Candidato oficial









Candidato oficial
Sob o lema “Nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade”, o ministro da Saúde, José Serra, oficializou ontem sua candidatura à Presidência da República pelo PSDB. O discurso de Serra, na solenidade organizada pelo partido para demonstrar unidade, não deixou dúvidas: a pefelista Roseana Sarney é a sua adversária da hora. Num pronunciamento de 20 minutos lido num teleprompter, Serra evitou críticas explícitas ao governo Fernando Henrique e mesmo à equipe econômica. Serra, que teve o governador do Ceará, Tasso Jereissati, ao seu lado durante a solenidade, fez questão de apresentar sua candidatura como uma opção competente contra a política do atraso, as desigualdades sociais, os privilégios e a acomodação, expressões geralmente associadas ao PFL.

Relembrou o início de sua vida política como líder estudantil e no combate à ditadura, citou a aceitação de suas propostas pelos oposicionistas e fez um afago no governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Insistindo no uso das palavras competência, repetida oito vezes, e obstinação, seis vezes, Serra criticou oposição e direita sem citar nomes ao falar da situação da Argentina:

— A principal lição que podemos tirar do sofrimento dos irmãos argentinos é a do risco que representa para os destinos de uma grande nação ser conduzida com fraqueza de vontade política e com incompetência. Na vida pública, é preciso evitar tanto o radicalismo populista quanto a fraqueza de vontade, a inépcia, o receio das pressões, a acomodação, patrimônio tanto de setores que se consideram de esquerda como também das forças do atraso, coniventes com a permanência de uma sociedade injusta — disse Serra, provocando tantos aplausos que teve de interromper o discurso.

Serra prometeu combater as desigualdades sociais e garantir progresso para todos. E sem compromissos com privilegiados.

— Progresso não deve ser carro de luxo para alguns, nem tecnologia para privilegiados. A bandeira do Brasil nunca significou que podemos ter progresso para alguns e ordem para outros. Se o progresso não for para todos, não haverá ordem para ninguém.

Serra cita patentes e genéricos
Serra prometeu fazer “aquilo que não foi possível fazer” pelo presidente Fernando Henrique. Para provar que tem competência e obstinação para governar o país, citou dois exemplos de sua atuação à frente do Ministério da Saúde: a criação dos genéricos e a quebra de patentes.

Além de Fernando Henrique, Serra citou outros três ex-presidentes em seu discurso: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Itamar Franco. Chamou seus adversários de populistas e lembrou que o populismo produziu presidentes nocivos para o país. Pela direita, Jânio Quadros e Fernando Collor. Pela esquerda, João Goulart.

— Não vou me apresentar como o candidato de mil faces. Mas teremos mil olhos para enxergar os problemas sociais do país — afirmou, avisando aos tucanos que exporia o governo Fernando Henrique como o patamar para o futuro do país.

— Sei que há muito ainda por fazer. Mas vou partir daquilo que já foi conquistado.

Na cerimônia estiveram presentes os ministros da Educação, Paulo Renato, do Planejamento, Martus Tavares, da Justiça, Aloysio Munes e das Comunicações, Pimenta da Veiga. Também participaram o secretário de Desenvolvimento Urbano, Ovídio de Angelis e o secretário de Comunicação Institucional do governo, João Roberto Vieira da Costa. Entre os governadores estavam Almir Gabriel (PA), Dante de Oliveira (MT), Tasso Jereissati (CE), Geraldo Alckmin (SP), Marcone Perillo (GO) e Albano Franco (SE). Os ex-governadores do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, e de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, também participaram, além da filha do falecido governador de São Paulo, Mario Covas, Renata Covas e a viúva do ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta, Vilma Motta.

