Depois do PFL, frente namora PPB
Depois do PFL, frente namora PPB
BRASÍLIA. Depois do assédio ao PFL, o comando da campanha do candidato Ciro Gomes lançou-se agora à conquista de outro partido considerado mais à direita da base do governo Fernando Henrique Cardoso: o PPB.
Hoje, o presidente do PDT, Leonel Brizola, se encontra com o governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, para pedir formalmente que receba Ciro na viagem ao estado, prevista para segunda-feira.
Na mesma segunda, Ciro poderá ser oficialmente agraciado com o apoio do PPB de Minas, que, na conta do PSDB, estaria ao lado do candidato José Serra. Num almoço ontem no Rio, o comando de campanha foi informado de que a tendência no PPB de Minas é declarar apoio a Ciro. E que, fechado o acordo, o líder do PPB na Câmara, Odelmo Leão (MG), deverá assumir a coordenação da campanha no Triângulo Mineiro.
— Não vou fazer nada sozinho. Vou consultar a bancada, primeiro — disse Odelmo.
Em Santa Catarina, Amin já avisou, semana passada, que, mesmo sendo eleitor de Serra, deixará aberto seu palanque para Ciro. É por isso que Brizola desembarca hoje no estado. Como Ciro deverá visitar Lajes segunda-feira, Brizola pedirá acolhida a Amin:
— Brizola falará por nós. Amin tem de ser prestigiado pelo comando da campanha, numa demonstração de consideração nacional. Essas coisas têm liturgia — disse o líder do PTB na Câmara, Roberto Jefferson (RJ).
Jefferson foi da tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor, assim como muitos pefelistas. Treze anos depois de Collor chegar ao Palácio do Planalto e dez anos após ter sofrido impeachment, alguns seus antigos aliados estão na campanha de Ciro.
O grupo do PFL que apóia Ciro, liderado pelo presidente Jorge Bornhausen, que foi secretário de Governo de Collor, já começou a vasculhar arquivos para dizer que Serra tentou levar o PSDB para o governo Collor, em abril de 1992, embora Ciro tenha sido um dos maiores entusiastas da proposta na época.
Efeito Ciro sacode a campanha
Candidato da Frente Trabalhista cresce quatro pontos, chega a 22% dos votos no Ibope e força adversários do PSDB e do PT a reverem suas estratégias
Muda tudo. A nova pesquisa Ibope divulgada ontem pelo “Jornal Nacional”, da TV Globo, confirmando o crescimento do candidato da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB) à Presidência, Ciro Gomes, que se isolou no segundo lugar com 22% dos votos, a 11 pontos do petista Luiz Inácio Lula da Silva, forçou o comando da candidatura do tucano José Serra a convocar uma reunião de emergência para hoje. A ordem no PSDB e também no PT é rever as estratégias. Pela primeira vez desde que Ciro começou a crescer, a pesquisa mostra que hoje ele venceria Lula no segundo turno por um ponto de diferença. Há um empate técnico de 44% do candidato da Frente Trabalhista contra 43% do petista.
Preocupado com os rumos da campanha, a cúpula do PMDB foi ontem ao Palácio do Planalto pedir ajuda ao presidente Fernando Henrique. Hoje, os coordenadores da campanha tucana e peemedebista, além de governadores, se reúnem para discutir o que fazer daqui para a frente, apostando na associação de Ciro com o ex-presidente Fernando Collor e mostrando supostas falhas na gestão dele no Ministério da Fazenda.
Na Paraíba, Lula também mostrou que sentiu o golpe: começou a bater mais forte em Ciro. Disse que já está em curso um movimento para minar sua candidatura e que a elite começa a buscar um anti-Lula, como ocorreu na disputa presidencial de 1989, quando Collor foi eleito.
— Em vez de ficarem procurando um anti-Lula, por favor, chegou a hora de votar pró-Brasil, que a gente vai ganhar muito mais — disse Lula, num referência indireta às comparações entre Ciro e Collor e ao fato de o PPS de Ciro apoiar a candidatura de Collor ao governo de Alagoas.
Diferença entre Ciro e Serra é de sete pontos
Na pesquisa do Ibope, a primeira feita após as entrevistas dos candidatos ao “Jornal Nacional”, Ciro subiu quatro pontos, passando de 18% para 22%. É o único que apresentou variação acima da margem de erro. Lula perdeu um ponto, passando de 34% para 33%. Serra perdeu dois pontos, passando de 17% para 15%. Anthony Garotinho, do PSB, perdeu dois também, indo de 12% para 10% em relação à consulta feita entre os dias 4 e 7.
