Ciro garante que não se entrega
Ciro garante que não se entrega
O presidente nacional do PDT um dos partidos que integram a Frente Trabalhista, com o PPS e o PTB-, Leonel Brizola, afirmou neste fim de semana que espera que o PT o procure para discutir o apoio de Ciro Gomes (PPS) a Lula (PT) já no primeiro turno. Sábado à noite, em Petrópolis, Brizola disse que gostaria de dar um um ''impulsozinho'' ao candidato do PT. Hoje, em São Cristóvão, ele diz que espera que as lideranças do PT o procurem.
- Se o Lula, o José Dirceu e o PT vierem explicar que precisam de nós para vencer no primeiro turno, essa reflexão adquire um outro peso de responsabilidade e vamos ter que pensar não uma vez, mas duas ou três vezes no que fazer - disse.
Brizola falava já dando como certa a ausência de Ciro no 2º turno. Em Petrópolis, Brizola acompanhou Ciro em um comício. Apesar de dizer que continuava fiel ao candidato, falou em apoio a Lula.
- O PT está dizendo, ''olha, eu me atiro n'água e atravesso esse rio''. É um rio caudaloso. Nós vamos pensar, juntamente com nosso candidato. Não assumiremos nenhuma atitude sem ele. Eu pessoalmente gostaria de dar um impulsozinho a ele [Lula]. Gostaria de ver o PT nadar, para ver se ele atravessa o rio.
Ontem, eles voltaram a se encontrar na feira de São Cristóvão. O pedetista, candidato ao Senado, não acompanhou Ciro durante toda a caminhada. Ele alegou que estava se sentindo mal por causa do calor e foi embora. Ciro, em seu discurso, pediu voto para o candidato a deputado federal Roberto Jefferson (PTB), mas não citou Brizola. O candidato do PPS não falou com os jornalistas ontem, mas disse, em breve discurso, que irá até o fim e disputará o segundo turno com Lula.
Mineiros são alvo final na campanha de José Serra
Sumido da campanha, FH subirá no palanque do candidato hoje, em Contagem
BRASÍLIA - Os tucanos apostam todas as fichas em Minas Gerais para levar a disputa presidencial ao segundo turno. Desde a semana passada, José Serra (PSDB) já vem dedicando atenção especial ao segundo maior colégio eleitoral do país, onde esteve quatro vezes nos últimos dias. O principal evento, no entanto, acontece hoje, num ato político em Contagem, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso - sumido da campanha tucana desde que pediu votos para Serra no início do horário eleitoral.
- Minas decidirá o cenário desta eleição. Se ocorrer em Minas o que estou imaginando que pode acontecer, nós teremos segundo turno entre Lula e José Serra - disse ontem o coordenador da campanha tucana, o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga. Mas ele mesmo admite, depois:
- Se Minas faltar, a situação é outra.
Por enquanto, a maioria dos mais de 12 milhões de eleitores mineiros prefere o Luiz Inácio Lula da Silva, por larga vantagem: 49% estão com ele, contra apenas 16% para Serra.
- Em Minas a posição do Lula é praticamente absoluta em todas as pesquisas para vitória no primeiro turno - comemorava no sábado o vice José Alencar.
Ainda assim, os tucanos não escondem a esperança de ''roubar'' eleitores de Lula na reta final. Para isso, apostam nas recentes viagens de Serra ao estado e em dois grandes cabos eleitorais - Aécio Neves e Fernando Henrique. Aécio, que deve ser eleito governador no primeiro turno, fez ontem comício ao lado de Serra em Conselheiro Lafaiete. Além disso, desde a última semana passou a colocar o presidenciável tucano em seu programa eleitoral.
Já Fernando Henrique agirá em duas frentes. Ainda hoje de manhã, encontra-se com o governador Itamar Franco na primeira visita oficial ao Estado desde que seu (agora) ex-desafeto assumiu, em 1999. Na pauta, a dívida mineira com a União e uma ajuda de R$ 250 milhões para o 13º salário de servidores.
Depois do encontro com Itamar - que apóia Aécio para o governo, mas Lula para a Presidência - FH tem almoço com tucanos e segue para um ato de apoio a Serra no Hotel Brasilton, em Contagem. A coordenação da campanha de Serra espera reunir 400 pessoas, entre prefeitos e lideranças políticas de Minas.
- O presidente é o maior eleitor do país e vai expressar sua visão sobre a eleição. É inegável que a manisfestação do presidente movimentará votos - diz Pimenta da Veiga.