ESTABILIDADE: “A estabilidade de nossa moeda, um objetivo difícil, caro e precioso, tornou possível melhorar a vida dos brasileiros, combater a pobreza e aumentar as oportunidades de progresso. Agora, temos de ir mais longe, temos de avançar e, para isso, precisamos de esperança, de vontade política e de ação realizadora”

FERNANDO HENRIQUE: “O Brasil tem seguido um rumo claro desde o Plano Real, sob as duas administrações do presidente Fernando Henrique Cardoso, na economia, nas políticas sociais e na consolidação da democracia. Quero manter as coisas certas e fazer aquilo que não foi possível fazer”

ITAMAR FRANCO: “Fernando Henrique, levado ao Ministério da Fazenda por Itamar Franco, conseguiu derrubar a superinflação”

PROGRESSO: “A bandeira do Brasil nunca significou que podemos ter progresso para alguns e a ordem para outros. Se o progresso não for para todos, não será para ninguém”

NORDESTE: “O progresso será de todos os brasileiros somente quando as desigualdades regionais deixarem de ser consideradas um produto do destino. A esperança, a força de vontade e a competência dos migrantes nordestinos contribuíram muito para erguer o parque industrial de São Paulo”

VIOLÊNCIA: “Muitas das grandes cidades são abomináveis focos de desigualdades. A isto se acrescenta o desperdício de recursos e a violência, com sua carga de terror e de lágrimas, de angústia e de luto”

AUTO-RETRATO: “Sou apaixonado pelo trabalho. Valorizo sempre os diagnósticos objetivos das situações e dos problemas. Sou otimista na ação. E não compartilho a tese fácil, cômoda, de que a política é apenas a arte do possível. Não é nada. Para mim, política é a arte de ampliar os limites do possível”.


FH pede maior distribuição de riquezas
KIEV. O presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu ontem, em Kiev, capital da Ucrânia, uma melhor distribuição das riquezas no mundo. O presidente disse, entretanto, que isso se faz com reformas de instituições, decisões políticas e não tentando parar o processo de globalização.

— Combater a globalização é o mesmo que combater a máquina a vapor. Não tem sentido. É você combater o progresso.

Mais países devem participar de decisões do FMI, diz FH
O que pode ser feito, na opinião do presidente, é direcionar a globalização “no sentido de mostrar que a riqueza no mundo é tão grande, e que o potencial produtivo é tão grande que eticamente não é aceitável ver tanta pobreza em certas áreas”.

— É uma questão de decisão política. Quando digo que é preciso reformar instituições, vejo às vezes nos jornais: “O presidente está criticando o FMI ” . Se criticar significa propor que melhore, é verdade. Mas não estou fazendo outra coisa senão dizer: há condições para melhorar — explicou o presidente.

Para Fernando Henrique, a melhora nos organismos internacionais como o FMI é possível, desde que se permita maior participação dos países nas decisões.



— Ou reorganizamos as instituições mundiais para que elas possam ser ágeis e fazer frente à rapidez do processo de globalização, ou essa globalização vai atropelar uns países em benefício de outros.

O presidente Fernando Henrique encerrou ontem uma uma viagem de seis dias ã Russia e à Ucrânia, embarcando de volta para o Brasil. Ontem, ele se despediu do presidente Leonid Kutchma e conheceu o Museu Nacional de Lavra (monastério fundado em 1051), sob um frio de 14 graus abaixo de zero -— a temperatura mais baixa que o presidente enfrentou durante a viagem.


Garotinho quer aliança com Brizola
RECIFE. O governador Anthony Garotinho (PSB) sugeriu ontem ao presidente do PSB, Miguel Arraes, que procure o ex-governador Leonel Brizola para negociar a formação de uma aliança que fortaleça o partido na sucessão presidencial. Garo tinho é candidato à Presidência pelo PSB e está rompido com Brizola desde que deixou o PDT.

— O PSB é uma grande força política. Se formos fazer uma grande aliança é claro que Brizola pode participar. Mais aí Brizola e Arraes conversam e se entendem — disse Garotinho.

Arraes mostrou-se disposto a atendê-lo:

— Brizola é um homem que está no nosso campo de ação e defende as posições que defendemos. Não há motivo para não procurá-lo. Podemos dizer que, com ele, nossas convergências são muito maiores do que as divergências.

Garotinho disse ainda que já estuda alianças com Ciro Gomes (PPS) e Itamar Franco (PMDB), também pré-candidatos à Presidência. E negou que tenha recebido uma resposta negativa dos dois:

— O PSB quer o entendimento com outras forças do campo democrático e popular — disse Garotinho, que no próximo domingo se reúne com o senador José Alencar (PL-MG), para discutir a aliança com o Partido Liberal.