Ciro ficou em primeiro lugar entre os eleitores com nível superior (34%, contra 26% de Lula e 17% de Serra).
Entre esses eleitores, o candidato cresceu 14 pontos, passando de 20% para 34%. Lula perdeu nove e Serra perdeu seis. Ciro também cresceu entre os jovens de 16 a 24 anos: passou de 18% para 24%. Nas simulações de segundo turno, Ciro pela primeira vez vence Lula, que ganharia se a disputa fosse com Serra (48% a 37%) ou com Garotinho (50% a 32%).
Além da grande exposição nos programas eleitorais dos partidos aliados no rádio e na TV até semana retrasada, também pode ter contribuído para o crescimento de Ciro o fato de ele ter o mais baixo índice de rejeição: 22%. Garotinho tem a mais alta rejeição: 35%, contra 33% de Lula e 31% de Serra.
A pesquisa também mostra que Ciro é a segunda opção dos eleitores que hoje se dizem dispostos a votar tanto em Lula como em Serra e Garotinho. Ao responderem à pergunta “caso seu candidato não concorra às eleições presidenciais, em qual dos outros o senhor votaria?”, 44% dos eleitores de Serra disseram que escolheriam Ciro. Entre os que hoje escolhem Lula, 35% optariam pelo candidato da Frente Trabalhista, que também receberia 30% dos que hoje preferem Garotinho.
Na consulta espontânea, Lula fica com 21% contra 13% de Ciro, 7% de Serra e 6% de Garotinho. O Ibope ouviu dois mil eleitores em todo o país entre os dias 12 e 14 de julho. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.
Entre os entrevistados que assistiram às entrevistas dos candidatos no “Jornal Nacional”, 28% acham que Ciro se saiu melhor e outros 28% acham que foi Lula. Já 13% consideram que Serra se saiu melhor e 8% gostaram mais da entrevista de Garotinho.
Ciro afirma que é hora de superar o constrangimento pelo apoio a Collor
"É preciso preparar a governabilidade do país para o dia seguinte", afirma o candidato
O candidato da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB) à Presidência, Ciro Gomes, e o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, deram ontem sinais de que já digeriram a aliança do PPS e do PTB com o ex-presidente Fernando Collor para o governo de Alagoas. Apesar de repetir que não pisa no palanque de Collor e de declarar seu apoio ao candidato do PDT no estado, Geraldo Sampaio, Ciro afirmou que o momento é de superar constrangimentos em nome das alianças para ser eleito e para governar:
— Nesta primeira fase, nossa tarefa é superar constrangimentos para vencer as eleições. É preciso preparar a governabilidade do país para o dia seguinte. As nossas propostas têm soluções para o Brasil, mas não se viabilizam se não tivermos no Congresso três em cada cinco deputados e senadores — disse Ciro, ao chegar com Brizola ao diretório nacional do PDT, no Centro do Rio, para uma reunião.
Brizola minimizou a importância da aliança dos dois partidos da Frente com Collor e disse que fato de o PDT não ter aderido à candidatura do ex-presidente não teve motivos pessoais:
— As situações regionais guardam suas peculiaridades, mas para nós o principal é a questão nacional. A nossa diferença com Collor em Alagoas não é pessoal, afinal ele já prestou contas à Justiça por seus atos. O que nos separa são as nossas idéias, nossos compromissos com o povo.
“Não há mais o que discutir, o PTB não volta atrás”
Roberto Jefferson (RJ), líder do PTB na Câmara, considera o assunto superado.
— Não há mais o que discutir, o PTB não volta atrás. Ciro e Brizola ficaram chateados, mas dez anos de cassação já permitem que Collor seja julgado pelo voto do povo. Ciro tem outro candidato lá e sabe que não tem como pedir para voltar atrás — disse Jefferson, afirmando que a amizade e o respeito que tem por Collor ajudaram na costura da aliança. — Não abro mão de apoiar meus amigos. Sou assim, na alegria e na tristeza.
A reunião dos coordenadores regionais de campanha ontem serviu para afinar a organização e tratar de assuntos de natureza operacional como o calendário de comícios e a confecção de material.
