presidencial. Ele disse ontem que tem ‘‘graves questões’’ contra o candidato José Serra (PSDB-PMDB), insinuando que poderá usá-las para torpedear a campanha do adversário. ‘‘Tenho o Ricardo Sérgio e o Bierrenbach. Tenho quilhões (sic).’’ Além do ex-caixa de campanha de Serra, investigado por supostas irregularidades na privatização da Telebrás e da Vale do Rio Doce, Ciro se referia a Flávio Bierrenbach, ministro do Superior Tribunal Militar e ex-deputado federal pelo PMDB de São Paulo.
No programa eleitoral da campanha pela prefeitura paulistana em 1988, Bierrenbach acusou Serra de se enriquecer como secretário de Planejamento de São Paulo, cargo que ocupou entre 1983 e 1986. Disse ainda que ele usava o poder de forma ‘‘cruel, corrupta e prepotente’’. Suas declarações lhe renderam um processo por calúnia e difamação. Mas Bierrenbach disse que tinha como provar suas acusações e solicitou à Justiça Eleitoral uma investigação financeira sobre seu desafeto. Serra alterou sua estratégia jurídica e atrasou a tramitação do processo até a prescrição dos crimes. Com isso, o processo foi arquivado. Procurado ontem pelo Correio, o ministro Bierrenbach disse que não se pronunciaria sobre o fato de ter sido citado por Ciro Gomes.
Em São Paulo, o candidato da Frente Trabalhista comentou que a propaganda de Serra é ‘‘completamente desonesta’’, pois tenta mostrá-lo como ‘‘um monstro agressivo e desequilibrado’’. Nos seus programas, Serra explora contradições de Ciro e declarações explosivas contra jornalistas e ouvintes em programas de rádio.
O deputado federal Pimenta da Veiga (PSDB-MG), coordenador da campanha de Serra, disse ontem que o candidato não teme os ataques de Ciro e que os tucanos ‘‘estão preparados para tudo’’. ‘‘Saberemos agir e reagir’’, afirmou. O presidente do PSDB, deputado federal José Aníbal (SP), adotou a mesma linha. ‘‘Nós não deixaremos um ataque sem resposta. A melhor arma para a defesa é o ataque.’’
Serra prefere dizer que não está atacando Ciro Gomes, mas mostrando suas contradições. Para exemplificar, citou as declarações do adversário no recente debate na Confederação Nacional de Agricultura. ‘‘Ele disse que o subsídio à agricultura no Brasil era zero. Não é, todo mundo sabe disso. Evidentemente, o que ele disse não é verdade.’’ Na avaliação de Serra, ‘‘é legítimo’’ apresentar declarações de qualquer candidato que diz algo contraditório. ‘‘Isso vale para mim também’’, disse.
PT já monta mapa do segundo turno
O comando da campanha de Lula esboça o quadro das disputas regionais onde investirá em busca de apoio. No Rio, a cúpula petista torce discretamente pela vitória de Rosinha Matheus no primeiro turno para atrair Garotinho
A cúpula do PT tem apenas um plano para este ano: eleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República. Para alcançar este objetivo, vale mesmo sacrificar as candidaturas do partido nos estados. O comando da campanha de Lula está concluindo um quadro das possíveis disputas de segundo turno nos estados. Será a partir desse quadro, e das hipóteses de apoio que Lula pode amealhar no segundo capítulo da sucessão presidencial, que o PT trabalhará ou não para inflar seus candidatos a governador. Nas reuniões do partido, o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), tem dito que o importante, desta vez, é eleger Lula. Todo o resto é secundário.
O comando da campanha sabe que os apoios dos chamados caciques regionais são muito mais importantes nos estados da região Nordeste, onde ainda existe o voto de cabresto, do que no Sul/Sudeste do país. Ele também será importante para definir quem é o adversário mais fácil de bater no segundo turno: Ciro Gomes, do PPS, ou José Serra, do PSDB.
