Deputados aprovam a extinção da Febem
Deputados aprovam a extinção da Febem
Projeto separa infratores de crianças abandonadas
A Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem) ficou a apenas um passo de ser oficialmente extinta.
Por unanimidade, a Assembléia aprovou ontem à tarde o projeto que substitui a Febem por outras duas fundações e separa adolescentes infratores de crianças abandonadas em definitivo.
As duas áreas haviam sido separadas em 1999, quando os abrigos destinados às crianças desamparadas passaram a ser administrados pela Secretaria Estadual do Trabalho, Cidadania e Assistência Social (STCAS). Com a decisão de ontem, a antiga Febem, rebatizada com o nome Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), atenderá apenas aos adolescentes infratores.
O fim da Febem será a última etapa de uma mudança que começou em 1998, com a primeira tentativa de separar as atribuições na instituição, um preceito do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O passo seguinte foi a aprovação de um projeto pela Assembléia, em 14 de dezembro de 1999, repassando à STCAS a responsabilidade pelos abrigos.
Considerada uma das mudanças mais importantes da proposta aprovada ontem, a troca do nome afastará a instituição da palavra menor, considerada um estigma para o público atendido pela fundação. O termo é condenado pelo ECA. Da mesma forma, o nome Febem era considerado inadequado, por estar ligado à política definida no antigo Código de Menores, de 1969.
– A mudança adequará a Febem às normas do ECA. A estrutura que está aí é dos tempos da ditadura, e precisava ser alterada – afirma o líder do governo na Assembléia, deputado Ivar Pavan (PT).
A diretora da Febem, Ana Paula Costa, afirma que o nome não correspondia ao trabalho desenvolvido pela fundação. Segundo ela, só Rio Grande do Sul e São Paulo mantêm a antiga denominação. O novo nome, Fase, busca mudar a imagem do que a fundação pretende representar para os adolescentes infratores.
– É um momento na vida do adolescente, não um estigma que será carregado no futuro. Fase é um nome que não caracteriza o adolescente apenas por um ato cometido por ele – argumenta Ana Paula.
Embora a oposição tenha apresentado emendas ao texto original, aumentando a participação dos servidores na administração da fundação, o conteúdo do projeto não foi alterado de forma significativa. O líder da bancada do PMDB, deputado José Ivo Sartori, concorda com a avaliação da direção da Febem a respeito da troca de nome.
– Esperamos apenas que a mudança não seja apenas uma forma de mascarar o estigma, mas também uma transformação na estrutura – declarou.
Moradores inconformados com “presídio juvenil”
A construção de um centro da juventude da Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem) no bairro Belém Novo, zona sul da Capital, é motivo de revolta por parte dos moradores do bairro.
Inconformados com o que chamam de “presídio juvenil”, eles reuniram 5 mil assinaturas contrárias à instalação da unidade e procuraram na Justiça alternativas para evitar a obra.
A unidade abrigará 60 adolescentes infratores de primeiro ingresso. Para diretores da Febem, a unidade é referência no Brasil, não há relação com presídios e tampouco oferece riscos à comunidade. Pelo cronograma, a obra deve se iniciar este mês e tem prazo de 10 meses para conclusão.
A presidente do Conselho Comunitário Pró-segurança Pública (Consepro) de Belém Novo, advogada Rachel Costa Golubcik, explica que as divergências estão relacionados à forma como o projeto foi desenvolvido. Pela versão de Rachel, a comunidade não foi consultada sobre a instalação da unidade no bairro.
– O que chamam de centro da juventude é um presídio, que vai ser cercado com muros de nove metros. Será que vão colocar anjinhos atrás desses muros? – questiona Rachel.
A direção da Febem diz que o tema foi discutido em pelo menos duas reuniões com a comunidade.
O contador Breno de Avila Almeida, 69 anos, morador há 42 anos no Belém Novo, aponta outro problema para edificação da obra. Ele lembra que a idéia inicial da Febem era construir a unidade em Novo Hamburgo. A falta de entendimento entre o Estado e a prefeitura local inviabilizou a construção naquele município.
– Essa obra foi aprovada para Novo Hamburgo, não para cá. Os menores têm o direito de se recuperar no seu município de origem. Não há motivos para construir aqui no bairro – critica Almeida, ressaltando que Belém Novo é um bairro residencial.
A resistência dos moradores chegou aos tribunais, mas a primeira investida acabou sendo frustrada. Tratava-se de uma ação ordinária constitutiva, ingressada na 1ª Vara da Fazenda Pública, alegando que a obra não poderia ser construída em função de limitações impostas pelo plano diretor.