— Nossa campanha está sendo levada na raça. Estamos avançando nas pesquisas, mas precisamos chegar aos municípios. A reunião serviu para estruturar as coordenações estaduais para começar a fazer o trabalho de comunicação em todo o país — disse Jefferson.
De acordo com Jefferson, uma das recomendações da reunião foi buscar novos apoios em partidos como PFL, PMDB, PSDB e até mesmo no PT de todos os estados. Ciro ficou na reunião 30 minutos, mas o encontro durou até o início da tarde. Na saída, ele fez questão de diferenciar a aliança com Collor do apoio que tem recebido de caciques do PFL, como o ex-senador Antonio Carlos Magalhães:
— O apoio de Antonio Carlos Magalhães é honroso, não é nenhum constrangimento.
Os pefelistas foram representados pelo senador Geraldo Althoff (SC), apresentado como integrante da coordenação da campanha.
— Não represento o PFL, mas um setor do partido que entende que Ciro é a melhor opção para o país — disse Althoff, para quem o crescimento de Ciro nas pesquisas deve atrair novas adesões do PFL.
Freire, presidente do PPS, não participou
A ausência mais sentida da reunião foi a do presidente do PPS, Roberto Freire. Jefferson disse que ele foi convidado, mas não soube explicar por que ele não compareceu. Quando lhe perguntaram se o PPS estaria se ressentindo com a liderança do PTB nos rumos da campanha, Jefferson respondeu que coligações sempre envolvem tensões:
— Na maioria dos estados o PPS não compôs conosco. É PTB-PDT, essa é a estrutura da candidatura Ciro. Sempre há tensões na campanha, mas vamos superar todas elas.
Tucanos convocam reunião de emergência
Peemedebistas pedem envolvimento direto do presidente para que o candidato tucano consiga o apoio dos 28% que consideram o governo Fernando Henrique ótimo ou bom
BRASÍLIA. O comando da candidatura presidencial de José Serra (PSDB-PMDB) convocou para hoje uma reunião de emergência com os líderes dos partidos que o apóiam para discutir os rumos da campanha. O encontro tem o objetivo de corrigir os desacertos de agenda, informar os aliados da estratégia eleitoral do candidato e debater a tática que será adotada para tentar combater o crescimento do candidato Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, nas pesquisas de intenção de voto.
Preocupada com os rumos da campanha de Serra, a cúpula do PMDB foi ontem ao Palácio do Planalto conversar com o presidente Fernando Henrique Cardoso. O partido pede um envolvimento direto do presidente na campanha, para com isso tornar viável que Serra receba o apoio dos 28% de brasileiros que consideram o governo ótimo e bom.
— O presidente Fernando Henrique tem um candidato e tem que explicitar mais isso. Com o prestígio e o respaldo que tem, sua presença na campanha é importante — disse o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA).
Estavam na reunião o secretário-geral da Presidência, Euclides Scalco, e o presidente do PMDB, Michel Temer. Fernando Henrique demostrou que não se incomodava com as críticas ao governo feitas por Serra.
Disse que não tinha a veleidade de imaginar que todos os problemas foram resolvidos em seus oito anos de governo. Mas os presentes concordaram que para os eleitores não pode passar a impressão de que Serra quer se desvencilhar do governo.
— Estratégia eleitoral nenhuma pode contrariar a verdade. Serra é o candidato do governo, com bônus e ônus — afirmou Geddel.
Pimenta nega que campanha enfrente crise
O coordenador político da campanha, Pimenta da Veiga, negou a existência de uma crise e afirmou que a candidatura é a que tem mais apoio político e, por isso, Serra é o candidato em melhores condições de governar o Brasil. Pimenta informou que a reunião de hoje já estava prevista e que dela participam Serra, a candidata a vice, Rita Camata, o vice-presidente Marco Maciel, os presidentes e líderes do PSDB e do PMDB e representantes do PPB e do PFL. No encontro, os tucanos pretendem estancar as insatisfações entre os aliados que se tornaram públicas com as críticas do líder do PMDB na Câmara contra os improvisos da agenda do candidato.
— Vamos fazer uma grande reunião com os principais líderes que apóiam Serra. Isso demonstrará a densidade da candidatura — afirmou Pimenta.
