Cultura: Silêncio e Sons percorrem as instalações de Cildo Meireles



Babel, Cruzeiro do Sul e Marulho fica em cartaz na Estação Pinacoteca até dia 26 de novembro

A impressão de uma árvore de natal com luzes vermelhas, azuis e verdes dentro de um ambiente completamente escuro. Um forte ruído que chama a atenção das pessoas que circulam pelo quarto andar da Estação Pinacoteca, na rua Mauá, bairro da Luz, na capital. Esses são alguns dos elementos que compõem a instalação Babel, do artista plástico carioca Cildo Meireles, que levou oito meses para ser finalizada. Trata-se de uma obra de arte de cinco metros de altura feita por mais de 900 rádios dos mais diferenciados modelos e épocas, todos sintonizados em estações mundiais. A experiência provoca curiosidade para saber o que está passando em cada estação sintonizada.

Somente ao se aproximar o ouvido de cada máquina é possível perceber a origem da transmissão, com vozes reproduzidas em inglês, espanhol e muitas outras línguas incompreensíveis para a maioria dos mortais. Meireles fala que a idéia de fazer uma árvore deste tipo surgiu ao caminhar pelas ruas de Nova York. “Fiz este trabalho com o objetivo de criar uma árvore falante, com línguas e programas do mundo inteiro. Temos desde rádios de R$ 20 até R$ 300”, conta o artista que buscou a diversidade para a instalação. Meireles observou que, para fazer a exposição, ele comprou rádios em feiras e lojas de antiguidades. Mas, depois do início da montagem, procurou rádios que preenchessem os espaços vagos.

Sua preocupação principal da produção foi desenvolver a visão de espaço em que se encontra a vida humana, o que se passa à longa distância. O resultado é uma fascinante exposição multimídia que reflete toda a contemporaneidade desejada. Para ele, dentro de um espaço escuro e barulhento torna-se real toda a informação e sensorialidade dos grandes centros urbanos. “O trabalho é uma torre que talvez você mais sinta do que veja, aquela coisa da luzinha do rádio acesa no escuro do quarto está presente no ambiente da instalação”, afirma o artista.

Ao mesmo tempo em que sons e luzes estão numa sala, o visitante da Estação Pinacoteca pode ver ao lado Cruzeiro do Sul, uma outra instalação de Meireles, que se resume a um cubo minúsculo de pinho e carvalho. Essa matéria-prima não foi escolhida ao acaso, mas, sim, pelo fato de quando seus elementos entram em atrito produzem fogo. Dessa maneira, teriam o poder de invocar o divino na cosmogonia dos índios Tupi. Uma forte luz chama a atenção para o cubo, que poderia passar imperceptível.

A dúvida sobre o que é realmente ser pequeno e grande é totalmente clara neste espaço. O total silêncio do local provoca toda uma reflexão sobre o assunto. O artista não dissocia o conhecimento físico do espaço. “A idéia era fazer uma coisa que se tornaria presente pela sua quase ausência, ser pequeno para causar impacto”, conclui Meireles. Após a visualização de um ambiente calmo, a terceira obra do artista em exposição, Marulho apresenta a grandiosidade de um deck de madeira, com o chão coberto de folhas que ilustram a água do mar. A palavra água é enunciada em 80 línguas por crianças e adultos de vários lugares. A sensação de tranqüilidade e paz é provocada pela última instalação do artista. A vontade de saltar pode desenvolver inquietações no visitante.

O artista plástico Márcio Donasci, durante visita às instalações, disse ter ficado impressionado com a beleza das produções de Cildo Meireles. Afirma que Cruzeiro do Sul é uma obra simplista e minimalista que provoca a mesma sensação de barulho interno que Babel. “Presenciamos no mesmo local uma obra bem silenciosa, uma barulhenta e uma bem contemplativa”, conclui Donasci.

Babel, Cruzeiro do Sul e Marulho fica em cartaz na Estação Pinacoteca até dia 26 de novembro. Nada melhor que conferir as instalações para ver e sentir os impa

10/24/2006


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