PFL abandona Roseana aos poucos
PFL abandona Roseana aos poucos
Com a queda da candidata, prioridade do partido passa a ser tentar derrubar Serra, apontado como o mentor do ataque
BRASÍLIA - A candidatura de Roseana Sarney à Presidência está perdendo o fôlego. O comando do PFL avalia que são pouquíssimas as chances de a governadora maranhense conseguir se recuperar do desgaste sofrido com as investigações sofridas pela Lunus, empresa da qual é sócia, ao lado do marido e secretário de governo, Jorge Murad. A cúpula da legenda continuará a apoiá-la - ao menos por enquanto - para assegurar a Roseana uma saída honrosa. Uma coisa é certa, entretanto: o PFL já trabalha para minar a candidatura do tucano José Serra, como vingança pelo episódio maranhense. Com a ajuda de setores do PMDB, alimenta a idéia de uma candidatura alternativa no ninho ex-aliado. O presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves, é o nome da vez.
Desde o fim de semana, dirigentes do partido de Roseana cogitam a possibilidade de uma reaproximação com o governo federal. É difícil para o PFL se afastar do poder depois de sete anos. A direção da legenda passou a apostar que o candidato do PSDB também sofrerá prejuízos eleitorais, decorrentes da versão sustentada de que Roseana teria sido vítima de uma cilada tucana.
E, para desestabilizar o sucessor favorito do presidente Fernando Henrique Cardoso, nada melhor do que voltar à carga com novos nomes. Além de Aécio, falam no governador do Ceará, Tasso Jereissati, que continua defesa insistente de Roseana. Ontem, o governador defendeu a expulsão de qualquer tucano envolvido na elaboração de dossiês contra a governadora, sua amiga. O neto de Tancredo Neves desconversa sobre a possibilidade de entrar na disputa eleitoral. ''Meu caminho passa pelas Minas Gerais''.
O PSDB e aliados tentam passar a imagem de coesão em torno de Serra. O líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), que apóia incondicionalmente o ex-ministro, afirma que a candidatura de Aécio é uma invenção. ''Não tem nenhuma viabilidade, contraria o natural'', argumenta. Para Geddel, ainda é muito cedo para julgar os danos causados pelas denúncias envolvendo a maranhense. ''Choveram denúncias contra Jader. Investigou-se, e ele pagou. Não quero prejulgar ninguém, mas tudo deve ser apurado'', disfarça.
O presidente do Instituto Ulysses Guimarães e ex-governador do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco (PMDB-RJ), é mais cauteloso. Simpático à candidatura do governador Anthony Garotinho (PSB-RJ) por questões regionais, ele garante que as definições só aparecerão depois de as bases serem ouvidas. ''No partido, temos coligações para todos os gostos: alguns preferem Serra, outros, Roseana, e outros, Garotinho.''
Enquanto isso, o PFL vai deixando os postos no governo FH a conta-gotas. No fim de semana, a pedido do vice-presidente, Marco Maciel, o presidente da Caixa Econômica Federal, Emílio Carazzai, pediu demissão. Agradecido, Maciel, divulgou nota ontem em reconhecimento ao trabalho de Carazzai. Quem também ouviu os apelos de lealdade do PFL foi o presidente do INSS, Fernando Nogueira. Segundo a assessoria do instituto, ele deve entregar o cargo amanhã.
Justiça nega pedido de prisão
Procurador afirma que não pediu detenção de Murad e Fernando Sarney
SÃO LUÍS - A Justiça Federal do Maranhão não confirmou o pedido de prisão preventiva encaminhado pelo Ministério Público Federal contra o gerente estadual de Planejamento, Jorge Murad, marido da governadora Roseana Sarney e contra o irmão dela, o empresário Fernando Sarney. A informação foi publicada ontem pelo Jornal do Brasil.
O pedido de prisão preventiva teria sido formulado pelo suposto envolvimento de Murad e Fernando em irregularidades na extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). O procurador da República no Tocantins, Mário Lúcio de Avelar, responsável pelas investigações das fraudes na Sudam, negou que tivesse encaminhado requerimento à Justiça Federal nesse sentido.