Serra (PSDB) e sua vice, Rita Camata (PMDB), foram ontem ao Santuário do Terço Bizantino, em São Paulo, para assistir à missa celebrada pelo padre Marcelo Rossi.
Collor cita 'raposas felpudas'
MACEIÓ - O ex-presidente Fernando Collor de Mello (candidato ao governo de Alagoas) lembrou ontem seu afastamento da presidência da República, há dez anos.
- Ainda quando na minha memória o dia 29 de setembro de 1992, quando fui afastado da Presidência por puro preconceito contra o Nordeste. As ''raposas felpudas'' de Brasília e os tradicionais políticos do país não se conformaram com a vitória de um político que saiu de um pequeno estado do Nordeste e derrotou, com o apoio do povo, políticos tradicionais como Lula, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Aureliano Chaves, Afif Domingos, entre outros, que foram derrotado nas urnas em 1989.
Collor reuniu cerca de 1.500 pessoas na orla de Maceió e prometeu voltar à Presidência da República.
Lula: 'o jogo ainda não terminou'
BRASÍLIA - A seis dias da eleição as hostes petistas garantem, no anonimato, não ter dúvidas de que a fatura será fechada no primeiro turno. Ainda assim, Luiz Inácio Lula da Silva repete aonde vai que o jogo não terminou e que a militância não pode se acomodar. Nessa linha, desde ontem o PT começou a intensificar o trabalho da militância nas periferias das grandes cidades, colocando 200 mil cabos eleitorais no trabalho de corpo a corpo, além do trabalho que já vinha sendo desenvolvido nas 62 cidades com mais de 200 mil eleitores e da multiplicação do material de campanha - mais 30 milhões de adesivos pequenos e um milhão de adesivos.
A intensificação no trabalho dos militantes busca garantir a vitória já no próximo domingo. Segundo pesquisa Datafolha divulgada no sábado Lula precisa crescer apenas mais um ponto percentual para vencer no primeiro turno. Descontados os votos brancos e nulos, tem 49% dos votos válidos.
Ontem, Lula fez comício em São Paulo depois de se reunir com evangélicos em Santo André. E nesta manhã concede entrevista para - até o último número divulgado - 60 correspondentes da imprensa internacional, também na capital paulista. Com ele estará o principal conselheiro econômico do PT, Aloizio Mercadante. À tarde, Lula segue para Florianópolis (SC) e Porto Alegre (RS), onde realiza comícios.
O ponto alto da reta final de campanha acontece amanhã, em São Bernardo do Campo, no ABC, berço do movimento sindical e da ascensão de Lula ao cenário nacional.
- Ainda não está confirmado mas Lula deve fazer, amanhã, comício no Rio com Benedita da Silva - diz o assessor de imprensa Ricardo Kotscho.
A partir de quarta, Lula pretende descansar enquanto se prepara para o último debate do 1º turno, que acontece na quinta-feira, nos estúdios da Rede Globo, no Rio.
- Estou me preparando com muita tranquilidade. Sei que vai todo mundo para o debate a fim de bater nas costas do Lula. Se eles soubessem da minha tranquilidade, que nada vai me tirar do sério. Não adianta, que agora eu aprendi que para crescer e ganhar não tenho que falar mal dos outros, mas bem de mim e de nossas políticas administrativas - disse Lula.
Garotinho pede votos que iriam para PPS
O candidato do PSB à Presidência, Anthony Garotinho, fez um apelo ontem no Rio para que os eleitores de Ciro Gomes (PPS) votem nele no 1º turno. Apesar de dizer que não acredita na possibilidade de Ciro desistir, Garotinho acha que o candidato não tem mais chance de ir para o 2º turno.
- Ele agora não tem mais possibilidade de chegar ao segundo turno. Faltam poucos dias. Então peço que eles [eleitores de Ciro]reflitam e ajudem a consolidar a minha presença no segundo turno - afirmou Garotinho, durante passeata na orla de Copacabana (zona sul do Rio) ao lado da mulher Rosinha, candidata ao governo do Estado pelo PSB.
Garotinho foi questionado sobre o fato de uma possível renúncia de Ciro significar a vitória do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já no primeiro turno.
- Ele não vai desistir, confio nele. Agora, quero pedir que eleitores reflitam e vejam que quem tem chance hoje de derrotar o Serra e ir para o segundo turno é Garotinho.
