“Não há prévia que não deixe seqüelas”
“Não há prévia que não deixe seqüelas”
Entrevista: Olívio Dutra, governador do Estado do Rio Grande do Sul
A pesquisa encomendada pelo PT para avaliar o potencial dos seus pré-candidatos ao governo do Estado não tem o aval do governador Olívio Dutra. Ele só foi informado da realização da pesquisa na véspera de a contratação do Ibope se tornar pública. Olívio disse ontem que não é tradição no PT pautar suas decisões por pesquisas e criticou a supervalorização desse instrumento.
O PT decidiu encaminhar a pesquisa no final do ano passado, para avaliar a repercussão da CPI da Segurança na candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Depois, o diretório regional acertou com o nacional a inclusão de perguntas sobre a sucessão estadual. São 40 questões, com diferentes cenários, combinando os nomes de Tarso e Olívio com os pré-candidatos da oposição.
Seja qual for o resultado, o governador continuará defendendo a escolha do candidato por consenso, convencido de que toda prévia deixa seqüelas, embora ressalve que é um instrumento consagrado no PT.
Olívio, que ontem pela manhã visitou as obras do Acampamento Intercontinental da Juventude, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, recebeu Zero Hora no final da tarde, em seu gabinete. Pouco antes, esteve reunido por mais de meia hora com o presidente estadual do PT, David Stival, e com dirigentes do partido.
Bem-humorado, relatou as aventuras e desventuras de suas férias, que começaram pela visita à gruta de Nossa Senhora Aparecida, em Nova Esperança do Sul, em companhia dos pais, e continuaram com uma viagem de escuna pela Lagoa dos Patos, caminhadas pela reserva do Taim e banhos de cachoeira nos Aparados da Serra. Com a unha do polegar esquerdo roxa, contou ter se ferido quando empurrava a caminhonete numa das muitas vezes em que o grupo “tirou um tatu” na região de Mostardas e São José do Norte, durante as férias.
A seguir, a síntese da entrevista:
Zero Hora – O senhor vem defendendo a tese de que o melhor para o PT é escolher seu candidato a governador por consenso. Que critérios devem ser usados para escolher o candidato?
Olívio Dutra – As prévias são uma tradição nossa, mas na atual conjuntura eu tenho a compreensão de que elas são dispensáveis. Quem de nós não conhece o Lula e o Suplicy? Quem de nós não conhece Tarso e Olívio? Eu acho que nós podemos construir este consenso com todas as forças internas do partido, respeitando as suas instâncias e a sua direção. Nós temos é que estar bem preparados para o enfrentamento real do adversário do nosso projeto. Os critérios devem ser da conversa séria, respeitosa e fraterna. Nós somos um governo da Frente Popular e o PSB, o PC do B e o PCB devem ser protagonistas dessse processo.
ZH – Quando o senhor decidiu concorrer à reeleição?
Olívio – Na verdade isso não é uma decisão individual, solitária, nem precipitada. Ela é decorrente de um processo de amadurecimento, de reflexão e de responsabilidade. Temos responsabilidade de dizer que o que estamos fazendo está fazendo bem para o Rio Grande, no desenvolvimento econômico, na inclusão social, no protagonismo político. Esse amadurecimento fez trazer para a direção do meu partido a disposição de construir, junto com as nossas correntes internas, esse consenso.
ZH – Mas se o consenso não for possível, o senhor admite disputar a prévia com o prefeito Tarso Genro?
Olívio – A prévia é uma tradição do nosso partido, mas não há nenhuma prévia que não deixe seqüelas – pequenas, grandes ou médias. Nós somos um partido que tem tradição de debate sério e profundo. Acho que nós podemos fazer este debate de programa, de estruturação do governo, sem necessariamente termos as prévias. Nós não devemos desperdiçar energia. Nós temos que concentrá-la para este embate maior com os adversários do projeto. O povo gaúcho com certeza não quer voltar atrás para um Estado mínimo, que despreza os movimentos sociais. O povo gaúcho quer um Estado em desenvolvimento, com inclusão social.
ZH – Até que ponto a pesquisa encomendada ao Ibope influenciará no seu futuro político?
Olívio – Eu não acredito que estejamos dando a qualquer pesquisa valor maior do que sempre demos. As pesquisas têm valor relativo. Nós sempre nos batemos contra manipulação das pesquisas. Contra os que, por interesse, fazem delas algo definitivo, substituindo a consciência do eleitor e tentando influir na opinião pública. O partido sempre fez pesquisas internas, mas nunca deu valor excessivo.