O JB informou que, em 1° de março, juntamente com o pedido de busca e apreensão de documentos no escritório de Murad em São Luís, também teriam sido encaminhados os pedidos de prisão. A notícia foi transmitida à reportagem por um integrante do Judiciário do Maranhão.
A publicação surpreendeu Fernando Sarney. Ele encaminhou carta à direção do jornal com o seguinte teor:
''Foi com surpresa e indignação que li, na edição do Jornal do Brasil de hoje, 11 de março, reportagem publicada como manchete e, depois reproduzida na internet, dando conta de que eu tivera prisão preventiva solicitada pela Justiça em decorrência de suposto envolvimento com desvios de recursos da extinta Sudam.
Não tenho empresa que possua, de maneira direta ou indireta, qualquer relação com o Sudam e não poderia, portanto, ser acusado em nenhum processo relacionado com essa autarquia - e muito menos ser preso. Só posso atribuir tal informação - absurda, cujo único propósito é causar danos à minha imagem e a de meus familiares. Ninguém pode ser preso ''por extensão'' e sem culpa, o que seria uma violação dos direitos individuais assegurados pela Constituição Federal.
Estou encaminhando-lhe cópias dos requerimentos que apresentei à Justiça solicitando certidão que comprove a existência de processo contra mim ou minhas empresas, uma vez que jamais fui inquirido, indiciado, acusado ou testemunhado em qualquer inquérito penal.
Peço-lhe corrigir os termos da manchete do JB, com o mesmo destaque em nome da verdade e da Justiça.''
Em 1° de março, agentes da Polícia Federal executaram operação de busca e apreensão no escritório da Lunus, empresa de Jorge Murad e Roseana Sarney. A família da governadora soube, no mesmo dia, que além da apreensão dos documentos e de R$ 1,34 milhão em dinheiro, teria sido apresentado à Justiça o pedido de prisão preventiva de Murad.
Ele e Roseana são acusados pelo MPF de beneficiar a Usimar, fábrica de autopeças que recebeu R$ 44 milhões da Sudam, mas nunca saiu do papel. O casal responde a ação por improbidade administrativa na Justiça Federal do Maranhão. Em dezembro de 1999, a governadora presidiu a reunião do Conselho Deliberativo da Sudam que aprovou o projeto da Usimar e outros sete empreendimentos no Maranhão, todos denunciados por irregularidades.
O material apreendido no escritório da Lunus chegou ontem ao Superior Tribunal de Justiça. Os R$ 1,34 milhão está depositado na Caixa Econômica Federal de São Luís, sob custódia do Banco Central. As seis caixas de papelão serão entregues hoje ao relator do caso, ministro Ruy Rosado. Na semana passada, ele requisitou o processo por entender que Roseana, como governadora, tem direito a foto privilegiado. Os papéis serão encaminhados à Procuradoria Geral da República a quem cabe apresentar denúncia contra Roseana.
PT encerra caso Daniel
SÃO PAULO - Dois suspeitos de integrar a quadrilha que seqüestrou o prefeito de Santo André, Celso Daniel, foram presos em Maringá, no Paraná, mas acabaram sendo liberados. A informação foi dada ontem pelo deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, escolhido pelo PT para acompanhar as investigações do crime.
Ele disse que Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro (apontado como o líder do grupo) e Elcyd Oliveira Brito, conhecido como John, foram detidos no último dia 31 de janeiro, pouco mais de dez dias depois do assassinato do prefeito. ''Por algum motivo, que ainda não sabemos qual, eles foram liberados'', resignou-se o deputado. Os dois teriam sido presos por porte de arma e tentativa de roubo. ''Vamos esperar as investigações para saber o motivo pelo qual os dois foram colocados em liberdade.''
Greenhalgh acredita que o menor L.S.N., de 16 anos, tenha sido o autor dos disparos que mataram o prefeito. ''Assisti ao depoimento do menor e fiquei com a sensação de que foi ele mesmo quem matou'', afirmou. ''No mesmo momento em que ele ia relatando o crime, comia um sanduíche e bebia um refrigerante.''
O caso, para Greenhalgh, está totalmente esclarecido e acredita na versão de que o prefeito foi seqüestrado por acaso. ''Falta agora pegar os outros envolvidos'', disse. Nove integrantes da quadrilha foram presos, mas quatro ainda estão foragidos.