A Justiça rejeitou a petição inicial sem julgar o mérito. O advogado dos moradores Alex Jung vai recorrer. Outros dois inquéritos civis públicos, motivados por cerca de 5 mil assinaturas de moradores, estão em andamento no Ministério Público.
PSDB traça esquema para salvar Serra
O objetivo é dissociar imagem do candidato de onda de denúncias
O PSDB começou ontem a montar uma operação para salvar a candidatura de José Serra à Presidência da República.
As denúncias envolvendo o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira obrigaram os estrategistas da campanha de Serra a organizar uma reação.
Ricardo Sérgio é acusado de cobrar propina para organizar um consórcio de empresas no processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce, em 1997.
A situação de Serra agravou-se com a frustrada tentativa do presidente Fernando Henrique Cardoso de reaproximar o PFL do PSDB em jantar no Palácio da Alvorada na segunda-feira. Ontem, os partidos apresentaram versões diferentes para o encontro por meio de notas oficiais. O documento divulgado pelo PFL diz que o presidente da sigla, Jorge Bornhausen, recomendou no jantar a renúncia de Serra, comparando-o ao socialista Lionel Jospin, ex-primeiro-ministro da França que não fez votos suficientes para chegar ao segundo turno das eleições presidenciais. As razões da derrota, segundo Bornhausen, foram dificuldades de agregar politicamente e de se comunicar com o eleitorado, problemas que aponta em Serra.
O presidente do PSDB, deputado José Aníbal (SP), considerou a nota “excessiva” e não condizente com o tom do encontro do Alvorada, do qual teria saído com “expectativa de uma reaproximação” com o PFL. Em nota divulgada posteriormente à do PFL, Aníbal disse que a candidatura de Serra não está “sujeita a contestações ou ultimatos”.
Serra desqualificou a nota do PFL, que condiciona o retorno do partido à aliança governista à retirada de sua candidatura. Segundo o senador, a iniciativa seria uma tentativa de ganhar poder na negociação de uma eventual chapa única à sucessão de FH:
– É uma estratégia de cacife partidário. Só isso.
Numa reunião na manhã de ontem, os líderes do PSDB chegaram à conclusão de que faltou uma ação coordenada do PSDB e uma postura mais firme e indignada de Serra às denúncias envolvendo Ricardo Sérgio, seu ex-tesoureiro de campanha na eleição para o Senado, em 1994.
– Serra tem de parar com essa história de tratar tudo como tititi e trololó, como se fizesse campanha na Suíça – observou um tucano que participou da reunião.
– O assunto é sério e merece uma resposta mais objetiva em defesa de sua própria honradez – completou outro.
Ao encontro, compareceram José Aníbal, o coordenador da campanha, deputado Pimenta da Veiga (PSDB-MG), os líderes do PSDB na Câmara, Jutahy Magalhães Júnior (BA), e no Sena do, Geraldo Melo (RN), entre outros.
A ordem agora é exigir apuração das denúncias de enriquecimento ilícito, tráfico de influência e cobrança de propina, que envolvem Ricardo Sérgio, tirando Serra do debate. A defesa da “honorabilidade inatacável” do candidato merecerá um plantão permanente de tucanos tanto na Câmara como no Senado, a fim de responder a ataques.
Ricardo Sérgio nega acusações
Ex-diretor do BB divulgou nota
O ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira divulgou ontem uma nota rebatendo a acusação de que teria cobrado propina para organizar um consórcio de empresas e fundos de pensão no processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce.
O economista voltou a negar que tenha pedido comissão de R$ 15 milhões ao empresário Benjamin Steinbruch, líder do consórcio vencedor do leilão da estatal, ocorrido em 1997.
“Essa história de propina é uma mentira sórdida. Nunca pedi nada a Benjamin Steinbruch. Orgulho-me de minha participação no processo de privatização, cumprindo missão de governo. Estou à disposição da Justiça para qualquer esclarecimento. Considero José Serra um homem público preparado para conduzir os destinos do país, e me recuso a compactuar com essa trama de baixo nível que, claramente, visa a atingir sua candidatura”, diz a nota.
Garotinho promete criar Ministério da Casa Própria
Candidato do PSB relatou o dia em que sofreu um despejo
Único candidato à Presidência presente a um debate sobre o sistema de habitação na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, o candidato do PSB, Anthony Garotinho, disse que entende a situação de quem não tem casa porque já foi despejado por falta de pagamento de aluguel.
Na época, precisou morar com a sogra. A reunião teve ainda a participação de especialistas e do boxeador Acelino de Freitas, o Popó. Garotinho aproveitou o debate para fazer campanha e prometeu criar o Ministério da Casa Própria caso seja eleito no pleito presidencial.
