Blecaute gaúcho atinge 302 cidades
Blecaute gaúcho atinge 302 cidades
BRASÍLIA - A falha em um equipamento da subestação da CEEE/Eletrosul, em Gravataí, na Grande Porto Alegre, deixou sem energia 302 municípios gaúchos, 70% do total. Foi o segundo apagão em pouco mais de uma semana e só não afetou outros Estados porque o sistema de isolamento funcionou bem.
A falha de um equipamento na subestação de Gravataí foi a causa do blecaute, que começou às 9h33 e se prolongou por 94 minutos. Houve um curto-circuito, que queimou parte da unidade da CEEE/Eletrosul. Técnicos da Agência Nacional de energia Elétrica (Aneel) viajaram a Porto Alegre para investigar as circunstâncias do acidente. À tarde, o relatório estava concluído. A Aneel abriu processo para apurar as responsabilidades das duas estatais. A punição vai de advertência a multa de até 2% da receita. No caso da CEEE, pode chegar a R$ 2,4 milhões.
A direção da CEEE defendeu ontem uma mudança na remuneração financeira das empresas, para evitar situações semelhantes. Segundo o assessor da empresa, Carlos Marcelo Cecin, a falta de investimentos nas estatais que operam as linhas de transmissão deixa o país à mercê de novos apagões. A mudança proposta teria de ser autorizado pela Aneel.
''Não perdemos o controle da situação'', garantiu Cecin. ''E isso também não é uma crítica ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mas um lamento em relação ao modo como o governo federal vem conduzindo a reformulação do sistema elétrico''.
Na semana passada, quando ocorreu um blecaute em dez Estados e no Distrito Federal, a Aneel abriu processo para apurar as responsabilidades do ONS. Ontem, técnicos do Operador asseguraram que caberia à agência reguladora divulgar os procedimentos relativos ao apagão gaúcho. Em meio a esta queda-de-braço, Cecin assegura que há necessidade de investir cerca de R$ 200 milhões na manutenção e recuperação dos 5.000 km de linhas de transmissão no Rio Grande do Sul.
Investimentos - O país tem 72 mil km de linhas, por onde passa toda a carga de eletricidade. Ao contrário dos serviços de geração e de distribuição de luz elétrica - que podem reajustar as tarifas anualmente -, as empresas de transmissão recebem uma remuneração estabelecida pela agência reguladora para permitir a passagem da energia.
Cecin disse que este problema vem ocorrendo há 12 anos e só agora está sendo visto em toda a sua dimensão. Segundo ele, a reformulação do modelo elétrico brasileiro requer medidas que resolvam o problema da remuneração das empresas. ''Enquanto isso não for solucionado, o risco de novos apagões permanecerá'', acusou.
Tucanos se esforçam para levantar Serra
BRASÍLIA - José Serra passa hoje pelo primeiro teste junto à militância do PSDB. Depois de entregar ambulâncias e inaugurar um hospital em Sinop, no Mato Grosso, o ministro da Saúde será recebido por 3 mil filiados do partido. Prefeitos e líderes nacionais do PSDB estarão na festa, organizada pelo governador Dante de Oliveira para incrementar a mobilização dos tucanos. O PSDB planeja uma pré-convenção lotada para 24 de fevereiro. Os líderes acreditam que, com demonstrações desse tipo, aumentam as chances de consolidar a aliança com o PMDB.
O comitê do candidato, em Brasília, estará funcionando no dia 25, quando já terá deixado o ministério e reassumido o mandato de senador. O partido acertou uma permuta de propaganda eleitoral com o PMDB e garantiu para o ministro horários de inserções nos dias 5, 7 e 9 de março. O PSDB manteve em 6 de março a veiculação do programa de 20 minutos, no qual Serra será apresentado, pela primeira vez, como candidato à sucessão de FH. ''Por enquanto, estamos trabalhando o PSDB. Só a partir desses programas é que a candidatura José Serra entra em ritmo de campanha'', prevê o presidente do partido, deputado José Aníbal (SP).
O publicitário Nelson Biondi comanda a elaboração da propaganda, que deve explorar o perfil ''realizador'' do candidato. O PSDB espera que o horário de TV faça decolar a candidatura de Serra. Toma como exemplo o desempenho dos presidenciáveis Roseana Sarney, do PFL, e Anthony Garotinho, do PSB. Atribuem a conquista da segunda e da terceira colocação na corrida presidencial conquistada pelos adversários aos programas eleitorais.
