Audiência é marcada por elogios ao BC e à política de combate à inflação



matéria atualizada às 10h08 dia 14/05

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, enfrentou clima dos mais amistosos em audiência realizada, nesta terça-feira (13), na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Desta vez, quase não se ouviram críticas aos juros, sobressaindo, de longe, os elogios à austeridade da política de controle da inflação. Senadores chegaram a dizer que o BC não deve vacilar em promover novos aumentos da taxa de juros para conter as atuais pressões inflacionárias, como já foi feito na mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), formado pela diretoria da instituição.

Depois de observar que é sempre parcimonioso em elogios a autoridades, para não se arrepender mais tarde, o senador Jefferson Péres (PDT-AM) classificou o Banco Central de uma "ilha de racionalidade" no país. Segundo ele, mesmo que rotineiramente alvejado por políticos (inclusive governistas, como salientou), empresários e sindicalistas, por causa dos juros, o BC sempre persistiu na direção correta e agora o país colhe os frutos, com inflação menor e crescimento. Entre os avanços, citou a conquista do grau de investimento pelo país e o sucesso de nova emissão de títulos no mercado externo, com juros bem mais baixos.

- Quando a sociedade percebe que o Banco Central é sério e não se dobra, fica mais fácil conter processos inflacionários - disse.

Em seguida aos elogios, o senador César Borges (PR-BA) ponderou, no entanto, ser necessário um rápido retorno à trajetória de queda dos juros, para salvaguardar o atual ciclo de crescimento. Na última reunião do Copom, a taxa básica (Selic) subiu meio ponto percentual, de 11,25% para 11,75% - primeiro aumento depois de três anos de sucessivas quedas. Meirelles disse que, em médio e longo prazo, a tendência dos juros é declinante. Mas salientou que a grande contribuição do Banco Central para o crescimento é garantir a estabilidade.

Fundo soberano

Durante a reunião, o presidente da CAE, senador Aloizio Mercadante (PT-SP), propôs requerimento para que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, venha ao colegiado falar sobre a criação de um fundo soberano para o país. Antes, Meirelles havia dito que o Banco Central vem colaborando para uma decisão "técnica" sobre o fundo. Porém, não quis se alongar sobre o tema, alegando tratar-se de assunto fora das atribuições do banco.

Mercadante, da mesma forma que o senador Renato Casagrande (PSB-ES), destacou que o controle da inflação não pode ficar exclusivamente centrado na política monetária. Para os dois senadores, deve-se recorrer a outros instrumentos, como a elevação do superávit primário - a economia feita pelo governo para ampliar a capacidade de gestão da dívida pública.

Durante o debate, ainda, o senador Antonio Carlos Júnior (DEM-BA) afirmou que o BC agiu de forma prudente ao elevar os juros na última reunião do Copom. Também para ele, o governo deve mesmo praticar uma política fiscal mais rígida. Dessa forma, como avaliou, as taxas de juros poderão cair mais rapidamente. 

O presidente do Banco Central admitiu que a discussão sobre o superávit é "virtuosa" e que, de fato, esse é um instrumento muito importante para a estabilização da economia. Porém, evitou mais comentários, sob a justificativa de ser uma norma da instituição não se pronunciar sobre questões sob a responsabilidade de outras áreas de governo.

O senador Francisco Dornelles (PP-RJ) citou o economista e ex-ministro da Fazenda Ernani Galvêas para questionar Meirelles sobre a efetividade da taxa Selic como instrumento de contenção da demanda agregada. Em resposta, Meirelles disse que a experiência internacional demonstra essa correlação, bem como o insucesso de outras soluções, como o manejo direto das taxas de juros de médio e longo prazo.

O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), junto aos elogios à política monetária, manifestou temores com relação ao câmbio - para ele, o "calcanhar de Aquiles" da economia atualmente. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) centrou suas críticas nos gastos do governo e chegou a sugerir que a equipe do ministro da Fazenda, Guido Mantega, seja deslocada para o Banco Central "para aprender a trabalhar com austeridade".

O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) registrou que a linha de política monetária atual, cujo sucesso está sendo comemorado pela base governista, vem sendo aplicada desde o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele considerou que o BC agiu corretamente ao elevar a taxa Selic, na última reunião, já que os índices de preços por atacado estão superando a casa dos dois dígitos.

13/05/2008

Agência Senado


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