Segundo o candidato, o despejo ocorreu quando morava em Campos, no norte fluminense. Garotinho era radialista e ficou desempregado. Sua mulher, Rosinha, candidata ao governo do Rio, vendia cosméticos de porta em porta. Por falta de pagamento, acabaram despejados e foram viver com a mãe de Rosinha.
– Vivi com a sogra. Senti na pele o que é não ter uma casa para morar – disse Garotinho.
Já Popó, que também foi convidado pela CAS, falou das dificuldades enfrentadas antes de ser um boxeador conhecido. Ele avaliou que o discurso de Garotinho hoje “convenceu só 50%”.
Depois de quase três horas de debate, o baiano foi embora descalço, levando os sapatos apertados nas mãos, e propôs um ringue para os embates eleitorais:
– Vou dar luvas de boxe para os candidatos. Voto em quem ganhar.
Cartórios recebem hoje últimos pedidos de títulos
Hoje se encerra o prazo para quem quer se alistar, fazer segunda via de título ou transferir domicílio eleitoral
Termina hoje o prazo para alistamento eleitoral de quem pretende votar nas eleições gerais deste ano.
Os 173 cartórios eleitorais do interior do Estado e os 10 da Capital abrem em horário especial para atender a procura de última hora.
Além de novos títulos, os cartórios fornecem segunda via do documento e certidão de quitação eleitoral, além de registrar transferências de domicílio. A partir de amanhã, o cadastro eleitoral permanecerá fechado para novas inscrições até o final do segundo turno das eleições. Desde a semana passada, há filas em frente aos cartórios da Capital.
Cerca de 85% dos eleitores gaúchos têm acesso aos serviços eleitorais on-line. As zonas eleitorais que já contam com esse sistema têm condições de alistar o eleitor e fornecer o título eleitoral em menos de cinco minutos.
De acordo com estimativas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 114 milhões de brasileiros deverão participar das eleições deste ano, distribuídos em 420 mil urnas eletrônicas. Um dos grandes desafios da Justiça Eleitoral a partir do fechamento do cadastro será treinar os eleitores para votar com desenvoltura em seis candidatos – deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador e presidente –, digitando 19 algarismos, mais seis vezes a tecla para confirmar a votação.
Os três municípios gaúchos escolhidos para ter os votos dos eleitores impressos pela urna eletrônica são Esteio, São Leopoldo e Sapucaia do Sul.
PTB gaúcho negocia para evitar intervenção
Com a medida, cúpula nacional tenta barrar o apoio à candidatura Britto
As direções nacional e estadual do PTB selaram na noite de ontem uma trégua a fim de negociar, até sexta-feira, uma solução que evite a intervenção nacional no diretório gaúcho.
O presidente nacional do PTB, deputado José Carlos Martinez (PR), havia anunciado para hoje ou amanhã a publicação do edital da reunião da executiva que decidiria pela intervenção.
A razão da discórdia é a decisão do PTB gaúcho, anunciada na sexta-feira, de apoiar a candidatura de Antônio Britto (PPS) ao governo do Estado, abandonando a campanha de José Fortunati (PDT). As cúpulas nacionais do PTB e do PDT haviam acertado um pacto de unidade nos Estados.
Até sexta-feira, deve ocorrer uma rodada de negociação entre Martinez, o vice-presidente nacional do partido, deputado Roberto Jefferson (RJ), o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Sérgio Zambiasi (PTB), e o tesoureiro nacional do partido, deputado federal Edir Oliveira (PTB).
- Vamos tentar reabrir os canais de negociação. A intervenção não constrói – afirmou Edir na noite de ontem, depois de conduzir as negociações da trégua em Brasília.
Durante todo o dia de ontem a direção esteve reunida em Brasília, junto com representantes da executiva do PDT, para tratar do assunto. A decisão de intervir começou a ser esboçada na segunda-feira, durante reunião da cúpula do PTB e do PDT, no Rio. A situação da aliança em todos os Estados foi discutida. Segundo Martinez, os problemas são restritos ao Rio Grande do Sul e a Minas Gerais, onde o PDT não estaria disposto a apoiar o senador Arlindo Porto (PTB-MG):
- É uma decisão que estamos tomando com tristeza, mas não há outra saída. O PTB gaúcho sempre quis se colocar acima de nós.
Com a intervenção, a cúpula nacional do partido pretendia forçar o PTB gaúcho a apoiar a candidatura de Fortunati (PDT) ao Piratini.
Para Jefferson, o PTB gaúcho não estaria entendendo que a aliança PTB-PDT nos Estados faz parte de um projeto nacional que pretende reunir futuramente os dois partidos numa mesma sigla:
– Estaremos devolvendo ao povo a grande legenda do trabalhismo. Hoje, o PTB tem a moldura e o PDT o retrato, que é Brizola (Leonel Brizola, presidente nacional do PDT), do trabalhismo.