A trajetória sombria de Sérgio Chefe
Um mês antes de ser morto, Celso Daniel desarticulou esquema suspeito de corrupção na prefeitura de Santo André
SÃO PAULO E SANTO ANDRÉ - Depois de participar da campanha que leva Celso Daniel pela primeira vez à prefeitura de Santo André, em 1988, Sérgio Gomes da Silva, o Sérgio Chefe é nomeado presidente da Defesa Civil do município. Organiza também a equipe de segurança pessoal do prefeito, com praticantes de artes marciais e ex-policiais. Eles devotam fidelidade quase canina ao mentor.
Na campanha seguinte de Celso, para deputado federal, em 1994 Sérgio ocupa posto estratégico. É o tesoureiro, uma tarefa vital em campanhas do PT, quase sempre carentes de recursos. Aproxima-se ainda mais de Celso. Da época vem também o estreitamento de suas relações com empresários da construção civil e de transporte em Santo André.
Em 1996, Celso se elege pela segunda vez prefeito. Recebe 52% dos votos e ganha no primeiro turno. De novo, Sérgio é figura-chave, sempre como tesoureiro. É aceito dinheiro de empreiteiras e de empresários de transporte que mantinham negócios com a prefeitura. Não faltam recursos.
Empossado o prefeito, para surpresa de muitos Sérgio Chefe prefere ficar fora da administração. Começa a trabalhar com Ronan Maria Pinto, dono de linhas de ônibus e empresário com negócios na prefeitura. Os dois se associam em outras empresas, fora de Santo André. Mas Sérgio faz de um íntimo aliado, Klinger de Oliveira Sousa, um super-secretário, responsável pelos setores de Obras e Transportes.
Mesmo sem cargo formal, o Chefe mantém forte influência na administração, admitem petistas que lá trabalham até hoje. Seu poder é tanto que incomoda militantes, e os leva a se desligar da administração.
A essa altura já crescem na cidade rumores sobre supostas ligações incestuosas de Sérgio Chefe com empresários envolvidos em negócios com a prefeitura, por meio da secretaria de Klinger.
As notícias chegam aos ouvidos da cúpula petista. O dirigente nacional Gilberto Carvalho, homem de confiança de Luiz Inácio Lula da Silva e José Dirceu, é designado para trabalhar na administração municipal. Gilberto é nomeado secretário de Comunicação. Um quadro experiente, afeito ao diálogo e de estilo conciliador, poderia, para Lula e Dirceu, repor o trem nos trilhos sem grandes traumas.
Os rumores, contudo, não arrefecem. Em 2000 o Ministério Pública começa a investigá-los. Envolvem as áreas de influência de Sérgio Chefe. A apuração não foi ainda concluída, mas se sabe por exemplo que, entre 97 e 98, Sérgio Chefe recebe R$ 270 mil do empresário Ronan Pinto como remuneração por consultoria nas áreas de transporte e limpeza urbana. Ronan ganhara um contrato no valor de R$ 13 milhões em licitação promovida pela secretaria de Klinger.
Ao vir à tona, a informação sobre a remuneração do Chefe causa espanto a alguns. Afinal, ninguém conhecia seus atributos profissionais nas áreas de transporte urbano e coleta de lixo. Outros, porém, vêem a confirmação de que o Chefe faz mesmo tráfico de influência.
Em 2000, Celso Daniel é reeleito com 72% dos votos. É o reconhecimento popular da gestão que mudara a imagem da cidade. Celso era competente especialista nas questões urbanas e Santo André se transformara em sua administração - isso até os adversários admitem. De novo, a tesouraria fica a cargo de Sérgio e não faltaram recursos.
Klinger, o homem de Sérgio Chefe na administração, se elege vereador com uma campanha que, de tão rica, provocou ressentimentos em outros candidatos petistas. Sem tradição política na cidade, é o mais votado para a Câmara Municipal de Santo André. apesar disso, permanece secretário. O grupo de Sérgio apóia, ainda, outro candidato: Raulino Lima, um ex-metalúrgico, ex-integrante da comissão de fábrica da Volkswagem em São Bernardo, também eleito.
