Brasil investiga perigos do mercúrio
Brasil investiga perigos do mercúrio
A população ribeirinha da região Norte está em perigo. Nos último cinco anos, a quantidade de mercúrio, metal pesado altamente tóxico, presente nas águas da Bacia do Rio Negro dobrou. Hoje, 98% dos 1,3 milhão de pessoas que vivem na região Norte apresentam sinais de contaminação por mercúrio duas vezes maior que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). E pior, o Brasil não tem nenhum controle sobre essa situação. Nem se sabe qual o grau de comprometimento da saúde dos ribeirinhos pelo metal. Em casos extremos, o mercúrio afeta o sistema nervoso central e mata. Para ter, enfim, real noção do impacto da substância na natureza e no homem, o governo resolveu medir a poluição por mercúrio na Amazônia e no Pantanal mato-grossense.
Uma pesquisa será financiada do Fundo Ambiental Global (GEF) das Nações Unidas e está orçada em R$ 2 milhões. Outra será coordenada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama). O objetivo é descobrir como o mercúrio se acumula nas florestas tropicais — se deve-se apenas à ação do homem ou se há interferência da natureza. Já está descartada a hipótese de que os garimpos foram os únicos a provocar o acúmulo do metal (o mercúrio é usado para separar o ouro e acaba sendo jogado nos rios). Seriam necessários pelos menos 300 anos da atividade nas minas de ouro para explicar os níveis de contaminação atuais da Bacia do Rio Negro, por exemplo.
Formação do solo
Numa medição realizada por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no ano passado, foram encontradas 125 mil toneladas de mercúrio na só na região da bacia do rio Negro. Os especialistas creditam a grande concentração do metal à formação do solo. ‘‘Um solo pode ter vários minérios na sua composição. Na bacia do rio Negro é o mercúrio que predomina’’, explica Wilson Jardim, professor da Unicamp.
Em outubro de 2000, pesquisadores brasileiros e canandenses, neurotoxicologistas do Projeto Caruso, constataram sintomas na população ribeirinha da Amazônia que indicavam contaminação por mercúrio. Os testes foram aplicados em 400 pessoas que vivem em duas vilas às margens do rio Tapajós, no município de Santarém (PA). Elas apresentaram redução do campo de visão e problemas de coordenação motora. Os distúrbios foram encontrados em pessoas com níveis de contaminação considerados aceitáveis pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os estudos financiados pela ONU se concentrarão na região do rio Tapajós, considerada um dos locais críticos. Segundo Roberto Villas Bôas, coordenador do programa, as pesquisas vão durar quatro anos e terão também a participação de outros cinco países. Sudão, Tanzânia, Vietnan, Indonésia e Zimbabwe têm os mesmos problemas brasileiros de contaminação por mercúrio.
Maranhão desmente caso de paralisia
A gerente adjunta de Saúde do Maranhão, Helena Duailibe Ferreira, descarta que tenha sido registrado um caso de poliomielite no estado. Seria o primeiro no país desde 1996. ‘‘O quadro do paciente já está melhor, se fosse paralisia seria irreversível’’, explica. A suspeita da doença, conhecida como paralisia infantil, é do menino Ronilson Silva Barbosa, de quatro anos. Ele mora em Tuntum, município na divisa com o Piauí, a 350 quilômetros de São Luiz e 300 de Teresina. A médica diz que o menino passou um mês sendo tratado pelos médicos da cidade onde mora sem que tivesse sido feito o exame de fezes que comprovaria a poliomielite.
‘‘Agora já perdemos a oportunidade de ouro de ter o diagnóstico correto na hora certa’’, disse a gerente. Segundo ela, a paralisia muscular pode ser sintoma de várias doenças neurológicas.
Saneamento em discussão
A 4ªConferência Latino-Americana sobre o Meio Ambiente, a Ecolatina, começa hoje em Belo Horizonte (MG) para discutir o saneamento ambiental. O evento, promovido pelo Banco Mundial e Ministério do Meio Ambiente, termina na quinta-feira. Ele coincide com a votação, na quarta-feira, da Lei do Saneamento na Comissão Especial de Saneamento Básico do Congresso. Segundo especialistas, a lei levaria o Brasil a investir R$ 40 bilhões nos próximos dez anos, para atender 130 milhões de habitantes. Ao final da conferência, uma documento será elaborado e enviado aos ministros de toda a América Latina.
O número
2 milhões
de empregos devem ser criados com os investimentos que o Brasil fará na construção de redes de água e coleta de esgoto, caso o Congresso aprove a Lei do Saneamento Básico.
A estimativa é do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
Índios tentam invadir terras
Quase 400 índios guarani-kaiowás tentaram invadir ontem seis fazendas próximas à Aldeia Panambizinho, em Dourados (MS), no distrito de Panambi, a 20 quilômetros da cidade. A investida foi repelida pelos fazendeiros, que dispararam tiros de advertência. Os índios afirmam que a terra era de seus antepassados, mas toda a área está legalizada desde a década de 50 quando foi criada a Colônia Agrícola de Dourados para assentar 16 famílias de sem-terra.
Artigos
Guerra má e guerra boa
Rubem Azevedo Lima
Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão e Rússia. Eis os líderes da grande aliança do mundo contra o terrorismo em geral, e, particularmente, contra o regime talibã, do Afeganistão, e o xeque Bin Laden, a quem Bush, presidente dos EUA, responsabiliza pelos atos de terror que atingiram Nova York e Washington, em 11 de setembro passado.