A tendência, segundo Jefferson, é o partido indicar inclusive um nome para vice na chapa de Fortunati e realizar a aliança na eleição proporcional, hipóteses não aceitas pelo PTB gaúcho.
O PTB gaúcho manobra para ganhar tempo, tentando evitar a intervenção. Com isso, poderiam ser evitada uma medida drástica da executiva até o dia 14 de junho, data da convenção estadual. Se o apoio à candidatura de Britto for confirmado, a executiva não teria sustentação para intervir no diretório, segundo integrantes da legenda.
PFL decide amanhã sobre aliança com PPS
O PFL gaúcho decidirá amanhã se participa da chapa majoritária encabeçada pelo ex-governador Antônio Britto (PPS). Ontem, depois de receber o pedido formal do PPS para integrar a aliança, o presidente regional do PFL, deputado estadual Germano Bonow, disse que terá de submeter o convite à executiva do partido. Se a coligação for c onfirmada, Bonow deverá ocupar o cargo de vice.
As cúpulas estaduais dos dois partidos reuniram-se no final da manhã de ontem, na sede regional do PFL, para debater a possibilidade de apoio. Britto visitou Bonow em companhia do presidente estadual do PPS, deputado federal Nelson Proença, e do senador José Fogaça.
Segundo Bonow, o partido simpatiza com o assédio do PPS, mas só deverá firmar uma posição depois de reunir amanhã a executiva estadual. O deputado disse que já recebeu o aval do presidente nacional do partido, senador Jorge Bornhausen (SC), sobre a aliança.
– A tendência do partido é confirmar a união com o PPS no Estado. Acho muito difícil o PFL voltar atrás na decisão de liberar as coligações regionais – afirmou Bonow.
Para Britto, a parceria com o PFL representa um “acerto natural”.
– Coligar com o PFL é um ato de coerência política. Brizola e eu somos coerentes de que a candidatura de Ciro deve buscar o apoio do PFL – ironizou.
Na ocasião, Britto aproveitou para criticar a ida do ex-prefeito da Capital e candidato do PT ao governo do Estado, Tarso Genro, à Espanha.
– A viagem é muito cara. Se o objetivo dele era atrair indústrias, poderia ter feito isso em Guaíba – disse Britto.
PT define comando de campanha de Tarso
Reunidos na manhã de ontem, integrantes da direção do PT estadual definiram o nome dos 23 filiados que farão parte da coordenação de campanha do ex-prefeito Tarso Genro ao governo do Estado.
Na próxima reunião, prevista para o dia 11, a lista deverá ser homologada, acrescida de três integrantes indicados pelos outros partidos da Frente Popular (PSB, PCB e PC do B).
– Enquanto a oposição não se entende, vamos dando os passos para a vitória. Teremos bastante tempo para produzir material. Quando se iniciar a campanha, estaremos prontos – disse Chico Vicente, secretário-geral do PT.
Na reunião do diretório, haverá definição sobre as quatro suplências para o Senado. Apesar de os dois candidatos a senador – o deputado federal Paulo Paim e a senadora Emília Fernandes – serem do PT, alguns integrantes da direção não concordam em desistir de todas as suplências.
Na manhã de sexta-feira, as direções dos partidos da Frente Popular no Estado se reúnem. À tarde, os candidatos a deputado federal e estadual dos três partidos encontram-se no Hotel Umbu.
FH se preocupa com eventual vitória eleitoral de Lula
Presidente teme que petista ponha programas em risco
A preocupação com a eventual eleição do candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi manifestada na segunda-feira pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em jantar no Palácio da Alvorada, com partidários do PSDB e do PFL.
Fernando Henrique disse que a vitória de Lula poderia pôr em risco a continuidade dos programas do governo, conforme relatou ontem o senador José Jorge (PFL-PE), que participou do encontro.
Ao pedir o apoio político do PFL para concluir o mandato, Fernando Henrique destacou as dificuldades que o governo poderá ter ainda este ano, chamando atenção para a necessidade de aprovar o quanto antes a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) no Senado.
– Sem o PFL, a base do governo diminui e fica mais difícil no Congresso – ressaltou o presidente, ainda conforme Jorge.
Embora não tenha conseguido o apoio pefelista à candidatura do senador José Serra (PSDB-SP) à Presidência da República, Fernando Henrique obteve o compromisso do PFL de não apoiar qualquer proposta de criação de CPI no Congresso para apurar denúncias de cobrança de propina no processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). As denúncias atingem o ex-tesoureiro de campanha de Serra Ricardo Sérgio de Oliveira.