Ele disse contar até mesmo com o apoio de Lula num possível segundo turno:

— Já votei em Lula duas vezes e não seria nenhum constrangimento votar nele de novo caso ele ganhe o primeiro turno. Mas se for eu o vencedor, quero que ele me apóie, pois estarei esperando o voto dele — disse.


Anadyr arquiva denúncia contra Eduardo Jorge
BRASÍLIA.O ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas Pereira conseguiu se livrar de mais uma acusação formulada contra ele junto à Corregedoria Geral da União. Sob o entendimento de que não há informações que fundamentem a abertura de processo, a corregedora-geral Anadyr de Mendonça Rodrigues decidiu arquivar a denúncia que atribuía a Eduardo Jorge gestões para influenciar decisões de negócios dos fundos de pensão.

Desde novembro do ano passado, a corregedoria já arquivou 16 denúncias contra Eduardo Jorge. Agora resta contra ele apenas uma denúncia, já em fase final de análise, apontando uma suposta participação do ex-secretário-geral no pagamento de indenização pelo DNER a uma empresa, cujo nome não foi divulgado.


Moeda americana em alta no Brasil
A contínua desvalorização do peso argentino frente ao dólar trouxe mal-estar ao mercado de câmbio no Brasil, fazendo o dólar comercial fechar em alta de 0,54%, cotado a R$ 2,379 para compra e R$ 2,381 para venda. A alta das bolsas americanas puxou a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que subiu 1,93%, mas o volume total negociado, de R$ 426,220, ficou abaixo da média do mês, o que demonstra a cautela dos investidores. Os contratos de juros futuros com vencimento em julho fecharam em queda, com taxade 19,29%, contra 19,52% na véspera.

A moeda americana oscilou muito ao longo do dia, chegando a atingir a mínima de R$ 2,354, com queda de 0,59%, motivada pelo resultado satisfatório do leilão de recompra de títulos cambiais (com juros atrelados ao dólar), promovido pelo Banco Central.

Para alongar os prazos de vencimentos da dívida em dólar, a instituição vendeu todo o lote de 1,4 milhão de Notas do Tesouro Nacional da série D (NTN-D), com vencimentos em março de 2004, janeiro de 2005 e julho de 2008, e recomprou 274.400 mil Notas do Banco Central da série E (NBC-E), com vencimento em fevereiro de 2002, e 1,072 milhão do mesmo papel com vencimento em março próximo.

Rolagem deveria ser mais agressiva, diz ex-diretor do BC
O volume financeiro da operação totalizou R$ 1,877 bilhão. As NTN-Ds com vencimento em março de 2004 e janeiro de 2005 saíram com remunerações anuais de 10,08% e 11,10%, respectivamente, consideradas dentro do esperado por analistas. Já a taxa dos títulos com vencimento em julho 2008, de 13,55%, ficou pouco acima da expectativa, devido ao prazo mais longo.

Na avaliação do ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, o resultado do leilão de ontem foi importante, porque representou o alongamento de parte dos R$ 13,160 bilhões em títulos cambiais que vencem entre fevereiro e março. Porém, Freitas observou que o BC deve ser mais agressivo nesse processo de alongamento, uma vez que os títulos cambiais representam 31,1% do total da dívida pública federal em títulos.

— É importante que o BC alongue o máximo possível o vencimento dessa dívida em dólar. Mas a estratégia poderia ser mais agressiva, como a troca compulsória desses papéis por outros de prazo mais longo. No cenário atual, com o dólar em patamares baixos, não interessa ao mercado ficar com esses títulos curtos — disse o ex-diretor do BC.

Demanda por “hedge” pressiona o dólar
Passado o alívio na cotação do dólar com o resultado do leilão, a moeda americana voltou a ser pressionada na parte da tarde por conta da valorização do dólar na Argentina, superando a barreira psicológica de 2 pesos. Segundo operadores, a cotação do dólar foi mais pressionada pouco antes do fechamento dos negócios, devido à procura por hedge (proteção) de algumas empresas no mercado de câmbio.