Indecisos de baixa renda são decisivos
O último dos quatro vai decidir a eleição Na semana final da campanha, quando a mobilização tanto dos candidatos quanto dos eleitores se intensifica, como as pesquisas estão indicando, os votos ainda hoje do quarto colocado serão decisivos para o desfecho das eleições, seja no primeiro, seja no segundo turno. A queda em sequência de Ciro Gomes vai conduzir inevitavelmente a que sejam distribuídos para outros candidatos ou candidato. Por menor que venha a ser a transferência, pode levar Lula à maioria absoluta no próximo domingo, ou, se não for para ele, adiar o desfecho para 27 de outubro.
Pela última pesquisa do Datafolha, Ciro desceu 2 pontos; Lula subiu 1 ponto. José Serra, que, na primeira fase da campanha, havia afundado a candidatura Roseana Sarney, conseguiu na etapa seguinte abalar o ex-governador do Ceará. Mas os resultados não foram para si: foram para Lula. Daqui para os próximos dias, o que acontecerá? No meio de tudo, existe ainda pequena faixa de indecisos, que poderão se definir. Na maioria dos casos são pessoas que integram os grupos de menor renda, com predominância feminina.
Ciro Gomes, vale acentuar, foi o homem que derrotou a si mesmo, vitima espontânea das imagens que criou do burro, do negro, e da brincadeira quanto ao papel da mulher. Lembra Carlos Lacerda, que derrubou a si próprio na crise da posse de Negrão de Lima no governo da antiga Guanabara. Citei Lacerda, líder dramático da política brasileira, e explico aos mais jovens. Era o candidato da UDN à presidência da República na eleição adiada para 66. Em 65, seu candidato ao governo estadual, Flexa Ribeiro, foi derrotado por Negrão de Lima. Lacerda, que havia investido contra a posse de Vargas, de Juscelino Kubitschek, de João Goulart, lançou-se também contra a de Negrão. Explodiu a crise, o poder foi parar nas mãos do general Costa e Silva. Negrão assumiu, mas a candidatura Lacerda estilhaçou-se como o peso de papel que rola das mãos do Cidadão Kane, no filme insuperável de Orson Welles.
Dada a explicação do passado, voltemos ao presente. Abandonado por Brizola, que propõe até sua renuncia, a tendência de Ciro, agora, é a de buscar a melhor saída para o seu futuro. Talvez a oportunidade seja o debate da Globo, quinta-feira. Do outro lado da tela , no mínimo, 50 milhões de pessoas esperam os candidatos. Ciro irá ao encontro de Lula , assegurando sua vitória no primeiro turno? Ou tentará a perspectiva de um segundo confronto entre os dois mais votados, no qual não estará incluído?
A meta de Serra - claro - é que haja segundo turno entre ele e Lula. Não há duvida. Resta Garotinho, um brilhante personagem de si mesmo, um iluminado pelo voto. Só pode querer o segundo turno com a mesma intensidade que deseja ultrapassar Serra. Sua motivação é dupla: fixar sua imagem no cenário nacional e dar sustentação à candidatura de Rosinha Matheus ao governo do Rio de Janeiro, na hipótese de um turno final contra Benedita da Silva. Por isso , Garotinho não vai partir para cima de Lula , pois isso não lhe adianta nada. Vai partir para cima de Serra.
No debate de quinta-feira, quando se fecham as cortinas da campanha eleitoral, a grande incógnita é mesmo Ciro Gomes. O que fará no final da ópera? Quarto colocado nas pesquisas, longe, paradoxalmente torna-se o principal eleitor: pode fazer terminar tudo no primeiro turno; pode tentar, para os outros, o caminho do depois. No entanto, é possível que Lula mantenha o seu desempenho no nível que colocou até agora, e , com isso, o apoio adicional ainda que bem-vindo, como todos os apoios, não se torne essencial. Este é o panorama do país, quando o povo reacende suas esperanças. Sejam quais forem. Pois política, como me disse um dia Juscelino, é esperança.
Jovens têm menos participação na eleição
Cai pela metade o número de eleitores de 16 anos de idade
O primeiro voto ninguém esquece. A frase, inspirada em publicidade que vendia o primeiro sutiã e utilizada na campanha que incentivava os adolescentes a comparecer às urnas em 1989, primeira eleição que permitiu o voto aos 16 anos, tem de ser substituída. Ao primeiro voto, cada vez menos gente dá atenção.