Artigos
O jornalismo e o café da manhã
Badger Vicari
Tempos atrás o presidente Fernando Henrique citou Tolstói e o início do romance Ana Karenina, que eu acho um dos mais bacanas da literatura: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.
FH falava de globalização e queria dizer que a universalidade do mundo pode ser encontrada nas coisas que nos são próximas. Por isso a alusão a Tolstói, que ao retratar o drama de uma família colocou nela elementos de amor e frustração que são encontrados em todas as famílias ou pessoas.
Quem curte política gosta de ver seu lado elogiado e o adversário, massacrado
Pois literatura boa é essa que fabrica seus personagens com boa dose de humanismo, porque as pessoas são assim, cheias de defesas e agressividades – diferente de personagens de uma literatura medíocre, ou de novela, que em geral são caricaturas e, vejam só, definidos rapidamente pelo autor com meia dúzia de adjetivos.
Eu lembro que, quando li Ana Karenina pela primeira vez, logo de cara me encantei com esse início. Não que um início defina se vou continuar ou não a leitura, mas que chama atenção, chama.
Volta e meia esse tipo de enquete aparece, com famosos sendo entrevistados para informar que primeiras frases de livro estão gravadas na memória e tal. Na última Feira do Livro de Porto Alegre, por exemplo, o jornalista David Coimbra enumerou na Zero Hora uns quantos inícios bem interessantes. Eu lembrei então de Ana Karenina, que é o meu preferido.
Mas recentemente terminei um livro – O Reino e o Poder, uma História do New York Times –, do jornalista Gay Talese – no qual o primeiro parágrafo também me tocou:
“Em sua maioria, os jornalistas são incansáveis voyeurs que vêem os defeitos do mundo, as imperfeições das pessoas e dos lugares. Uma cena sadia, que compõe boa parte da vida, ou a parte do planeta sem marcas de loucura não os atraem da mesma forma que tumultos e invasões, países em ruínas e navios a pique, banqueiros banidos para o Rio de Janeiro e monjas budistas em chamas – a tristeza é seu jogo, o espetáculo, sua paixão, a normalidade, sua nêmese.”
O livro em si é importante, e é bastante elogiado por jornalistas; e, acreditem, os jornais todos se parecem! New York Times, Folha de S.Paulo, Zero Hora... Jornal de Beltrão, onde trabalho, em Francisco Beltrão (PR). Não na estrutura, mas nas proporções de ver o mundo; o tipo de abordagem que fazem da história e a colocam em suas páginas é semelhante.
Uma norma do NYT, desde o século 19, é mais ou menos assim: façamos um jornal que não estrague o café da manhã das pessoas. Sem sensacionalismo, sem perseguição, apenas informando e, quando necessário, interpretando.
Os leitores negativos dos jornais sempre gostariam que seu assunto predileto fosse mais explorado. Assim, quem curte política gosta de ver seu lado elogiado e o adversário, massacrado.
Quem é grevista gostaria que o jornal estragasse o café da manhã do governo em toda edição. Quem é vítima de uma injustiça gostaria que isso fosse a manchete do dia seguinte.
Todos têm suas próprias razões, mas ao jornal cabe filtrá-las: não se omitindo, mas também não servindo de biombo para quem só quer estragar os cafés da manhã dos outros.
Colunistas
ANA AMÉLIA LEMOS
Invasões e eleição
No mais longo programa para mostrar no rádio e na televisão qual será o tipo de governo que fará se vencer as eleições, o candidato do PT Luiz Inácio Lula da Silva endereçou mensagem especial para produtores rurais e líderes do MST. Disse que “seu governo fará reforma agrária em clima de paz, sem violência”. Fez isso semanas após a invasão estrepitosa da fazenda Córrego da Ponte, em Buritis, Minas Gerais, que pertence aos filhos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ali , os líderes se esbaldaram com as delícias de uma boa adega e com o rancho gordo preparado para a família passar o feriado de Páscoa com amigos. As imagens da invasão e de toda a “liturgia” usada pelos líderes que colocaram a bandeira vermelha sobre a mesa da sala principal correram mundo e foram amplamente divulgadas no país.
Na oportunidade, o candidato da oposição tentou tirar do PT qualquer responsabilidade pelo gesto do MST. A repercussão foi ampla. Diversos segmentos da sociedade condenaram com veemência a invasão. A causa da reforma agrária, sempre bem-vinda, acabou comprometida pela arrogância e pela violência do gesto do MST na Fazenda Córrego da Ponte. Por mais força que faça Luiz Inácio Lula da Silva para mostrar que PT e MST são instituições com projetos políticos distintos, na prática não ocorre no Rio Grande do Sul.
