LAVRADOR TRANSFORMA RAÍZES E GALHOS SECOS DO CERRADO EM ARTE



Quando Pedro de Oliveira Barros aposentou-se por invalidez e começou a esculpir e entalhar os galhos e raízes secos que encontrava no sertão, a longínqua Barra do Corda, no centro do Maranhão, estranhou. Afinal, a arte sempre andou tão longe daquele pedaço do mundo que nenhum de seus habitantes um dia imaginou haver entre eles próprios um artista, quanto mais um escultor. Estaria "seu" Pedro ficando louco? O tempo provou que não. Pedro - que expõe seus bichos e plantas na Galeria Senado até esta quarta-feira, 24 - tem hoje trabalhos espalhados por vários países do mundo, como o Canadá, os Estados Unidos, a Alemanha, a Espanha, a Suíça e até mesmo em um museu na Dinamarca, onde uma escultura de Lampião e Maria Bonita tem destaque. Países, no entanto, em que ele nunca esteve.- É claro que eu gostaria de mostrar meus trabalhos nesses países. Ou melhor, gostaria de fazer uma exposição em outro estado brasileiro - estilhaça, assim, seu sonho, este escultor que completa 80 anos no próximo 4 de novembro.Grande admirador de seu trabalho é o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, que levou para Genebra, onde mora atualmente, seis de seus trabalhos. As viagens de "seu" Pedro, no entanto, são menores: em geral, o ônibus que o leva do Plano Piloto a Cidade Ocidental, município goiano em que reside, no entorno de Brasília. O desvio na coluna veio depois de 44 anos de trabalho na lavoura, trabalho que não lhe rendeu a aposentadoria mas sim a invalidez. Em Barra do Corda, a fama de doido ficou para trás com a mudança.- O pessoal de lá nunca tinha visto nada parecido, e por isso não poderia entender. Eu mesmo nunca havia visto - afirmou Pedro, que é analfabeto. As filhas, já em Brasília, acabaram por trazer o pai. Compraram a casa em Cidade Ocidental e disseram ao pai: "Aí está o cerrado, cate suas raízes que ninguém vai lhe chamar de doido".A carreira começou mesmo em 1981, quando o pintor e escultor Jorge Vieira, residente no Núcleo Bandeirante, resolveu promover a primeira exposição de Pedro. "Fiz três em um mês. E continuo fazendo a mesma coisa - observa, lembrando as recentes exposições que teve no Banco Central e na Câmara dos Deputados", disse ele.

23/09/1998

Agência Senado


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