STJ impede mais vagas em cursos de Direito
OAB ganha recurso e defende melhor qualidade do ensino
BRASÍLIA - No mesmo dia em que decisões favoráveis à expansão do ensino privado preencheram quatro páginas do Diário Oficial, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ganhou na Justiça um recurso contra o Ministério da Educação (MEC), justamente para impedir a explosão de vagas nos cursos existentes. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) revogou uma portaria ministerial que permite o aumento de até 50% das vagas nas faculdades de Direito, sem consulta ao Conselho Federal da Ordem.
A entidade alega que não há professores suficientes sequer para lecionar aos alunos matriculados hoje. No último exame para fornecer registros aos que querem advogar, a Ordem reprovou mais da metade dos 47,8 mil candidatos. ''Bom negócio não é igual a bom ensino'', diz Rubens Aprobato Machado, presidente da OAB. ''Antes, todos os vigaristas davam golpes com associações de poupança e empréstimos. Agora, usam cursos de Direito'', afirma Reginaldo Castro, ex-presidente da OAB, comemorando a vitória.
A briga entre a Ordem e o MEC arrasta-se há mais de dois anos. Ontem, a assessoria de comunicação do ministério informou que a consultoria jurídica ainda não foi notificada oficialmente sobre a liminar. Só então, será possível saber se o ministro da Educação, Paulo Renato, recorrerá. O Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou pareceres favoráveis à criação de 1,9 mil vagas em cursos de Direito espalhados pelo país. E portarias assinadas por Paulo Renato autorizaram definitivamente a criação de mil novas vagas em outros cursos. Tudo isso em apenas um dia.
Sem privilégios
STF manda consulado japonês pagar dívida
BRASÍLIA - No Brasil, valem as leis nacionais. Mesmo para diplomatas estrangeiros. O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou um recurso do consulado do Japão em Recife, condenado a indenizar a lavadeira Iracy Ribeiro de Lima. Depois de trabalhar para o consulado por 15 anos, ela foi demitida sem justa causa em 1990.
''Privilégios diplomáticos não podem ser invocados, em processos trabalhistas, para coonestar o enriquecimento sem causa dos Estados estrangeiros, em injusto detrimento de trabalhadores residentes em território brasileiro.''
A lavadeira já morreu. Em 1990, ela havia recebido apenas Cr$ 176.769,75 - o correspondente a R$ 3.296,03, em fevereiro, de acordo com correção pelo índice IGP-M, da Fundação Getúlio Vargas - como indenização. Seus herdeiros conseguiram garantir o direito no Tribunal Superior do Trabalho (TST), depois de ganhar todos os recursos do governo japonês, que ainda tentou um último recurso ao Supremo.
O ministro cita outros precedentes do STF, para fortalecer a jurisprudência do tribunal, no sentido de que deixa de prevalecer a ''imunidade de jurisdição'', sempre que o representante do Estado estrangeiro atuar ''em matéria de ordem estritamente privada, como no caso''.
Seis mortos em rebelião de presídio
Tentativa frustrada de resgate de presos termina em tragédia no Centro de Detenção Provisória I, em Osasco
SÃO PAULO - Mais uma rebelião acaba em tragédia em São Paulo. Dessa vez o motim foi no Centro de Detenção Provisória I de Osasco, na rodovia Raposo Tavares, há 20 quilômetros da capital paulista. A ação deixou um saldo de seis presos mortos e cinco feridos, sendo um deles agente penitenciário. Os detentos foram assassinados a golpes de estiletes pelos próprios companheiros, que seriam de facções rivais.
A rebelião, que durou quase seis horas, foi uma reação a uma tentativa frustrada de resgate de presos. Por volta das 9h, três veículos começaram a rondar as proximidades do Cadeião. Os guardas acharam suspeita a movimentação dos carros e chamaram reforço da Polícia Militar. Uma granada foi atirada em uma estrada de terra nas proximidades dos muros do presídio. A polícia reagiu. Houve troca de tiros e uma das torres do CPD foi metralhada. Os bandidos que tentavam o resgate fugiram.