Se Serra pode ser um adversário difícil pelo apoio que terá de setores da sociedade civil organizada, como o empresariado, Ciro também tem as suas armas. E a principal delas é justamente a força dos caciques regionais. Dois estados exemplificam o raciocínio petista: Bahia e Ceará. Se o senador Paulo Souto (PFL) vencer o primeiro turno na Bahia e o senador Lúcio Alcântara (PSDB) ganhar no Ceará, Ciro ganha dois aliados de peso na disputa com Lula. Já se o adversário for Serra, tanto Paulo Souto, afilhado político do ex-senador Antonio Carlos Magalhães, como Lúcio, que segue as orientações do governador Tasso Jereissati, emprestarão o prestígio que conquistaram com a vitória no primeiro turno e seus votos cativos a Lula. Na região Sudeste, há uma exceção. Ali, os cálculos dos petistas se debruçam principalmente sobre o Rio de Janeiro, como pode-se ler na reportagem abaixo.
De olho nos cartazes piratas na cidade
A prefeitura de São Paulo resolveu inovar na fiscalização da propaganda eleitoral. Inaugurou um novo sistema informatizado que poderá substituir o trabalho de 350 fiscais. O equipamento, desenvolvido pela empresa de engenharia Trends, não tem similar no mundo. Trata-se de um furgão equipado com quatro filmadoras digitais, um computador, um odômetro (medidor de quilometragem) digital e um equipamento GPS (aparelho de localização geográfica por satélite). Por meio desta parafernália serão filmados cartazes e outdoors instalados nas ruas da cidade, numa velocidade média de 40 quilômetros por hora.
Ao final do dia, as fitas de vídeo são analisadas pelos técnicos da Trends e comparadas ao registro de propagandas autorizadas pela prefeitura. A partir do cruzamento dos dados, a prefeitura poderá emitir multas para quem usou propaganda irregular. ‘‘A principal vantagem do sistema é que ele vai reduzir as várias etapas do trabalho do fiscal’’, avalia o engenheiro Paulo Cardoso de Campos, coordenador do projeto.
O contrato com a prefeitura prevê que a empresa percorra dez mil quilômetros em seis meses, a um custo de R$ 3,4 milhões. Além do veículo protótipo, outros dois furgões estão sendo adaptados pela Trends. Cada um deles recebe investimentos de aproximadamente R$ 150 mil. Para o secretário municipal de Subprefeituras, Jilmar Tatto, a partir de novembro, com três meses de funcionamento, o resultado do novo sistema será perceptível. Segundo ele, existem no município quatro milhões de peças publicitárias irregulares, sendo que apenas 70 mil estão dentro da lei. No caso da propaganda eleitoral, a fiscalização será agilizada por meio de acordo entre a prefeitura e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
Líderes caem em pesquisa do Ibope
O candidato a governador do Paraná Álvaro Dias (PDT) e Roberto Requião (PMDB) tiveram uma pequena queda na segunda sondagem do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), divulgada ontem à noite pela Rede Paranaense de Televisão, retransmissora da Rede Globo de Televisão em Curitiba, mas continuam bem à frente dos demais concorrentes.
Dias passou de 35% na pesquisa divulgada no dia 7 de agosto para 32% nesta, enquanto Requião caiu de 28% para 27%. Num possível segundo turno, o candidato do PDT ao governo do Paraná teria 43% dos votos e o candidato do PMDB ficaria com apenas 38%.
O candidato Beto Richa (PSDB), que aparecia com 5% no levantamento anterior, cresceu dois pontos percentuais e aparece com 7%. O deputado Padre Roque Zimmerman (PT) passou de 5% para 6%. Rubens Bueno (PPS) teve uma queda, passando de 2% para 1%.
Dos outros oito candidatos que não tinham sido citados na pesquisa anterior, apenas José Gladston Bispo (Prona) aparece agora, com 1% das intenções de voto. O Ibope apurou ainda 20% de indecisos. Foram ouvidos 1.250 eleitores em 69 municípios entre domingo e terça-feira.
Ontem, o Tribunal Regional Eleitoral do estado suspendeu a veiculação da propaganda do PMDB que associava Álvaro Dias ao ex-presidente Fernando Collor de Mello e a Paulo César Farias, ex-tesoureiro de campanha. A liminar foi concedida pelo desembargador Ulysses Lopes. É a primeira decisão do Tribunal Regional Eleitoral nessas eleições que retira propaganda eleitoral do ar.