Artigos

Solidariedade contra o terror
Colin Powell

Com o começo do novo ano, os americanos podem sentir-se encorajados com o progresso feito pela Campanha Global Contra o Terrorismo. Estamos derrotando as forças da Al Qaeda e do Talibã no Afeganistão por meio dos enormes esforços empreendidos pela forças armadas americanas e aliadas e pelos determinados combatentes afegãos. O apoio de muitos outros países, entre eles nossos vizinhos na América do Sul e Central, impulsiona nossa causa de maneira incomensurável.

Mas a ameaça maligna que assassinou milhares de pessoas no dia 11 de setembro ainda usa muitos disfarces ao redor do mundo e ainda possui intenção letal. Destruir a base operacional da Al Qaeda no Afeganistão não é suficiente. A coalizão contra o terrorismo precisa avançar em todas as frentes — política, financeira, legal e militar — para eliminar os terroristas onde quer que eles vivam e planejem seus ataques.

Em todo o mundo, amigos e aliados estão envolvidos em esforços policiais e outros tipos de iniciativas para frustrar a atividade terrorista. Mais de cento e quarenta países ordenaram o congelamento dos ativos financeiros de suspeitos de terrorismo e de organizações terroristas, e ofereceram outros tipos de auxílio para os esforços da coalizão.

À medida que a luta contra o terrorismo prossegue, estamos fazendo tudo que podemos para ajudar o sofrido povo do Afeganistão. Com um mandato da ONU, os ingleses estão liderando uma força internacional de ajuda em segurança para proporcionar estabilidade a Cabul e arredores. Como principal doador de ajuda humanitária ao Afeganistão, os Estados Unidos estão trabalhando com agências internacionais e organizações não-governamentais para fornecer comida, abrigo, remédios e, em última instância, uma vida melhor para o povo afegão.

No dia 16 de dezembro, a bandeira dos EUA foi hasteada no prédio de nossa embaixada em Cabul pela primeira vez em quase 13 anos. Nossos representantes lá estão ajudando os recém-indicados funcionários do governo afegão que tomaram posse no dia 22 de dezembro. Apoiaremos seus esforços para reconstruir o Afeganistão enquanto trabalhamos para livrar o país das forças fanáticas que transformaram em vítimas o povo afegão e cidadãos inocentes de muitos países.

Imediatamente após os ataques de 11 de setembro, nossos parceiros na Organização dos Estados Americanos (OEA) ofereceram apoio moral e prático. Eu estava no Peru no dia 11 de setembro, reunido com ministros do exterior da OEA para aprovar a Carta Democrática Interamericana, um documento criado para promover e defender governos democráticos no continente. Precisei retornar urgentemente aos Estados Unidos depois dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, mas não queria sair de Lima sem participar da decisão hi stórica de aprovar a Carta Democrática. Nunca me esquecerei da enorme quantidade de mensagens de preocupação e solidariedade que recebi de nossos vizinhos de continente naquela manhã.

Sem hesitação, os delegados votaram unanimemente para condenar os ataques terroristas em Nova York e Washington, fazendo da OEA a primeira organização multilateral a tomar tal ação. Eles também pediram uma cooperação continental contra o terrorismo. Além disso, o Tratado do Rio foi invocado pelos países signatários, considerando o ataque contra os Estados Unidos como um ataque a todo o continente.

A Al Qaeda e outros grupos terroristas internacionais possuem tentáculos em todo o mundo. Eles aproveitam as atividades de arrecadação de fundos e das rotas de trânsito de grupos terroristas na América Latina, assim como da relativa liberdade de movimento propiciada pelas sociedades livres e abertas do hemisfério ocidental. Desde 11 de setembro, nossos vizinhos têm tomado ações em áreas essenciais para combater essa ameaça.

Na seqüência dos eventos de 11 de setembro, os Estados-membros da OEA deram um novo impulso ao braço antiterrorismo da Organização, o Comitê Interamericano Contra o Terrorismo (CICTE). O CICTE pediu controles para evitar o financiamento de organizações terroristas, aumentou a cooperação multilateral em relação à segurança de fronteiras e compartilhou forças policiais e informações do serviço secreto e outras informações relacionadas ao contraterrorismo. Por meio de treinamento especial, do uso das melhores práticas e da criação de bases de dados e redes de informações, estamos trabalhando coletivamente para garantir que os terroristas e aqueles que os apóiam não encontrem abrigo no continente americano.