Serra disse, no Rio, que sua candidatura continua contando com o apoio do PFL em São Paulo, no Rio, no Paraná, em Pernambuco, na Paraíba, em Brasília e no Piauí:
— Dizia-se sempre que o PFL ia ficar totalmente fora de minha candidatura. Isso não aconteceu. Recentemente houve apenas um movimento contrário em Minas Gerais. Não opino sobre assuntos internos do PFL. Eu respeito.
Sobre a pesquisa do Ibope que mostrou crescimento da candidatura de Ciro e recuo da sua, Serra disse que se trata do retrato de um momento:
— É uma gangorra, cujos movimentos dependem, em grande medida, dos horários gratuitos que acontecerem.
PSDB vai explorar erros que Ciro teria cometido
Os tucanos continuam minimizando o crescimento de Ciro, afirmando que tudo está dentro do previsto. Mas o partido decidiu que vai intensificar os ataques a Ciro e considera que o segundo lugar nas pesquisas dará maior visibilidade ao adversário. Isso permitiria que sejam mostrados aos eleitores seus pontos vulneráveis. A artilharia contra Ciro vai explorar erros que teria cometido quando foi ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, afirmações do candidato que não correspondem aos fatos e a trajetória de seus aliados.
— Ciro agora vai virar vidraça. As pessoas vão descobrir que a tropa de choque do Collor está com ele: Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen e José Carlos Martinez. Quem apóia o Ciro é a direita mais atrasada e violenta — disse o líder do PSDB na Câmara, Jutahy Júnior (BA).
Lula afirma que elite procura um anti-Lula
Nunca consegui entender por que o povo votou no Collor. A gente tinha Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas’, afirma o candidato, referindo-se à campanha de 89
JOÃO PESSOA. Embora negue preocupação com o resultado da pesquisa Ibope, o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, já mudou seu discurso ontem. Poucas horas antes da divulgação da nova pesquisa, que mostrou Ciro Gomes (Frente Trabalhista) isolado em segundo lugar e vencendo o petista num possível segundo turno, Lula disse que já começa a identificar um movimento da elite em busca de um anti-Lula, como ocorreu na disputa de 89, quando Fernando Collor foi eleito. Collor foi citado por Lula duas vezes em encontro com empresários em João Pessoa.
— Em vez de ficarem procurando um anti-Lula, por favor, chegou a hora de votar pró-Brasil — disse Lula.
No discurso, o petista disse que, em 89, foi o povo brasileiro, e não ele, que saiu derrotado:
— Nunca consegui entender por que o povo votou no Collor. A gente tinha Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas. No entanto, o povo preferiu votar no anti-Lula. É como se fosse o anticristo.
Durante entrevista, Lula frisou que não estava comparando Ciro a Collor, como vem fazendo o tucano José Serra.
— Não vou fazer comparação com quem quer que seja — disse o petista.
— Vam os aguardar para ver quem será o anti-Lula. Acho que só pode ser quem for ligado à agiotagem, ao grande sistema financeiro, à corrupção, à malversação do patrimônio público.
‘Começa indução ao terrorismo’
O petista disse acreditar num processo com o objetivo de desestabilizar sua candidatura:
— Acho que recomeça um processo de indução ao terrorismo que teve início com a questão econômica e não deu certo. A elite começa a se movimentar para evitar que eu ganhe. A diferença hoje é que todos somos mais conhecidos, o PT tem mais experiência administrativa.
Lula evitou atacar seus adversários. Em entrevista à TV Correio, ao analisar os últimos números do Ibope, ele disse que o crescimento de Ciro não foi repentino. Lembrou que o candidato do PPS teve uma exposição razoável na TV em junho, com bom aproveitamento da atriz Patrícia Pillar, mulher de Ciro, no papel de âncora.
Acompanhado da mulher, Marisa, e do candidato a vice em sua chapa, senador José Alencar (PL-MG), Lula recebeu no início da noite de ontem o apoio do PMDB paraibano.
Ataques a Ciro dividem o PT
A estratégia de vincular ao ex-presidente Fernando Collor divide o comando da campanha petista. Já há os que defendem a oportunidade de se usar o slogan “89 nunca mais”. Mas os petistas ainda têm dúvidas sobre qual seria o adversário mais difícil: Ciro ou Serra num possível segundo turno. O senador José Eduardo Dutra (SE) está entre os que acham que o partido não deve comparar Ciro a Collor:
— Tem uma certa carga de preconceito na comparação com Collor: jovem, nordestino, boa pinta. Não é por aí. O grande problema do Ciro é mostrar que não irá se transformar numa marionete do PFL — disse.