Heloísa implode aliança PT-PL
A decisão da coordenação da campanha do PT em Alagoas de afastar a senadora Heloísa Helena, ex-líder do PT no Senado, da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e do candidato ao governo de Alagoas, Judson Cabral, ‘‘implodiu’’ a Frente Popular Renova Alagoas, formada por PT, PL, PC do B e PMN.
A decisão da coordenação petista, que também censurou a participação da senadora no horário gratuito, foi referendada pela Executiva Nacional do PT e pela coordenação nacional da campanha de Lula. O PC do B entrou com ação judicial contra o PT, exigindo a presença de Heloísa Helena em seu tempo de horário eleitoral gratuito.
Os dirigentes do PT alagoano não escondem que o afastamento da senadora atrapalhará a candidatura de Lula no estado. Internamente, a visita do candidato ao estado vem sendo dada como cancelada.
‘‘Ela (Heloísa Helena) é única responsável por toda essa confusão interna no PT, que, claro, vai atrapalhar a candidatura do Lula, mas o partido vai tentar juntar todos os cacos dessa briga. Vamos sobreviver sem a Heloísa na campanha do companheiro Lula’’, comentou um dos coordenadores da campanha do PT.
Inconformados com a posição do PT de proibir a utilização da participação de Heloísa Helena no horário da Frente Renova Alagoas, os dirigentes da Executiva Regional do PC do B entraram com uma representação no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) contra a censura.
A representação contra o PT foi protocolada na tarde desta quarta-feira no TRE de Alagoas. O juiz Fábio Ferrário foi designado relator da ação. A decisão deve ser oficializada hoje.
Cai popularidade de FHC
Recuperação de José Serra se deve mais ao desempenho no horário eleitoral do que pela influência do presidente
Pesquisa do Instituto Sensus encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) confirmou a queda na diferença entre os presidenciáveis José Serra, da Grande Aliança (PSDB-PMDB), e Ciro Gomes, da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB). Embora o candidato governista tenha crescido, a avaliação do desempenho de Fernando Henrique Cardoso no comando do país piorou. A consulta, divulgada ontem, foi feita a 2 mil pessoas entre os dias 24 e 26 de agosto em 195 municípios. A margem de erro é de 3 pontos percentuais.
Dentre as pessoas ouvidas pelo Sensus, 49,6% desaprovam o desempenho do presidente na hora de ‘‘controlar o leme do navio’’, como ele mesmo diz. Houve um sensível aumento na reprovação de Fernando Henrique. O índice era de 47% em junho. A aprovação do presidente caiu de 40,2% para 37,3%.
A nota baixa dada pela população ao presidente influiu diretamente em seu poder como cabo eleitoral. O número de pessoas que só votariam no candidato governista caiu de 6,4% para 5,3%. Ao mesmo tempo, o índice daqueles que poderiam seguir o voto do presidente desceu de 34,9% para 33,4%. A consulta mostrou que o número dos eleitores que não votariam no candidato oficial de jeito nenhum subiu de 52,6% para 53,9%.
A pesquisa do Sensus confirmou a queda na diferença entre Serra e Ciro na briga pelo segundo lugar na disputa pelo Planalto. Luiz Inácio Lula da Silva continua absoluto na liderança. O candidato da aliança PT-PL subiu 0,6 ponto percentual em relação ao último levantamento do instituto, realizado entre os dias 11 e 13 de agosto, e está com 34%. Anthony Garotinho, do PSB, continua em quarto lugar. Caiu de 12,1% para 10,4%.
A distância entre Ciro e Serra é de 10,8%. No último levantamento, estava na casa dos 15%. Enquanto o ex-governador do Ceará caiu de 28,6% para 25,5%, o senador tucano cresceu de 13,4% para 14,7%.
A diminuição nas intenções de votos que os separa, se não pode ser atribuída a Fernando Henrique, tem ligação com o horário eleitoral gratuito. ‘‘O eleitor assistiu mais aos programas deste ano do que em eleições passadas. Podemos garantir isso’’, analisa Ricardo Guedes, diretor do instituto. Para ele, a queda na diferença entre Ciro e Serra pode ser justificada pelos programas na televisão e no rádio.
