Brasil recebe críticas






Brasil recebe críticas
Para a Argentina restam duas saídas possíveis: a moratória ou a dolarização. A afirmação é do argentino Sebastián Edwards, professor da Universidade Austral e estudioso da economia dos países da América Latina há 25 anos. Em entrevista publicada ontem no jornal argentino La Nacion, Edwards defendeu o novo plano do ministro da Economia, Domingo Cavallo, e o resumiu como a melhor alternativa que o país tem hoje. ‘‘O plano mantém o regime cambial e a busca do déficit zero.’’ Entretanto, o economista acredita que, diante de mais um fracasso, restará à Argentina o plano B: dolarização.

Segundo Edwards, sem acordo com governadores, o plano não terá credibilidade, e sem recursos dos investidores externos, o país não terá como honrar pagamentos no final deste mês. Com isso, a moratória torna-se uma possibilidade muito provável. Restará encarar a dolarização oficial, acoplada a uma política de inserção forte no Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte). O abandono da conversibilidade — que equipara o peso ao dólar — significaria uma substancial depreciação do peso e deve ser evitado, segundo ele. ‘‘Num primeiro momento, o dólar chegaria a valer três pesos. Com isso, haveria quebra maciça de empresas e corrida aos bancos, com efeitos nocivos ao sistema de pagamentos’’, acredita.

Na entrevista, Edwards defendeu que o futuro da Argentina está na Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e não no Mercosul, que, segundo ele, produz uma simbiose entre Argentina e um sócio — Brasil — cujo único mérito verdadeiro é ser vizinho. ‘‘Argentina se casou com um país que cresce pouco, tem instituições piores, a tecnologia vive no encalço da tecnologia do primeiro mundo e a política macroeconômica favorece a ele e é nociva para a Argentina’’, reclamou.

Enquanto na Argentina o clima está pesado, no Brasil a situação é outra. Analistas acreditam que o mercado brasileiro retoma hoje os negócios com mais tranqüilidade que nas semanas anteriores porque cada vez mais os investidores conseguem separar o Brasil da Argentina. Na semana passada, por exemplo,o medo de um calote geral na Argentina tomou conta dos investidores estrangeiros e mesmo assim o dólar no Brasil recuou 1,9%, fechando a semana em R$ 2,675.


Obstáculo político
Cavallo não consegue acordo para reduzir repasses a províncias, mas corte de 13% nos gastos é exigência do FMI para adiantar US$ 4,3 bilhões à Argentina

Muita conversa, nenhuma definição. Representantes do governo central e das províncias (estados) passaram o final de semana tentando fechar um acordo decisivo para o futuro da Argentina a curtíssimo prazo, pois dele depende o envio de US$ 4,3 bilhões de ajuda do Fundo Monetário Internacional ainda em novembro. Os 23 governadores argentinos querem receber imediatamente US$ 550 milhões em dívidas vencidas e exigem a manutenção de um repasse mensal de R$ 1,32 bilhão da União. O ministro da Economia, Domingo Cavallo, não quer pagar as dívidas vencidas agora e ainda pretende cortar 13% dos repasses do governo central aos estados para combater o déficit público.

Apesar de o porta-voz da presidência, Juan Pablo Baylac, ter manifestado confiança em um acerto ainda durante o final de semana, a verdade é que as bolsas ocidentais vão abrir hoje sem uma boa notícia da Argentina. Como a repercussão do pacote anunciado na última quinta-feira não foi boa, o acerto entre governo central e províncias pelo menos passaria aos investidores a idéia de que há apoio político interno ao pacote de Cavallo. O governador da província de Buenos Aires, o peronista Carlos Ruckauf, é o principal foco de resistências ao acordo, embora integrantes do governo qualifiquem o acerto como essencial.‘‘É fundamental que haja uma resolução favorável a negociação com as províncias’’, reconheceu o banqueiro Jacob Frenkel, que assessora o ministro Domingo Cavallo.

Frenkel foi contratado para convencer outros banqueiros de que é melhor receber 7% de juros do que nada. O ponto-chave do pacote argentino é a troca de títulos ‘‘podres’’ (que prometem 11% de juros ao ano) por outros menos rentáveis, mas garantidos pela receita de tributos. Frenkel passou o final de semana fazendo lobby por telefone. Ele é ex-presidente do Banco Central de Israel e atualmente é diretor do Banco de Investimentos Merrill Lynch Internacional.

‘‘Falei com alguns banqueiros, os maiores do mundo. Tenho bons fundamentos para crer que serão sócios construtivos da negociação’’. Ele revelou que o segundo passo da estratégia do governo é adiantar desembolsos já pactuados com o FMI. Ele afirmou que vai receber US$ 75 mil de honorários e doá-los à Fundação Favaloro, um centro de pesquisas cardiológicas da Argentina.

