Crítico dos juros altos, Alencar já pagou 'aluguel de dinheiro'



O homem que se rebelou no governo Lula (2003-2010) contra os juros altos começou sua vida empresarial pagando "aluguel de dinheiro", mas sempre se preocupou em "equilibrar o orçamento". Em seu primeiro emprego, aos 14 anos, sem condições de pagar o quarto do hotel e a alimentação, José Alencar Gomes da Silva concordou em morar no corredor.

Aos 18 anos, com o "orçamento equilibrado", ele pretendia "se estabelecer", como se dizia na época para os que desejavam se aventurar pelas searas do empreendedorismo, mas não tinha dinheiro suficiente para abrir a loja A Queimadeira, na cidade de Caratinga (MG).

O jeito foi pegar emprestado do irmão Geraldo Gomes da Silva 15 contos, pagando-lhe 1,5% ao mês. Mas o irmão dizia que não era juro, e sim "aluguel de dinheiro", porque a Lei da Usura, baixada em 1933 pelo então presidente Getúlio Vargas, só permitia a cobrança desse tipo de encargo nos empréstimos bancários.

José Alencar, que foi senador de 1999 a 2002, quando se elegeu vice-presidente da República, afirmou em discurso no Senado, em 2000, que sempre soube separar o dinheiro da empresa dos recursos do empresário. Por isso, mudou-se do hotel (onde morava no corredor) para detrás das prateleiras da loja.

- Estabeleci para mim mesmo uma retirada de Cr$600,00 por mês, que era exatamente a metade do que eu recebia mensalmente na loja onde trabalhava, porque eu sabia, aprendi que não poderia me utilizar dos recursos da féria, do dia-a-dia, como se fossem coisa minha - disse na ocasião.

Bandeiras

No Senado, Alencar tornou-se um ferrenho crítico da política de juros altos e um defensor de um orçamento equilibrado e impositivo para o governo federal. Ao se despedir da Casa, em 11 de dezembro de 2002, observou que a taxa de juros básica real era cerca de 20 vezes a norte-americana e dez vezes a dos países integrantes da União Europeia.

- Enquanto prevalecer esse regime de juros, não nos livraremos dessa dependência, dessa subserviência e dessa obediência aos ditames disso que se convencionou denominar mercado - acrescentou.

Na ocasião, ele citou uma frase de Mahatma Gandhi, o condutor da independência da Índia: "A decadência social nasce da riqueza sem trabalho, dos prazeres sem escrúpulos, do conhecimento sem sabedoria, do comércio sem moral, da política sem idealismo, da religião sem sacrifícios, da ciência sem humanismo".

Alencar acrescentou: "A decadência social nasce também das onzenárias taxas de juros".

As várias críticas de José Alencar aos juros não produziram muitos resultados práticos: nove anos depois, as taxas continuam como uma das mais altas do mundo e os títulos brasileiros são os mais bem remunerados do mercado internacional.

Em conseqüência disso, a rolagem da dívida pública consome um terço do orçamento federal, que continua desequilibrado. Recentemente, o governo anunciou corte de R$ 50 bilhões e suspensão das nomeações em concursos públicos.



30/03/2011

Agência Senado


Artigos Relacionados


Maldaner critica política de juros altos

Patrocínio: juros altos inibem investimentos

SARNEY VOLTA A CRITICAR JUROS ALTOS

SUASSUNA ALERTA PARA O RISCO DOS JUROS ALTOS

SARNEY ATRIBUI CRISE À POLÍTICA DE JUROS ALTOS

Juros altos freiam demanda por empréstimo pessoal em setembro