Sob o aspecto dos direitos humanos, é inaceitável, em termos morais, políticos, econômicos e sociais, qualquer violência que, entre outros efeitos, cause o sacrifício de pessoas ou parcelas inocentes do povo, em guerras, diferenças religiosas ou étnicas, choques de culturas, de interesses coletivos ou individuais ou simples paixões esportivas, essas últimas, aliás, cada vez mais estúpidas.
Os EUA e seus aliados obtiveram para a cruzada antiterrorismo suporte logístico de natureza militar de mais de 40 países, além do apoio político de muitas nações, como o Brasil, China, Israel e Argentina, ao que informou Bush. Mas responder à violência atribuída a Bin Laden com violência idêntica ou maior é a volta à idade das trevas e não funciona, pois só multiplica as espirais de violência.
Tal questão já está decidida pelos aliados da guerra ao terrorismo. Não há, porém, por que desistir de solução mais civilizada em problema dessa magnitude, resolvido talvez como convém à aliança e parte da ONU, mas não ao mundo inteiro.
Quanto aos promotores da cruzada, que dizem defender a liberdade humana contra o regime talibã, há entre eles um ponto em comum: todos pertencem ao G-8, as nações julgadas mais ricas do planeta. Recentemente, manifestantes de 100 países denunciaram em Seattle e Gênova o terrorismo da globalização econômica, neoliberal e assimétrica — feito pelo G-8 — que, a rigor, tornou os trabalhadores e os países pobres servos do FMI e das multinacionais.
A emoção gerada pelos ataques aos EUA ajudou tais cruzados a sepultarem os protestos e a causa dos excluídos, aos quais agrediram e fizeram ameaças. Depois, juntaram US$ 400 bilhões para a guerra, quantia jamais aplicada em fins sociais.
A violência tira espaço à liberdade, mas o fim de um país não é o fim do terror. Se estadista fosse, Bush não retaliaria mais os afegãos. Pagaria a jura de pegar Bin Laden, vivo ou morto, varrendo com o G-8 a miséria do mundo. Ganharia a paz, um prêmio Nobel e a reeleição. Senão, não. E o porrete que a submissão mundial lhe pôs nas mãos para caçar bruxas sem provas ser-lhe- á inútil no Texas, em 2005
Editorial
Riscos
De sexta a domingo, manifestantes de várias partes do mundo foram às ruas protestar contra os ataques ao Afeganistão. Em alguns países, como Inglaterra, Alemanha, Itália e Suécia, o movimento foi pacífico. Pedia o fim dos bombardeios e o retorno da paz. Em outros, sobretudo os de maioria islâmica, houve cenas inflamadas. Liderados por grupos radicais, os insurgentes clamavam contra os Estados Unidos, que estariam comandando uma guerra contra o Corão.
Os muçulmanos moderados ainda não se manifestaram. Mas poderão fazê-lo se se concretizar a ameaça de ampliar o teatro de guerra da coalizão antiterror. Fontes do governo Bush afirmaram que células terroristas baseadas no leste da Ásia são os prováveis novos alvos por representarem perigo para as instituições americanas no exterior. Filipinas, Indonésia e Malaísia seriam grandes centros internacionais de atividades terroristas, algumas ligadas à rede de Bin Laden.
O presidente George W. Bush deve discutir a campanha antiterror com os chefes de Estado dos três países na reunião do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em Xangai, nesta semana. A presidente filipina permitiu o trânsito de aeronaves da coalizão pelo espaço aéreo de seu país e o uso de duas grandes bases criadas pelos americanos.
A decisão de atacar nações acusadas de abrigar ou patrocinar atentados é politicamente delicada. Em comunicado apresentado no fim da reunião de emergência para tomar posição unificada sobre a campanha militar da coalizão antiterror, a Organização da Conferência Islâmica aceitou os bombardeios ao Afeganistão, mas vetou ação contra outros alvos árabes ou muçulmanos.
O cenário preocupa. Teme-se, sobretudo, a reação dos seguidores de Maomé. Exemplos já se esboçam. Milhares de paquistaneses estão nas ruas para opor-se ao apoio de Islamabad à aliança contra o vizinho Afeganistão. Na Indonésia, país que abriga a maior comunidade islâmica do planeta, o quadro é semelhante. Na Malaísia, Irã e Turquia, as cenas se repetem.
A escalada militar para atingir outros países além do Afeganistão ameaça acender pavios de novas ondas de protestos. A sublevação popular poderá desestabilizar os governos locais. Não se deve esquecer que os regimes vigentes na maioria dos países islâmicos são de índole ditatorial. Pressões das maiorias exaltadas poderão derrubá-los. E, assim, criar novas dificuldades.
A coalizão em torno da campanha Liberdade Duradoura conseguiu vasta rede de adesões. Veio em resposta ao brutal ataque desfechado contra alvos norte-americanos que resultou em mais de seis mil mortos. O mundo descobriu, naquele 11 de setembro, que a insegurança é geral. Ninguém está a salvo de atentados desfechados por inimigos sem rosto. Daí o apoio à causa. Daí, também, a responsabilidade de conduzir a luta de olho em seu objetivo — o combate ao terror. Não sua ampliação.
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10/15/2001
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