A OEA realizará uma reunião nos dias 28 e 29 de janeiro em Washington com os principais líderes em segurança dos países-membros para avaliar as medidas tomadas no combate ao terrorismo e para adotar um plano de ação para 2002. Além disso, diplomatas regionais estão negociando em ritmo de urgência um tratado para fortalecer ainda mais o continente americano contra a ameaça terrorista.

Quando terroristas, de maneira selvagem, atacaram o World Trade Center e o Pentágono eles estavam atacando os princípios que as nações do continente americano consideram mais importantes: a democracia, o Estado de Direito, os Direitos Humanos e a tolerância. Assim como os ataques uniram o povo do EUA, eles também fortaleceram os laços que unem os povos do continente americano. Juntos nos dedicaremos a levar liberdade, segurança e paz para cada canto de nosso continente e de nosso mundo.


Colunistas

PANORAMA POLÍTICO – Tereza Cruvinel

Primeiro desafio
O PSDB fez uma festa completa para o ministro José Serra. Não faltou tucano de peso no lançamento de sua candidatura, exceto FH que está na Europa. A unidade partidária estava na boca de todos, até na de Tasso Jereissati, mas não é ainda sólida. Com discurso consistente e adequado, e sem qualquer preocupação com a modéstia, Serra mostrou garra e disposição para o desafio.

“Todos sabem que sou um obstinado pelas teses que defendo; um apaixonado pelo trabalho; e um otimista na ação”, disse o ministro, resumindo ali a essência de seu temperamento. Que buscará a unidade do PSDB em torno de sua candidatura não deixou dúvidas. E tudo fará para isso, no seu estilo. E se tem alguma coisa que preocupa os serristas — garantem que não é o seu desempenho nas pesquisas — é o estilo de Serra fazer campanha. Dentro do partido e no corpo-a-corpo com o eleitor.

Conteúdo e competência o candidato tem. O discurso é dez, dizia ontem o senador Teotônio Vilela, ex-presidente do PSDB, lembrando as viagens de Serra a Alagoas. Ele conta que, da primeira vez que Serra esteve lá como ministro, empolgou com um discurso perfeito. Um dirigente local do PSDB, de tão entusiasmado dirigiu-se a ele de braços abertos, mas recebeu um frio cumprimento na ponta de três dedinhos. Discurso dez, corpo-a-corpo zero, disse-lhe Teotônio. Agora já tira fotos com eleitores, garante o senador.

Não é a antipatia ou a simpatia que decide uma eleição, é o debate de teses e projetos, dizia ontem Aécio Neves. No interior do país a simpatia pode pesar mais do que imaginam os tucanos que fazem política nos grandes centros. O mesmo Teotônio ouviu ontem do motorista que lhe acompanha há 20 anos:

— Põe sempre um homem atrás do Serra fazendo cócegas nele, para ele sorrir para o povo.

Serra sabe que precisa sorrir mais, mas não é nisso que aposta. No seu discurso de ontem fez questão de estabelecer a diferença entre sua candidatura e as outras. A sua é a da competência, da experiência e a de propostas concretas e objetivas, repetiu várias vezes. É discurso para vencer o primeiro round dessa briga: tirar Roseana Sarney do páreo. Lula é outra etapa.

— A vitória será acachapante — dizia com um otimismo invejável o deputado Márcio Fortes, um dos mais fiéis aliados de Serra.

Antes da viagem a Pernambuco, dia 28, FH e José Serra estarão juntos em outro evento, em São Paulo, dia 26. Na Associação Paulista de Cirurgia Dentária. Agora vale tudo.

Na mira dos banqueiros
O banco CSFB Garantia fez ontem, de Nova York, uma conferência telefônica com seus clientes e investidores do mundo todo sobre as eleições presidenciais no Brasil. Ao mesmo tempo, coincidentemente, em que José Serra lançava sua candidatura no Congresso. A conferência complementa informações do “Guia das eleições de 2002”, relatório de 64 páginas distribuído pelo banco na semana passada.