Celso não chega a romper com o esquema de Sérgio chefe, como queria a direção nacional, mas dá os primeiros passos ao fortalecer seus adversários no secretariado. Dá a Gilberto Carvalho uma secretaria mais importante, a de Governo, e amplia os poderes da ex-mulher, Miriam Belchior, secretária de Administração. Miriam, odiada por Sérgio, que sempre a hostilizava, passa a ser uma super-secretária, acumulando a pasta de Inclusão Social. Ganha autoridade sobre projetos de outras áreas.
Ela, na linha de frente, com estilo mais combativa, e Gilberto, mais diplomático, representam no primeiro escalão o contraponto a Klinger e ao grupo de Sérgio Chefe.
Em meados de 2001, Celso Daniel é convidado a participar da coordenação da campanha de Lula e dirigir o grupo encarregado de montar o programa de governo. O convite incluía uma exigência: antes de se licenciar da prefeitura para se dedicar à campanha presidencial, deveria desarticular o esquema de Sérgio Chefe na administração.
Pela primeira vez, então, Celso Daniel deixa de se equilibrar entre os dois extremos e começa a se afastar de Sérgio.
Os golpes no esquema de Sérgio Chefe continuam. Seu homem-chave na prefeitura, Klinger, era preparado para suceder Celso. O caminho passava pelas eleições deste ano. Garantida a fartura de recursos na campanha, Klinger se elegeria deputado estadual. Raulino Lima, o outro vereador do grupo de Sérgio, concorreria a deputado federal. Dificilmente se elegeria, mas dividiria os votos petistas da cidade, impedindo a reeleição do único deputado federal do partido com base em Santo André, o Professor Luizinho.
Se tudo desse certo, Klinger seria eleito com grande votação e Luizinho não renovaria o mandato. Assim, em 2004, o preposto do Chefe apareceria como o nome natural no PT para disputar a prefeitura.
Em dezembro do ano passado, porém, o prefeito comunica que não aceitaria entre os secretários candidatos a deputado. É uma tática para bloquear os planos de Sérgio e Klinger.
Pelo prestígio de Celso no PT de Santo André, tal posição tornava inviável a candidatura do secretário e jogava por terra a operação 2004, tal como imaginada pelo grupo de Sérgio. O próprio Klinger não disfarça a contrariedade em declarações a jornais locais.
A relação entre Celso e Sérgio Chefe se azeda. Morto Celso, os mistérios se multiplicam. Muitos deles já têm foram temas de reportagens. Outros surgem a cada momento.
Ao ser encontrado assassinado, Celso trajava roupa diferente da que vestia ao ser seqüestrado, e com a qual foi filmado, em companhia de Sérgio Chefe, no restaurante Rubayat. A namorada Ivone de Santana reconhece a calça do cadáver como sendo de Celso. Ou seja: alguém ligado aos assassinos tinha consigo a calça, ou foi buscá-la no apartamento de Celso depois do seqüestro. Nos dois casos, teria que ser íntimo do prefeito executado.
No dia do velório, Sérgio estava internado numa clínica, sedado. Klinger não esperou o enterro para anunciar a mudança de planos. Em declaração publicada no dia seguinte (22/1/2001) no Diário do Grande ABC , diante de uma pergunta sobre a candidatura, responde: ''Estou emocionado e preciso refletir melhor. Mas é óbvio que essa decisão (de não mais se candidatar a deputado estadual) estava em um contexto pessoal do Celso que não existe mais. Tudo isso precisa ser analisado.''
Sem pressa contra o crime
BRASÍLIA - Mais de oito mil brasileiros correm o risco de ser assassinados antes de o Congresso Nacional definir quais são os projetos mais importantes na área de segurança pública. Os líderes partidários fizeram breve pausa no recesso parlamentar. Reuniram-se e divulgaram uma única decisão: formar uma comissão para analisar as medidas. Mas só a partir de 15 de fevereiro. Dois meses depois, deputados e senadores apresentarão propostas emergenciais para conter a criminalidade.
Essa foi a reação parlamentar ao debate que tomou conta do País depois da execução do prefeito de Santo André, Celso Daniel. As estatísticas do Ministério da Justiça assustam. No primeiro semestre de 2001, 3.315 brasileiros foram assassinados por mês. Mesmo assim, o Congresso não votará nenhum projeto nos próximos 75 dias. ''Jamais houve determinação tão grande para o combate à violência'', disse o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG).