Empresário admite que arrecadou dinheiro para PT
SANTO ANDRÉ (SP). Procurando desqualificar depoimentos de testemunhas que o acusam de envolvimento no suposto esquema de cobrança de propina na prefeitura de Santo André, o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, confirmou à CPI que investiga o caso que arrecadou dinheiro com empresários para a campanha do prefeito assassinado Celso Daniel (PT), em 1996.
Silva, que não era tesoureiro oficial da campanha, negou cobrança de propina, mas não revela os nomes dos doadores. O empresário é um dos acusados de integrar uma quadrilha que supostamente extorquia dinheiro de empresários de transportes para sustentar campanhas do PT.
Testemunhas dizem que cobrança só começou em 97
Algumas testemunhas disseram ao Ministério Público e à CPI que o recolhimento de propina teria começado apenas em 1997, quando Daniel assumiu a prefeitura de Santo André.
O empresário Sebastião Passarelli, por exemplo, disse que, pressionado, chegou a entregar dinheiro nas mãos de Silva, que o teria recomendado a levar a remessa para o empresário Ronan Maria Pinto, que também nega as acusações. Silva, já denunciado pelo Ministério Público, classificou de vergonhosas as denúncias contra ele.
Ele disse também que o médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado em janeiro, foi “muito bem instruído” por grupos de oposição ao PT e que nunca recebeu dinheiro de empresários da cidade para abastecer as campanhas petistas à prefeitura de São Paulo, em 2000, ou de Luiz Inácio Lula da Silva, este ano, conforme denúncia de João Francisco.
O advogado do empresário, Roberto Podval, disse, pouco antes de se iniciar a sessão, que o seu cliente não tem compromisso com a verdade.
— Enquanto réu num processo criminal, ele (Silva) não está comprometido com a verdade. Não é tido como testemunha, mas como réu. Por isso, não pode ser punido — disse Podval, quando o presidente da CPI, Antônio Leite (PT), perguntou a Silva se ele falaria apenas a verdade, sob pena de ser enquadrado em artigos da Constituição.
Pouco depois, Silva preferiu não responder à pergunta sobre se o assassinato de Daniel poderia ter relação com a suposta quadrilha. Podval interveio e disse que o assunto não era o foco da CPI. Silva acompanhava Celso Daniel quando ele foi seqüestrado, em janeiro deste ano.
O empresário foi lacônico ao responder se o deputado Duílio Pisaneschi (PTB-SP) alguma vez havia lhe pedido dinheiro para, em benefício da campanha de Daniel, desistir da candidatura à prefeitura em 2000. Silva olhou para o advogado, baixou a cabeça, sorriu e, segundos depois, respondeu que não. Entretanto, não poupou o deputado de críticas:
— Essa história de que o Duílio teria sido pressionado para deixar sua empresa é pura inverdade. Todos sabem do peso dele na cidade, e ninguém teria condições de pressioná-lo.
Silva confirmou ainda a sociedade que mantém com Ronan em Fortaleza, na empresa de ônibus Costa do Sol, e disse que é amigo do ex-secretário de Serviços Municipais Klinger Luiz de Oliveira Sousa, acusado de ser o mentor do esquema de propina. Disse ainda que poria sua declaração de Imposto de Renda à disposição da CPI.
— Nunca fui pobre nem rico — disse ele, que iniciou carreira na prefeitura de Santo André como segurança de Daniel.
Família não descarta exumação do corpo de Daniel
João Francisco Daniel disse ontem que sua família não desistiu ainda de pedir que as investigações sobre a morte do prefeito sejam retomadas.
— Queremos que a polícia esclareça muita coisa que a família ainda não conseguiu saber. Até agora ainda não pudemos ver os anexos dos laudos da necropsia sobre a morte de meu irmão. Queremos saber de tudo, nem que seja preciso exumar o corpo — disse.
O médico, que preferiu não comentar as acusações de Silva, não quer mais que as investigações sejam acompanhadas por advogados do PT, como foi feito até agora.
FH cria quatro áreas de proteção ambiental
BRASÍLIA. O presidente Fernando Henrique Cardoso lançou ontem a Agenda 21 Brasileira, com os compromissos do país para o meio ambiente. Ele criou quatro áreas de proteção ambiental no país. O decreto, porém, não incluiu a criação do Parque Nacional do Tumucumaque, no Amapá, como era esperado. Fernando Henrique disse que ficaria muito satisfeito se pudesse instituir o novo parque até agosto, já que em setembro ele vai a Johannesburgo, na África do Sul, participar da Rio+10, a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, mas admitiu que o projeto enfrenta resistências na Região Norte.