Por volta de 10h, os cerca de 940 presos se amotinaram e escreveram, no chão do pátio, as palavras ''Paz, Justiça e Liberdade'' - lema do Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa que atua nas cadeias de São Paulo.
Os presos quebraram as cercas de arame, atearam fogo em colchões e destruíram parte das instalações do presídio. Dois dos oito pavilhões foram ocupados pelos rebelados. Cerca de 13 agentes agentes penitenciários foram mantidos reféns até a entrada do Batalhão de Choque da Polícia Militar, no começo da tarde. Uma segunda granada, de fabricação americana e encontrada posteriormente nas imediações do CPD, teve de ser detonada pela Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate). De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária, não houve fuga.
O juiz corregedor da cidade, José Marcos Silva, confirmou que os detentos foram mortos pelos próprios companheiros. ''Há marcas de estilete. Em princípio, parece que foram mortos pelos colegas de celas''÷, disse.
No início da manhã, os presos do Centro de Detenção de Osasco II também ameaçaram se rebelar mas a Polícia Militar rapidamente conteve a iniciativa. No final de semana, houve rebeliões nos Cadeiões de Pinheiros e de Piracicaba.
Artigos
O colapso ambiental
Ernesto Viveiros de Castro
A espécie humana e inúmeras outras estão seriamente ameaçadas de extinção, em poucas centenas de anos, se não forem feitas drásticas mudanças no modelo de consumo e na tendência de crescimento populacional.
Em artigo no JB (de 21/2), o físico José Carlos Azevedo apresentou sua visão otimista do futuro da humanidade e, baseado em premissas falsas, refutou alertas de cientistas sobre uma catástrofe ambiental. As informações e dados incorretos - como a existência de apenas 291 espécies de animais na Mata Atlântica, quando, na verdade, elas são dezenas de milhares - podem ser creditados ao desconhecimento do autor na área de meio ambiente.
O otimismo de Azevedo não está apoiado em bases sólidas. A redução no ritmo do crescimento populacional (de 2%, em 1960, para 1,26% em 2000) não traz só boas notícias. Um crescimento de 1,26% sobre uma população de 6,1 bilhões de pessoas resulta em 78 milhões de novas pessoas no planeta em um ano (foram 60 milhões em 1960). Em números absolutos, a população está crescendo cada vez mais e este crescimento se dá principalmente em países miseráveis. Conclusões otimistas sobre o aumento no consumo médio de calorias nos países pobres (de 1932kcal, em 1961, para 2.650kcal em 1988) não se sustentam diante da enorme desigualdade social nesses países. Um cidadão africano rico que ingere 4.000kcal/dia eleva o consumo médio, mas não evita a morte de milhares de pessoas à sua volta. A OMS calcula que 1/5 da população mundial sofre de fome crônica.
A redução da poluição em Londres, apresentada como exemplo de desenvolvimento limpo, só é uma boa notícia para os londrinos e para analistas com uma visão tão estreita que não permite ver que as indústrias altamente poluidoras se deslocaram das cidades do Primeiro Mundo para países com mão-de-obra barata e legislação ambiental mais frouxa.
Lendo o físico Azevedo especul ar com comovedor desconhecimento de causa sobre assunto tão sério, e ainda chamar os profissionais que dedicam suas vidas ao estudo da ecologia de ''palpiteiros e ecopirados'', só nos resta constatar que isso é bom exemplo do triste equívoco, hoje muito popular, de que ''ecologia é a ciência do óbvio''.
A população mundial estabilizada entre 11 e 15 bilhões de pessoas necessitaria de muito mais área para extração de minérios, produção de alimentos e moradia, comprometendo grande parte do que ainda está preservado.
Modelo do que acontece quando um povo explora excessivamente recursos naturais finitos é o da Ilha de Páscoa, no Pacífico. Uma civilização avançada para sua época praticamente desapareceu após a derrubada das últimas árvores da ilha para transportar gigantescos ídolos de pedra cerimoniais. A população foi dizimada pela fome e sede. Agora, com esse processo ocorrendo no planeta inteiro, não teremos para onde fugir.
