Derrame de urnas falsas









Derrame de urnas falsas
Polícia Federal apreende material para montagem de 80 urnas falsificadas e encontra mais duas máquinas irregulares em funcionamento em São Sebastião. Votos registrados nos equipamentos são para coligação do governador Joaquim Roriz

O procurador-regional eleitoral Antônio Carneiro Sobrinho está impressionado com as fraudes cometidas na campanha eleitoral no Distrito Federal. ‘‘Esse é o caso de falsificação de material eleitoral mais grave de que já tive notícia. Estou surpreso com esse atrevimento’’, comentou, referindo-se à apreensão realizada pela Polícia Federal de peças de informática que seriam usadas para construir pelo menos oitenta urnas eletrônicas falsas. O material foi encontrado na noite de domingo no Lixão da Estrutural por fiscais do Parque Nacional de Brasília. Ainda ontem, a Polícia apreendeu mais duas urnas falsas, montadas e em pleno funcionamento, que estavam sendo usadas para treinar eleitores em São Sebastião.

As duas urnas encontradas em São Sebastião são idênticas às outras três apreendidas desde o início do mês pela Justiça Eleitoral — e montadas com material semelhante ao encontrado no lixão. Até os votos registrados nas urnas são parecidos aos dos aparelhos já recolhidos: foram destinados, em sua maioria, a candidatos da coligação do governador Joaquim Roriz (PMDB). As urnas apreendidas ontem continham votos para os seguintes candidatos: Dorvalino Alves da Silva (PPB), deputado distrital; José Roberto Arruda (PFL), deputado federal; Paulo Octávio (PFL) e Jofran Frejat (PPB), Senado; Joaquim Roriz (PMDB), governo; e José Serra (PSDB), candidato à presidência.

De acordo com o artigo 340 da Lei Eleitoral, é proibido fabricar, mandar fabricar, adquirir, fornecer, subtrair ou guardar qualquer material de uso exclusivo da Justiça Eleitoral — o que é o caso das urnas eletrônicas. Há dois anos, o Tribunal Superior Eleitoral proibiu explicitamente os simuladores de votos, por acreditar que o uso dos equipamentos poderia beneficiar candidatos de maior poder aquisitivo. O crime é passível de punição de um a três anos de reclusão. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nelson Jobim, determinou ontem ao diretor-geral do órgão, Miguel de Campos, que analise as urnas apreendidas no Distrito Federal e acompanhe as investigações da Polícia Federal sobre o caso.

O volume de equipamentos encontrados pelos fiscais do Parque Nacional de Brasília foi o que mais impressionou o Ministério Público Eleitoral do DF. Os mais de oitenta monitores, teclados e placas de informática estavam depositados próximos à cerca do Parque, no Lixão. O material foi levado na segunda-feira à 3ªDP, do Cruzeiro Velho, mas a Polícia Civil se negou a apurar o caso (veja abaixo). Só ontem os equipamentos chegaram à Polícia Federal.

As duas urnas eletrônicas apreendidas em São Sebastião foram encontradas na quadra 203, na casa do desempregado José Edmilson Lopes de Oliveira, de 33 anos. Em depoimento à 30ªDP, Edmilson informou que estava em casa ontem de manhã quando um homem, que se identificou apenas como André, se ofereceu para ensinar a ele e à sua família como votar na urna eletrônica. André Luiz Silva de Moura, que afirmou à polícia fazer parte de um grupo chamado ‘‘Força Azul’’, instalou duas urnas na garagem da casa. A Polícia chegou à casa por orientação da juíza Maria Cristina Danem, da Comissão de Fiscalização de Propaganda Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

O promotor Antônio Carneiro Sobrinho vai pedir prioridade à superintendência da Polícia Federal no inquérito sobre as urnas falsas, para que as apurações estejam concluídas em até quinze dias. ‘‘Um eventual culpado pode ser punido mesmo depois das eleições, com a cassação de seu mandato’’, avisou.