FH diz que ainda quer fazer coisas que marquem
O parque protegeria mais da metade da área do Estado do Amapá. Seria o maior parque tropical do mundo, com 3,8 milhões de hectares. Num recado a ministros e aos candidatos à Presidência, usando o parque como exemplo, Fernando Henrique disse que tem poder para “fazer muitas coisas que marcam” nos últimos cinco meses de seu governo.
— Acredito na persuasão e tenho força de persuasão. Mas, se não tiver persuasão, tenho poder. E vamos chegar a um resultado positivo a respeito (do parque Tumucumaque). É um compromisso nosso alcançarmos uma percentagem da nossa área preservada. Tenho poucos meses de governo, mas ainda dá para fazer coisas que marquem — disse Fernando Henrique.
Como parte da Agenda 21 Brasileira, o presidente criou o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba, na divisa dos estados de Piauí, Maranhão, Bahia e Tocantins; a Estação Ecológica Mico-Leão Preto, em São Paulo; a Reserva de Extrativismo Vegetal do Amazonas; e o Conselho da Bacia Hidrográfica do Rio Parnaíba.
Presidente cobra participação do Congresso
O presidente disse ainda que espera promulgar em agosto o Protocolo de Kioto, que estabelece compromissos entre os países para redução de emissão de gases responsáveis pelo chamado efeito estufa em 5%, no período de 2008 a 2012. Para isso, é preciso que o Congresso aprove o protocolo. Fernando Henrique também cobrou a aprovação pelo Congresso da Lei da Mata Atlântica, que prevê regras para a preservação das áreas remanescentes da Mata Atlântica.
Artigos
Ciro Gomes e as isenções fiscais
Renato Fragelli Cardoso
No primeiro programa de entrevistas com os candidatos à Presidência da República (“Jornal Nacional” do dia 8), Ciro Gomes, sem perceber, deu um bom exemplo de por que o Brasil ainda não implantou um verdadeiro ajuste fiscal, nem distribuiu melhor a renda.
Ciro respondeu com serenidade e objetividade às perguntas sobre a dívida pública, e disse que considera fundamental o equilíbrio orçamentário. Mas acrescentou que a disciplina fiscal não pode desconsiderar situações peculiares, defendendo, por exemplo, a isenção tributária concedida a taxistas na compra de veículos novos. Essa isenção constitui um caso didático de como, no Brasil, os grupos de pressão bem organizados conseguem impedir uma alocação racional dos recursos públicos, contribuindo para a péssima distribuição de renda brasileira.
O brasileiro que compra um automóvel novo paga IPI – um imposto federal – além de ICMS – um imposto estadual. Esses dois impostos representam cerca de 1/3 do preço pago pelo cidadão comum, mas não incidem na compra de automóveis destinados à praça. Além desses dois impostos, o cidadão comum paga IPVA, do qual estão isentos os táxis.
Subsídios e isenções fiscais são defensáveis em alguns casos, como a compra de medicamentos e alimentos essenciais. Mas seria o transporte individual em táxis um desses casos? O brasileiro que conhece Nova York, por sinal o mesmo que tem poder aquisitivo para andar de táxi, sabe que os táxis daquela cidade riquíssima são muito mais velhos que os que circulam em São Paulo ou Rio de Janeiro. Não há algo estranho nisso?
Quem se beneficia, em princípio, da isenção concedida à compra de táxis novos? Os taxistas economizam na compra de seus veículos; os passageiros de táxis beneficiam-se de veículos novos e confortáveis; os acionistas de montadoras aumentam seus lucros; e os metalúrgicos da indústria automobilística aumentam sua capacidade de barganha salarial diante de um empregador que consegue vender mais.
Quem paga a conta? É o cidadão que muitas vezes viaja de ônibus em pé durante horas, ou em trens superlotados. Para esses indivíduos desorganizados politicamente, a generosa isenção tributária que beneficia a classe média que anda de táxi com ar-refrigerado – seja no banco da frente ao volante, ou no banco de trás – reflete-se em menos gastos públicos na saúde e/ou na educação.