ZH – O senhor era contra a realização dessa pesquisa encomendada ao ibope?
Olívio – Olha, eu só soube dessa pesquisa praticamente na antevéspera de sua implementação.
ZH – O senhor diria que a pesquisa é desnecessária?
Olívio – Eu estranho que se tenha tido essa idéia. Acho que nós ainda temos tempo para não fazer disto algo definitivo, definidor. Evidentemente que tem a militância, as instâncias e os espaços próprios do nosso partido para debater as coisas. O militante, do campo ou da cidade, mais jovem ou mais caldeado, ele é que é a alma do nosso partido.
ZH – Se o senhor for candidato, acha que a chapa deve ser a mesma de 1998 ou acha que o vice deve ser negociado com outras correntes?
Olívio – Não necessariamente a chapa deve se repetir. Nenhuma articulação interna do partido deve ser excluída. O bom é que possamos ter um avanço considerável, consistente, na apresentação plural e rica do partido no próximo governo avançando mais do que neste primeiro.
ZH – Caso seja escolhido candidato, o senhor se licenciará para fazer campanha?
Olívio – Sim , me licencio. Quero fazer isto consciente e seriamente porque é bom e porque assim será possível fazer bem a campanha. Nós também estamos trabalhando a questão dos candidatos à Câmara Federal, à Assembléia e ao Senado. Nós precisamos aumentar a representação da nossa proposta na Assembléia, na Câmara e no Senado. Os secretários que forem candidatos devem se desincompatibilizar, como manda a lei, no início de abril.
ZH – E se no Senado não houver consenso, o candidato deve ser escolhido numa prévia?
Olívio – Eu acho que não precisamos recorrer às prévias para tomar essas decisões. No PT temos grandes nomes. O problema maior é a nossa riqueza de quadros. Veja aí que nós temos nomes como Raul Pont, Flávio Koutzii, Paulo Paim e Emília Fernandes, que já é nossa senadora. A decisão da Emília, optando pelo PT, não foi uma decisão qualquer. Foi uma decisão corajosa e, portanto, acho que nós temos de levar em conta todos esses valores.
ZH – Caso sinta que a unidade do PT está ameaçada, o senhor pode desistir da disputa em favor de Tarso?
Olívio – Eu faço tudo pela construção da unidade do nosso partido, das forças que compõem o nosso governo e do reforço do nosso projeto. Eu penso que não se pode trabalhar com essa hipótese de retirada. Nós todos temos grandeza e capacidade para construir em diferentes momentos e conjunturas. O importante é ter uma definição clara de quem é o inimigo. Nosso adversário é o projeto neoliberal e os que o representam.
ZH – Hoje o senhor se considera o nome mais forte para enfrentar esse adversário?
Olívio – Não estou pensando individualmente. Estou agindo com a responsabilidade que tenho e que não é exclusivamente minha. Tenho o maior respeito por todas as outras figuras do nosso partido, caldeado no processo de construção, de governar espaços importantes como é o caso da prefeitura de Porto Alegre, com Tarso e com Raul.
ZH – Seria desgastante para o PT o prefeito renunciar o mandato menos de dois anos depois de assumir o cargo?
Olívio – Olha... (pausa) Tem uma questão que nós fomos eleitos para cumprir os nossos mandat os. É tradição. Agora, esta vida é também cheia de surpresas. Eu não adianto uma adjetivação sobre estas circunstâncias. Nós estamos governando com toda a responsabilidade nos espaços para os quais fomos eleitos aqui no Estado na prefeitura de Porto Alegre e nas demais prefeituras.
ZH – O senhor já tem idéia de qual deve ser o eixo da campanha em termos de propostas?
Olívio – Nós temos de avançar nas três questões que marcaram o nosso governo: desenvolvimento econômico desconcentrado e descentralizado, inclusão social e protagonismo político, pela ampliação do Orçamento Participativo.
ZH – Qual é a sua grande frustração nestes três anos?
Olívio – Eu não trabalho com frustrações. Eu trabalho com sonhos e nem todos os sonhos a gente realiza, mas isto não nos impede de continuar sonhando. Quando a gente sonha junto com milhares de pessoas os sonhos vão se transformando ao poucos em realidade.
Tasso vai a lançamento da candidatura de Serra
A solenidade está marcada para hoje, no Espaço Cultural da Câmara dos Deputados
O governador Tasso Jereissati (PSDB) confirmou ontem sua presença no lançamento oficial da pré-candidatura do ministro José Serra (Saúde) à Presidência da República.
O ato ocorrerá hoje, ao meio-dia, no Espaço Cultural da Câmara dos Deputados.
