Ciro participa de ceia indigesta
Ciro participa de ceia indigesta
Candidato é revistado ao chegar em jantar com empresários. 'Eu me senti como Celso Lafer', disse
BRASÍLIA - Em jantar terça-feira à noite, o candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, foi apresentado, em São Paulo, para uma significativa parte do empresariado nacional. Os 40 industriais e investidores presentes saíram convencidos de que o caráter explosivo de Ciro não é apenas fama. Ao fim do encontro, o candidato irritou-se com um dos presentes, que perguntou sobre sua falta de credibilidade no mercado. “Ele ficou possesso e respondeu que nunca tinha quebrado um contrato na vida. Falou que não seria domesticado”, contou um dos convidados.
A reação de Ciro criou constrangimento. Ricardo Steinbruch, do Grupo Vicunha, dono da casa, sugeriu o término da reunião imediatamente. Mas Ciro continuou falando. Para piorar a situação, a namorada do presidenciável, Patrícia Pillar, saiu em defesa do candidato. ''Por que o senhor insiste em falar em mercado?'', perguntou.
O jantar foi anunciado como sendo para os principais nomes do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. ''Não foi bem assim'', contou um dos presentes. Não havia empresários dos setores automotivo ou eletroeletrônico, que geralmente freqüentam reuniões políticas com presidenciáveis. Do setor financeiro, estavam os irmãos Josef e Moisés Safra, o presidente do Santander, Miguel Jorge e o conselheiro do Unibanco, Israel Vainboim. A resistência que empresários têm a Ciro não justificaria a pequena representatividade da reunião. ''Duvido que, a esta altura do campeonato, com Ciro colado em Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) os empresários deixem de conversar por resistência. É questão de sobrevivência'', disse outro empresário.
O jantar foi organizado por Steinbruch e pelo deputado Emerson Kapaz (PPS-SP). O jardim da casa foi transformado em auditório, quando depois do jantar, as cadeiras foram enfileiradas. Ciro falou durante 40 minutos sobre aspectos econômicos de seu plano de governo e respondeu a perguntas dos convidados. ''A globalização é como o Sol, no entanto me protejo dele com protetor solar e hidratante'', afirmou Ciro.
Na hora de discutir aumento de salários, Ciro irritou-se com o presidente da Estrela, Carlos Juick. O empresário disse não poder oferecer altos salários por causa da competição com os brinquedos produzidos na China. ''Imagine! Como a questão de salário pode ser um problema?'', perguntou, Ciro, irônico.
O rol de constrangimentos do jantar começou no início da noite. Para entrar na casa, Ciro teve de passar por uma cabine blindada para ser revistado. ''Eu me senti como Celso Lafer'', afirmou o candidato, referindo-se ao chanceler brasileiro que aceitou tirar os sapatos para que eles fossem examinados pela polícia num aeroporto dos Estados Unidos.
Itamar se une a Lula
Governador planeja comícios com petista
BELO HORIZONTE - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (sem partido), enfim, decidiu entrar oficialmente na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência pelo PT. Nesta sexta-feira, os dois participam de um ato público em favor da Petrobras, no Rio. No mesmo dia, caminham lado a lado no Centro de Belo Horizonte.
Ambos programam comícios em Minas Gerais. No sábado, a coordenação da campanha petista começa a fixar outdoors, com a fotos de Itamar e Lula e as frases ''prefiro Lula'', com a assinatura ''Itamar Franco, governador de Minas Gerais e ex-presidente''.
Estão previstas cerca de mil placas, que serão espalhadas nas principais capitais do país. Só em Minas Gerais serão instalados 250 outdoors. Para São Paulo e Rio, a quantidade ainda não foi definida.
A participação do governador mineiro na campanha petista foi definida, semana passada, entre Itamar e Alexandre Dupeyrat, membro do comitê petista por indicação de Franco.
De acordo com o coordenador da campanha de Lula em Minas, Antônio Carlos Pereira, o objetivo das peças publicitárias é reverter a imagem que o eleitor tem de Lula como um operário. A idéia é mostrar o apoio ao candidato de um ex-presidente da República e governador do segundo maior colégio eleitoral do país.