‘‘Os programas de Lula e Serra tiveram melhor avaliação’’, afirma Guedes. Com base em pesquisas qualitativas, nas quais o instituto reúne um número determinado de eleitores para debater, ele destaca dois pontos positivos nas estratégias do petista e do tucano. A idéia de apresentar e divulgar o currículo dos aliados de Lula em um possível governo tem causado boa impressão. Da mesma forma, os ataques a Ciro no programa tucano têm surtido efeito. ‘‘Embora o eleitor não goste das baixarias no ar, elas são levadas em conta’’, analisa Guedes.
O eleitor quer saber
A insegurança está presente em todo o DF. Quais as propostas para conter os assaltos e homicídios que assustam a população?
BENEDITO DOMINGOS (PPB)
Mantendo policiamento preventivo. Criando a Tabela de Serviços Extras Remunerados para aumentar o efetivo diário nos pontos nevrálgicos. Reestruturando e colocando em funcionamento delegacias integradas com Polícia Civil, PM, Ministério Público e, se possível, com juízes plantonistas.
CARLOS ALBERTO TORRES (PPS)
Precisamos implantar o conceito de Defesa Social e Comunitária. Nosso conceito de uma nova prática política, a prática de solidariedade, em oposição a programas como o de ‘‘Segurança sem Tolerância’’. Algumas ações de caráter preventivo precisarão ser tomadas: instituição do policiamento comunitário e valorização dos membros das forças de segurança.
GERALDO MAGELA (PT)
A principal causa do aumento da violência foi a implantação do narcotráfico na cidade nos últimos anos. Quero combater duramente o narcotráfico e todos os crimes relacionados a ele. Vou instituir programas de trabalho, lazer e cultura para a juventude. Quero instituir a polícia comunitária com postos policiais móveis, e aumentar os efetivos das polícias.
GUILHERME TROTTA (PRTB)
Necessitamos de ação rápida, no sentido de criar uma força tarefa entre as polícias civis e militares, dando o devido poder à polícia, colocando-a na rua e, se necessário for, desenvolvendo ações conjuntas com a Polícia Federal. Não gastar os recursos do Plano Nacional de Segurança Pública de forma atabalhoada. Em tese, a ordem é polícia prender bandidos.
JOAQUIM RORIZ (PMDB)
Vamos manter e ampliar o esforço atual. Aprofundaremos a integração entre as polícias Civil, Militar, Corpo de Bombeiros, Detran e Defesa Civil. O reequipamento será acelerado, o que inclui informatização, aquisição de armamentos e viaturas. Prosseguirá a ampliação dos efetivos dos órgãos de segurança, e o policiamento ostensivo será intensificado.
ORLANDO CARIELLO (PSTU)
Combater a violência só com polícia na rua é uma ilusão. O ‘‘Tolerância Zero’’ do atual governo serviu apenas para matar e mutilar trabalhadores, como no caso Novacap, e para estimular os ‘‘baculejos’’ contra a população pobre. Para apontar medidas de emergência, só com uma ampla consulta popular.
RODRIGO ROLLEMBERG (PSB)
Nosso programa de governo para a área prevê mais investimentos em inteligência, tecnologia e planejamento estratégico, permitindo que a polícia se antecipe às ações dos criminosos. Além disso, aumentaremos o efetivo nas ruas, retirando alguns dos 600 policiais hoje lotados no gabinete do governador e substituindo os policiais que fazem trabalho administrativo.
Artigos
Um príncipe embalado pelo povo
O brasileiro quer um líder, alguém com pulso forte, capaz de realizar e que saiba como fazer
Walder de Góes
O presidente Cardoso disse esses dias na televisão que o vigor reformista de seu governo foi empalidecido pelas condições políticas de sua operação. Sua coalizão internalizou no governo os interesses cristalizados nos partidos, cuja lógica regional e de facção se opôs à direção modernizante do Executivo. A liderança política do presidente não terá prevalecido em todos os casos. Supõe ele que seu compromisso reformista poderia ter se beneficiado de melhor comunicação com o povo, dele extraindo energia para limitar a tensão conservadora que o método do consenso não conseguira dominar.
Ademais, segundo o presidente, a oposição foi bem-sucedida na contenção das reformas mediante inquinações de natureza ética. O programa de privatização, por exemplo, terá sido contido pela suspeita de acobertamento de interesses privados. Nos diz o presidente que o ruído daí derivado o impediu de convencer o povo e assim mais se escassearam as condições de consenso na coalizão.