Tasso tomou essa decisão apesar de não ter conversado, nem mesmo por telefone, com Serra, nos últimos dias. O convite foi feito por outros tucanos. Ontem, o governador negou, por meio de sua assessoria, a informação de que teria falado com o ministro entre sábado e segunda-feira passados. Serra teria telefonado para Tasso na última sexta-feira, mas o governador, em viagem pelo interior do Ceará, não o atendeu. Depois, Tasso não retornou a ligação, disse. No sábado à tarde, foi a vez do presidente Fernando Henrique Cardoso falar por telefone com Tasso, que comentou sua discussão com o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, em que os dois trocaram ofensas pessoais, em dezembro. Na conversa, disse que “não aguentava mais” o comportamento de Aloysio, a quem acusa de ter manobrado em favor de Serra.
A decisão de ir à solenidade foi tomada depois de um telefonema do presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB-MG). Como principal argumento, Aécio condicionou a ida do governador à de toda bancada tucana de Minas Gerais, mais simpática à candidatura de Tasso à Presidência.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também confirmou que participará da solenidade. Alckmin afirmou que o PSDB vai estar “coeso” em torno do nome de Serra e voltou a defender a aliança partidária para garantir ao futuro presidente “governabilidade”.
Nova sede do PT deverá custar R$ 500 mil
Sigla organiza festa para reforçar campanha de arrecadação
Depois de visitar 30 imóveis, a direção estadual do PT definiu preferência por dois locais para instalar a nova sede do partido e o comitê eleitoral deste ano.
Por enquanto, a melhor opção seria uma casa de dois pisos e 600 metros quadrados na Rua Câncio Gomes, no bairro Floresta, na Capital. Custando R$ 530 mil, o imóvel tem auditório, estacionamento e apresenta possibilidade de expansão. A outra alternativa está situada na Rua Riachuelo, no Centro. Tem cerca de 900 metros quadrados e custa R$ 500 mil, mas não dispõe de estaciomento.
O partido arrecadou R$ 70 mil para a aquisição. A direção da legenda espera reforçar o caixa no dia 2 de fevereiro, com a festa de 22 anos do PT. Na data, será organizado um jantar nos restaurantes do Mercado Público, com a presença do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, o governador do Estado, Olívio Dutra, e o prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro. Cada restaurante oferecerá um cardápio próprio e com preços diferenciados, permitindo aos militantes escolherem entre contribuições populares ou vips para a campanha de arrecadação de recursos.
Fórum Social lota hotéis da Capital
A alternativa tem sido reservar apartamentos na Serra
Em razão do Fórum Social Mundial, desde a semana passada, não há mais apartamentos disponíveis nos hotéis da Capital entre os dias 29 de janeiro e 5 de fevereiro.
Ainda há poucas acomodações em municípios da Região Metropolitana. A alternativa tem sido reservar apartamentos na rede hoteleira da Serra. A previsão do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares é de que cerca de 10 mil participantes do Fórum se hospedem na Capital e de que aproximadamente 50 mil turistas circulem no Estado.
O presidente do sindicato, Ricardo Krüger Ritter, lembra que na primeira edição do Fórum ainda havia possibilidade de efetuar reservas poucos dias antes do evento, quando 83% da rede hoteleira estava ocupada. Desta vez, praticamente 100% das acomodações estão reservadas.
O aquecimento do setor se dá num período em que, historicamente, a ocupação dos apartamentos não ultrapassa 40% . O Fórum superou o número de reservas de períodos considerados como alta temporada, como os meses de julho a dezembro. Ritter informou que a maioria das reservas em hotéis de luxo é para jornalistas internacionais, painelistas e debatedores.
Brasil e Ucrânia assinam acordos de cooperação
Os convênios entre os dois países prevêem prospecção de petróleo pela Petrobras e lançamento de foguetes
O Brasil vai ceder a Base de Alcântara, no Maranhão, para a Ucrânia realizar testes com foguetes.
Esse foi o principal acordo assinado ontem entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente ucraniano, Leonid Kuchma.
Os dois países decidiram criar uma empresa mista destinada a lançar satélites comerciais com a ajuda de lançadores ucranianos, desde a base brasileira de Alcântara, no Maranhão. Além disso, a Ucrânia assinou um contrato com a Petrobras para a prospecção e extração de petróleo e gás em suas águas territoriais no Mar Negro e no Mar de Azov (sul do país).