Na eleição da novidade, a que levou Fernando Collor de Mello à Presidência da República, os eleitores de 16 anos foram mais de 1 milhão e meio. Hoje, eles não chegam a 650 mil. Uma participação de menos da metade, tanto em números absolutos quanto relativamente.
Há 13 anos, os sufragistas de primeira urna eram 1,82% do eleitorado total. Nestas eleições, minguaram para 0,55%.
A comparação do total de eleitores com a evolução demográfica revela dados ainda piores no que se refere ao interesse pelo cumprimento do dever cívico por parte dos jovens. Os brasileiros e brasileiras de 16 anos eram 3.002.474 em 1989 e são 3.431.694 agora em 2002, segundo projeção oficial do IBGE sobre dados do Censo 2000. Enquanto a população da idade do primeiro voto crescia, portanto, 14,29%, os que decidiram tornar-se eleitores diminuíram em 56,41%.
O desinteresse da juventude fica ainda mais flagrante se comparado com os dados gerais da população. De 1989 até agora o aumento no número de habitantes foi de 20,26%. O eleitorado como um todo, somando-se todas as faixas etárias, cresceu mais que o dobro: 40, 44%, tendo a participação do número de eleitores na população aumentado de 55,66% em 1989 para 66% nestas eleições de agora.
Uma das explicações para o desinteresse dos jovens pela eleição pode ser o baixo nível de conhecimento de nossa história recente. Em 1999, com a reabertura do caso Riocentro, reeditei o livro ''Bomba no Riocentro'', sobre a participação da imprensa no episódio que acabou se tornando um marco na redemocratização do país. Percebi que, entre os de menor idade, poucos recordavam a existência quanto mais a importância da explosão das bombas que acabaram ferindo um capitão e matando um sargento do exército no estacionamento do centro de convenções da Zona Oeste, numa noite em que um show organizado pela oposição ao regime militar comemorava o primeiro de maio.
Decidi investigar o nível de conhecimento dos jovens sobre a história recente do país e, para isso, foi feita uma pesquisa, na Universidade Gama Filho (UGF) e através do portal Terra, com mais de mil menores de 21 anos. O teste continha questões relativas à evolução tecnológica e perguntas sobre a vida econômica, política e social do país, tendo como base o ano de explosão das bombas, 1981.
Nenhum dos rapazes e moças esqueceu qual joguinho eletrônico já existia. Mas exatos 20% não sabiam quem era o Presidente da República.
Mais de 40% se enganaram redondamente sobre o direito ao voto direto naquela época e, talvez por isso mesmo, uma triste percentagem de 18,1% respondeu que o fato de se viver em uma ditadura ou em uma democracia ''não interfere em nada na vida pessoal de cada um - é possível ser feliz individualmente, independentemente do regime político''.
Artigos
Voto como missão
Maria Clara L. Bingemer
A poucos dias das eleições para a Presidência da República, não há tema senão esse que possa ocupar-nos a mente e o coração. Olhamos e consideramos, então, os candidatos e suas plataformas, perguntando-nos: qual deles preenche mais os requisitos que esperamos de um presidente? Qual poderá ajudar mais a que nosso amado e tão sofrido país veja tempos um pouco melhores? Em qual poderemos mais efetivamente confiar em que ajudará nosso povo a viver com mais dignidade, sem enganos e promessas jamais cumpridas? Qual deles será o mais comprometido em construir a justiça e o direito? Qual dessas plataformas de governo representa um projeto de nação que nos entusiasma e nos enche de esperança?
O ato cívico de votar interpela nossa consciência cidadã, nosso patriotismo, nossa identidade de brasileiros. Para os que temos Jesus Cristo e seu Evangelho como sentido da vida, interpela também nossa fé. O gesto de votar faz parte de nossa identidade cristã e do compromisso com tudo aquilo em que acreditamos.
Em outubro a Igreja Católica comemora o mês das missões. A comunidade eclesial como um todo é então convocada a celebrar e conscientizar-se mais profundamente de que a Igreja existe como enviada ao mundo para anunciar e fazer acontecer o sonho de Deus: a justiça, a paz, a fraternidade.
Missão significa envio. O missionário é alguém enviado como portador de um encargo importante. O fato destas eleições terem lugar no mês das missões carrega-as de profunda significação e não pode deixar de provocar-nos uma atenta reflexão e um sério discernimento. Estamos todos enviados a votar segundo os critérios que nossa fé nos inspira.