Esquenta a corrida ao Senado
Disputa pelo segundo voto dos eleitores de Cristovam, Paulo Octávio e Jofran Frejat fica ainda mais embolada com o surpreendente crescimento de Fredo

Daqui a um mês, o brasiliense poderá votar em dois senadores. Mas o que parece uma boa para o eleitor virou uma tremenda dor de cabeça para os candidatos. São duas vagas, mas apenas um turno. E o segundo voto vale tanto quanto o primeiro, que indica a preferência do eleitor. A conseqüência é a disputa estratégica pelo segundo voto do eleitor entre o ex-governador Cristovam Buarque (PT), o empresário Paulo Octávio (PFL) e o médico Jofran Frejat (PPB). Os mais fortes candidatos ao Senado, segundo a mais recente pesquisa Vox Populi/Correio.

Embora os três briguem pelos votos dos adversários, ninguém ataca. Pela simples lógica de que com essa tática correriam risco de perder o segundo voto. A batalha se dá por outros meios. Cristovam Buarque usa o horário eleitoral gratuito na tevê para promover o desconhecido economista Fredo Ebling Júnior, o segundo candidato da Frente Brasília Esperança (PT, PCdoB, PCB e PMN) na disputa pelas vagas do Senado.

Na rua, os militantes do PT fazem o trabalho de conscientização. A investida deu resultado. A pesquisa do Vox Populi mostra que Fredo Ebling saltou de 1% para 7% na preferência do eleitorado no período de um mês — de 30 de julho a 29 de agosto. ‘‘Eu imaginava que cresceria. Só não esperava que a velocidade desse crescimento fosse tão surpreendente’’, diz o candidato do PC do B.

Fredo está tecnicamente empatado, no quarto lugar, com o senador Lauro Campos (PDT), um ex-petista com história política e que teve mais de 350 mil votos na eleição de 1994. ‘‘Pelo menos, ele não faz uma guerra monetária’’, conforma-se Lauro Campos.

Empate na lidaerança
Pela pesquisa estimulada do Vox Populi, em que os entrevistados têm o auxílio de uma lista com o nome dos candidatos, Cristovam Buarque e o deputado federal Paulo Octávio estão empatados na liderança da disputa pelo Senado. Cristovam tem 51% e Paulo Octávio, 49%, somadas a primeira e a segunda intenção de votos. Mas a diferença de dois pontos percentuais caracteriza empate técnico, já que a margem de erro da pesquisa é de 3,7 pontos percentuais para mais ou para menos. O ex-secretário de Saúde e deputado federal, Jofran Frejat, aparece em seguida, com 27%.

Já a pesquisa do Ibope, divulgada ontem pela Rede Globo, mostra Paulo Octávio na liderança, com 48%, seguido por Cristovam (46%) e Frejat (20%). Lauro Campos tem 9% e Fredo, 7% O Ibope ouviu 800 eleitores entre os dias 2 e 4 de setembro. A margem de erro é de 3,5%.

Embora esteja em terceiro nas duas pesquisas, Jofran Frejat é um forte nome na disputa e pode ameaçar tanto a candidatura de Cristovam quanto a de Paulo Octávio. ‘‘Frejat não está fora do jogo. Há um espaço gigantesco a ser ocupado de eleitores indefinidos quanto ao segundo voto’’, afirma Ricardo Penna, do Instituto Soma, Opinião e Mercado.

É esse espaço que Paulo Octávio e Cristovam querem conquistar para garantir a eleição. O crescimento de Fredo ajuda. Evita que votos migrem para os adversários, mas ainda assim Cristovam e Paulo Octávio preferem não adotar uma campanha agressiva, de ataque mútuo. ‘‘Não interessa a nenhum deles. Cada um quer o segundo voto do outro’’, diz Frejat.

Roriz se esforça para alavancar a campanha de Frejat. Usa o palanque da campanha da reeleição para pedir votos para o ex-secretário e Paulo Octávio. ‘‘Mesmo eu estando no palanque de Roriz, não tenho o apoio dele na televisão e isso é um prejuízo enorme’’, lamenta Jofran Frejat.


Desfile mais pobre
Falta de recursos orçamentários reduz atrações militares de 7 de Setembro

Um dia da independência simplório, com 600 militares a menos. O corte orçamentário do governo federal nas Forças Armadas minguou o 7 de Setembro deste ano. A e xibição de caças Mirage da Força Aérea Brasileira (FAB) sobre a Esplanada dos Ministérios, a principal atração dos desfiles anteriores, está vetada até segunda ordem.

