PFL insiste na saída de Serra e amplia crise
PFL insiste na saída de Serra e amplia crise
Nem apelo de Fernando Henrique faz partido de Bornhausen rever posição
BRASÍLIA - Falhou a tentativa do presidente Fernando Henrique Cardoso de reaproximar PFL e PSDB. E os dois partidos voltaram a se desentender ontem publicamente, por meio de notas oficiais. No jantar de segunda-feira, o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausem (SC), disse a Fernando Henrique e ao presidente tucano, deputado José Aníbal (SP), que a possibilidade de dar apoio a um nome do PSDB só existe se o senador José Serra (SP) renunciar à candidatura à Presidência.
O PSDB, é claro, não concordou com o pedido. E, ao deixar o Palácio da Alvorada, José Aníbal afirmou que seu partido adotaria outra estratégia, formalizando alianças com o PFL nos Estados.
A direção pefelista irritou-se com a afirmação. Às 10 horas de ontem Bornhausen redigiu nota na qual relata o encontro com Fernando Henrique, que teve a participação do vice-presidente do PFL, senador José Jorge (PE), e do coordenador da campanha de Serra, deputado Pimenta da Veiga (PSDB-MG). No documento, Bornhausen foi irônico, comparando Serra ao ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin, candidato socialista a presidente que foi derrotado no primeiro turno na última eleição. Essa nota irritou profundamente os tucanos, que logo reagiram.
Bornhausen resolveu fazer a comparação com a eleição francesa a partir das conversas ocorridas no jantar. Fernando Henrique e Aníbal fizeram uma profunda análise do recente pleito da França.
Ironia - Segundo o senador José Jorge, os dois afirmaram que Jacques Chirac, vencedor do segundo turno com 82% dos votos, é muito mais simpático e muito mais próximo dos eleitores do que Jospin, que seria frio e distante. Foi a deixa para a ironia de Bornhausen, porque o PFL adora espalhar que Serra é antipático. Aníbal deu o troco ao PFL também com uma nota. Após almoço com integrantes da direção nacional do PMDB, o deputado tucano afirmou que a candidatura de Serra não é um ato de vontade pessoal e não está sujeita a contestações ou ultimatos. "Nasceu do acordo político das forças que respaldam o rumo dado ao País pelo atual governo. É uma candidatura para disputar e vencer as eleições para presidente da República."
Na nota, Aníbal diz que Serra é pré-candidato há pouco mais de dois meses, mas já "consolidou-se junto à opinião pública, fato comprovado por todas as pesquisas eleitorais". E acrescenta: "Em 1994, o PSDB não se deixou intimidar pelos embates eleitorais e sustentou a candidatura que representava o melhor projeto para o Brasil. Venceu. O mesmo ocorre agora."
O PFL discorda. Na nota, Bornhausen afirma que para vencer a eleição presidencial deveria ser mantida a coligação entre PSDB, PFL, PMDB e PPB. E o candidato a ser escolhido teria de demonstrar as melhores condições de vitória. Segundo o presidente pefelista, pesquisas recentes dos Institutos Sensus e GPP evidenciam o avanço do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente na pesquisa espontânea, e a queda da candidatura tucana.
Bornhausen diz na nota que a renúncia é um ato unilateral de vontade, mas insiste que ainda há tempo hábil e suficiente para a consolidação de uma nova candidatura agregadora politicamente.
Segundo ele, a candidatura Serra está nas mãos do senador. "Mas na vida pública, a renúncia pode revelar o espírito público de seu autor", sugere.
Estopim - No jantar no Alvorada, o clima havia sido de cordialidade. A aspereza das notas trocadas ontem foi provocada por comentário de Aníbal, para quem a cúpula do PFL resiste ao nome de Serra, mas o PSDB já está compondo com pefelistas em 15 Estados. Em nenhum momento do jantar Bornhausen foi crítico ou usou o tom duro de ontem, mas não gostou do discurso do deputado tucano. E antes de viajar para a Espanha, onde participará de uma reunião da Internacional Democrata de Centro, providenciou a nota reafirmando as restrições do partido à candidatura de Serra.
José Jorge, que assumiu a presidência do PFL interinamente, disse que, de fato, no jantar não houve alterações de voz e o clima foi de muita cordialidade. Mas, segundo ele, uma nota oficial nem sempre reflete o cavalheirismo de uma conversa entre pessoas muito educadas.
O líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), disse que a nota de Bornhausen foi feita justamente para impedir que os tucanos tirassem proveito de uma conversa que estavam divulgando de uma forma que não expressava exatamente o que havia ocorrido no Alvorada.
PT lança ofensiva para acalmar o mercado
Depois de explicar programa de governo à Fiesp, partido passará por 'sabatina' em SP
Em meio à polêmica aberta pelos bancos que diminuíram a recomendação para investimentos no País, o PT ampliou seus contatos com o mercado financeiro e investidores internacionais na tentativa de acalmá-los, expor seu programa e esclarecer dúvidas sobre a política econômica de um eventual governo Luiz Inácio Lula da Silva. "A demanda de grupos diferentes por esse tipo de conversa aumentou proporcionalmente aos índices do PT nas pesquisas de intenção de voto", resumiu o coordenador do programa econômico do partido, deputado Aloizio Mercadante (SP).
Ontem, o presidente do partido, deputado José Dirceu (SP), e o coordenador do programa de governo, Antonio Palocci, foram recebidos pela direção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para trocar propostas. A cúpula petista empenhou-se para demonstrar que pretende uma mudança "responsável", mas recusou qualquer tentativa de "tranquilizar" o empresariado. "Não queremos fazer um projeto que tranquilize, mas que mude.
Agora, é uma mudança equilibrada, evidentemente", declarou Palocci.
Mesmo marcado antes do episódio dos bancos, o encontro na Fiesp ocorreu em momento oportuno. Outros eventos do tipo deverão se repetir nas Federações das Indústrias do Rio e de Minas. Vários economistas ligados ao partido foram escalados para fazer esclarecimentos - entre eles Maria da Conceição Tavares, que também coordena a elaboração do programa, e Guido Mantega, ligado a Lula. A voz oficial do PT está centrada nesse grupo, além de Mercadante e da cúpula petista, mas economistas como Paul Singer, Ricardo Carneiro, Jorge Matoso e Fernando Pimentel também poderão ser convocados à tarefa.
No dia 20, Mercadante participa de um almoço com representantes do mercado financeiro, em São Paulo. Mais de 200 empresários e dirigentes do setor vão sabatinar Mercadante, que classifica o rebaixamento dos bancos internacionais à aquisição de títulos da dívida brasileira como "ataque especulativo" sem nenhuma relação objetiva com o processo eleitoral.
Para o diretor da corretora Ágora Senior, Álvaro Bandeira, um dos organizadores do encontro, a iniciativa será importante para "acalmar os mercados", já que "o PT é praticamente desconhecido dos profissionais da área". A negociação para o evento começou antes do episódio dos bancos, e ele pretende repetir a iniciativa com outros candidatos. Em junho, Mercadante também participa de um ciclo de debates nos Estados Unidos promovido pelo Banco Mundial e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Convergência - O presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, disse no Rio que há uma série de convergências entre os programas partidários e as idéias da federação no caso do PT e do PSDB, mas todos os projetos apresentados pelos partidos ainda são genéricos. Ele fez a afirmação em reposta a declarações de Palocci sobre o consenso entre as idéias do partido e da Fiesp para temas como a desoneração da produção, ponto fundamental da reforma tributária.
Para candidato tucano, pressão é só estratégia
Serra afirma em São Paulo que, se PFL o apoiar 'é bom', mas ele 'já tem o PMDB'
O pré-candidato do PSDB à Presidência, senador José Serra, disse que a nota do PFL defendendo sua renúncia é uma tentativa do partido de ganhar força no jogo da sucessão. "É estratégia de cacife partidário", afirmou o senador, que mandou um recado aos ex-aliados. "Já temos uma aliança com o PMDB." As declarações foram feitas após almoço em homenagem ao banqueiro Olavo Setúbal, realizado ontem, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo.
O tucano, que vinha defendendo, pelo menos em seus discursos, uma reaproximação com os pefelistas, já fala com mais reservas sobre a agora quase impossível aliança. "Se puder vir (o PFL), é bom. Não estou dizendo que é dispensável ou indispensável", afirmou Serra, que preferiu deixar para os dirigentes do PSDB a responsabilidade de avaliar politicamente a atual posição dos pefelistas.