O fenômeno de que nos fala o presidente Cardoso é velho conhecido. Trata-se dos limites do presidencialismo em sistemas multipartidários, em que são requeridas coalizões muito extensas, multipolíticas e multiideológicas, para que se assegure a governabilidade. Essas coalizões garantem representação a interesses muito díspares, mas não dispõem de mecanismos para reduzir interesses díspares a sínteses, empalidecendo-se as propostas para que se abra espaço a consensos. Incentivam-se, nesses ambientes, saídas do tipo voluntarista ou projetos de afirmação de liderança ancorados em mobilização social, ou uma combinação de ambas as coisas.
O candidato Ciro Gomes terá passado por essas reflexões. Seu programa de governo propõe fórmulas para romper a inércia das coalizões, para limitá-las na capacidade de impor interesses cristalizados. Propõe dar voz ativa ao povo em situações de carência da liderança. Essa sugestão como que recobre magistralmente as características da personalidade política de Ciro Gomes, dando-lhe o justo perfil. É o líder resoluto, o centurião, determinado a se conduzir com alguma intransigência, disposto a limitar interesses condominiados mediante cargas de vontade e, no limite, estocadas de mobilização social.
É esse perfil que está se intrometendo na campanha presidencial, uma oferta para além da mera dualidade situação-oposição. A aceitação desse perfil por uma parte expressiva do eleitorado significa que há demanda por uma liderança mais intransigente com o conservantismo das coalizões e com a plasticidade de nossa cultura política. Maria Tereza Monteiro, que trabalha com pesquisa qualitativa, atesta: ‘‘O brasileiro quer um líder, alguém com pulso forte, capaz de realizar e que saiba como fazer’’.
Ciro Gomes propõe um curso de ação política com base no recall e no plebiscito. O recall é um mecanismo pelo qual os governados são chamados, em certas condições, a decidir sobre a continuidade do mandato dos governantes. Por sua natureza, esse sistema instabiliza os mandados e os torna cativos das autoridades institucionais autorizadas a convocar o julgamento antecipado, o presidente da República e o Congresso. O plebiscito limitaria as necessidades de recurso ao recall e compensaria algumas de suas deficiências. Sem que os mandatos estivessem em causa, impasses decisórios na coalizão seriam rompidas por consultas diretas ao povo. O plebiscito já existe na legislação constitucional brasileira e sua convocação é privativa do Congresso Nacional. Elegendo-se, Ciro Gomes poderia tentar mudar a Constituição, mas não precisará fazê-lo para ter a arma do plebiscito na mão. Bastaria fazer um pedido público ao Congresso para que se criassem as devidas significações políticas. Embora no Brasil o plebiscito dependa do Congresso, ele é historicamente mais conhecido como instrumento do chefe do Executivo, pois os parlamentos, por sua composição multipartidária, são lentos em decisões de envergadura. Em termos práticos, o plebiscito significa que os titulares de mandato político transferem aos eleitores decisão que eles não conseguiram alcançar em seu meio. Transfere-se o poder decisório da elite para o povo.
Recalls são raros na história, pois o que mais progrediu na cultura democrática moderna foi o valor da democracia representativa, na qual os mandatos são fixos, só podendo ser interrompidos por julgamento de crime em ambiente institucional específico. Nesse sistema os representantes são autorizados a interpretar todo o tempo os interesses dos representados. A experiência do recall tem se limitado a circunscrições eleitorais de pequeno porte e a julgamento de autoridades locais secundárias. O plebiscito, por sua vez, tem histórico de uso circunscrito a situações muito excepcionais, como o cas o brasileiro mais recente, em 1993, quando o eleitorado foi chamado a escolher entre presidencialismo, parlamentarismo e monarquia. O uso mais freqüente dos plebiscitos se dá em Estados confederados, como a Suíça, em cujos cantões a comunidade escolhe, por exemplo, se reduz ou amplia a quota de poucas centenas de imigrantes. O que Ciro Gomes propõe é algo mais, é o uso do plebiscito como um recurso para romper impasses decisórios na cúpula da liderança política.