A previsão de gastos das Forças Armadas para este ano era de R$ 5,2 bilhões — depois dos cortes, sobraram apenas R$ 2,4 bilhões. O resultado poderá ser visto amanhã. Recrutas e equipamentos para os desfiles em Brasília e nas capitais brasileiras foram dispensados do evento. Para amenizar o mal-estar, o cerimonial do Planalto oferecerá coquetel para oficiais, depois do desfile.

As histórias das dificuldades financeiras chegam a ser contadas como folclore. Mas é tudo real. No último mês de julho, nenhum dos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para reabastecimento — dois Boeing 707 convertidos (os conhecidos ‘‘Sucatões’’) e dois Hercules KC-130H — estava em condições de vôo. Também não havia verba para combustível. Por isso, depois do pentacampeonato de futebol, os caças que fizeram a escolta do avião da Seleção tiveram o vôo limitado a 20 minutos.

Falta de peças
Os entraves financeiros são ainda maiores. Metade dos 59 aviões de ataque AMX — o modelo mais moderno em uso na FAB — está no solo, em manutenção. Faltam peças para completar o trabalho. Por medida de economia, os 50 caças F-5E Tiger II e os 20 Mirage IIIEBr só podem decolar numa situação de emergência. Apenas unidades de ensino e treinamento como a Academia da Força Aérea, em Pirassununga, e o Centro de Aparelhamento e Treinamento de Equipagens (Catre), em Natal, estão autorizados a manter sua atividade normal.

Para atender às restrições orçamentárias, a Marinha desembarcou as tripulações e encostou no Arsenal do Rio de Janeiro três fragatas da Classe Garcia, dois navios de desembarque da Classe Thomaston e o porta-aviões São Paulo. Símbolo da ambição nacional de se transformar em potência marítima, o porta-aviões São Paulo foi adquirido em 2001 por US$ 50 milhões e entrou em estaleiro no mês de agosto para passar por uma reforma em suas caldeiras, que não tem data para terminar.

Metade dos 30 aviões A-4K comprados do Kuweit foi armazenada para redução de custos. Também foram parados os programas de
modernização de quatro fragatas da Classe Niterói e as construções da corveta Barroso e do submarino Tapajó. Em dezembro passado, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou, no tradicional almoço de fim de ano com os oficiais-generais das Forças Armadas, que 2002 seria ‘‘o ano do Exército’’.

No último mês de março o Congresso Nacional aprovou uma verba de R$ 270 milhões para compra de caminhões e modernização de carros blindados de fabricação nacional, com mais de 20 anos de uso. O dinheiro não saiu. Sem dinheiro, os recrutas passaram a cumprir meio-expediente para reduzir os custos com refeições. Por dia, deixaram de ser servidas 150 mil cafés da manhã e almoços. Em julho, o quadro de penúria foi montado por completo — 44 mil dos 72 mil recrutas foram liberados. A baixa acabou antecipada em seis meses e soldados foram fotografados aos prantos (leia quadro ao lado).

O cenário pouco positivo para o próximo ano levou os militares a convidar os candidatos a presidente para uma conversa. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — primeiro colocado nas pesquisas eleitorais — aceitou. Debaterá temas como ‘‘O papel das Forças Armadas’’ na Escola Superior de Guerra (ESG), no Rio, dia 13. O convite é uma tentativa dos militares em confirmar as boas intenções dos candidatos com as Forças Armadas descritas nos programas de governo.


Verba contada para militares
O governo FHC foi um dos que mais cortou dinheiro do Exército, Marinha e Aeronáutica. Os programas dos quatro principais candidatos à Presidência têm um ponto em comum: prometem reequipar o setor com produtos nacionais

O governo Fernando Henrique Cardoso será lembrado com um misto de tristeza e alegria pelos militares. O ministro da Defesa, Geraldo Magela Quintão, conseguiu dar partida a diversos programas de modernização, principalmente para a Força Aérea Brasileira, a mais sucateada das Forças Armadas. Mas, por outro lado, faltou dinheiro até para alimentar os recrutas, forçando o Exército a liberar seus conscritos no mês de julho.

