Chuvas não têm nada a ver com a crise energética, dizem professores



É absolutamente inaceitável culpar o nível das chuvas pela crise de energia vivida hoje pelo Brasil, segundo os professores Luís Pinguelli Rosa e Maurício Tolmasquim, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Ildo Sauer, da Universidade de São Paulo (USP), procuraram demonstrar com argumentos e dados de pesquisas recheados de gráficos durante quatro horas de depoimentos na Comissão de Serviços de Infra-Estrutura (CI), nesta terça-feira (dia 22). Toda usina hidrelétrica no Brasil é projetada para conviver com períodos de seca prolongados e a última estiagem vivida por todas as regiões do país, explicaram os pesquisadores, está muito longe de figurar entre as piores secas, que foram enfrentadas sem problemas pelas usinas.

O que aconteceu, simplesmente, foi a falta de investimentos no setor. Por não investir, o governo não teve como acompanhar o crescimento da demanda de energia, a não ser exaurindo as barragens e impedindo que elas atuassem no presente se programando para o futuro, mantendo sempre um nível de água tecnicamente adequado nos reservatórios.

Os representantes do governo deixaram de comparecer à reunião da CI para debater com os professores um diagnóstico e as melhores saídas para a atual crise de energia. Entretanto, a CI votou requerimento dos senadores Paulo Hartung (PPS-ES) e Heloísa Helena (PT-AL), reconvidando os ministros Pedro Parente, da Casa Civil, e José Jorge, de Minas e Energia, e os dirigentes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Operador Nacional do Sistema (ONS) para um novo debate com os professores da UFRJ, da USP e também com o professor Bautista Vidal, ex-secretário de Tecnologia e um dos idealizadores do Proálcool.

Além do diagnóstico que fizeram para os senadores da CI, os pesquisadores deixaram muitos documentos tentando comprovar o desleixo do governo para com os investimentos em energia elétrica e o desacerto do modelo de privatização adotado para o setor.

O professor Luís Pinguelli Rosa disse que os investimentos no setor elétrico do Brasil saíram de US$ 13,9 bilhões em 1980, para US$ 11,1 bilhões em 1989, US$ 7,1 bilhões em 1993 e US$ 6 bilhões em 1998. Ao abrir a possibilidade de o setor privado tornar-se proprietário das hidrelétricas, o governo teria simplesmente detonado com a possibilidade de investimentos no setor termoelétrico, conforme o professor Sauer. Das 49 termoelétricas programadas, 33 estão em contrução, das quais 29 com a participação da Petrobras, e todas contando com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Com o programa de privatização, o governo perdeu o redutor natural de custos que permite que uma usina já completamente amortizada cobre mais barato pela sua tarifa. Os novos proprietários do sistema, tinham de cobrar tarifas elevadas para pagar aos seus acionistas o que gastaram com a compra da companhia, tudo isso sem gerar um megawatt/hora a mais de energia para o país, concordaram os especialistas.

O modelo definido pelo governo para o sistema elétrico, com base na privatização - dizem os professores - resultou no mais absoluto fracasso. O Brasil hoje cobra uma das mais altas tarifas do mundo - US$ 100 dólares o megawatt/hora no Rio, contra US$ 75 em Paris (França), US$ 64 em Toronto (Canadá) e US$ 76 em Miami (EUA). E nem assim conseguiu canalizar recursos para o investimento em novas usinas - afirmam.

22/05/2001

Agência Senado


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