A isenção tributária aos taxistas é apenas um pequeno exemplo de como o Estado brasileiro distribui renda às avessas. No momento, a crise das empresas de aviação já está batendo na porta do Estado. Alguém já viu pobre andar de avião?
Há vários outros exemplos, com custos muito maiores para o erário: créditos subsidiados a indústrias de viabilidade duvidosa; universidade gratuita para os filhos das classes média e alta; o FCVS onde o Tesouro assume dívida da classe média que comprou a casa própria pelo SFH.
Segundo estudo do Ministério da Fazenda de dezembro de 2000, as diversas isenções tributárias alcançam 4% do PIB. Nos últimos oito anos, a carga tributária brasileira saltou de 25% para 35% do PIB, enquanto os gastos públicos não financeiros cresciam de 25% para 31% do PIB. Mas a miséria nas ruas mostra que o aumento de gastos não atingiu os mais necessitados.
Não quero aqui criticar grupos específicos, sejam taxistas ou metalúrgicos. Como passageiro de táxi, beneficio-me da generosidade descrita acima. Pretendo apenas chamar à reflexão aqueles que criticam a má distribuição de renda, mas ajudam a perpetuá-la.
Colunistas
PANORAMA POLÍTICO – Tereza Cruvinel
Matar ou morrer
O Ibope mostra o crescimento da onda Ciro, mas ninguém sabe ainda se ela está na crista, próxima ou longe dela. Certo é que os tucanos sabem que se não furar a onda agora, José Serra será por ela afogado. Este o sentido da reunião de emergência de hoje. Urge não só corrigir as falhas da campanha, diz o aliado Moreira Franco, do PMDB, cobrando uma presença mais ativa do presidente.
De sua parte, Fernando Henrique dispõe-se a uma participação mais intensa, só que na fase televisiva, que começa em 15 de agosto. Disse a interlocutores que há sérias restrições legais à sua participação em comícios e inaugurações ao lado de candidatos. Admite falhas no comando político da campanha e não chega a estar exatamente magoado, como já foi dito, com as críticas de Serra a medidas do de seu governo, tais como os aumentos de gasolina e gás de cozinha. Disparando sobre esses assuntos, disse, na mesma conversa, Serra não agrega o governo. E, chamando a atenção para o problema, dificulta a solução, que, ao ser apresentada, será taxada de eleitoreira, feita para ajudá-lo. No mais, acha que é ainda cedo para desesperos, e que se descolando do governo, com um discurso ambivalente, Serra não pescará nas águas governistas nem nas da oposição.
Esse é o olhar do presidente sobre a campanha, que na reunião de hoje sofrerá o freio de arrumação que anunciamos domingo.
Voltemos à inquietação do PMDB, antecipada pelas críticas do líder Geddel Vieira Lima ao mau gerenciamento da agenda do candidato, por conta de uma viagem à Bahia sem prévio aviso aos aliados.
Moreira ressalva logo que o partido está firme com Serra, e não procurando pretextos para deixar o barco.
Mas há problemas que precisam ser enfrentados enquanto há tempo para deter Ciro, e o PMDB não deixará de apontá-los. Primeiro deles, a desarmonia no PSDB. Evitando dar nome aos tucanos, refere-se aos arranjos de Ceará, Minas e Goiás, onde foram feitas alianças regionais com aliados de Ciro. No Rio, a aliança do PPB com o PSB de Rosinha irritou o PFL de Cesar Maia. Urge garantir o engajamento dos cardeais do PSDB e do PMDB, diz Moreira, para quem o candidato anda um tanto solitário, inclusive no discurso.
— Serra tem apontado os riscos políticos e econômicos representados por uma candidatura voluntarista e autoritária como a de Ciro, comparando-o a Collor. Não pode falar sozinho, precisa de porta-vozes nessa tarefa, que é de todos que percebem o perigo.
Outro problema, continua Moreira, são as medidas amargas com que o governo onera a candidatura, tais como os aumentos já referidos e a não-intervenção no Espírito Santo. Não vê motivos para melindres, pois antes ainda de ser candidato Serra já criticava a política da Petrobras.
Terceiro ponto, mas de primeira importância:
— O presidente precisa ter uma presença mais afirmativa, e não esperar pela fase televisiva da campanha, que começa em 15 de agosto. Este ano a propaganda eleitoral não será tão determinante, pois foi reduzida a 19 programas, com os quais o candidato não conta uma novela, faz no máximo uma minissérie.