A bandeira do MST não está para enfeite no gabinete do secretário da Agricultura do Estado. Essa aliança é pública e notória e o governo gaúcho tem enorme orgulho disso.
É bom lembrar que o projeto de Olívio Dutra foi apresentado aos eleitores gaúchos em 1998 e, no governo, dele não se afastou. Os eleitores, inclusive muitos proprietários rurais da fronteira gaúcha, fizeram a opção pelo projeto petista, que é coerente com a ideologia que foi defendida durante a campanha eleitoral.
Com o recrudescimento das invasões de terras avançando agora sobre áreas comprovadamente produtivas, muitos produtores repensam o apoio que deram à candidatura do PT em 1998. E os números favoráveis obtidos pelo partido, na última eleição, talvez não se repitam no pleito deste ano, pelo menos na fronteira gaúcha, onde os conflitos fundiários explodiram com vigor, deixando proprietários rurais sem a proteção do Estado e da lei.
JOSÉ BARRIONUEVO
Britto depende da candidatura de Serra
É perfeita a sintonia do PPS de Antônio Britto com o PFL, liderado por Germano Bonow, Onix Lorenzoni e Reginaldo Pujol. Na reunião de ontem, porém, ficou claro que uma aliança fica na dependência da manutenção da candidatura de José Serra. Se o candidato do PSDB desistir de concorrer, o PFL integra a aliança dos dois maiores partidos, independentemente de ser Tasso Jereissati ou Aécio Neves o candidato.
Para Ajuris, Bisol age como inimputável
O presidente da Ajuris, José Aquino Flôres de Camargo, divulgou nota acusando o secretário Bisol de estar agindo como inimputável (são os incapazes, menores de idade e portadores de deficiência mental). O desembargador, que não é maçom, utiliza expressões como “prática autoritária”, “arbítrio”, “preconceito”, “ideologia”, “desequilíbrio” definindo a conduta do ex-desembargador. De forma didática, lembra a Bisol a indispensável postura dos magistrados – com “ética, decência, honestidade” – para exercer com dignidade o cargo, o que o desembargador aposentado “talvez tenha esquecido de seu passado”.
“O secretário Bisol age como um inimputável, isto é, como quem se sente imune a qualquer espécie de responsabilidade e imagina que não necessita ‘filtrar’ suas idéias. O risco é que, reiterando tal conduta, caia no ridículo, desmoralizando a autoridade do cargo que ostenta. Ao colocar em suspeita toda a Justiça, talvez tenha esquecido do seu passado. Desmoralizar às instituições traduz prática autoritária, que não recomenda a democracia. O desembargador aposentado deveria saber que as decisões judiciais só se legitimam quando fundamentadas no direito; não em ideologias. Ainda assim, estão sujeitas ao recurso. Quando em segundo grau, são colegiadas, afastando-se assim, o arbítrio. Mas não apenas isso: a cena judiciária é fiscalizada por advogados e membros do Ministério Público. A filosofia, a ideologia, a crença, enfim a paixão pessoal de cada um não são requisitos à carreira da magistratura, tampouco constituem óbice. Portanto, merecem apenas respeito. O contrário significa preconceito. O que distingue o indivíduo é seu caráter; não a sua condição de maçom. Ao exercício da magistratura exige-se honestidade, decência, ética, enfim compromisso com a dignidade do cargo. Mas, sobretudo, responsabilidade e equilíbrio são indispensáveis a quem pretende julgar condutas humanas (grifo do autor). O senhor secretário talvez tenha esquecido disso, pois faz tempo que retirou a toga.”
Petista vê Bisol na extrema direita
Um professor de história, maçom, do PT, diz que as declarações do secretário da Segurança “vincula seu autor à extrema direita”. Lembra o Protocolo dos Sábios de Sião, que falava de uma conspiração judaico-maçônica no mundo inteiro, que serviu de inspiração para as atrocidades cometidas por Hitler, colocando em prática suas idéias. O mesmo intelectual, conhecido do colunista (prefere o anonimato, no momento), lembra que até os anos 60 um escritor ligado ao integralismo, Gustavo Barroso, via conspiração maçônica em todos os acontecimentos importantes da vida política brasileira.
Observa ainda que a maçonaria foi vetada na Espanha de Franco e no Estado Novo de Vargas. É o discurso do secretário.
Maçons devem perdoar secretário
Tolerantes por natureza e doutrina, os maçons vão perdoar Bisol, que pouco conhece a instituição milenar. Farão o mesmo os juízes?