A redução dos repasses às províncias teria vigência a partir de janeiro, mas seria compensada por uma renegociação da dívida pública nacional e provincial de US$ 153 bilhões. A dívida do governo central é de US$ 132 bilhões e dos estados, de US$ 21 bilhões. No total: US$ 153 bilhões. Desse valor, serão renegociados US$ 101 bilhões em títulos da dívida pública. São US$ 94 bilhões do governo federal e US$ 7,2 bilhões das províncias.

A idéia é reduzir em US$ 4 bilhões o pagamento de juros da dívida pública em 2002. O calote será de 28%, pois no próximo ano o governo teria que pagar US$ 14 bilhões em juros. A vantagem para as províncias é que haveria uma redução de US$ 1,6 bilhão nos gastos estaduais com a dívida.


Chacina na divisa com o Paraguai
Um clima de terror está dominando o ambiente na pacata cidade de Paranhos, extremo sul do Mato Grosso do Sul, divisa com o Paraguai. Uma família inteira de agricultores brasileiros foi assassinada a pauladas por desconhecidos na quinta-feira. A família morava na Fazenda Bueno Amigo, no lugarejo paraguaio de Ype-Hú. Policiais paraguaios que atenderam a ocorrência, acabaram matando dois outros brasileiros no local e decepando a mão esquerda de um terceiro com um tiro. Durante o enterro, no Dia de Finados, testemunhas disseram para a polícia brasileira em Paranhos, que os corpos da gestante e seus três filhos foram retirados à força da fazenda. Houve troca de tiros entre os acompanhantes do funeral e a polícia paraguaia. Policiais do lado brasileiro estão aguardando equipes de peritos do país vizinho que chegarão hoje de Assunção, para mais informações sobre o caso.


Anabel chega a Pernambuco
A chegada da cubana Anabela Soneira, 14 anos (foto), transformou o município de Catende , a 131 quilômetros do Recife em um palco de eventos e shows pirotécnicos. Ontem, mais de 1,5 mil pessoas se concentraram no Estádio Leão XIII, para receber a nova moradora que estava proibida pelo governo cubano de reencontrar seus pais, Miguel e Letícia, e a irmã caçula, Nicole, de um ano e meio. Miguel e Letícia vieram para o Brasil há três anos, tiveram Nicole e decidiram fixar residência. Mas foram considerados desertores pelo governo cubano. Somente após inúmeras negociações intermediadas pela Embaixada Brasileira, Anabela conquistou o direito de morar com seus pais no Brasil. ‘‘Tenho certeza que ela irá amar este país, como nós amamos’’, comentou Letícia.


Mãe-de-santo acusa bispo Edir Macedo
Grupo de São Paulo ligado ao candomblé critica site da Igreja Universal que trata divindades de religiões afro-brasileiras como demônios

A Igreja Universal do Reino de Deus é mais uma vez acusada de preconceito religioso. Há seis anos, um dos bispos de Edir Macedo chutou uma imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida durante dois programas da rede Record de televisão (leia ao lado). Agora, é acusada de denegrir a imagem das religiões afro-brasileiras e es píritas. Quem faz a denúncia é o Ipade, um grupo formado por adeptos e praticantes das religiões afro-descendentes.

Os integrantes do grupo Ipade, de São Paulo, mandaram uma mensagem de protesto para a direção da igreja, criticando a maneira como os meios de comunicação da Universal estariam tratando de temas ligados às essas religiões. Ipade é o nome de uma cerimônia pública do candomblé.

No e-mail, enviado na última quinta-feira, o grupo destaca um trecho do livro Orixás, Caboclos e Guias — De demônios a deuses, encontrado no site do bispo Edir Macedo (www.bispomacedo.com.br). Para Lorena de Santiago, 42 anos, adepta do candomblé, o site ofende diretamente os seguidores das práticas afro-brasileiras e espíritas, quando se refere aos deuses cultuados por eles como demônios. ‘‘É simplesmente um absurdo definir uma religião como demoníaca, principalmente quando não tem conhecimento sobre ela’’, diz Lorena, que é mãe-de-santo há 12 anos.

O livro é de autoria do próprio Edir Macedo, segundo o bispo Carlos Alberto Rodrigues, conselheiro da Igreja Universal do Reino de Deus e deputado federal pelo Partido Liberal, no Rio. ‘‘A publicação traz uma análise antropológica feita pelo bispo Edir Macedo do surgimento das religiões afro-descendentes e conseqüentemente de seus princípios religiosos. No caso, os espíritos para eles. Ou demônios para nós”, informa. A mãe-de-santo Lorena explica que os deuses do camdomblé ‘‘não têm nada a ver com demônios.’’

O bispo Rodrigues afirma que o trecho citado pelo Ipade não foi colocado no site para ferir os princípios de nenhuma religião, mas para orientar as pessoas sobre a existência de ‘‘espíritos maus’’— que ele chama de demônio.
Lorena Santiago diz que se o grupo Ipade não receber uma resposta dentro de um mês, entrará com uma ação judicial contra a Igreja Universal. O bispo Rodrigues informa que o Conselho de Bispos da Universal deve decidir sobre o assunto em reunião marcada para o início de dezembro.