Ao desembarcar ontem no aeroporto de Kiev, FH foi recebido por embaixadores ucranianos e recebeu pão e sal de três meninas, conforme a tradição local (o visitante ilustre deve mergulhar o pão no sal e comer). O presidente também foi saudado por crianças vítimas do acidente nuclear de Chernobyl.
Fernando Henrique também esteve no túmulo do Soldado Desconhecido, onde depositou uma coroa de flores em homenagem aos mortos ucranianos na II Guerra Mundial. De lá, seguiu para um encontro com o presidente do parlamento ucraniano, Ivan Pliushch.
Durante seu discurso de saudação a FH, Pliushch comentou que em três meses seu país terá eleições legislativas e que acredita na manutenção da política de colaboração implementada na Ucrânia. E, em tom de brincadeira, disse a Fernando Henrique que “é muito difícil achar um presidente que goste do seu parlamento”.
O presidente participou ainda, na casa de recepções doBrasil, da cerimônia de encerramento do Seminário Brasil-Ucrânia, que discute novas oportunidades de parcerias com o país do Leste Europeu.
A comitiva brasileira encerra hoje sua visita à Rússia e à Ucrânia e deve estar de volta ao Brasil na sexta-feira.
Rússia adia decisão sobre carne suína
O governo russo adiou por pelo menos meio ano a decisão sobre importação de carne suína brasileira.
Em fevereiro, uma missão técnica russa estará no Brasil para prosseguir as negociações para o reinício da comercialização. A autorização para que o Rio Grande do Sul volte a exportar para o mercado russo será analisada.
No ano passado, por causa do surto de febre aftosa, a Rússia suspendeu as importações. O secretário-geral do Ministério da Agricultura, Márcio Fortes de Almeida, membro da comitiva que acompanha o presidente Fernando Henrique Cardoso, disse que o governo brasileiro reafirmou que tanto o governo federal quanto o governo gaúcho cumpriram as exigências da legislação sanitária internacional.
Fortes de Almeida acredita na conclusão das negociações até o final de julho, quando se completa um ano do registro dos primeiros focos da doença no Estado e se encerra o ciclo de controle sanitário.
Ontem, o presidente Fernando Henrique pediu que a Ucrânia abra o mercado para as carnes e outros produtos do agronegócio brasileiro, no encontro de trabalho com o presidente daquele país, Leonid Kuchma. Podem ser beneficiados os produtores de café, açúcar, já importados pela Ucrânia, e de fumo. Assim como a Rússia, a Ucrânia é grande produtora de fertilizantes, além de equipamentos de alta tecnologia nas áreas de energia, petróleo e aeroespacial.
Setor aposta na recuperação
O setor hoteleiro da Capital está confiante num aquecimento em 2002 por conta do Fórum Social Mundial.
A queda de 8,21% na ocupação de leitos de hotéis registrada no ano passado deverá ser compensada pelo fluxo de turistas esperado para o final deste mês em razão do evento.
O presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Porto Alegre, Ricardo Krüger Ritter, chamou o Fórum Social Mundial de “uma boa exceção” para a hotelaria em períodos de baixa ocupação de leitos em Porto Alegre, como o verão.
O principal motivo da queda nas hospedagens foi a construção de um grande número de estabelecimentos a partir de 1998. De lá para cá, a Capital gaúcha recebeu 1,6 mil novos apartamentos. Na década anterior o crescimento foi mais lento. De 1970 a 1985, Porto Alegre ganhou 18 novos hotéis e 1,7 mil apartamentos.
Amigos se despedem de Ajadil de Lemos
O trabalhista que ajudou Brizola durante o exílio morreu nesta terça-feira aos 82 anos e será sepultado amanhã
O trabalhismo gaúcho perdeu na última terça-feira um de seus maiores colaboradores.
Aos 82 anos, vítima de parada cardíaca, morreu o jurista Ajadil de Lemos, seguidor de Alberto Pasqualini e um dos amigos mais fiéis do ex-governador Leonel Brizola.
Vítima de complicações decorrentes do mal de Parkinson, Lemos estava com a saúde debilitada havia mais de três anos. O corpo do advogado, membro simbólico do diretório estadual do PDT, está sendo velado na Capela 9 do Cemitério João XXIII, desde o início da tarde de ontem. O sepultamento ocorrerá amanhã, às 11h.
Dividido entre a paixão pelo Direito e a paixão pela política, Lemos se destacou como um dos mais renomados juristas gaúchos, chegando a ser procurador-geral do Estado, durante o segundo governo Ernesto Dornelles, de 1951 a 1955. Especializado em Direito Cível e de Família, dedicou mais de 60 anos de sua vida à advocacia, foi professor de Direito Constitucional da UFRGS, tendo inclusive rejeitado o ingresso na magistratura para não se afastar do escritório e das aulas.
