Ciro reúne-se com militares
Ciro reúne-se com militares
O candidato do PPS à Presidência da República, Ciro Gomes, passou duas horas reunido na última sexta-feira com dois oficiais quatro estrelas das Forças Armadas, de quem recebeu um diagnóstico e propostas para um projeto de defesa nacional. Os oficiais disseram ao candidato que serão necessários US$ 3 bilhões para modernização da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Ciro informou aos militares que visitou pessoalmente os quartéis da fronteira norte do país, onde os aviões ficam no solo por falta de peças de reposição. Disse ainda que seu programa de governo dará prioridade à fronteira norte, por causa dos conflitos na Colômbia.
Aliança divide o PT
Executiva do Partido dos Trabalhadores debate hoje proposta dos radicais de esquerda de fazer plebiscito interno sobre a possível coligação eleitoral com o PL. Lula tem maioria a favor do acordo, mas já ameaçou até desistir da candidatura
São Paulo - Hoje é o dia decisivo para o PT começar a definir alianças para a eleição presidencial. No encontro da executiva nacional, em São Paulo, será debatida a coligação com o PL e o convite ao senador José Alencar (MG) para ocupar a vaga de vice na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva. Embora contem com o apoio da maioria, Lula e o presidente do partido, deputado José Dirceu, enfrentarão os radicais contrários à possibilidade de acordo dos petistas com o PL.
‘‘Temos que analisar até que ponto o PL concorda com os projetos de governo do PT’’, avalia o senador Eduardo Suplicy (SP). Na sua opinião, a aliança com os liberais e a escolha do candidato a vice-presidente são precipitadas. Deveriam ser realizadas somente depois do dia 17 de março, quando Suplicy disputará com Lula a indicação à candidatura a presidente. O senador apareceu na última pesquisa do Datafolha em quinto lugar, caso fosse o candidato petista. Com Lula na disputa, o PT lidera a corrida presidencial, informa o Datafolha.
A resistência às alianças é negativa para o partido, na opinião do pré-candidato ao governo de São Paulo, deputado José Genoíno. ‘‘Se cada vez que formos conversar sobre um possível acordo fizerem todo esse barulho, a candidatura do partido será prejudicada’’, prevê Genoíno. ‘‘Acreditar que o PT não precisa de alianças é uma visão muito puritana e exclusivista’’, frisou.
Pesquisa
Genoíno não acredita, no entanto, que essa polêmica no partido tenha sido responsável pela queda de Lula na pesquisa Datafolha. Segundo o deputado, Roseana está na liderança porque expôs bastante sua imagem na televisão, sem apresentar propostas políticas.
O deputado comentou ainda que é contra a mudança das normas para as coligações partidárias, porque a medida poderia favorecer a candidatura do ex-ministro José Serra. Segundo ele, o PSDB terá maior facilidade de fechar acordos nacionais, caso seja determinada a vinculação das coligações nos estados às nacionais. Ele ainda não sabe se poderá comparecer à reunião de hoje, porque está em casa de repouso, com suspeita de dengue.
O dia do sim
PSDB fez rápida convenção para mostrar-se unido em torno da candidatura de José Serra. Governador do Ceará chegou atrasado e causou apreensão
Foi vapt-vupt. Apenas o tempo suficiente para o candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, ser aclamado por mais de três mil militantes, prefeitos, parlamentares e governadores do partido e apresentar sete compromissos com a promessa de, se eleito, criar o Ministério da Segurança Pública como forma de engajar o governo federal no combate ao crime organizado no país. Serra chegou à pré-convenção do PSDB pouco depois do meio-dia e às 14h30 já estava de saída.
A convenção só não terminou antes por causa do atraso do governador do Ceará, Tasso Jereissati, presença anunciada como símbolo da união partidária. ‘‘O homem que veio dar o sim’’, comemorou o locutor oficial quando Tasso finalmente entrou no salão do hotel onde foi realizada a festa tucana. Antes de Tasso aparecer, governadores discursaram apontando as vantagens de ter um candidato com a história e experiência administrativa de Serra. Enquanto isso, a ex-deputada Moema São Thiago (CE) perguntava aos deputados: ‘‘Cadê o Tasso?’’. ‘‘Tá chegando, tá chegando’’, respondiam os ansiosos parlamentares.
Os governadores terminaram seus pronunciamentos. O presidente do PSDB, José Aníbal, leu a mensagem do presidente Fernando Henrique Cardoso — um balanço de sua gestão e apoio a Serra com ênfase à aliança. ‘‘Vejo nele (Serra) as qualidades indispensáveis para dirigir o país. Espero que tenhamos a humildade e competência política para manter a aliança que vem dando sustentação ao governo. Vamos à luta, tucanos, com toda a garra’’, escreveu o presidente.