Artigos

O Brasil redescoberto
Rubem Azevedo Lima

Brasileiros comedidos, como o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Costa Leite, ou, nem tanto, como o jornalista Boris Casoy, da televisão, criticaram, duramente, o governo Fernando Henrique Cardoso. O primeiro falou da política de salários funcionais; o outro, do congelamento da tabela do Imposto de Renda. Ambos refletiram, com indignação, o sentimento dominante no país, de desconforto e insegurança, em face do nosso quadro econômico, social e administrativo.

Os salários dos servidores e a tabela do imposto estão congelados, respectivamente, há sete e cinco anos. Mas, no qüinqüênio, a inflação foi de 36%. As tarifas de serviços públicos, quase todos privatizados, subiram acima da inflação. Quem poupou energia agora pagará mais do que pagava antes de poupá-la, embora gaste bem menos do que nos tempos de fartura. No começo do real, o dólar valia R$ 0,88; hoje, vale R$ 2,75. Nossa política de salários é desastrosa, em termos de auto-estima profissional. Em Brasília, o médico iniciante ganha menos do que um policial militar em começo de carreira, e os dois estão insatisfeitos.

No final do ano, as dívidas externa e interna chegam a 57% do PIB, pagando mais de US$ 70 bilhões de juros anuais. Crescem a concentração de renda e o número de brasileiros na faixa de pobreza. Nossa taxa de juros internos (19%) é a maior do mundo. Sobem o desemprego e o subemprego. Seqüestra-se o salário de grevistas pobres, porém se reduz o valor das dívidas dos ruralistas. Que situação!
Há uma crise latente, explosiva, no país. O governo desrespeita decisões finais da Justiça e firma convênios que não cumpre. Procedem, pois, os reparos de Costa Leite, a ira de Boris e as apreensões dos brasileiros. O que nos aconteceu?

Quem sabe? O certo é que FHC ignorou regras da Constituição de 1988, que determinavam ‘‘a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa, para assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados (entre outros) os seguintes princípios: soberania nacional... redução das desigualdades regionais e sociais... e busca do pleno emprego’’.

Soberania? E as restrições que o FMI nos impõe, e que o país aceita, pondo esse organismo acima dos interesses vitais dos brasileiros? Política e moralmente devia ser o inverso. Mas não é. Foi essa a ordem de valores que o neoliberalismo nos ditou, quando FHC chamava os críticos de dinossauros, antes de descobrir o Brasil, em Paris, e ali ver o horror que os males neoliberais fazem à pobreza. Vive la France!


Editorial

Apuração rigorosa

Os petistas vivem, nos últimos dias, uma situação para eles inédita e desconcertante. De pedra que sempre foram, implacáveis na denúncia das irregularidades dos adversários e radicais defensores da necessidade de ética na política, passam agora a ser vidraça. Nos estados que governam e nos principais municípios, há questionamentos que visam atingir exatamente o cerne do discurso petista: a moralidade das administrações.

No Rio Grande do Sul, benefícios irregulares para contraventores do jogo do bicho. No Acre, supostos privilégios para um cartel de distribuição de combustíveis. Na cidade de São Paulo, licitação dirigida para contratar determinada companhia de limpeza. Algumas acusações parecem bem consistentes. Outras menos.
Os petistas alegam que a onda de denúncias é conseqüência natural do desempenho de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais. Para derrotar o adversário comum, os outros partidos criam as acusações para minar sua candidatura. Não é impossível. Um dado desse momento de início de campanha eleitoral é a troca de denúncias e acusações.

Não são apenas os petistas. Hoje, há vários outros casos que envolvem outros políticos que merecem explicação. O governador do Ceará, Tasso Jereissati, enfrenta em seu estado uma CPI que investiga a administração do banco estadual. A polícia apura a veracidade de denúncia de extorsão supostamente feita por assessores do ministro da Saúde, José Serra.

Para o eleitor, o importante não é saber se essa guerra de delações faz parte ou não do jogo político. Importante é que, no momento do pleito em outubro de 2002, não paire dúvida sobre a honestidade dos candidatos. A sociedade cansou de políticos desonestos. Não tem mais tolerância com os que optam pelo caminho da imoralidade.

Os petistas contribuíram muito para formar essa sensação. O discurso de seus parlamentares foi fundamental para ajudar a cristalizar esse sentimento em casos como o impeachment do presidente Fernando Collor, a cassação do senador Luiz Estevão ou a renúncia dos senadores Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães. É inaceitável ouvir do mesmo partido qualquer sugestão para que as denúncias sejam esquecidas ou abafadas.
Cada caso capaz de pôr em dúvida a reputação dos candidatos à eleição no ano que vem, ou de seus partidos, precisa ser apurado integralmente. Ninguém esquecerá o que for abafado. Na dúvida sobre a honestidade, o eleitor não perdoará.


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11/05/2001


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