Como herança positiva, o atual presidente da República deixará o completo controle do aparato nacional de defesa em mãos civis, algo que não ocorria desde o início do século XX, quando Pandiá Calógeras ocupou a pasta do Ministério da Guerra. Essa política não mudará no futuro. Os quatro candidatos na frente das pesquisas defendem a manutenção do Ministério da Defesa. Mas apresentam algo diferente: concentrar os gastos de reequipamento em indústrias nacionais. Com isso, pretendem reativar a economia e obter uma maior independência dos fornecedores estrangeiros.

Durante o governo do general Ernesto Geisel, surgiu um parque industrial-militar expressivo. A Engesa chegou a ser a maior exportadora de carros blindados sobre rodas do mundo, mas perdeu seus clientes no exterior ao não conseguir superar uma política de dumping (vender a preços mais baratos para arruinar o concorrente) promovida pelos Estados Unidos e países da Europa. Sem encomendas internas suficientes para manter-se, minguou e faliu em 1990.

A Avibrás, fabricante do sistema Astros II de foguetes de artilharia, andou mal das pernas, mas conseguiu sobreviver à derrocada da indústria bélica brasileira ao diversificar sua produção para o mercado civil. Em 1999 deu uma virada, ao vencer uma concorrência internacional, no valor de US$ 300 milhões, para fornecer sistemas de foguetes para a Artilharia do Exército da Malásia. Vale uma comparação: de 1986 até hoje, os militares brasileiros compraram apenas duas baterias de Astros II ao preço de US$ 10 milhões.

Na quarta-feira, com a presença de Quintão, houve o lançamento do catálogo que sobrou da indústria bélica nacional. Cerca de 370 empresas estão listadas, um terço das existentes em 1986. Desse total, menos de 20 são de médio e grande porte, como a Embraer e a Avibrás. A grande maioria fabrica componentes e peças pequenas.

Parque desmontado
Essa situação precária é apenas uma mostra do enfraquecimento militar do país nos últimos 20 anos. O parque industrial militar foi desmontado, a estrutura de construção naval, que chegou a ter 40 mil operários, implodiu e os planos de modernização das Forças Armadas fracassaram um após o outro.

O Seminário sobre a Política Nacional de Defesa, promovido há duas semanas pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, foi um desfile de queixas. O comandante do Exército, general de Exército Glauber Vieira, declarou que mais de 80% dos recursos da força são gastos no pagamento de pessoal, sobrando apenas 1,3% para investimentos. ‘‘Enquanto os recursos para a aquisição de viaturas é de R$ 2 milhões, necessitamos de R$ 100 milhões’’, declarou. O tenente-brigadeiro Carlos Almeida Baptista, comandante da Aeronáutica, revelou que apenas 45% dos 750 aviões e helicópteros da FAB estão em condições de vôo.

Ministro do Superior Tribunal Militar (STM), o tenente-brigadeiro Sérgio Xavier Ferolla, não poupou farpas. ‘‘O Brasil é um país submisso e a dispensa de 44 mil recrutas é vergonhosa. Um vexame nacional e internacional. É nas Forças Armadas que muitos deles conseguem comer e vestir’’, afirmou. ‘‘As mães desses jovens estão apelando aos coronéis para que seus filhos não sejam dispensados. Outros estão entrando na Justiça pelo direito de permanecerem’’, completou.

Ele acredita que o desmonte da nação seja responsável pela vulnerabilidade econômica do país e considera um crime de lesa-pátria o uso da poupança nacional no socorro às empresas estrangeiras. ‘‘Não sou contra a empresa estrange ira. Sou contra o investimento brasileiro nestas empresas. A nossa poupança deve ser utilizada para as nossas empresas que já enfrentam dificuldades demais.’’

O presidente da comissão, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), acha que o Brasil vive hoje, uma soberania vulnerável. ‘‘Sem que o país adote um Projeto Nacional de Desenvolvimento é muito difícil falarmos de independência e de soberania para o Brasil. As Forças Armadas não cumprem seu papel por que o Estado não lhe dá as condições para isso’’, garante. ‘‘O papel constitucional das Forças Armadas encontra-se absolutamente comprometido e que o Brasil não tem, hoje, condições de fazer frente ao narcotráfico e o contrabando’’.