É coisa sabida que no judeu-cristianismo a fé está intimamente relacionada com o agir no mundo e na polis. E isto acontece desde os primórdios da historia do povo de Israel. Deus, em sua Revelação, mostra-se como Palavra atuante e eficaz, que age sobre a realidade, que ''trabalha'' incessantemente em meio à criação. O Deus da fé cristã é, portanto, Alguém que não cessa de trabalhar e agir. E sua práxis tem como destinatário o ser humano.
Todo o agir humano será, portanto, resultante e correspondente desse agir divino. E o compromisso e a práxis social e política não fogem a essa regra. Na verdade, a fé e a experiência de Deus para a fé cristã estão longe de ser um fruir impune das delícias e maravilhas da contemplação dos mistérios eternos. Ao contrário, consistem na consciência de saber-se enviados em missão ao mundo, e em assumir a própria responsabilidade em relação àqueles e àquelas que, desde o seio da realidade desfigurada e injusta, são excluídos das benesses do progresso e clamam por justiça e compaixão.
Fé e política, portanto, demonstram ter uma clara e evidente possibilidade de intersecção. Encontrar a Deus é inseparável de encontrar ao mesmo tempo o mundo e os outros.
Nestas eleições presidenciais, portanto, podemos sentir-nos enviados a votar com fé e lucidez. O discernimento sério feito diante de Deus e com a comunidade nos ajudará a votar conscientemente, procurando que nosso voto busque não nossos próprios interesses ou responda a secretas alianças levemente iníquas com indivíduos ou ideologias.
Após assim discernir e então escolher, encaminhemo-nos às seções de votação e às urnas.
Colunistas
COISAS DA POLÍTICA – Dora Kramer
Informação, opinião e eleições
Assim como os campeonatos de futebol, eleições têm o poder de deixar sensibilíssimos até espíritos mais tranquilos. Se campanhas eleitorais já não abrigam bem certas racionalidades, o concurso público para presidente da República provoca um choque permanente entre o objetivo e o subjetivo.
No que diz respeito ao exercício da comunicação, os períodos pré-eleitorais prestam-se a toda sorte de confusão entre as necessidades objetivas de quem produz as notícias, opiniões ou interpretações e os desejos subjetivos dos candidatos e suas respectivas torcidas, aí incluídos eleitores e correligionários.
Qualquer coisa que se diga por mais lógica e atinente aos fatos que seja _ é tida como um inequívoco ''sinal'' de engajamento. Isso na melhor das hipóteses, porque habitualmente atira-se o autor da informação, interpretação ou opinião à vala comum dos ''vendidos''.
Não obstante o desconforto que provocam essas reações, é preciso compreendê-las como falta de treino democrático. A sociedade e os meios de comunicação no Brasil ainda não estão suficientemente familiarizados com o contraditório.
De um lado, o leitor, telespectador ou ouvinte cobra isenção, mas o faz sob a ótica de suas preferências individuais. Não raro esquecendo-se de que uma das formas mais cínicas de cristalizar desigualdades é conferir suposta igualdade ao que é diferente.
De outro, os veículos tentam escapar dessa cobrança servindo produtos pasteurizados e também muitas vezes em prejuízo da transparência de posições.
Em democracias avançadas, as empresas jornalísticas costumam definir claramente, em editoriais, suas preferências por este ou aquele candidato. Por aqui, a prática já foi mais comum.
Hoje, de tão satanizada, tornou-se exceção. É ''feio'' assumir posição. ''Bonito'' é fingir-se de morto.
Ora, tanto os cidadãos comuns como os políticos, devem se sentir muito mais tranquilos e bem servidos no quesito informação, diante do jornal ou revista que manifesta com clareza sua opinião.
Isso obriga o veículo a ser bastante mais cuidadoso no trato das notícias, uma vez que o leitor poderá muito facilmente perceber se naquela determinada publicação ou emissora, cuja posição é conhecida, está havendo ou não equanimidade nos relatos meramente informativos.
Mas como tudo por aqui se faz na base das meias verdades, nossa tendência ainda é formar um acordo tácito segundo o qual as direções de empresas jornalísticas fingem que não têm suas preferências e o público dedica-se a um jogo superficial de suspeições fazendo de conta que está entendendo tudo.
Muito melhor seria se não tivesse pudor de exercer o próprio discernimento e capacidade de diferenciar o que seja comunicação em suas várias formas, daquilo que é a manipulação de informação.