Terminada a leitura, seria a vez de o candidato falar.‘‘E dá-lhe Serra, e dá-lhe Serra, olê, olê, olê’’, gritavam os militantes, ansiosos por ouvi-lo. Mas nada de Tasso aparecer. O deputado Márcio Fortes (PSDB-RJ), com o microfone na mão, divagava, matando o tempo. O governador chegou por fim ao palanque às 13h30. Fez um discurso protocolar, convocando os cearenses a se engajarem na campanha de Serra. O candidato agradeceu. Ao citar Tasso, Serra disse que ‘‘quando dois não querem, não só não brigam como vão estar juntos na luta política e social’’.
Crítica a Sarney
Ao falar dos sete compromissos — verdade, trabalho, desenvolvimento, justiça social, redução das desigualdades regionais, segurança pública e democracia — sobraram críticas indiretas sobre o governo de José Sarney, pai da candidata Roseana Sarney (PFL). ‘‘O país afirmou a sua estabilidade. E não foi pouco. No passado, chegamos a enfrentar inflação mensal de 80%. O país não era respeitado pelo mundo. E o que é pior, nem pelos brasileiros e brasileiras’’, disse Serra. Coincidência ou não, ‘‘brasileiros e brasileiras’’ era a saudação que Sarney usava nos pronunciamentos quando presidente.
Serra citou o fim das desigualdades regionais como ‘‘compromisso de sua alma’’. E para a segurança pública, foi incisivo. Propôs a polícia federal fardada e a integração dos municípios nessa batalha. O Ministério da Segurança Pública não significa, no entanto, o fim do Ministério da Justiça, mas algo parecido como o que é hoje o sistema único de saúde. ‘‘Na segurança precisamos fazer esta articulação de forma integrada, União, estados e municípios’’, comentou.
Condenado acusou Jader
O topógrafo mineiro Carlos Antonio Domingos de Oliveira, cujas denúncias levaram à decretação da prisão do ex-senador Jader Barbalho (PMDB-PA), há dez dias, foi condenado em 1981 pela Justiça da comarca de João Pinheiro (MG) a 18 anos de prisão por roubo seguido de morte. Ele fugiu sem cumprir a pena, indo para o Pará. Testemunha-chave do inquérito sobre fraudes na extinta Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), foi seu depoimento, em que se dizia pressionado por Jader, que convenceu o juiz federal de Palmas (TO), Alderico Rocha Santos, a decretar a prisão. Depois de ir para o Pará, onde a condenação não era conhecida, Oliveira se apresentou como empresário e obteve R$ 1 1 milhão da Sudam para um projeto fantasma de criação de camarão em cativeiro, em Uruará (PA). Em agosto, com dívidas acumuladas, foi preso pela PF e acusou políticos e pecuaristas de Altamira de desviar recursos da autarquia. De acusado, virou testemunha-chave e colaborador das investigações e está sob proteção da Polícia Federal.
Samba em Varsóvia
Nove ritmistas de escolas de samba do Rio de Janeiro apresentaram-se ontem na recepção ao presidente Fernando Henrique Cardoso em Varsóvia, na Polônia. Os sambistas tocaram Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, acompanhados da Orquestra de Radio e Televisão de Varsóvia, e arrancaram aplausos entusiasmados da platéia de brasileiros e poloneses que encheu o Teatro da Filarmonica Nacional de Varsovia. Fernando Henrique e dona Ruth Cardoso assistiram ao concerto ao lado do presidente polones, Aleksander Kwasniewski. Ao final do espetáculo, o presidente e dona Ruth cumprimentaram os sambistas. ‘‘Ele disse que ama a gente’’, contou Jorge de Oliveira, o mestre Jorjão. Além de Aquarela do Brasil, a orquestra regida pelo polonês naturalizado brasileiro Henrique Morelenbaum executou composições de Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno e Hekel Tavares. A pianista brasileira Rosana Diniz também participou do concerto, patrocinado pela empresa de telefonia Brasil Telecom. Fernando Henrique participará hoje de cerimônia oficial com o presidente polonês, encerrará fórum de empresários brasileiros e poloneses e fará palestra na Escola de Economia de Varsóvia.
Artigos
Os realitys shows e a sociedade aberta
Feichas Martins
A proliferação no mundo inteiro dos denominados realitys shows, aqui no Brasil nas versões Casa dos Artistas, do SBT, e Big Brother Brasil, da TV Globo, não deixa de ser um ensaio geral de laboratório político sobre a prática da democracia no mundo globalizado.