Moreira aponta ainda falhas operacionais da campanha, de agenda e de programação, temas da reunião de hoje. Cabe perguntar-lhe pelas infidelidades no PMDB, onde há gente apoiando Lula, casos de Quércia, José Maranhão, Juraci Magalhães, Itamar e Roberto Requião.
— Problemas velhos e isolados. O partido ficou com Serra e está firme, mas agora precisamos reordenar as forças para deter Ciro. Ninguém quer rever o filme de 1989.Armínio Fraga ligou ontem para Ciro Gomes, que também aceitou conversar, talvez sexta-feira. Hoje Armínio estará com José Aníbal, do PSDB, e amanhã, com Mercadante, do PT.O novo de novo
Ciro Gomes e José Serra estão subindo o tom dos ataques, inclusive nos sites que mantêm na internet. Serra, porém, está deixando agora o pugilismo verbal para seus p orta-vozes, como Jutahy Júnior, que dá o troco à declaração de Ciro, publicada no GLOBO de sábado, chamando Serra de velho, sem energia e constipado pela idade.
— Essas afirmações politicamente incorretas, ofensivas à terceira idade, mostram bem quem ele é. Mais jovem ele é, mas tem a seu lado o que há de mais velho, atrasado, arcaico e bizarro na política brasileira. As oligarquias e os que militaram na tropa de choque que tentou evitar o impeachment de Collor.
Foram da tropa os hoje ciristas José Carlos Martinez, Roberto Jefferson, Antônio Cabrera e os carlistas da Bahia. Ciro pode não gostar, mas essa é uma passagem histórica, não dá para apagar.JOSÉ SERRA vai amanhã a Minas, fazer campanha com Aécio Neves. Se problemas de agenda forem contornados, gostaria de visitar o túmulo de Tancredo Neves em São João Del Rey.
ENGRAÇADA a campanha no Rio. Os candidatos omitem ou imprimem em letras bem miúdas o nome de seus partidos. “Conhecíamos, desde 1950, a cristianização do candidato pelo partido. Agora estamos observando o inverso”, diz Celina Vargas do Amaral Peixoto. Péssimo para um sistema político em que os partidos já não valem grande coisa.
Editorial
CONTER A EBULIÇÃO
É quase uma lei da física: onde as instituições são frágeis e o debate democrático incipiente, como no Paraguai, a insatisfação dos governados tem o mau hábito de degenerar em violência. A crise paraguaia não começou ontem, e é improvável que acabe amanhã: tem razões profundas, e deve ser conduzida pelos paraguaios dentro das regras do jogo democrático. O presidente Luis González Macchi, que acaba de decretar estado de emergência, acusa o ex-general Lino Oviedo de instigar os protestos como manobra tática para voltar ao Paraguai e disputar a Presidência em 2003.
A acusação é grave. A região passa por um momento econômico particularmente vulnerável, e fazer marola nesse clima é receita infalível para aumentar a tensão social. O Mercosul, como se sabe, não tolera agressões à ordem constitucional e à normalidade democrática; e a pena prevista para os infratores é a expulsão. Brasil, Argentina e Uruguai repudiam, portanto, cenas sangrentas como as dos últimos dias — que também não interessam ao Paraguai. Fora do Mercosul esse parceiro mais fraco estaria condenado à estagnação e a todo tipo de incerteza e insegurança.
Oviedo desfruta no Brasil de uma liberdade que não teria em seu país — onde é foragido da Justiça, que o condenou a dez anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Ele nega qualquer envolvimento. Em todo caso, seria prudente levar em conta que sua situação aqui é juridicamente indefinida. Protegido por decisões do Supremo Tribunal Federal, que rejeitou um pedido de extradição feito pelo Paraguai e lhe deu um salvo-conduto que assegura o direito de ir e vir, ele pediu visto de pesquisador — que não permite fazer política. Uma fita de vídeo obtida pelo GLOBO comprova que era justamente isso que ele fazia em reuniões com correligionários paraguaios.
Não se deve esquecer a responsabilidade do governo brasileiro, que ao rejeitar a extradição assumiu implicitamente um compromisso com o Paraguai. A ser verdade que Oviedo teve participação ativa nos episódios dos últimos dias, a participação do Itamaraty na busca de uma saída precisa ser igualmente ativa.
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07/17/2002
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