Não se aperfeiçoa a democracia criminalizando o exercício da opinião. Inclusive porque apenas a exposição nítida de posições dá condições ao leitor, ouvinte ou telespectador de perceber onde, como e quando, se localizam as desonestidades.
Estas sim é que não devem nem podem ser aceitas em hipótese alguma.
As outras, as pertencentes ao campo da transparência, dispensam manifestações de autoritarismo travestidas de cobranças à isenção. Basta que o cidadão que discorde delas passe a não consumi-las ou então exponha sua discordância com maturidade e civilidade.
O ideal mesmo é que uma pessoa razoavelmente esclarecida forme com segurança e tranquilidade seus juízos políticos a partir do contato com diferentes correntes de opinião.
Nunca é demais repetir uma obviedade, dada a resistência à liberdade de pensamento que ainda existe entre nós: pela atual Constituição comete crime não quem emite opinião, mas quem tenta cerceá-la.
Seja pelo motivo que for.
À flor da pele
Andaram mesmo esticados os nervos de Nizan Guanaes, responsável pelo marketing da campanha de José Serra. Mas o alvo da irritação do publicitário não foi o candidato como se divulgou.
Foram os políticos e o presidente Fernando Henrique. Os primeiros, porque atribuem agora o desempenho atual de Serra à estratégia de ataque a Ciro Gomes. Dizem que Nizan errou, mas quando Ciro subiu nas pesquisas, os políticos defenderam o endurecimento do jogo.
Com FH, Nizan irritou-se por causa da declaração de que diplo ma não era importante. Com isso, teria ajudado a desviar o foco da discussão, que era a contradição entre a exigência de diploma para funcionários em prefeituras do PT, enquanto o candidato a presidente não tem curso superior.
Editorial
BALÃO DE ENSAIO
IRAQUE X EUA
A proposta lançada sexta-feira por Egito e Arábia Saudita de que o ditador iraquiano Saddam Hussein parta para o ''exílio voluntário'', abrindo assim caminho para afastar a ameaça de guerra, é a melhor idéia surgida ultimamente. Com a insistência do presidente George Bush de resolver o contencioso com o Iraque pela derrubada do ditador, a tensão no Oriente Médio aumenta vertiginosamente.
O recuo iraquiano com relação às inspeções sobre os armamentos de destruição em massa não foi suficiente para silenciar os tambores da guerra.
Apenas adiou o problema. O desentendimento perdura desde 1997, quando Saddam Hussein expulsou os americanos da comissão da ONU sob alegação de que a equipe tinha excessiva participação dos EUA. Sem inspeções não houve modificação do status quo: o embargo decorrente da derrota do Iraque após o anschluss (anexação) do Kuwait continuou, acarretando para o Iraque problemas de ordem econômica com repercussões sociais.
Perante a ONU, Saddam Hussein se comprometeu a permitir as inspeções sem condições, mas o histórico dos últimos anos mostra que ele é o primeiro a não cumprir as próprias promessas.
Um dia antes da proposta egípcio-saudita - que pode ser um balão de ensaio, ou não - os aviões militares americanos e britânicos bombardearam o aeroporto civil de Basora, na zona de exclusão, com o objetivo de destruir radares. A zona de exclusão foi criada pela ONU para impedir os constantes morticínios das etnias curda (ao Norte) e xiita (ao Sul) logo após a Guerra do Golfo. O governo reprimia qualquer oposição com extrema violência, repetindo o extermínio de 5 mil civis curdos na aldeia de Halabia, em 1988, com armas químicas proibidas por convenção internacional. O bombardeio de quinta-feira em Basora cheira a aperitivo de guerra total.
O problema do Iraque é Saddam Hussein. Desde que ele deu o golpe, em 1979, o país se voltou para a guerra. Um ano depois, atacou o Irã, armado pelos EUA, desencadeando guerra de atrito de oito anos que expirou por exaustão com 1 milhão de mortos. Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1990. Quando fracassaram as gestões para a libertação do Kuwait, um poderoso exército de 30 nações iniciou a Operação Tempestade no Deserto, matando mais de 100 mil soldados iraquianos e uns 7 mil civis.
Só com o afastamento de Saddam Hussein o Iraque retomará seu destino de nação rica, interrompido pela megalomania de um ditador que manietou a população a serviço de objetivos pessoais.
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09/30/2002
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