Na política, foi um dos fundadores – ao lado de Alberto Pasqualini –, em 1945, da União Social Brasileira, que antecedeu a criação do Partido Socialista Brasileiro, posteriormente fundido ao PTB. Pelo partido, foi secretário estadual de Interior e Justiça na gestão Leonel Brizola no governo gaúcho, de 1959 a 1963, e elegeu-se vice-prefeito de Porto Alegre, na chapa de Sereno Chaise, um de seus amigos mais fiéis.
– Na minha vida pública conheci muitas pessoas honestas e leais. Nenhuma delas como o Ajadil, meu grande companheiro da campanha de 1963, que recolocou o PTB na prefeitura – lembra o vice-presidente do Banrisul, Sereno Chaise.
Cassado pelo regime militar em 1964, Lemos teve os direitos políticos suspensos por 10 anos. Nessa época, escondeu Brizola dos militares em seu próprio apartamento, no centro de Porto Alegre, e auxiliou o ex-governador em sua viagem para o exílio.
De acordo com amigos próximos, como o ex-deputado estadual e ex-chefe de Polícia de Brizola Henrique Henkin, foi graças à ajuda financeira de Lemos que o ex-governador conseguiu se manter no exílio.
Divorciado da poetisa Lara de Lemos, com quem teve quatro filhos, o jurista vivia sozinho havia muitos anos. Sem poder se locomover e com a fala dificultada pela doença, Lemos vinha sendo auxiliado pela cunhada Jandira de Lemos – viúva de seu único irmão, Altair –, que coordenou sua vida nos anos de luta contra a doença.
Apesar de frágil e com dificuldades de compreensão, no último final de semana Lemos pediu à cunhada que o levasse até o Fórum da cidade. Da janela do carro, o jurista quis se despedir do prédio, antes de voltar para a casa.
O sepultamento do ex-vice-prefeito – que teve o corpo embalsamado ontem, a pedido de uma filha que retorna da França – está marcado para as 11h de amanhã. Lemos deixa quatro filhos, cinco netos e um bisneto.
Artigos
Violência
Gilberto da Cruz Oliveira
Nos últimos tempos temos nos deparado diariamente com uma questão a cada dia mais presente e mais viva em nossa sociedade: a questão da violência.
Tenho ouvido as mais diversas opiniões sobre as causas do incremento dessa onda de atos violentos praticados por toda a sorte de indivíduos, inclusive pessoas consideradas bons trabalhadores e cidadãos pacatos por seus conhecidos (exemplo o rapaz que há poucos dias seqüestrou um microônibus e seus passageiros em Porto Alegre e que, após o desfecho, soube-se que era um cidadão como qualquer um de nós, que simplesmente estava fora de si).
Fala-se na impunidade dos crimes como uma das causas; a superlotação dos presídios como outra das causas; a ausência de um sistema penal mais efetivo e mais incisivo; o desmantelamento das polícias, enfim, uma infinidade de causas que passam longe do ato violento, já praticado.
É preciso repensarmos essa sociedade de consumo. É necessário
repensarmos nossos valores
Quero crer que devamos nos debruçar sobre o que torna um indivíduo mais agressivo do que já o é pela condição humana que tem. O homem, a despeito da faculdade de usar a razão, é um ser extremamente agressivo: é o único ser vivo capaz de matar um semelhante sem que para isto esteja em perigo ou com fome. Junte-se a isso o desenvolvimento de uma sociedade egoísta e egocêntrica em que é melhor o mais capaz de tirar vantagens e usufruir essas vantagens, mais a teoria de que o ter é muito mais interessante que o ser e temos os ingredientes básicos para o início da violência.
Mais: as oportunidades de crescimento cultural são sempre restritas a pequenas elites. A mídia e alguns políticos dão a idéia de que todos têm direito às facilidades que só são acessíveis àqueles que podem pagar por elas, esquecendo que é necessário que saibamos que somente o esforço nos permite a aquisição dos bens de consumo. Mais ainda: que na verdade poderemos ter uma vida digna mesmo sem alguns desses bens de consumo.