A agenda da segurança no Congresso concorrerá com a campanha eleitoral e a Copa do Mundo. O líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), mostrou-se bem mais interessado em acompanhar a candidata do PFL à Presidência, Roseana Sarney, governadora do Maranhão. ''Por favor, me deixem, quero articular a candidatura da futura presidente do Brasil!'', disse, desvencilhando-se de jornalistas.
Congresso - Na volta ao trabalho, o Congresso fará uma sessão solene para instalar a comissão de 19 senadores e 19 deputados. Terão 2 meses para selecionar projetos entre os mais de cem que tramitam hoje na Casa. A reunião do Parlamento não foi a única do dia. De manhã, o presidente Fernando Henrique Cardoso convocou o senador Ramez Tebet (PMDB-MS), presidente do Congresso, ao Palácio da Alvorada. Horas depois, o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, entregou a Aécio uma lista de 20 medidas.
O esforço não convenceu o líder do PT na Câmara, deputado Walter Pinheiro (BA): ''A cada tragédia, o colégio de líderes se reúne''. Antes de pensar em segurança, o Congresso precisa votar quatro medidas provisórias que emperram a pauta de votações: a criação da Comissão de Valores Mobiliários, o contrato temporário para substituir servidores em greve, a negociação da dívida agrícola e o seguro-safra para agricultores familiares.
Parlamentares minimizaram o poder do Legislativo. ''Sobram leis para colocar bandido na cadeia'', analisou o senador Romeu Tuma (PFL-SP), ex-superintendente da Polícia Federal. ''Tem é que abrir o pacote (antiviolência) e cumprir o que está escrito.''
Unificar as polícias, restringir a venda e o porte de armas e mudar o código penal são propostas debatidas há anos. Passarão, mais uma vez, por intensas discussões. ''Não estamos aqui para fazer pirotecnia política'', justificou Aécio.
MEC condena cotas para negros
BRASÍLIA - O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, conseguiu o que queria. Assumidamente contrário à criação de cotas para negros nas universidades, ele viajou há duas semanas em busca de US$ 5 milhões que financiariam cursinhos pré-vestibulares para a população negra. A viagem aos Estados Unidos foi considerada uma mudança: Paulo Renato teria cedido às pressões do governo, empenhado em implantar cotas no funcionalismo e no ensino superior. Nada disso. Dinheiro garantido, recém-chegado, o ministro mostrou que não mudou de idéia: vai, sim, financiar jovens e adultos para ingressar na faculdade, mas brancos, negros ou índios. ''Não é restrito'', disse Paulo Renato.
O ministro continua a tentar evitar cotas para negros no ensino superior. Os US$ 5 milhões vão financiar o projeto de cursinhos para jovens carentes, o Diversidade na Universidade, mas nada de discriminação. ''O caso da entrada de negros no ensino superior não será resolvido com cotas'', argumenta. O dinheiro é do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que exigiu uma contrapartida de US$ 4 milhões do Tesouro Nacional. O acordo está sendo redigido esta semana nos EUA por técnicos do MEC e do BID. Em março, será assinado no Ceará, na reunião anual do Banco, e entra em vigor imediatamente, mesmo sem a liberação dos recursos.
O ministro encontrou no Diversidade na Universidade uma boa forma de driblar o sistema de cotas, do qual nunca foi fã. ''São 500 anos de maus-tratos. A questão agora é compensá-los para que tenham chance de passar no vestibular.'' Os Estados escolhidos para deslanchar o programa são Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul, Maranhão e Mato Grosso do Sul, que têm um expressivo percentual de estudantes de baixa renda. O objetivo é, por três anos, apoiar pré-vestibulares dirigidos a comunidades carentes.
Gasolina fica mais barata no interior
Para impedir concorrência de combustíveis importados, Petrobras reduz preços em áreas afastadas dos centros de produção
BRASÍLIA - A Petrobras partiu para o ataque e não esperou pela concorrência dos novos importadores de derivados de petróleo, autorizados a operar desde o início do ano. Para preservar sua fatia de mercado no varejo, a estatal está vendendo, em pontos distantes do país, gasolina e diesel mais baratos do que nos centros de produção do país. Com isso, um litro da gasolina adquirida em Araucária, no Estado do Paraná, chega a sair 1,16% mais em conta se comparado com o mesmo produto na Refinaria de Duque de Caxias (Reduc), no Estado do Rio, responsável por 80% da produção nacional de petróleo.
O diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Luiz Augusto Horta Nogueira, afirma que esta situação é uma conseqüência da abertura do mercado. Como agora grupos privados nacionais e estrangeiros podem trazer derivados para o Brasil, a Petrobras adotou esta estratégia comercial para desestimular a importação dos combustíveis da Venezuela e Argentina, na América do Sul, e da Europa e do Caribe.
Liminares - Mesmo assim, a agência reguladora deste mercado já analisa pedidos de importação de gasolina e óleo diesel. Horta vê na abertura deste filão espaços para a entrada de agentes privados. Ele fez ressalvas à guerra de liminares iniciada na semana passada como forma de tornar artificial o preço de derivados para os consumidores. Isso deve ocorrer especialmente no Nordeste, onde distribuidoras conseguiram autorizações da Justiça para não pagar PIS e Cofins.
O diretor do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Derivados e Lubrificantes (Sindicom), Alísio Vaz, concorda que a Petrobras colocou os preços dos produtos em determinados centros de venda bem competitivos. Isso pode ser verificado também no Nordeste. Nas cidades de São Luís (MA), Salvador (BA) e Recife (PE), o litro da gasolina é mais caro apenas R$ 0,01 se comparar com o valor do produto na Reduc. Se for considerado o custo do transporte do produto até São Luís, por exemplo, pode-se concluir que a estatal está fazendo isso para impedir a entrada de derivados importados, já que seus preços acabam sendo mais atraentes.
Qualidade - O secretário de Energia do Estado do Rio, Wagner Victer, defende que a questão da importação seja analisada sobre dois enfoques. O primeiro deles é a qualidade do produto que entrará no território nacional. Victer diz ter feito alerta ao ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, e à própria ANP. Na avaliação do secretário, um produto de origem duvidosa poderia colocar em risco à saúde da população e o meio ambiente.
Outro ponto polêmico, segundo o secretário, são as novas refinarias que poderiam ser construídas no país. Victer acredita que a facilidade de importar o produto inibirá projetos de construção de unidades de refino do petróleo. O diretor da ANP, Luiz Horta Nogueira, informou que a agência reguladora está atenta para a expansão do parque de refino nacional. Ele não vê conflito entre a entrada de derivados e a construção de refinarias.
Auto-suficiência - O Brasil é auto-suficiente na produção de gasolina. Ou seja, tem combustível para atender à demanda nacional. Para se ter uma idéia, em novembro do ano passado, de acordo com balanço mais recente da ANP, foram produzidos 1,577 bilhão de litros da gasolina A. Com a adição de 22% do álcool anidro, o país contou naquele mês com 1,92 bilhão de litros do combustível. Como o consumo, naquele mês, foi de 1,67 bilhão de litros, houve uma sobra de 253 mil litros do derivado. Mas no caso do diesel, o país depende da importação. Horta explicou que no ano passado entraram em média 100 mil barris equivalentes de diesel por dia. Ou seja, o mercado interno tem que contar com 20% do produto vindo de outros países.
Artigos
Criminalidade: mentiras e verdades
Cesar Maia
Está fazendo grande sucesso nos Estados Unidos o livro Bias, do jornalista Bernard Golberg. O autor mostra as distorções produzidas nas versões dos fatos, que sempre buscam mostrá-los e explicar-lhes as causas segundo a ótica do que se convencionou chamar de ''politicamente correto''. Talvez seja essa uma boa razão para se entender o como e o porquê dos números da criminalidade no Rio de Janeiro serem apresentados entre dois pontos separados por quase uma década, sem que sejam percorridos os anos em que esses índices mudaram de patamar.
Destaquemos dois indicadores: homicídios dolosos e extorsão mediante seqüestro, embora ambos sejam insuficientes para explicar a dinâmica da violência. O primeiro, porque oculta as mortes violentas, verdadeiro indicador do ambiente que nutre a criminalidade. Os números de mortes violentas são entre 50% e 100% maiores do que os de homicídios dolosos, tomando uma série de médias móveis trimestrais. O segundo, porque oculta os seqüestros-relâmpago que surgiram em todos os lugares do mundo quando a taxa de risco dos seqüestros com cativeiro cresceu enormemente devido às inovações na segurança familiar adotadas pelos empresários e também pela concentração de combate da polícia, atendendo ao clamor público. Em 1994, uma equipe que enviei à Colômbia para estudar a dinâmica do seqüestro naquele país já fazia essa previsão para o Rio. Por essas mesmas razões, os números dos seqüestros com cativeiro em São Paulo vão despencar nos próximos meses.
