Depoentes denunciam ONGs que não representam índios
Os três depoentes que compareceram nesta quinta-feira (21) à reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura irregularidades em organizações não-governamentais (ONGs) denunciaram a existência de entidades em Roraima que, apesar de se apresentarem como defensoras dos indígenas, trabalham contra seus interesses.
Eles revelaram que a Igreja Católica e organizações internacionais estão por trás dessas entidades, que impedem o desenvolvimento dos índios da região. A principal entidade acusada pelos depoentes, representantes de associações de índios de Roraima, é o Conselho Indígena de Roraima (CIR), que chegou à região em 1970 para catequizar os povos locais.
O diretor da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr), cacique Silvestre Leocádio, denunciou que a Igreja busca com o seu trabalho isolar os índios da sociedade. Para isso, disse, essas organizações, geralmente comandadas por padres, manipulam os índios para que expulsem agricultores das terras, promovendo a queima de pontes e a derrubada de torres de comunicação.
- A Funai (Fundação Nacional do Índio) e a Igreja não querem que o índio se desenvolva. O índio quer ter seu carro, quer se vestir bem. Queremos políticas públicas para o desenvolvimento, queremos plantar. Hoje estamos dentro da sociedade e não há mais como dividir - afirmou Leocádio.
O representante da Associação Regional Indígena do Rio Kino Cotingo Monte Roraima (Arikon), Gilberto Macuxi, acusa o CIR de impedir que os índios tenham acesso ao conhecimento e, assim, se aproveitar da -inocência dos índios-. Ele sugeriu ainda que há interesses internacionais por trás do discurso da Igreja, que não beneficia as comunidades. Ele alertou para o risco de haver a homologação, pelo governo federal, da área indígena Raposa/Serra do Sol, que, na sua opinião, vai levar a um grande conflito na região.
- Não queremos expulsar ninguém. Queremos a permanência das vilas e dos produtores de arroz. Não queremos mais padres, que empatam o desenvolvimento na nossa área - disse o índio Macuxi.
Segundo ele, as ações da Igreja levaram os índios ianomâmis, que estão protegidos em uma grande reserva no estado, a viverem em situação de miséria, pedindo roupas e vivendo do lixo nas cidades. Por outro lado, Macuxi revelou que, na área em que vive, os índios estão criando gado e vão inclusive colocar produtos no mercado.
Na opinião do diretor da Aliança de Integração e Desenvolvimento das Comunidades Indígenas de Roraima (Alicidir), Anísio Pedrosa Lima, a demarcação de terras e o isolamento dos índios não resolve os problemas. Ele também citou os ianomâmis como exemplo, pois, na sua opinião, os índios dispõem de uma grande área, com potencial para fazer com que as comunidades progridam, mas o que se vê é o contrário.
- As diretrizes da Funai impedem qualquer possibilidade de desenvolvimento sustentável para as comunidades. Isso está errado. O povo precisa de liberdade para avançar e ajudar no desenvolvimento econômico do país - declarou à CPI.
Os depoentes assinalaram ainda que ONGs que dizem tratar da saúde dos índios recebem recursos públicos, da Fundação Nacional de Saúde, mas se recusam a prestar atendimento a alguns índios, em uma atitude discriminatória.
21/11/2002
Agência Senado
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