Ora, as mentes perversas de indivíduos que se consideram espertos a ponto de entender que obter vantagens sem esforço é muito mais importante que a dignidade da luta por metas faz com que o respeito pelo que outros conseguiram com muito trabalho seja reduzido a pó e, por isso, permitem-se o direito de surrupiá-los. Ou então, frustrados por não poder adquirir um presente no Natal da Sociedade Comercial para um filho, como martela a propaganda que diariamente vêem e ouvem, roubam ou perdem a cabeça e submetem outras pessoas à tortura da angústia de esperar mais de um dia por um desfecho que pode, com sorte, dar em nada ou, talvez, com a morte de alguém inocente. E ainda não comentei daqueles que, por uma suposta boa causa política, invadem, explodem, roubam e matam: não há causa justa amparada por atos injustos. Ou somos humanos o suficiente para fazer valer nossas opiniões pelo debate aberto que permita o contra-argumento ou não merecemos a condição tão alardeada de seres racionais.
É preciso repensarmos essa sociedade de consumo. É necessário repensarmos nossos valores. Andar mais devagar, sentir o prazer de longos papos descontraídos, esquecer as grifes, os carros novos, as aparências. Aprender a dividir mais do que somar, embora esta operação seja a mais fácil. Viver cooperativamente, solidariamente. Dar sem esperar receber. Doar-se a uma causa. Aprender a conjugar o verbo apoiar. E também o verbo amar. Enfim, viver! Pois haverá um tempo em que todas as vaidades se tornarão pó e, se alguém olhar a fotografia na lápide, pensará: quem terá sido esse sujeito?
Colunistas
ANA AMÉLIA LEMOS
Argentina na agenda
A crise da Argentina esteve presente na agenda do presidente Fernando Henrique Cardoso na primeira incursão internacional deste ano e representada pelas visitas oficiais à Rússia e à Ucrânia, encerradas hoje, com significativos resultados políticos e econômicos. Entusiasmado com a parceria, o presidente ucraniano, Leonid Kutchma, chegou a sugerir ontem que os dois governos realizem, anualmente, reuniões com a participação de empresários. Num gesto que revelou seu interesse na relação bilateral, disse que o Brasil é hoje um bom exemplo para o mundo, referindo-se às reformas econômicas, a estabilidade política e a força de uma nação multirracial. No Paraná, a colônia ucraniana é formada por 500 mil brasileiros que preservam as tradições, os costumes e são uma honra para “nosso país”, como registrou o próprio presidente Kutchma.
A curiosidade sobre a situação da Argentina à luz da importância do Mercosul na diversificação de mercados e no estabelecimento das parcerias estratégicas foi manifestada pelo presidente Vladimir Putin e ontem pelo presidente da Ucrânia. O presidente Fernando Henrique Cardoso transmitiu aos dois líderes das duas ex-repúblicas soviéticas a sua percepção pessoal sobre a realidade e as apreensões vividas pelos demais parceiros do bloco econômico. O presidente deixou claro que para que tenha condições de implementar um amplo plano de recuperação do país é preciso, antes, alcançar a estabilidade política e institucional.
Membros da comitiva brasileira que têm mais contato e informações sobre a realidade argentina não esconderam a preocupação ante as dificuldades do governo Eduardo Duhalde na implementação do ajuste exigido pelos credores internacionais. Alguns admitem que, mesmo que o governo seja forçado pela pressão da sociedade com seus incessantes panelaços a promover eleições presidenciais diretas, este ano, o governo saído das urnas também terá enorme dificuldade em colocar a casa em ordem. A situação pode se agravar ainda mais por conta da falta de confiança na capacidade política e administrativa de Duhalde em obter sucesso nessa duríssima empreitada. Na semana passada, no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, vários argentinos em trânsito para Buenos Aires tentavam, em vão, trocar pesos por dólares. A moeda perdeu o que é mais importante para o mercado: a credibilidade. Esse é o retrato da Argentina hoje.
JOSÉ BARRIONUEVO
Cabos eleitorais de Tarso e de Olívio
Enquanto o prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, e o governador do Estado, Olívio Dutra, não decidem se enfrentar cara a cara na disputa interna do PT, seus apoiadores vão para rua defendê-los. Os primeiros a ir para o debate público sobre quem deve ser o candidato do PT a governador este ano foram o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont, que apóia Olívio, e o vice-prefeito de Santa Maria, Paulo Pimenta.
No programa Conversas Cruzadas, na noite de terça-feira, na TVCOM, eles deixaram claras algumas das diferenças de Tarso e Olívio. Para Pimenta, Tarso deve ser o candidato ao Piratini por suas características pessoais, por ter mais capacidade de administrador, mais densidade eleitoral e mais facilidade para dialogar com a sociedade.
Pont, que nunca apoiou as disputa internas por achar que as antigas convenções de delegados do PT eram muito mais eficientes e espunham menos o partido, acredita que as prévias dão uma idéia de que se está vendendo um produto, como se os companheiros de partido fossem um sabonete ou um refrigerante. Para Pont, a discussão deveria ser diferente, mas já que é assim, defende Olívio com unhas e dentes.