De qualquer forma, as externalidades mais graves traduzidas em homicídios dolosos e seqüestros com cativeiro mudaram de patamar no Rio. Só que isso aconteceu exatamente quando a repressão ao crime foi maior e mais violenta, ou seja, durante a gestão do general Newton Cerqueira na Secretaria de Segurança Pública. Como efeito sem causa é milagre - e nesse campo os milagres não existem - e dado que as tão importantes medidas de prevenção primária e secundária só produzem resultados a longo prazo, é evidente que houve uma relação nítida de causa e efeito com a ostensiva intensificação da repressão durante o período de 1995 a 1998.
Poder-se-ia questionar a sustentabilidade de uma política desse tipo, mas é possível demonstrar que a lógica do crime permaneceu a mesma e que as gangues de delinqüentes-traficantes não foram afetadas em sua estrutura básica, além do fato de que a sensação de insegurança no Rio só faz aumentar. Por outro lado, é inquestionável que o afrouxamento da ação repressiva tornou os delinqüentes mais ousados e que mais um vetor organizado do tráfico de drogas no varejo se expandiu, como mostra reportagem do JB do último dia 27 de janeiro. As imagens do tráfico aberto de drogas, mostradas poucas semanas atrás pela TV, configuram mais um, entre outros, exemplo disso. Mas é inquestionável que a mudança de patamar de homicídios e seqüestros, ocorrida de 1995 a 1998, se deveu à forte repressão imposta. Os dados oficiais de criminalidade relativos a 2001, e já divulgados, o demonstram muito bem.
As estatísticas oficiais de homicídios dolosos apontam que a década de 90 começou no patamar de 7.500 homi cídios ao ano. Em 1995, esse patamar tinha avançado para 8.500 homicídios. Na segunda metade daquele ano, o general Cerqueira assumiu a Secretaria de Segurança Pública e introduziu uma dura política repressiva, que incluía até estímulos pecuniários. A partir daí, os homicídios dolosos despencaram, ano a ano: 7.200 em 1996, 6.900 em 1997 e 5.700 em 1998, ou melhor, 5.741 para ser mais correto. Os números oficiais são imprecisos porque parte deles é deduzida.
De qualquer forma, mantido o mesmo método, os números são comparáveis entre si. Pois bem, a partir da mudança de intensidade da repressão em 1999, já com o novo governo, interrompe-se essa tendência e o patamar se mantém e até aumenta para quase 6.000 homicídios. O mesmo ocorre em relação à extorsão mediante seqüestro com cativeiro. Em 1995, os dados oficiais acusavam 108 seqüestros. A partir da mudança de foco e da intensificação repressiva, que pode ser medida com as mortes de seqüestradores durante e na culminação da investigação, os números despencaram, caindo para 77 em 1996, 58 em 1997 e 18 em 1998. Em 2001, os dados oficiais acusavam 10 seqüestros no Rio, portanto na mesma faixa do que foi recebido em 1999.
Não tenho a intenção de defender o repressivismo puro e simples como política de segurança pública. Aliás, as críticas eu as fiz a tempo e a hora. Mas que é inquestionável o impacto sobre a delinqüência de uma ação policial enérgica e direta, creio que ninguém duvida. Então, por que se omitem esses fatos na discussão local e nacional sobre segurança pública? São páginas e mais páginas de jornal e horas de rádio e TV nas quais os ''especialistas'' e os políticos desenham medidas e leis, quase todas apontando para um prazo tão longo que mais 40 mil brasileiros poderão ser mortos a cada ano. Todas interessantes e convergentes: unificação das polícias, ação com lastro tecnológico, depuração policial. Mas como fica a população nesse intervalo? Será que sem a intensificação da repressão as medidas produzirão resultados?
Afinal, o que Rio e São Paulo tiveram, e têm, em comum no período de potenciação da criminalidade? Elementar, meu caro Watson: o afrouxamento da repressão e a passividade incorporada nas orientações percebidas pelas forças policiais. Aliás, o Rio Grande do Sul vem em marcha batida pelo mesmo caminho. Entendo que é difícil contrariar a elegância, o bom olfato acadêmico e a satisfação que dá discutir apenas as questões gratas ao discurso politicamente correto. Mas é sempre bom lembrar que efeito sem causa é milagre e que os santos e os deuses não costumam se envolver nessas coisas.