Ciristas atacam TSE
PPS, PDT e PTB reclamam de decisões da Justiça Eleitoral favoráveis ao candidato José Serra. Ministro Nelson Jobim diz que não discute política

Aliados do candidato a presidente Ciro Gomes (PPS) adotaram novas estratégias de campanha para tentar reverter a queda nas pesquisas de intenção de voto e a vaga no segundo turno para o candidato José Serra (PSDB). Os três partidos que sustentam a campanha de Ciro — PPS, PTB e PDT — divulgaram ontem carta em que criticam o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acusam os ministérios da Saúde e do Trabalho, e a Controladoria Geral da União, de serem ‘‘usados como usinas de falsas notícias’’ contra o candidato e seu vice, o sindicalista Paulo Pereira da Silva.

O presidente do TSE, Nelson Jobim, reagiu às críticas. ‘‘O TSE examina caso a caso, em cima de casos concretos e da lei”, garantiu Jobim. ‘‘Os autos são o local adequado para discutir as decisões’’, rebateu. ‘‘O TSE não discute mobilização política, discute processos’’, completou.

Em outra frente, o presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen, irá ao Maranhão para tentar convencer a ex-governadora Roseana Sarney a desconsiderar as orientações do seu pai, o ex-presidente José Sarney, e não apoiar a candidatura presidencial do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo sem pertencer à coligação, o PFL apóia Ciro. Já o presidente do PDT, o ex-governador do Rio Leonel Brizola, pedirá a organizações internacionais que enviem observadores para o país. Brizola acha que há risco de fraude nas eleições.

A carta com ataques ao governo federal e ao TSE é assinada pelos presidente do PPS, senador Roberto Freire (PE) e do PDT, Leonel Brizola, além do deputado federal Walfrido Mares Guia (MG), pelo PTB. Eles se dizem preocupados com ‘‘o rumo tomado pela sucessão presidencial’’ e afirmam que o TSE tem sido parcial ao deferir ‘‘com frequência’’ pedidos de direito de resposta contra Ciro ao candidato José Serra (PSDB). O líder do PPS na Câmara, deputado federal João Hermann (SP), chegou a dizer ontem que a sigla TSE significa ‘‘Tribunal para o Serra se Eleger’’. O Ministério da Saúde contestou os aliados de Ciro. ‘‘São palavras fortes, mas vazias, que acusam sem apresentar provas’’, informou o ministério, em nota oficial. O Ministério do Trabalho e a Controladoria da União não se manifestaram.

Roseana
A operação ‘‘Segura-Roseana’’, como foi batizada a viés maranhense das novas estratégias da campanha de Ciro, acontece na próxima terça-feira, quando Bornhausen estará em São Luís. Pefelistas sabem que Roseana não vai contrariar a decisão do pai, mas querem garantir que a ex-governadora não declare seu voto para presidente durante a campanha. Como a família Sarney tem o controle político do Maranhão, qualquer apoio ao petista Lula por parte de Roseana — que é candidata ao Senado — seria fatal para Ciro, que disputa com Serra o segundo lugar da sucessão.

No Rio de Janeiro, assessores de Brizola informaram que ele tem estudos demonstrando que as urnas eletrônicas não são confiáveis e que podem ser usadas para fraudar o resultado final das eleições. Com base nesses estudos, Brizola já entrou em contato com a Fundação Carter — dirigida pelo ex-presidente norte-americano Jimmy Carter —, especializada em acompanhar eleições em todo o mundo. A Internacional Socialista, organização de partidos socialistas de diversos países e da qual o PDT faz parte, também será convidada a enviar observadores eleitorais para o Brasil.


Debate editado
O Lula colocou a Glorinha Kalil do PT (leia-se Marta Suplicy) em cena. O programa de ontem pareceu o antiga TV Mulher. A prefeita de São Paulo propôs um projeto de doação de uniforme escolar para crianças carentes. Mas vai ter que ter a marca dela. A mochila será da marca Louis Vuitton e a roupa vai ser da Daslu.

O Garotinho prometeu plantar um Restaurante de R$ 1 em todas as cidades brasileiras. Vai acabar criando o Ministério do Quilo para isso. O Serra, do alto da sofisticação tucana paulista, bem que poderia propor a abertura de um Fasano por cidade.