Hoje, os dois voltam a brigar por seus candidatos no programa Polêmica, às 9h30min, na Rádio Gaúcha. Mas os times estarão maiores. Entram no debate também a deputada estadual Maria do Rosário, que defende Tarso, e a secretária estadual da Educação, Lucia Camini, pró-Olívio.
Dinheiro para o Fórum
Por conta dos recursos destinados pela prefeitura de Porto Alegre ao Fórum Social Mundial, os vereadores Estilac Xavier (PT) e Sebastião Melo (PMDB) se estranharam ontem no meio do plenário da Câmara. O petista tentou esclarecer que existe uma rubrica de serviços no Orçamento de 2002 que possibilita a destinação deste dinheiro e justifica que os cerca de R$ 800 que serão gastos no fórum retornarão à cidade com juros. O cálculo da prefeitura é de que o evento gere R$ 57 milhões ao município.
O discurso de Estilac não surtiu efeito. Sebastião entrou ontem na Justiça com uma ação cautelar contra o prefeito Tarso Genro para evitar o uso de recursos do município pelo Fórum Social Mundial.
Balanço na usina
Na próxima segunda-feira, às 18h, o estacionamento da Usina do Gasômetro será palco da primeira prestação de contas em público do prefeito Tarso Genro. Oito jornalistas representantes de redes de comunicação farão perguntas sobre o que o prefeito fez e deixou de fazer diante do público e de conselheiros do Orçamento Participativo e do Conselho Político do governo. Os secretários estarão ajudando nas respostas do prefeito. Será praticamente um Show do Milhão.
Maratona açoriana
Deputados vindos das ilhas dos Açores percorrem desde terça-feira o Estado num extenso roteiro de homenagens pelos 250 anos do povoamento açoriano no Rio Grande do Sul. Depois de descerrar placas e visitar autoridades políticas, o grupo foi homenageado pelo governo do Estado no Solar Palmeiro. Como anfitrião, o deputado Vieira da Cunha (PDT) está sempre com eles.
Cercado de policiais
O PDT não perde tempo e começa a discutir o plano de governo com os principais setores da sociedade. O candidato José Fortunati reuniu-se com dezenas de policiais esta semana para tratar de questões pontuais da segurança. O próximo passo será uma reunião sobre a Metade Sul, que será em Pelotas.
A renúncia
Tarso está em São Paulo e na volta renunciará a alguma coisa: seja ao cargo de prefeito ou à candidatura a governador do Estado. Depende da pesquisa Ibope encomendada pelo PT.
Mirante
• Servidores do IPE esticam suas faixas de protesto amanhã às 12h na beira da praia de Imbé. Governo oferece 8%. Categoria quer 45,77%
• O deputado estadual José Gomes (PT) é candidato da Esquerda Democrática à reeleição.
• O secretário executivo do Pró-Guaíba, Renato Ferreira, rema contra a maré dos petistas ambientalistas e apóia a reeleição de Olívio Dutra. Os verdes do PT costumam apoiar Tarso.
• Declaração do prefeito de Gramado, Pedro Henrique Bertolucci (PPB), de que 70% de seus planos para a cidade estão concluídos irritou líderes do PMDB local.
• A Fundação Ulysses Guimarães do PMDB começa a discutir amanhã, na Capital, o programa de governo para o candidato à Presidência da República. O secretário-geral da fundação, deputado Osmar Terra trouxe o debate para Porto Alegre, no Hotel Everest.
• Tarso Genro herdou a corrente que era de José Fortunati. O Fórum Socialista Solidário abriu apoio ao prefeito onte m à noite, inclusive a ex-chefe de gabinete de Fortunati, Elaine Paz, que brigou com o chefe quando ele saiu do PT.
ROSANE DE OLIVEIRA
Bernardi marca posição
Atento como costuma ser, o presidente do PPB, Celso Bernardi, escreve para desautorizar qualquer especulação em torno da possibilidade de desistir da candiatura para apoiar outro nome, como foi cogitado terça-feira, neste espaço. Bernardi diz que considera indispensável fornecer uma informação definitiva sobre o PPB gaúcho no pleito deste ano:
– Não existe, na cena sucessória estadual, candidatura a governador mais decidida do que a nossa. Esta é uma decisão tomada em prévia, com a participação de quase 50 mil filiados.