Colunistas
COISAS DA POLÍTICA – Dora Kramer
Conclusões superlativas
É o que dá o exagero. No caso, o de se confundir pesquisa com voto e disputa por espaço político entre partidos com campanha eleitoral antes que o eleitor esteja verdadeiramente engajado no assunto: estamos agora na tola situação de produzir um fenômeno por mês, dando caráter superlativo a qualquer movimento dos pré-candidatos e até daqueles que nem até 6 de outubro chegarão na disputa.
O fenômeno - cujo surgimento daqui a pouco vamos medir como horário de trem europeu, aos minutos e segundos - de agora é o governador do Rio, Anthony Garotinho. O anterior foi Roseana Sarney e, antes dela, tivemos Ciro Gomes, Itamar Franco, outro soluço de Garotinho (no início do ano passado), sem falar em Luiz Inácio Lula da Silva que, desde o início do frenesi de pesquisas - lá se vão quase dois anos - já era tido e havido como o próximo presidente da República.
Subterraneamente, com o candidato do PSDB, José Serra, também cometem-se alguns exageros, quando começa a surgir implicitamente a certeza da vitória dele, sem que nem bem tenha começado a campanha.
A divulgação da pesquisa CNT/Sensus ontem, produziu algumas dessas superlatividades fúteis. Seja na interpretação dos números, seja nos comentários políticos a respeito do que significam. Com todo o respeito, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Artur Virgílio Neto, sair dizendo que Lula está em ''franca queda'' quando o que se registrou foi a redução de um único e exato ponto percentual (de 27,1% para 26,1%) da última pesquisa, em novembro, para esta agora em janeiro, francamente beira o delírio.
Roseana também começa a despertar dúvidas porque, afinal de contas, ''caiu'' de 23,7% para 22,7%. Ora, desde quando isso representa queda e desde quando as fragilidades da candidatura do PFL estão ligadas a uma lista de nomes que se apresentem a eleitores entediados e desinteressados?
Por esse raciocínio, o movimento de Serra de 5,5% para 7%, surpreende que não tenha sido qualificado como ''disparada'' pelos tucanos. No tocante a Ciro Gomes, também permanece na mesma, com seus 7,4% contra os 8,8% da pesquisa anterior. Interpreta-se que sua candidatura, por isso, já pode ser considerada inviável apenas porque, lá atrás, quando numa dessas pesquisas Ciro chegou em segundo lugar, foi colocado no pódio do segundo turno junto com Lula.
Mais centrado em seu raciocínio mostra-se o fenômeno da vez, o governador Anthony Garotinho. No lugar de se dar a ilações mirabolantes, simplesmente atribuiu seus ganhos - de 7,9% para 15% - numéricos, aos efeitos da propaganda na TV.
Diferente é o caso de Itamar Franco. Em novembro tinha 9,1% e, em janeiro, as intenções de voto nele ficaram em 3%. E por que o caso do governador de Minas precisa ser analisado de forma diversa? Pelo simples fato de que ele não tem saída política. Todos os outros estão com seus respectivos partidos acertados e são, bem ou mal, locatários das legendas à disputa presidencial.
Itamar não tem o PMDB, nem possibilidades de vir a ter. A cada hora diz que vai fazer uma coisa e culmina informando que apoiará o PT de Lula. Bem, não é preciso saber somar mais que dois e dois para ver que o resultado, no caso de sua candidatura à presidência, dá cinco.
Aliás, é esquisito porque leva-se em consideração a sua pré-candidatura nas pesquisas e, não, as de Pedro Simon e Raul Jungmann, tão verdadeiras quanto a dele.
Mais distorcido que o conteúdo dos fenômenos em si, é a nossa fenomenal capacidade de produzi-los sem o menor senso crítico da realidade. Qual seja, a de que não existirá ano eleitoral antes de abril, quando, então, os políticos - também por causa do prazo de desincompatibilização - começam a se movimentar com gestos minimamente consistentes.
Tudo o que agora parece verossímil, daqui a dois ou três meses pode assumir uma feição inteiramente diferente. Ou, até outro dia, não havia parte do PSDB querendo simplesmente expulsar o PMDB do governo, em tratativas palacianas com a presença do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, hoje um adversário tucano? E quem se lembra da época em que o PMDB, agora um soldado da candidatura José Serra, queria porque queria Anthony Garotinho em suas fileiras? As conversas chegaram até a acontecer.