É importante notar que os esforços de pesquisadores e ambientalistas não são para salvar ''o planeta Terra'', como diz o senso comum. A luta é para prolongar a nossa própria existência. O planeta sobreviveu a pelo menos cinco grandes ondas de extinção causadas por catástrofes naturais e após cada um destes eventos a vida floresceu numa explosão de diversidade.
A sexta onda de extinções parece já ter começado e esta tem uma triste diferença em relação às cinco anteriores: está sendo causada por nós. Se a humanidade não parar para pensar seriamente na devastação que estamos causando, seremos mais uma vítima de nossas próprias atitudes.
Colunistas
COISAS DA POLÍTICA – Dora Kramer
O Jorge expiatório
Reações contra os tucanos à parte, o PFL - incluindo aí obviamente com grande peso a família Sarney - reconhece que o encanto da candidatura Roseana foi quebrado, não pelas investigações relativas à Sudam, mas pela imagem das notas de reais encontradas no cofre da empresa da candidata, pela falta de explicação convincente e imediata para a origem delas, e pela reação destemperada contra uma ação ordenada pela Justiça.
Dentro desse quadro, desenham-se quatro cenários possíveis para o futuro e estabelece-se, desde já, um culpado para tudo: Jorge Murad, que está sendo fortemente cobrado - inclusive pela mulher - para vir a público assumir as responsabilidades e fornecer as explicações. É que, por essa análise pefelista, Roseana simplesmente não sabia de nada sobre o dinheiro e sentiu-se traída pelo marido, de quem é possível que venha a se separar pela segunda vez, assim que passar o terremoto.
No que se refere ao desastre político propriamente dito, os quatro cenários são os seguintes: ela consegue, nos próximos dez dias, se recuperar ante a opinião pública e continua candidata à presidência; desincompatibiliza-se para concorrer ao Senado; opta pela candidatura a deputada federal, a fim de fazer grande bancada na Câmara; desiste de tudo e cumpre o mandato de governadora até o fim, podendo, daqui a dois anos, concorrer, por exemplo, à Prefeitura de São Luís.
A primeira hipótese é considerada a menos provável e aconselhável, até por gente muitíssimo próxima a ela, porque o próprio PFL já faz sua contabilidade de perdas e ganhos prevendo que dias piores virão. As outras três resguardam a governadora em sua seara, o Maranhão, onde tudo é mais fácil de explicar. Não apenas pela proximidade com o eleitorado e a tradição do poder de quase quatro décadas, mas também pelo domínio dos meios de comunicação. Ou seja, o que não passa sem contraditório no âmbito nacional, no regional é fixado como verdade absoluta sem contestações.
Quanto à versão de que Jorge Murad teria traído a confiança dos Sarney ao manter dinheiro sem origem explicável na empresa onde Roseana era sócia majoritária, pode até servir como saída pretensamente honrosa para a governadora e explicar também sua reação destemperada, uma vez que aí estariam misturados fatores pessoais e profissionais.
O problema é que, ao se considerar a hipótese de uma autoridade desconhecer as atividades particulares de seu principal homem de governo - ainda mais sendo ele seu marido -, autoriza a lamentável suposição de que aquela parcela do eleitorado que manifestava preferência nas pesquisas por Roseana estava, de fato, conferindo sua possibilidade de voto a Jorge Murad.
Se partir para essa linha de que desconhecia o que se passava dentro de seu governo e de sua casa, a candidata conferirá a si própria a condição de marionete. O que não nos parece posição que vá exatamente inspirar confiança no eleitorado, cuja intenção é eleger um governante que estabeleça o controle sobre os rumos da nação.
Efeito bumerangue
O PSDB lança hoje nota oficial para rechaçar as versões de que partiu do tucanato - notadamente de seu secretário-geral, Márcio Fortes, e do ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira - um plano sinistro de bombardeio à candidatura Roseana Sarney.
Márcio Fortes defende-se argumentando que, a serem verdadeiras as informações que circulam sobre pesquisas de opinião que vêm por aí, o efeito do episódio foi ruim para a candidatura de José Serra. Além do mais, segundo ele, ''jamais teria passado por nossa cabeça fazer qualquer tipo de movimento que pudesse mudar a tendência de queda nas preferências por Lula, efeito que a candidatura Roseana estava conseguindo obter''.