No entanto, para o governo de Minas Gerais, Itamar sequer pensa em aparecer ao lado do candidato petista, Nilmário de Miranda. No Estado, Itamar apóia o candidato do PSDB, Aécio Neves.
Ontem, Luiz Inácio fez campanha em Foz do Iguaçu e Londrina, no Paraná, onde proferiu palestras para empresários e militantes sobre seu programa de governo. Em Londrina, Lula visitou projetos sociais.
Voto de Garotinho no 2º turno é do PT
Apoio foi aplaudido na UnB
BRASÍLIA - ''Por duas vezes, eu votei em Lula. Ele não precisa ter dúvidas. A dúvida é se ele vai votar em mim''. Foi assim que, ontem, o candidato do PSB, Anthony Garotinho, anunciou seu voto ao concorrente petista, no segundo turno, durante palestra na Universidade de Brasília. Garotinho foi aplaudido e aproveitou para criticar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
''Os outros candidatos moderaram o discurso sobre o acordo com o FMI. Esse acordo espúrio que o governo acaba de fechar'', disparou, tentando mostrar-se como o único candidato de oposição. Em seguida, emendou na teoria de que o empréstimo de US$ 30 bilhões será usado para pressionar o Brasil a aceitar a Área de Livre Comércio das Américas. ''O FMI libera o dinheiro, mas em contrapartida o Brasil terá que aderir à Alca''.
Garotinho, que também fez campanha em Goiânia e Anápolis, ontem, garantiu que suas opiniões serão levadas à reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso, na próxima semana. ''Vamos lá, segunda-feira, fazer as nossas colocações. Estou muito preocupado com este acordo, sobretudo, com relação às reservas do país. Não sou radical. Mas não posso é hipotecar apoio a um acordo que discordo em vários pontos'', disse.
O presidente, no entanto, não foi poupado nos discursos. Segundo Garotinho, FH e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, vendem ilusão de que há estabilidade. ''Se alguém apresentar um lugar do mundo onde o receituário do FMI deu certo, eu retiro a minha candidatura'', desafiou.
Petista ou terrorista?
Analista dos EUA diz que Lula é ligado a radicais
Um conhecido analista internacional americano afirmou recentemente num artigo que o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, é ''um radical pró-Fidel Castro que tem extensas ligações com o terrorismo internacional''. O artigo foi publicado há dias pelo jornal conservador Washington Times e é assinado por Constantine Menges, agente da CIA (o serviço secreto dos EUA) entre 1981 e 1983, ex-membro do Conselho de Segurança Nacional e assessor direto do presidente Ronald Reagan para América Latina.
''Acho ótimo que vocês finalmente estejam debatendo a questão. A imprensa ignorou durante muito tempo as ligações do senhor Silva com o terrorismo'', diz ele ao Jornal do Brasil. A ligação seria o Fórum de São Paulo, que reúne organizações de esquerda de todo mundo. Segundo Menges, Lula já disse querer fazer do Brasil uma potência nuclear, fazendo do país a terceira ponta de um ''eixo do mal latino'', junto com Cuba e Venezuela. Faltam provas às alegações de Menges e, por sua parte, o PT afirmou que o comentários não merecem resposta.
Mas a opinião de Menges é levada a sério nos EUA: ele já foi convidado diversas vezes para testemunhar no Congresso americano, que freqüentemente debate medidas que afetam - e muito - o Brasil.
Tucanos comemoram um ponto no Ibope
Pimenta prevê ''momentos adversos'' para os adversários
BRASÍLIA - Um único ponto de subida, cravado na última pes quisa do Ibope, e pronto: o comitê de campanha do candidato José Serra (PSDB), fez um carnaval. Usar como estímulo eleitoral um único ponto percentual onde o tucano aparece tecnicamente empatado com Anthony Garotinho (PSB) é a nova estratégia do PSDB. ''Os adversários começam a perder fôlego'', anuncia o coordenador da campanha, deputado Pimenta da Veiga (PSDB-MG). ''Temos sinais claros de que as demais candidaturas vão começar a passar por momentos adversos.''