É um jogo de alto risco. Para atender aos requisitos de decisão, esses sistemas exigem governos todo o tempo atuantes para mobilizar e manter mobilizada a sociedade em benefício de suas causas. Governos mobilizantes são animais conhecidos. Há casos bem sucedidos, como os clássicos de Ataturk, na Turquia, e Gamal Abdel Nasser, no Egito. Há casos de resultados duvidosos, como Perón, na Argentina, e Velasco Alvarado, no Peru. E casos em que não se sabe ainda, por estarem em curso, como Chávez, na Venezuela. No Brasil, a regra tem sido a de governos não mobilizantes. Os diferenciais de poder das elites brasileiras, em democracia ou ditadura, têm se mostrado suficientes para impedir transferências de decisão da liderança para o povo. Experimentos de governos mobilizantes, como os de Jânio Quadros e de João Goulart, não apenas fracassaram, mas vacinaram as elites contra modelos de liderança que requeiram a politização da população.
É muito improvável, portanto, que se eleito Ciro Gomes impusesse uma liderança desse tipo. Faltar-lhe-iam condições políticas para jogar na contracorrente das elites. Ele e as elites caminhariam para estratégias mutuamente adaptativas e a história das coalizões políticas seguiria seu caminho. A proposta do candidato, entretanto, é muitíssimo interessante pelo que fala de possibilidades entre um termo e outro, entre um governo mobilizante e um governo não mobilizante, entre uma liderança só ancorada em coalizões políticas e uma liderança todo o tempo voltada para mobilizar a sociedade em torno de suas causas. Talvez exista um modelo intermediário, um equilíbrio diferente do que tem sido alcançado. Mas, mesmo que não exista, a proposta de Ciro Gomes dá uma informação interessantíssima, por sugerir como ele, uma vez feito presidente, reagiria sob pressão.
Editorial
MINIRREFORMA
Quem indagar a um empresário qual a maior lacuna política dos últimos oito anos, dificilmente deixará de ouvir menção à reforma tributária. Discutida no Congresso desde o início do Plano Real, a proposta não andou. Parlamentares de variados matizes ideológicos, ministros e o próprio presidente da República consideram arcaica e injusta a estrutura de impostos e contribuições no Brasil. Mas todos têm medo de mudanças.
É impossível fazer algo novo sem prejudicar interesses. Se algumas empresas ou pessoas passarem a pagar menos impostos e contribuições, outras terão que pagar mais. Ou então a carga tributária se reduzirá. Prefeituras, estados e a União terão de se contentar com orçamentos menores. Ninguém está disposto a isso. Nem mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) vê com bons olhos a redução das receitas, que aumentaria o risco de o governo federal deixar de pagar dívidas.
Em meio ao impasse, surge motivo de alento: o governo está na iminência de editar uma medida provisória para acabar com a cumulatividade do Programa de Integração Social (PIS). Deve-se ao Congresso grande parte do mérito da MP, talvez a maior parte. Ali vem se consolidando o consenso sobre o assunto, que tornará a MP mero instrumento para ganhar tempo. Sem divergências, será ratificada depois do fim das campanhas eleitorais, que têm dificultado o quorum em Brasília.
O maior problema de vários tributos brasileiros é o fato de serem cobrados várias vezes. É o caso do PIS, que tem hoje alíquota de 0,65% sobre o faturamento das empresas. O custo de alguns produtos, que passam por diversas empresas em diferentes etapas de produção, acaba por aumentar em mais 3% com o tributo.
O relator do projeto em discussão na Câmara, deputado Armando Monteiro (PMDB-PE), propõe que a alíquota do PIS suba para 1,65%, mas passe a ser não-cumulativa. Assim, cada etapa da produção pagaria apenas a parte que lhe cabe do valor total. Perdem com isso algumas empresas, especialmente as de agronegócios, porque integram uma cadeia produtiva de poucas etapas. A solução é compensá-las com crédito para pagar impostos mais tarde, idéia que tem o aval de
técnicos do governo.
Ao eliminar a cumulatividade do PIS, produtos brasileiros ficarão mais baratos e ganharão mercado no exterior, beneficiando a balança comercial. Mas essa é apenas a vantagem mais fácil de ver. O maior ganho será antes político do que econômico. A partir da reforma de um tributo, o Congresso, o governo — o país, enfim — perceberá que é capaz de conceber nova estrutura tributária para o Brasil. Qualquer que seja o presidente eleito, é bom que o novo mandato comece assim.
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08/29/2002
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