Bernardi informa que o PPB se orienta por pesquisas qualitativas e quantitativas, mas elas estão a serviço da sua candidatura e não “da observação do cenário político, com interesses não-divulgados de formar uma aliança”.
E conclui:
– A política é a arte da negociação e ninguém pode prever o quadro político-partidário nos próximos meses. Porém, há candidaturas que são mera especulação ou manobra de barganha, e outras que são demonstrações claras de posicionamento político. A do PPB está no segundo caso. Diante disso, a convenção será, apenas e tão-somente, a homologação legal do resultado da prévia.
Nas entrelinhas da carta de Bernardi pode-se ler um recado para quem espera que desista da candidatura para reforçar uma chapa anti-PT: não contem com o PPB no primeiro turno. O PPB é um parceiro desejado porque tem o maior número de prefeitos e vereadores no Rio Grande do Sul, 11 deputados estaduais e cinco deputados federais – cabos eleitorais de luxo para qualquer candidato a governador – além de tempo no rádio e na televisão.
Primeiro partido a definir seu candidato, em prévia realizada no ano passado, o PPB avaliou que a experiência de 1998 – quando concorreu como vice de Antônio Britto – foi negativa. Bernardi não quer o PPB de coadjuvante, mas os partidários do ex-governador esperam contar com o antigo parceiro numa aliança que unifique a oposição.
Editorial
OS MODELOS LATINOS
Ainda em meio à onda de protestos num dia em que o câmbio chegou a superar a cotação de dois pesos por dólar, o presidente argentino citou Chile e Brasil como modelos a serem seguidos na América Latina. A estratégia chilena, que concilia abertura comercial com a defesa dos interesses nacionais, e a brasileira, com ênfase na união de esforços entre governo e setor privado, foram apontadas pelo senhor Eduardo Duhalde como forma de o Mercosul alcançar o estágio da moeda única. Ambos os países estão longe de poderem ser considerados modelo, já que ainda não cumpriram as etapas necessárias para consolidar suas economias. É oportuna, porém, a ampliação do debate sobre alternativas a projetos prontos que já não vêm se mostrando eficazes no subcontinente sul-americano.
A Argentina transformou-se no exemplo mais cruel do quanto países em desenvolvimento e altamente endividados já não reagem da forma esperada a programas aplicados indistintamente por organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), do qual ainda não podem prescindir. Não se constitui, porém, no único caso. Num dia marcado por turbulência cambial como a última segunda-feira, o próprio presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga, encontrava-se em Buenos Aires reunido com integrantes da equipe econômica. Simultaneamente, em Caracas, o presidente venezuelano Hugo Chávez apelava ao Congresso em favor de mais impostos, incluindo uma taxação sobre movimentação financeira inspirada no exemplo brasileiro. Entre um país e outro, o que há em comum, além de uma crise aguda, é o fato de ambos estarem recorrendo a medidas típicas de um receituário populista, que apenas mascaram os problemas reais.
Assim como Brasil e Chile, os países sul-americanos não têm muito a ousar além do rigor nas políticas fiscais
Pelo menos no caso da citação do modelo brasileiro, é provável que o presidente argentino tenha se valido de alguma ironia, numa referência implícita a possíveis decisões unilaterais que fizeram o Mercosul retroceder de seu estágio de união aduaneira. Assim como Brasil e Chile, porém, os países sul-americanos não têm muito a ousar além do rigor nas políticas fiscais. A derrocada argentina e a instabilidade na qual países como a Venezuela começam a se enredar só poderão ser enfrentadas a partir do combate a distorções históricas profundas, com repercussões inevitáveis sob o ponto de vista cultural e econômico. Mais do que modelos prontos ou copiados, o que os países da região precisam é rumar para a austeridade fiscal, abrindo mão de ambições de alto custo para a sociedade das quais a paridade cambial constitui apenas o exemplo mais visível.
É importante que esse momento de dificuldades extremadas não se preste apenas para tentativas como a definição de modelos únicos para países com problemas tão diferenciados – da insolvência argentina ao impasse entre governo e guerrilha na Colômbia. O que se precisa agora é lançar as bases de políticas comuns, permitindo, mais adiante, a concretização de sonhos até como o da moeda única.
Topo da página
01/17/2002
Artigos Relacionados
Mapeamento de funções cerebrais diminui risco de sequelas cirúrgicas
Investimento na Saúde pretende reduzir óbitos e sequelas decorrentes de traumas
Deixe o carro na garagem
Não deixe torneiras pingando
Não deixe de comunicar ao Detran.SP a venda do seu carro
Ideli sugere que TSE deixe disponíveis certidões públicas de candidatos