Na pesquisa do Ibope, Serra passou de 11% para 12%. Esse crescimento, dentro da margem de erro, foi interpretado por Pimenta da Veiga como o start (início, em inglês) da virada do candidato tucano a caminho do Palácio do Planalto. A única concessão permitida pelo deputado foi admitir que Serra ''chegará apertado ao segundo turno''. Pimenta diz que, agora, o PSDB está confiante. ''Só não será por larga margem de votos.''
Dentro da campanha serrista se fala, incessantemente, sobre um certo ''novo ambiente'' eleitoral, uma espécie de prenúncio que irá facilitar a performance do tucano durante o programa eleitoral gratuito, que começa na próxima terça-feira, dia 20. ''Não vamos nos perder em denuncismos'', diz Pimenta. Ontem, ele adiantou detalhes dos programas gravados esta semana para o horário eleitoral gratuito. Avisou que vai descartar ataques a Ciro Gomes.
De acordo com Pimenta da Veiga, o primeiro programa será ''bonito e propositivo''. Mas alerta: se houver ataques, serão respondidos. Ele confirmou que o presidente Fernando Henrique aparecerá logo no primeiro programa. ''Tenho razões para estar otimista como nunca estive'', disse Pimenta.
''O programa virá num momento positivo, quando estaremos criando um ambiente para uma forte reação à candidatura'', exagerou o coordenador do PSDB. Para reverter a posição desfavorável de Serra, o comando de campanha pretende atingir os indecisos. Para Pimenta, as lideranças regionais voltarão a ''arregaçar as mangas'' assim que Serra ''embicar'' nas pesquisas.
Presidente manda recado a candidatos
BRASÍLIA - Em entrevista à TV Globo, ontem, o presidente Fernando Henrique Cardoso mandou um recado aos quatro principais candidatos à Presidência, com os quais irá se reunir na próxima segunda-feira. Informou que pretende fazer a reforma tributária ainda este ano. E que dará conhecimento dos detalhes confidenciais do novo acordo com o FMI. Para isso, exigirá ''responsabilidade patriótica'' de cada um.
''Não tem nada escondido. Se está em conformidade com o acordo do FMI, diga. Se não está, diga também. Mas diga por que não. Eu vou dar as razões por que ele é bom'', disse FH. Segundo ele, uma vantagem do acordo é que, a cada três meses, poderá haver revisão das metas.
O presidente disse que, pela primeira vez, um governante em fim de mandato faz questão de preparar terreno para o sucessor. Para permitir maior visibilidade internacional do futuro governo a ser eleito, o presidente vai cobrar dos candidatos uma nova postura. ''Só quero que entendam melhor esse jogo e sejam responsáveis'', disse.
Lula e Ciro de olho na FAB
Candidatos avisam que licitação para caças será revista se Embraer não vencer
SÃO PAULO - Líderes nas pesquisas eleitorais da sucessão presidencial, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e o da Frente Trabalhista, Ciro Gomes (PPS), vão rever a licitação aberta pela Aeronáutica para a compra de 12 caças supersônicos que substituirão os obsoletos Mirage IIIEbr baseados em Anápolis (GO). O resultado deve ser divulgado pelo Conselho de Defesa Nacional até semana que vem, mas há indícios que o jato sueco-britânico Gripen será o escolhido. Tanto o petista quanto Ciro deixaram claro ontem que, se eleitos, preferem que a operação, de US$700 milhões, seja entregue a uma firma nacional, no caso a Embraer (associada à Dassault, que faz os Mirage)
Segundo o porta-voz de Lula, o candidato não aceita que uma disputa estratégica tenha como resultado a vitória estrangeira. ''Não se pode submeter uma empresa nacional de defesa a uma concorrência internacional. Se houver prejuízos à indústria brasileira vamos rever'', afirmou. A escolha do PT é clara: ''cabe ao governo definir à Embraer que atenda às exigências de renovação da FAB'', completou André Singer.
No lado da Frente Trabalhista a garantia de que a licitação atual pode cair no vazio veio do secretário-geral do PTB, deputado Luiz Antônio Fleury Filho (SP), mas o candidato já mencionou sua opinião em três ocasiões recentemente, em Bauru (SP), Rio e São Paulo. ''Ciro me disse que se já fosse presidente, nem haveria licitação. A Aeronáutica encomendaria o caça à Embraer'', revelou. ''Agora ele planeja reexaminar todo o assunto, e também vai querer saber do presidente Fernando Henrique, segunda-feira, se o acordo com o FMI foi obtido após o governo ter garantido que compraria o caça sueco, que tem componentes americanos''.