O ambiente isolado e controlado desses shows é uma espécie de proveta, e os participantes, cobaias humanas. O confinamento quase total submete os participantes a provas de convivência e à exacerbação de seus instintos básicos, tudo observado por milhões de telespectadores através dos focos de dezenas de câmeras estrategicamente posicionadas. Em última análise, é uma prova de sobrevivência, cujo vencedor recebe dinheiro e fama como recompensa.
Difere fundamentalmente das tais competições de No Limite por restringir ao mínimo o espaço vital de convivência entre os concorrentes, obrigando-os a um jogo psicológico desgastante e de soma zero: a vitória de um exige a derrota de todos os demais. Cada dia fornece preciosos elementos de análise para a ciência política, cuja atribuição é observar as instituições políticas, e a sociologia, ciência que estuda a sociedade como um todo. Haveria material para uma análise exaustiva e profunda do que é observável, por exemplo, no aspecto comportamental dos participantes como indivíduos e como grupo — virtudes, defeitos, luzes, sombras, síndromes, manias, fetiches etc.
Mesmo sabendo que eles e elas têm consciência de que estão sendo filmados e procuram representar, há o limite da própria simulação inerente à luta pela sobrevivência de que nos fala Ingegnieros, o grande filósofo argentino. Aquilo que se observa é mais ou menos o que acontece na sociedade em geral, sob a visão cibernética.
A Teoria Geral dos Sistemas afirma que não existe nenhum sistema totalmente fechado, e isso se aplica por extensão ao sistema político, que compreende toda a estrutura, a função e a interação entre os atores, os órgãos e as instituições. Qualquer que seja o sistema, sempre terá, no mínimo, algumas entradas/saídas, os conhecidos inputs e outputs. Sem esses dispositivos regulatórios, o sistema experimentaria disfunções — as entropias — que o implodiriam ou explodiriam. Assim é o próprio corpo humano, cuja fisiologia inspira os estudiosos da política e da sociedade, principalmente os adeptos da teoria organicista.
A democracia é um regime político que representa, bem ou mal, a sociedade aberta a que alude Karl Popper. À medida que vai sendo fechada, em várias escalas de autoritarismo ou autocracia (ditadura, despotismo e tirania), chega-se ao totalitarismo, que é a supressão máxima da democracia. O Leviatã, de Hobbes, é o símbolo do Estado onipresente, onisciente e onipotente, inspiração do totalitarismo de Mussolini, Hitler e Stálin, entre outros. É por aí que começa a conexão entre os reality shows e a ciência política.
A expressão big brother (grande irmão), extraída do livro 1984, de George Orwell, uma crítica ao ditador Stálin, que tentava estabelecer o controle, o domínio sobre tudo e sobre todos, já sugere um sentido experimental do fechamento das cobaias humanas e da sua manipulação tanto na Casa dos Artistas, apresentado com retumbante sucesso de audiência pelo SBT, quanto no BBB, da TV Globo, o qual recebe o fabuloso investimento de 27 milhões de reais, o mais alto de nossa televisão e superior ao do carnaval carioca deste ano, que teve seu maior investimento de todos os tempos, 25 milhões de reais.
Um dado importante para os estudiosos desses programas é que o controle não é feito só pelo Estado (o governo em si, que examina a qualidade do que é exibido) e pela iniciativa privada (as emissoras de televisão e as empresas patrocinadoras com seus interesses financeiros). O controle final é exercido pelos espectadores, que acompanham os programas e observam e julgam todos os participantes por seus gestos mais íntimos e banais, chegando a decidir sobre o destino de alguns participantes, via Internet e outros meios interativos. Esses espectadores constituem essencialmente o mercado, a audiência que estabelece os limites do que é aceitável ou não para exibição.
Temos aí, aplicando Miguel Reale, os fatos e os valores que influenciarão na elaboração das normas jurídicas adequadas ao setor da comunicação de massa no Brasil, no momento em que se instala no âmbito governamental o Conselho de Comunicação Social.
Casa dos Artistas conseguiu um microssistema experimental mais fechado do que o BBB; mesmo assim, houve saídas com Silvio Santos e a própria fuga de Alexandre Frota, que voltou e narrou para os demais o impacto que o programa estava causando, o que contribuiu para quebrar a naturalidade do grupo. Os integrantes do BBB mantêm contatos freqüentes com Pedro Bial e Marisa Orth; experimentaram uma ‘‘fuga’’ para assistir ao jogo Brasil x Bolívia, proporcionada pelo narrador Galvão Bueno, e interagem com uma cadela introduzida no ambiente.