É recomendável que Bisol leia um pouco mais sobre a maçonaria a partir dos Templários. Afinal, até o Papa (o atual, João Paulo II) reconheceu que a maçonaria foi indevidamente perseguida. Se foi secreta, foi secreta como o cristianismo, que se escondeu das perseguições nas catacumbas.
Há um simbolismo, sim, mas há muito tempo deixou de ser uma instituição secreta. Apenas preserva seus rituais.
A filosofia maçônica prega a busca da justiça e da perfeição como formas de crescimento humano. Se fosse maçom, certamente Bisol seria mais discreto. Respeitaria mais o próximo.
PTB participou mais das mobilizações
Coordenador da campanha para a prefeitura em 2000, vice-presidente estadual do PTB, Cláudio Manfrói encaminha uma série de fotos que mostram uma presença mais forte de petebistas na campanha de Alceu Collares, desmentindo as críticas do ex-governador de que teria sido traído pelo partido na eleição para a prefeitura da Capital. As fotos do arquivo de ZH também confirmam: as bandeiras do PTB predominavam, tendo Collares sempre a seu lado a candidata a vice, Sônia Santos. A participação do PTB foi considerada decisiva à época para que o ex-governador chegasse ao segundo turno contra Tarso Genro.
Apenas Manfrói deixou a campanha na Capital para concentrar esforços no segundo turno em Canoas, onde é presidente do partido. Venceu a chapa de Marcos Ronchetti (PSDB) e Márcio Kauer (PTB), na única cidade onde o PT não ganhou, das quatro em que havia segundo turno (Pelotas, Caxias, Canoas e Porto Alegre).
É certo que em determinado momento houve um atrito, quando o PTB ofereceu restrições à participação mais ostensiva de Neuza Canabarro na campanha eleitoral. Restou a mágoa.
Brizola faz carinho no PTB e ataca Britto
Do Rio, Brizola volta a interferir na sucessão gaúcha, com uma nota oficial lançada às 22h de ontem com o claro objetivo de inviabilizar a candidatura de Britto e salvar a aliança trabalhista. A manifestação mais dura de Brizola é feita em sintonia com Roberto Jefferson, que força um recuo do PTB gaúcho com ameaça de intervenção.
A nota também desautoriza Collares, que durante a coletiva de Fortunati, segunda, dispensou a contribuição do PTB de Zambiasi (texto acima). “Devemos deixar à margem da estrada manifestações de ressentimentos, por mais justificados que sejam, mas nestas alturas inoportunos”. Brizola tenta constranger Zambiasi ao dizer que “só um deplorável equívoco pode levar um trabalhista a seguir os descaminhos que este improvisado político direitista vem trilhando”. Ref ere-se à “candidatura conservadora e neoliberal do sr. Antônio Britto”, que, para Brizola, “surge como um corpo estranho e oportunista em busca de objetivos que só podem ser uma reprodução do seu desastroso governo”. Vê Britto como uma “afronta a tudo que o trabalhismo e a obra de Getúlio representam”. neste país”.
Casal Fetter homologado
Em reunião do diretório de Pelotas, o PPB assegurou por larga margem as candidaturas da família Fetter. Com 34 votos, Fetter Júnior concorre a deputado federal, com 44 votos, Leila Fetter buscará uma vaga na Assembléia. Por 21 votos, o diretório lançou Érico Ribeiro também a deputado estadual, para facilitar a reeleição de Fetter, mesmo sabendo que o empresário concorre à Câmara dos Deputados com o apoio de mais de 30 municípios e com a chancela do diretório estadual. Na última eleição para a AL, Érico fez 76 mil votos, sendo 47 mil só em Pelotas.
Ford da Bahia é modelo
O inglês Martin Sorrel, dono da maior empresa de marketing do mundo (a WPP), em entrevista às páginas amarelas de Veja, coloca a Ford da Bahia como modelo. Fala sobre marketing: “A Shell, por exemplo, aumentou o número de clientes com o patrocínio de campanhas de preservação. Outro exemplo é a fábrica da Ford na Bahia. Foram criados dezenas de milhares de empregos, a renda da cidade aumentou, há mais escolas sendo construídas. Com isso vem a cultura, o entretenimento, o teatro”.
ROSANE DE OLIVEIRA
A última cartada
Ou o PFL derruba a candidatura do ex-ministro José Serra agora ou se conforma com a idéia de que está fora do jogo no primeiro turno. O presidente do PFL, Jorge Bornhausen, aproveitou um momento em que Serra está fragilizado pelo mau desempenho nas pesquisas e pelas denúncias contra Ricardo Sérgio de Oliveira para sugerir a renúncia do candidato. A conversa de Bornhausen, de que “a renúncia pode revelar o espírito público de seu autor”, mexeu com os brios dos tucanos. E desencadeou uma operação de salvamento, com o apoio do PMDB.