A proposta da Embraer com os Mirage 2000 é uma das mais fortes, mas o lobby dos suecos ganhou força. O país promete investir US$ 2 bilhões no Brasil. A contrapartida comercial teria dado ao comandante da Aeronáutica, Carlos Baptista, a justificativa pelo Gripen.
Porém, caso Lula e Ciro refaçam o processo, a conta será mais salgada do que imaginbam. A FAB tem US$ 700 milhões para comprar os caças, mas um lote do Mirage custa, sem armas, US$ 788 milhões. Com elas, o preço vai a US$ 1,28 bilhão. A promessa da Embraer e construí-lo em São José dos Campos não é realizável. ''Nem ela nem qualquer outra no mundo poderia se lançar à produção para fazer 12 unidades'', explica o especialista Guy Larraín. Analista da empresa européia Euroconsult, o franco chileno Larraín se espanta: ''é impressionante como as autoridades do Brasil não entenderam que, para a concorrência, a Dassault não fará nada mais do que entregar 12 caças, sem a montagem de um só parafuso no Brasil''.
Artigos
O poço é fundo
José Carlos Azevedo
É mau gosto criticar um governo em fim de mandato, mas o que se pretende é apenas pedir ao futuro presidente da República que explique ao assumir, sem ''economês'', o que aconteceu nesse último decênio e meio, em particular nesses últimos oito anos. É que fere o bom senso admitir que o atual governo houvesse encontrado uma dívida externa e interna razoável, e a deixe ao seu sucessor muito maior; ao leigo, custa entender que as privatizações tivessem sido feitas para abatê-la e melhorar os serviços públicos, mas ela crescesse e os serviços não melhorassem. Nesse período, não houve uma única obra de vulto.
Em 1979, a dívida externa era de US$ 50 bilhões e chegou a US$ 85 bilhões em 1985, em parte devido ao aumento dos juros, de 7,5% para 21%. Mas entre 1964 e 1985 foram construídas hidroelétricas, incluindo Itaipu; construídos metrôs, pontes, ferrovias, rodovias, siderúrgicas, portos e usinas nucleares, e foram criadas instituições como a Embrapa, as Teles, as Eletros, centros de pesquisa e muitas universidades públicas; foram ampliados o Correio, a indústria naval e assim por diante. Se para nada disso contribuiu o dinheiro emprestado, pelo menos a economia brasileira saiu do vergonhoso 48º lugar, em que se encontrava em 1964, para o oitavo, 10 ou 15 anos depois.
A indústria naval, por exemplo, vital para um país com tamanha extensão marítima, garantia 39.155 empregos diretos em 1979 e mais 200 mil indiretos, mas em 1996 restaram 5.562 empregos diretos; a tonelagem entregue caiu proporcionalmente e hoje representa uns 8% da capacidade instalada. O programa nuclear sumiu, por burrice e subserviência, mas graças à Marinha do Brasil já se obtém urânio 235 industrialmente, pelo processo do jet nozzle por ela desenvolvido com seus próprios recursos. Por esse motivo, o Brasil não ficará mais dependent e ao precisar de reatores nucleares, e isso ocorrerá em curto prazo; sem essa tecnologia, que lhe permite exportar urânio enriquecido, continuaríamos a depender do Canadá e de países europeus.
Há quem diga que economia é questão de corrigir rumo: se vai mal, muda-se para outra. Pode ser assim, mas o problema não é esse. O problema grave do Brasil não é a situação econômica, são as suas perspectivas, pois é imenso e crescente o hiato científico, tecnológico, econômico e militar entre as nações desenvolvidas e esta Terra dos Papagaios, o que se deve à péssima educação neste país. No período anterior aos últimos 15 anos, além do aumento de matrículas, a educação pública e a particular cresceram e esta gera hoje uns 10% do PIB e tem uns 70% dos alunos do curso superior; mas o ensino público federal minguou: no nível superior, tem uns 20% dos alunos, quase nada nos outros, e nem se fale da qualidade do ensino.