O candidato do PSDB à Presidência vai acabar atingido por um míssil americano. O programa tucano diz que ele enfrentou os Estados Unidos e venceu. O FBI vai acabar sendo colocado ao lado do Bin Laden na lista dos mais procurados.

Para ajudar a cimentar o caminho de Serra até o Planalto, o programa dele fez uma entrevista com Antônio Ermírio de Moraes. Há mérito nisso. Antes, os contribuintes de campanha preferiam o anonimato.

E o Ciro diz que não é Collor, que não tem nada de parecido com o ex-presidente, mas adora um debate editado. O candidato do PPS só repete (de acordo com sua edição, onde só ele aparece bem na fita) o debate da Record entre os presidenciáveis.

Ontem, o Ciro fez um programa destinado ao Ceará. Teve forró e cenas cearenses. É o primeiro sinal de um político que sente a pancada do adversário. Depois, de cair uma penca de pontos nas pesquisas eleitorais em quase todas as regiões, o ex-governador tenta segurar os votos que tem no Nordeste.


Artigos

Colorindo egos
Temos hoje razoável radiografia socioeconômica das desigualdades raciais produzidas pelo racismo e a discriminação

Sueli Carneiro

Nesta semana ocorreu em São Paulo o I Congresso Brasileiro Ciência & Profissão, promovido pelo Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira. Um megaevento com mais de 14 mil inscritos, voltado para a avaliação da produção científica, profissional e das perspectivas futuras dessa disciplina. Entre os temas em debate, psicologia, preconceito racial e humilhação social, uma decorrência da campanha ‘‘Preconceito racial humilha; humilhação social faz sofrer’’, desencadeada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia envolvendo também os 15 conselhos regionais de psicologia.

Há anos vimos dizendo que já temos acúmulo em várias áreas do conhecimento sobre as conseqüências sociais do racismo e da discriminação racial. Em particular, a antropologia e a sociologia vêm contribuindo significativamente para a desmistificação, no plano das idéias, do mito da democracia racial e para a explicitação das desigualdades raciais existentes notadamente entre negros e brancos no Brasil.

Mais recentemente, economistas vêm qualificando mais a magnitude dessas desigualdades a ponto de, neste momento, podermos afirmar que vivemos num país apartado racialmente, dadas as disparidades nos Índices de desenvolvimento humano (IDH) encontradas para brancos e negros.

Temos hoje, portanto, razoável radiografia socioeconômica das desigualdades raciais produzidas pelo racismo e a discriminação. No entanto, esses diagnósticos se ressentem da ausência de estudos sobre um dos aspectos mais perversos do racismo e da discriminação racial — os danos psíquicos e sobretudo o golpe na auto-estima que os mecanismos discricionários produzem nas vítimas do racismo.

Nesse sentido, a psicol ogia é uma das áreas das ciências humanas que menos vem aportando contribuições para esse problema, sobretudo para a diminuição do sofrimento psíquico que provoca.

Essa lacuna no conhecimento do impacto do racismo e da discriminação sobre a subjetividade negra se revela na escassa bibliografia sobre o tema na área de psicologia, o que motivou outra iniciativa importante do Conselho Federal de Psicologia: a instituição do Prêmio Arthur Ramos com o tema Pluralidade Étnica: um desafio de incentivo à Psicologia Brasileira, um incentivo a pesquisas sobre esse assunto.

Para Marcelo Carvalho, a campanha Preconceito racial humilha; humilhação social faz sofrer pretende resgatar ‘‘o compromisso social da psicologia, depois de um passado de discriminação, segregação e preconceito racial. Como no caso da teoria do caráter. Respeitada no início do século, tinha substrato claramente racista e discriminatório. A mensagem era simples: pessoas brancas seriam superiores; indígenas, apesar da altivez, seriam preguiçosas; e negras, intelectualmente inferiores’’.

Ela é também, segundo seus organizadores, produto da crescente percepção do papel e da responsabilidade social da psicologia na diminuição do sofrimento psíquico dos seres humanos e do reconhecimento de que as condições de vida a que está submetida a maioria da população brasileira são fontes geradoras de sofrimento psicológico e uma forma de violação dos direitos humanos.