Tais pontos de fuga evitam a exacerbação dos instintos básicos dos participantes. A presença da cadela, que exerce influência terapêutica, ameniza o rigor do confinamento — a menos que seja mesmo essa a intenção dos diretores do programa, a presença da cadela, como redutora da tensão grupal, seria uma falha gritante da produção. O que seria de Caetano, indicado pelo líder Sérgio para deixar a casa, se não tivesse a cadela Mole para consolá-lo. Certamente teria dificuldades de interagir com os demais nos últimos dias em que permaneceu na casa.
Na prática política, o consentimento das massas é proporcional à capacidade de convencimento dos governantes. A reação humana ao emprego da força, da sugestão ou da imitação compara-se às reações do porco, do burro e dos carneiros. Cada porco tem que ser fisicamente dominado; o burro é dominado por sugestão de uma cenoura que lhe é oferecida, e os carneiros submetem-se a qualquer sacrifício acompanhando o líder dominado.
O reality show é um ensaio sobre a capacidade de manipulação do público por meio da mídia pela classe dominante. As experiências de controle e poder exercidas sobre o grupo de atores seriam, por extensão, aplicáveis a toda a sociedade num processo de dominação.
Há uma crença segundo a qual governar não comporta experiências, pois muitos fatos não podem ser controlados pelos governos, pois pertencem à esfera das forças naturais. Os realitys shows podem servir de exercícios de medição dos limites de tolerância social, para controle das massas, dentro do universo de fatos controláveis. No entanto, a força da natureza humana também é incontrolável. Eis um elemento que se esconde nas dobras aparentemente ingênuas desses programas.
A formatação do homem para os desafios, fora do processo natural — o darwinismo social —, é uma experiência tão incipiente quanto a clonagem humana. Faltam muitas respostas para a pergunta: o que seria do homem sem a liberdade?
Editorial
GUERRA NA COLÔMBIA
O fim das negociações de paz entre governo e guerrilha colombianos prenuncia período ainda mais sombrio para o país vizinho. Tudo indica que voltará o estado de quase guerra civil que o presidente Andrés Pestrana tentou interromper em 1999. Nesse período, depois de conceder às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) uma zona desmilitarizada do tamanho do estado do Rio de Janeiro, começou o diálogo que, em tese, deveria dar início a um processo de paz.
Em três anos de conversações, porém, registrou-se um vaivém desanimador. O governo cedeu sempre. Mas as Farc foram incapazes de levar avante o processo de paz iniciado em 7 de janeiro de 1999. De um lado, continuaram seqüestrando e sabotando a infra-estrutura do país. De outro, seguiam mantendo estreita a parceria com os narcotraficantes.
As Farc interromperam as conversações cinco vezes em menos de um ano. Em fevereiro de 2001, o Acordo de Los Pozos prorrogou a zona de distensão até outubro de 2001. As partes trocaram 500 militares seqüestrados por guerrilheiros presos. Mas, em 15 de outubro, novamente as Farc suspenderam os entendimentos. Quatro meses depois, representantes estrangeiros intervieram e deram um alento ao quase moribundo processo de conciliação.
As idas e vindas não selaram a sonhada paz. Mas mantiveram adormecido o estado de beligerância. A tomada cinematográfica de um avião comercial seguida do seqüestro de um senador sepultou as possibilidades de diálogo. O governo, acossado pelas eleições legislativas no próximo mês e presidenciais em maio, endureceu. A zona desmilitarizada sofreu intenso bombardeio.
O ataque, que deixa a Colômbia à beira de uma guerra civil e ameaça desestabilizar a região, traz apreensões aos países vizinhos. Brasil, Panamá e Equador reforçaram as fronteiras com tropas. Venezuela e Peru estão em estado de alerta.
O presidente colombiano recebeu apoio da comunidade internacional. O governo Bush aplaudiu a operação. O presidente Fernando Henrique, de Estocolmo, manifestou-se solidário a Bogotá. Pastrana, em discurso inflamado, classificou as Farc de organização terrorista. As duas palavras prenunciam, na prática, a inclusão da Colômbia na lista de países em que os Estados Unidos atuarão no combate ao terrorismo. O Plano Colômbia (de repressão ao narcotráfico), sustentado por Washington, foi o primeiro passo da ofensiva ora em curso.
Parece improvável o envolvimento direto do Brasil no conflito. Mas com certeza a diplomacia será chamada a atuar. Há grande possibilidade de os colombianos solicitarem uso do espaço aéreo e direito de pouso nos 1.644 quilômetros da sensível fronteira amazônica.
Pior: existe risco concreto de aumento do fluxo migratório e fuga de guerrilheiros e narcotraficantes para o lado de cá. O Exército deve manter-se atento.
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02/25/2002
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