E, como muita coisa daqui até o início da campanha para valer, resultaram em rigorosamente coisa alguma.
Na mesma data
Compreende-se que o PT adie suas prévias por causa do trauma do assassinato do prefeito Celso Daniel. Só é difícil aceitar a argumentação de que o adiamento do dia 3 para 17 de março guarde também relação com a realização do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, que começa sexta-feira e termina um mês antes da data marcada para as prévias.
Considerando o empenho do comando do partido nessas prévias, lícito suspeitar de que acabem se realizando com as prévias do PMDB e as primárias do PFL. Jamais.
Editorial
CONTATOS NECESSÁRIOS
Durante 31 anos os poderosos deste mundo, políticos, empresários e intelectuais, vêm se reunindo n a cidade suíça de Davos para discutir problemas do planeta. O Foro Econômico Mundial tornou-se referência e não foi muito contestado enquanto havia bipolaridade de poder. Dois sistemas. De um lado, o capitalismo. Do outro, os modelos soviético e chinês de socialismo real.
Com o desmoronamento da URSS e a transformação da China num regime politicamente comunista mas capitalista liberal em matéria de negócios, o mundo ficou unipolar. Meca de empresários, vista como eldorado de consumidores e força de trabalho dócil e barata, a China nada preservou de sua herança maoísta. O mundo ficou unipolar.
Os setores da esquerda ficaram perdidos até que organizações não governamentais, sindicatos e partidos políticos de esquerda resolveram criar foro paralelo - o Foro Social Mundial, de Porto Alegre, que em seu segundo ano consecutivo consegue atrair tanta atenção quanto o foro de Davos, que, por sua vez, será realizado este ano em Nova York.
O foro econômico e o seu miolo, os países do G-7 mais a Rússia, caracterizam-se pela ira que atraem de grupos variados de protesto, desde ambientalistas, críticos das instituições financeiras, como o FMI e o Banco Mundial, até punks e hooligans, que aproveitam qualquer ocasião para uma boa briga.
Vistos grosseiramente, os foros seriam a disputa dos partidários da globalização, representados no foro de Davos, contra os críticos, presentes em Porto Alegre. Há de tudo nesse foro gaúcho, desde figuras respeitáveis da política, como o ex-primeiro-ministro de Portugal, Mário Soares, e o ministro da cooperação francesa, Charles Josselin, até figuras controvertidas e folclóricas como José Bové, inimigo dos McDonalds e das plantações de transgênicos.
Exageros à parte, é bom que haja dois foros. Nélson Rodrigues dizia que ''toda a unanimidade é burra''. Durante algum tempo, após a queda do Muro de Berlim, falou-se em pensamento único, consenso de Washington e houve até quem decretasse o fim da História. Todas as previsões revelaram-se apressadas. Enquanto o ser humano for capaz de pensar, novas idéias surgirão e algumas frutificarão enquanto outras fenecerão por falta de contato com a realidade.
De um lado e do outro, há os que clamam por mudanças de atitude e pensamento. Figuras importantes da finança mundial têm observado que o contexto em que o sistema de Bretton Woods foi criado já está ultrapassado. O próprio presidente Fernando Henrique andou flertando com a idéia e queixou-se várias vezes de ''assimetria'' na globalização.
Organismos como o FMI receitam a mesma terapia para países com características políticas e problemas sociais e econômicos diferentes. Num hospital, essa abordagem seria uma catástrofe. Basta olhar para a Argentina para pôr em dúvida a eficiência dessas receitas.
Do outro lado, em Porto Alegre, os que criticam a globalização ainda não foram capazes de propor saídas viáveis, conforme critica o filósofo americano Michael Hardt, um dos autores do livro Império e que participa do foro gaúcho. A esquerda ainda está de ressaca, não consegue alinhar propostas para uma nova leitura do mundo que não passe, necessariamente, pelo modelo neoliberal da economia e a predominância absoluta das leis do mercado. Por seu lado, ainda está presa ao dogmatismo marxista. Não consegue se livrar da camisa-de-força e não encontra pauta mínima comum para entender-se e propor mudanças.
Uma das soluções seria promover a discussão, o encontro, entre os dois foros, comparar pontos de vista, propostas e perspectivas. O que a existência dos dois foros demonstra é que a História continua e o diálogo e a democracia ainda são a melhor forma de melhorar a vida dos homens sobre a Terra.
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01/30/2002
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