Sabem os líderes do PMDB que se os tucanos capitularem diante do PFL, substituindo Serra por Aécio Neves ou Tasso Jereissati, será impossível manter a vaga de vice. Aécio, o neto de Tancredo Neves, teria condições de unificar o que até o início do ano era a base governista, mas a cúpula do PSDB não está disposta a substituir o candidato para satisfazer os caprichos do PFL. Quem pode saber se Serra está mal nas pesquisas por falta de empatia com os eleitores ou por carregar o fardo de ser o candidato do governo?
Jereissati, o candidato dos sonhos do PFL, nunca conseguiu decolar no PSDB. Não seria diferente agora, quando um dos problemas de Serra é explicar uma suposta doação de R$ 700 mil do irmão de Tasso, o empresário Carlos Jereissati, não contabilizada na sua campanha de senador. O PFL diz que “para ganhar, o candidato tem de agregar politicamente e se comunicar com facilidade diretamente com o eleitorado.” No quesito comunicação, convenhamos que Jereissati não vai além de um empate técnico com Serra.
O silêncio do presidente Fernando Henrique Cardoso começa a ficar pesado. Diante de um pedido formal do PFL para que Serra renuncie – e dos boatos de que o candidato teria apresentado uma carta de desistência – o líder do PSDB poderia ter vindo a público para dizer que essa hipótese está descartada. Seria mais convicente do que uma nota do PSDB ou uma declaração do deputado José Aníbal.
Editorial
RESPALDO DEMOCRÁTICO
A elevação do risco Brasil a um patamar superior ao da Venezuela atribuída à liderança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de opinião pública e por denúncias envolvendo o ex-tesoureiro de campanha de José Serra (PSDB) pode até se basear em razões ou indícios inconsistentes. Até que se prove isso – e, no caso das denúncias, a única forma é com ampla investigação –, porém, os prejuízos ao mercado financeiro e mesmo à economia brasileira continuarão sendo concretos e substanciais. Por isso, governo e pré-candidatos precisam concentrar esforços nesse momento para evitar que o país coloque em risco um patrimônio conquistado à custa de elevadas doses de sacrifício da população como a estabilidade.
Como lembrou ontem o ministro Pedro Malan, da Fazenda, o que os aspirantes ao Planalto devem fazer neste momento é transmitir com o máximo de clareza o grau de comprometimento com a responsabilidade fiscal, o controle da inflação e a manutenção do regime cambial. O mesmo vale para o governo, que tem o mérito de ter preservado a mais duradoura estabilidade de anos recentes, garantindo-a com mecanismos de austeridade na gestão pública como a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas preterindo avanços essenciais como a reforma tributária. Em ambos os casos, a preocupação existe, mas as ações concretas ainda são insuficientes.
O país está pronto até mesmo para a possibilidade de alternância no poder, assegurando posse a quem for eleito
Ainda ontem, os responsáveis pela coordenação de campanha do PT à Presidência estiveram discutindo propostas para a elaboração do plano de governo com dirigentes da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), a mais influente entidade do setor produtivo no país. De sua parte, o ministro da Fazenda se diz convencido de que o país pode conseguir avanços na reforma tributária ainda neste ano. Por isso, é fundamental que o Congresso se dê conta da necessidade de dedicar atenção ao tema, mesmo num ano em que muitos parlamentares parecem mais preocupados em assegurar votos dos eleitores do que com o destino imediato do Brasil e dos brasileiros.
O país, porém, não tem mais como continuar convivendo com os prejuízos de dúvidas sobre supostos desvios na máquina pública, nem com suposições pouco sustentadas que só interessam a especuladores. Concretamente, a elevação do risco Brasil nesta semana fez com que o custo da rolagem da dívida externa chegasse a superar nove pontos percentuais acima dos juros pagos pelos títulos norte-americanos. O preço para que o país possa continuar assegurando uma estabilidade da qual não pode abrir mão tornou-se elevado demais. O país ainda se mostra vulnerável na economia, mas consolidou sua democracia e está pronto até mesmo para possibilidade de alternância no poder, assegurando posse a quem quer que seja eleito. É essencial, por isso, que venha a contar com um mínimo de compreensão por parte de investidores, até agora mais predispostos justamente a uma atitude oposta e de alto risco para o país.
Topo da página
05/08/2002
Artigos Relacionados
Deputados aprovam mínimo de R$ 260
Deputados aprovam suplementação de R$ 41 milhões
Em extraordinária deputados aprovam 17 matérias
Deputados aprovam suplementação orçamentária
Deputados aprovam o relatório final da CPI
Deputados aprovam suplementação de R$ 9.11 milhões