Tal como afirma Jurandir Freire, ‘‘ser negro é ser violentado de forma constante, contínua e cruel, sem pausa ou repouso por uma dupla injunção: a de encarnar o corpo e os ideais de ego do sujeito branco e a dor de recusar e anular a presença do corpo negro’’.

Em ‘‘Significações do corpo negro’’, uma das raras teses de doutorado em psicologia, de Izildinha Baptista Nogueira, a autora reafirma que ‘‘à medida que o negro se depara com o esfacelamento de sua identidade negra, ele se vê obrigado a internalizar um ideal de ego branco. No entanto, o caráter inconciliável desse ideal de ego com sua condição biológica de ser negro exigirá um enorme esforço a fim de conciliar um ego e um ideal, e o conjunto desses sacrifícios pode até mesmo levar a um desequilíbrio psíquico’’.

Por outro lado, a introdução da variável étnica, racial nos estudos e no trabalho cotidiano dos profissionais da psicologia deve aprofundar também a investigação sobre os efeitos perversos sobre a subjetividade dos brancos, das representações imaginárias e simbólicas do corpo branco como instrumento de poder e de privilégios à custa da opressão material e simbólica dos outros. Em termos de saúde mental, o que significa um ego e uma subjetividade inflados pelo sentimento de superioridade racial?

Para que se possa quebrar o círculo vicioso de produção de egos inflados versus egos deprimidos, é preciso agir sobre as duas pontas do problema em prol da construção de um círculo virtuoso em que compartilhar igualitariamente a diversidade humana seja um princípio de enriquecimento para todos.

Nesse sentido, a desconstrução da brancura como ideal de ego da
sociedade é imperativo para a libertação e cura de todos, negros, brancos, indígenas, orientais. E talvez nisso resida o papel mais estratégico que os psicólogos têm a cumprir.


Editorial

PATRIMÔNIO AO ACASO

Infelizmente, um incêndio de proporções trágicas vem reavivar na pauta do dia a necessidade de conservação do patrimônio histórico e artístico nacional. O desastre na Igreja Matriz de Pirenópolis é uma lição. Qualquer que tenha sido a causa, ficam expostas as veias da falta de zelo e do amadorismo no trato da memória brasileira. Vela ou curto-circuito, o crime foi cometido contra uma cidade, um estado e um país.

Há pouco, as águas em Goiás Velho, elevadas porque a preservação ambiental falhou. O desmatamento provocou o assoreamento do Rio Vermelho. Prédios não se sustentam sem o meio ambiente, afirmam os especialistas. Antes, o altar-mor da Igreja do Mosteiro de São Bento de Olinda, tomado por cupins. Teve de ser restaurado por um milhão de dólares para participar de exposição em Nova York. Há outros casos. Em geral e de maneira equivocada, consideramos melhor remediar do que prevenir. Hoje, o patrimônio nacional está vulnerável a chuva, roubo e fogo.

Do mesmo modo, o turismo predador leva a conseqüências desastrosas. A mesma Pirenópolis, que teve sua igreja bicentenária destruída, sofre com a falta de planejamento turístico, às vezes recebendo um número de visitantes incompatível com sua infra-estrutura. Em breve, o Rio das Almas não suportará mais tanta poluição e poderá comprometer todo o sítio histórico.

A Matriz havia sido reformada recentemente. O fogo joga por terra um projeto de restauração considerado bom, mas que não se permitiu pensar numa possível destruição. Por que as ações governamentais parecem estar sempre aquém do mínimo necessário para se considerar que a questão está sendo efetivamente levada a sério? As verbas são sempre menores do que propõem e reivindicam com propriedade os mais diversos e sérios projetos de conservação país afora. Enfim, há uma dificuldade intrínseca ao trabalho de manutenção dos monumentos que formam a nação.

Não é mais concebível que as autoridades estejam sempre tentando recuperar o prejuízo. Podemos aprender a evitá-lo com um mínimo de interesse e organização. Foi gasta a soma de R$ 1,6 milhão para a reforma da Igreja Matriz de Pirenópolis. O governo federal prevê agora investimento de R$ 5 milhões para reerguê-la.

O custo social do empreendimento, entretanto, é infinito. A tristeza pela destruição da Igreja Matriz ficará gravada na memória dos brasileiros.


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09/06/2002


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