Por esse raciocínio, a presença forte do PFL na disputa esvaziava a cada dia o caráter competitivo da candidatura do PT. E agora, na avaliação do tucanato, este foi o partido mais favorecido num primeiro momento. Além de perder a possibilidade do apoio do PFL, José Serra ainda ficou, perante uma parcela da opinião pública, com o carimbo de montador de armadilhas com instrumentos do aparelho de Estado.
''É claro que vai dar trabalho agora para contornar essa situação, e que não há ação objetiva e imediata que consiga mudar a impressão de quem acreditou que tudo não passou de uma armação'', considera Márcio Fortes.
Dia de amanhã
Ontem o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, já dizia à tarde que era bem possível que o senador José Sarney desistisse do discurso de hoje. Mas, pouco antes, quando ainda era certo que Sarney falaria, quem teve acesso ao texto escrito no fim de semana adiantava que não haveria ataques a Fernando Henrique - a despeito da vontade de Sarney, no primeiro momento, de fazê-los.
O analista do manuscrito avaliava que nada seria dito que impedisse os dois de, amanhã ou depois, trocarem um telefonema de cavalheiros.
Editorial
ESTACA ZERO
A sucessão presidencial está sendo reaberta. O debate também continua franco. Ficou evidenciada a volatilidade das hipóteses quando compromissos são adiantados com demasiada antecedência. É cedo para a campanha valer-se de todos os meios de propaganda, antes dos prazos legais. Só em julho entrarão em cena os meios de comunicação.
Antes que tivesse sido encontrada versão completa para a súbita ascensão de Roseana Sarney, novos desafios se apresentam no campo do raciocínio. A candidata do PFL foi vítima do próprio marido, que está sob suspeita como gerente do Planejamento do governo do Maranhão. A grande verdade é que a esta altura ninguém se atreve a fazer previsões de uma sucessão que apenas está esboçada.
Será um serviço ao país os líderes e dirigentes de partidos entenderem a necessidade de assimilar o anseio geral de soluções estáveis no encaminhamento da sucessão presidencial, sem a sombra de escândalos administrativos. A sociedade amadureceu mais do que os políticos. Os cidadãos não dão mais ouvidos à retórica moralista e fazem juízos próprios de valor.
A esta altura, fi cou claro que os fatos valem mais que as versões. A discussão em torno de pessoas não será capaz de sustentar a equação eleitoral, que pede aos candidatos propostas de governo, e não palavras. Substantivos, não adjetivos. Não vale mais o sofisma de fugir ao debate de programas com a alegação de que o adversário se apropria das idéias e soluções lançadas a público. A competição se fará dentro de prioridades que estão na cabeça dos eleitores. O país quer estabilidade, quer viver com a garantia de um sistema de segurança e ser respeitado. O candidato que se valer de uma exposição mais clara e objetiva em suas propostas merecerá confiança. É também importante que os partidos sejam os primeiros a evitar o ânimo de vindita.
Ao Congresso caberá preservar a respeitabilidade do processo político, não deixando a campanha ser contaminada de ódio e vingança. O Congresso votará hoje a prorrogação da CPMF. O senador José Sarney adiou, para a próxima semana (a pedido do presidente do PFL, Jorge Bornhausen), o discurso que vai fazer na dupla condição de ex-presidente e pai da candidata do PFL. É preciso não esquecer que o Brasil é mais importante que os personagens da vida pública.
O presidente Fernando Henrique fez saber explicitamente que não demitiria nenhum dos ocupantes de postos no governo: só sairia quem pedisse. O presidente da Caixa Econômica Federal, Emílio Carrazzai, que foi excelente operador, pediu demissão a conselho do vice-presidente Marco Maciel, que o indicou para o cargo. Quem saiu perdendo foi o Brasil, não o PFL.
Em Fortaleza, Fernando Henrique apelou ontem ao PSDB e ao PFL para colocarem os interesses do Brasil acima das questões eleitorais e partidárias. A saída do ministério não significou, a seu ver, ''quebra de compromisso com o país e com o governo''. Conta com a ação conjunta do PSDB e do PFL ''para a modernização do Brasil''. É separando o interesse pessoal do interesse público que a sucessão será a grande solução esperada com o patrocínio da História.
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03/12/2002
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