O próximo governo terá problemas gravíssimos a resolver em curto prazo, para não se inviabilizar, e o setor econômico será menos difícil se não inventar pirotecnias e compreender que economia não é causa, é conseqüência e depende de outros fatores, em particular da educação, onde estão os problemas que arrastam o Brasil para o fundo do poço; há tudo por fazer e será muito difícil corrigir. Entretanto, sem aprimorar a educação, continuaremos a ser pedintes internacionais. Quando a antiga URSS lançou o Sputnik, liderando o lançamento de satélites, a resposta dos Estados Unidos foi investir no ensino de ciências; no Brasil, a biblioteca básica do MEC não tem um livro de matemática nem de ciências.
Por falar em poço, Alice, a daquele outro país das maravilhas, levou uma eternidade caindo no poço do coelho e via tudo o que acontecia; ''ou o poço era muito fundo ou ela caía muito devagar'', pensou. Se não houver mudanças essenciais na educação brasileira, de mentalidade, em particular, este nosso país das maravilhas irá para o fundo do poço, que é muito fundo e nele caímos muito depressa. Basta ver que já estamos no 13º lugar, na economia mundial.
Colunistas
COISAS DA POLÍTICA
A transição de um novo Brasil
Os candidatos a presidente da República irão ao encontro do presidente Fernando Henrique Cardoso na segunda-feira, mas não é certo que tenham, de fato, entendido o sentido do convite. Ou, então, entenderam mas acharam por bem dedicarem-se a um certo esperneio apenas por honra da firma.
Em respeito à inteligência de cada um deles, desconsideremos os ''avisos''. Lula, de que não dividirá o ônus da crise; Ciro, de que não será ''domesticado'', Garotinho, de que não se presta ao papel de mero avalista.
São reducionismos muito semelhantes às reclamações dos tucanos a respeito dos malefícios do encontro para a candidatura de José Serra. De acordo com esse raciocínio, o presidente da República não deveria reconhecer a hipótese de a oposição vencer as eleições. Daí a negar que a terra é redonda seria um passo.
Tirando os delírios, o resto todo vale: acalmar mercados, atender a uma sugestão do FMI, compromissar o futuro eleito e as forças em disputa com o cumprimento das metas do acordo; quaisquer dessas razões servem para explicar parte do evento.
Mas não a totalidade do acontecimento.
Esta guarda relação não apenas com a postura, necessidades e circunstâncias do governo ou dos candidatos a comandá-lo a partir de janeiro próximo. Trata-se principalmente de um procedimento atinente às normas não escritas que movem uma nação - sem distinção entre governantes e governados.
Em duas palavras, é o que se chama de mudança de mentalidade. Coisa que não se faz da noite para o dia e que o Brasil vem fazendo aos poucos, naquele nosso ritmo devagar - desta vez, queira Deus - e sempre.
Pactos por aqui costumam ser malvistos, dado o desgaste provocado pelo mau, e excessivo, uso do conceito em passado recente. Talvez porque os espíritos não estivessem maduros para tal, fato é que pacto virou quase sinônimo de comissão (no bom sentido, é claro). Quando não se sabia o que fazer ou não se queria fazer nada, propunha-se um pacto ou formava-se uma comissão.
Pois sem que tivesse havido cerimônia de batismo, eis que estamos finalmente a pactuar uma transição de governo de forma tão civilizada quanto inédita.
O encontro do presidente com os candidatos é parte desse movimento, que inclui a existência de um grupo encarregado de desvendar o mapa da mina à próxima equipe governamental, a determinação da elaboração de relatórios detalhados sobre as urgências e os projetos em andamento de cada setor, e um código de conduta cuja regra máxima é a de que todo servidor público é obrigado a tornar disponíveis suas informações de trabalho.
Não seria esse um comportamento natural e corriqueiro que dispensaria maiores exaltações? Com toda certeza deveria ser e, sem dúvida, o será desta experiência em diante.
E para que se dê a ela o devido valor, vejamos dois ou três exemplos de transições. O último presidente do regime militar, João Figueiredo, saiu do palácio pela porta dos fundos sem passar a faixa presidencial ao sucessor, José Sarney.
Cinco anos depois foi sucedido por Fernando Collor, que passou a campanha chamando o presidente da República de ''batedor de carteira da história''.