Vale destacar a avaliação de analistas e operadores do banco quanto à adesão dos candidatos a nove temas de política econômica: privatização, independência do BC, acordos com o FMI, fluxo de capital estrangeiro, pagamento da dívida externa, abertura comercial, metas de inflação, austeridade fiscal e câmbio flutuante. Foram dadas notas e o resultado mostra como os bancos enxergam os presidenciáveis.

O presidente Fernando Henrique, incluído na avaliação, obteve a maior nota, 70. Tasso Jereissati e Roseana Sarney estariam mais afinados com o continuísmo da política econômica do que José Serra. Tasso ficou com nota 64, Roseana, 63 e Serra com 60. A ameaça de mudanças viria com Ciro Gomes (nota 45), Anthony Garotinho (29), Itamar Franco (29) e Lula (28).

Para poucos
A festa de gala, e restrita, para comemorar a candidatura de José Serra será segunda-feira, na casa do deputado Márcio Fortes. Ele contratou Laurinha Pederneiras para preparar o menu do jantar. O que para Serra não é de grande valor. Gosta mesmo é de um filé de frango temperado apenas com sal.

Antes do jantar, Serra falará na Associação Comercial do Rio e, depois, vai inaugurar o novo centro médico da Rede Sarah.

Torcida contra
O presidente Fernando Henrique fará semana que vem aquela prometida reunião ministerial. A primeira do ano, para cobrar empenho da equipe e dar orientações sobre o comportamento do governo no ano eleitoral. O temor de muitos ministros é que o presidente peça a saída de todos os ministros-candidatos junto com José Serra, na segunda quinzena de fevereiro. A se confirmar essa intenção, planos de muitos ministros irão por água abaixo.

O MINISTRO Paulo Renato, da Educação, gostou muito da citação do programa Bolsa-Escola pelo ministro José Serra no discurso de ontem. “Tomamos de volta a bandeira do Bolsa-Escola que tentaram roubar do PSDB”, acredita. A briga com o PT pela paternidade do programa ainda vai longe e na campanha eleitoral será acirrada.


Editorial

CHANCE NO ESPAÇO

Abase de Alcântara, no Maranhão, é um trunfo do ponto de vista técnico, mais pela localização do que pelos a vanços do programa espacial brasileiro. Perto da linha do equador, ela permite o aproveitamento máximo da rotação da Terra para colocar satélites em órbita. Constitui patrimônio estratégico também por suas possibilidades de exploração comercial. A importância de Alcântara no mercado internacional do espaço — um clube fechado cujas portas o Brasil há tempos vem tentando abrir — foi confirmada pelos acordos que o presidente Fernando Henrique assinou anteontem com o governo e a agência espacial da Ucrânia. O negócio fechado pelo presidente ainda precisa ser validado pelo Congresso, que agirá em defesa do interesse nacional se ratificar rapidamente os acordos de Kiev.

O governo brasileiro vinha há tempos negociando um contrato parecido com os Estados Unidos, mas a iniciativa encontrou forte resistência na Câmara dos Deputados, onde até deputados da base governista fizeram duras restrições. Falou-se em conspiração para ceder um pedaço da soberania nacional aos americanos. O ponto mais criticado foi a intenção americana de restringir o acesso às áreas de lançamento, e de impedir que a alfândega inspecionasse remessas de material para o Brasil.

O governo não conseguiu convencer os deputados a aprovar o acordo sem alterações na comissão de Relações Exteriores. A resistência foi grande, movida por um sentimento nacionalista pluripartidário. Enquanto isso, o país perdeu negócios como o fechado pela agência espacial Russa com a Austrália, para usar a base de Christmas Island, no norte daquele país — localização inferior, do ponto de vista técnico, à de Alcântara. Os acordos com a Ucrânia, segundo o deputado Waldir Pires, do PT baiano, relator da proposta de convênio com os EUA, invalidam essa operação. O apoio do deputado é, pelo menos, sinal de que a bancada nacionalista deverá aprovar a entrada dos ucranianos em Alcântara.


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01/18/2002


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