Desnecessário dizer que a transição não se deu em ambiente dos mais civilizados.
Defenestrado do poder, Fernando Collor de lá saiu fazendo cara de mau, deixando a Itamar Franco e ao Congresso a tarefa de administrar a transição no dia-a-dia, por mais de dois anos.
Recentemente, a passagem do governo do Rio de Janeiro de Anthony Garotinho para Benedita da Silva dispensa apresentações no quesito ausência de espírito público.
O encontro de segunda-feira faz parte de um processo de transição em que, pela primeira vez, há uma inequívoca preocupação com soluções de continuidade. O acordo do FMI implica a liberação de 80% do dinheiro no próximo governo.
O presidente evidentemente perguntará aos candidatos se lhes interessa dispor dos recursos.
Ninguém será instado a assinar coisa alguma - prerrogativa exclusiva do atual governo, nem solicitado a fazer declarações de apoio incondicional. Cada qual sabe de si, mas o importante nessa história toda é que perde terreno no Brasil a mentalidade de que, ante a existência de divergências políticas, o que vale é a lei do cada um por si.
Como convém
É saborosa, mas fantasiosa, a versão de que FH receberá um candidato de cada vez para evitar juntar Serra e Ciro na mesma sala.
Uma reunião conjunta seria descortês e inócua. Entre eles estará o próximo presidente, o que por si só justifica a deferência da conversa particular. Nada mais inadequado do que obrigá-los a compartilhar impressões com os adversários.
Para isso existem os debates públicos.
Editorial
ATO DE ESTADISTA
Os quatro candidatos à sucessão presidencial, com presença firmada nas pesquisas de opinião, foram convidados para encontros individuais com o presidente da República. E, como sinal de novos tempos na política brasileira, aceitaram comparecer ao Palácio do Planalto, segunda-feira, dia 19.
O convite oficial e a resposta afirmativa, mais do que formalidades, valem como sinal de maturidade, tanto da parte do governo como dos candidatos. O candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, esvaziou de qualquer constrangimento a iniciativa oficial declarando que convite de presidente da República não se recusa. Ficou para trás o tempo em que o exercício da desconfiança atribuía a convite para encontro de candidatos com governantes elemento de suspeita. Como de resto, esta eleiçã o presidencial não abrigou, em nenhum momento, sentido oculto como ocorreu em todas as sucessões sob a Constituição de 1946, quando a campanha eleitoral trazia implícita a dúvida sobre a vitória ou a posse de algum candidato. Políticos não ousam mais deferir às Forças Armadas responsabilidade corretiva (de aceitar ou rejeitar) a vontade eleitoral expressa pelas urnas.
É, portanto, um novo Brasil que vive na plenitude o direito do voto com a certeza de que a vontade dos brasileiros é soberana. O despertar da responsabilidade eqüitativa, de eleitores e eleitos, deve ao presidente Fernando Henrique a contribuição decisiva de entender o exercício da oposição como responsabilidade simétrica ao exercício do poder. A rotatividade do exercício político não é obrigação mas manifestação de normalidade institucional. A República encontrou, com a estabilidade financeira e o controle sobre a inflação, as coordenadas de sua evolução histórica, sem os sobressaltos que abalaram a História do Brasil com golpes e crises que marcaram o século 20.
O encontro do presidente da República com cada um dos candidatos com sustentação nas pesquisas será o marco de um hábito que dará à estabilidade política peso democrático definitivo: cada governo que se encerra tem obrigação de facilitar aos novos ocupantes do poder, assim que as urnas os designarem, acessso aos segredos e às necessidades de quem vai assumir a responsabilidade.
Nesse sentido, a razão do convite a Ciro Gomes, Luiz Inácio Lula da Silva, José Serra e Anthony Garotinho é o traço de união entre o atual e o futuro governo. O acordo com o FMI foi, e não podia deixar de ser, responsabilidade do governo Fernando Henrique mas implica o compromisso da nação brasileira. A maior parte do empréstimo atenderá às necessidades do futuro governo. Nada mais normal que o presidente queira dar ciência, nos seus pormenores técnicos, sobre a negociação e o espírito de urgência que conduziu o compromisso firmado.
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08/15/2002
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