O vice-presidente da República, Marco Maciel (PFL), participou do almoço, ao lado de dirigentes paulistas de seu partido. Ele, no entanto, não quis falar sobre política. "Estou aqui para a homenagem."
Vale - Serra evitou falar sobre o suposto esquema de propina envolvendo o ex-diretor do Banco do Brasil e arrecadador financeiro de suas campanhas, Ricardo Sérgio de Oliveira, que deflagrou uma crise entre os tucanos e motivou a divulgação da nota do PFL. "Não tenho rigorosamente nada a ver com isso", disse. "As pessoas que falaram, a elas cabe dar explicações", completou referindo-se ao ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros e ao ministro da Educação, Paulo Renato Souza.
Em entrevista à revista Veja, os dois disseram ter conhecimento do pedido de dinheiro feito por Ricardo Sérgio ao empresário Benjamin Steinbruch em troca da montagem do consórcio vencedor do leilão de venda da Companhia Vale do Rio Doce. "O Luiz Carlos Mendonça de Barros até já disse que, na verdade, essa história era uma chantagem e que só foi falada quatro anos depois com objetivos eleitorais", disse Serra.
O pré-candidato também rechaçou a posição do mercado financeiro de aumentar "risco Brasil" por conta da crise tucana. "É uma combinação de interesses econômicos, desconhecimento do País e falta de rigor nas análises econômicas de risco", afirmou o senador.
Reality show - O almoço no MAM em homenagem a Olavo Setúbal foi realizado em circunstâncias no mínimo inusitadas. O museu e seu restaurante ficam dentro do Parque do Ibirapuera, onde também está instalado o pavilhão da Bienal. Apenas uma parede de vidro separava os convidados das crianças e adolescentes que passavam pelo local em visita à exposição de arte.
De um lado, Serra, Setúbal, Maciel, entre outros empresários e políticos, tomando champanhe francês. Do outro, a garotada, fascinada com as figuras conhecidas, mesmo que vagamente, pela televisão. Gritos, acenos e batidas no vidro foram inevitáveis. "Uma experiência original", classificou Serra, que afirmou não ter ficado constrangido. O encontro foi organizado pela presidente do MAM, Milú Villela.
Sentado de frente para a "platéia", o pré-candidato tucano mandou beijos, acenou e piscou para os que estavam do lado de fora. As crianças que acabavam de chegar, talvez contaminadas pelo clima da exposição da Bienal, demoravam para entender o que estava acontecendo do lado de dentro do vidro.
A estudante Bárbara Souza, de 11 anos, deu sua definição sobre o que poderia significar aqueles homens e mulheres elegantes comendo e bebendo às vistas do público do Ibirapuera. "Parece que é uma obra de arte."
'Candidatura é irreversível', diz Pimenta da Veiga
BRASÍLIA - O deputado Pimenta da Veiga (PSDB-MG), um dos coordenadores da campanha de José Serra à Presidência, também reagiu à nota na qual o PFL pede a renúncia do candidato. "A candidatura Serra é definitiva e irreversível", disse Pimenta, que na noite de anteontem participou do jantar do presidente Fernando Henrique Cardoso com dois dirigentes do PFL, os senadores Jorge Bornhausen (SC) e José Jorge (PE).
O coordenador da campanha tucana aproveitou a polêmica provocada pela nota do PFL para reforçar a parceria com o PMDB, prevendo que será anunciado em muito breve o nome do companheiro de chapa de Serra. "Está ficando madura a indicação do vice", afirmou Pimenta, que ontem tomou parte de uma nova reunião, desta vez com representantes do PMDB.
O candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, também virou alvo de Pimenta.
De acordo com ele, não procedem as análises, feitas até mesmo por tucanos, de que a liderança do petista nas pesquisas não causa inquietação: "Inqueta, sim, uma vez que ele ainda não demonstrou preparo para dirigir o País."
Para Pimenta, mais corretas são as advertências divulgadas pelas agências internacionais de avaliação.
'Candidatura é irreversível', diz Pimenta da Veiga
BRASÍLIA - O deputado Pimenta da Veiga (PSDB-MG), um dos coordenadores da campanha de José Serra à Presidência, também reagiu à nota na qual o PFL pede a renúncia do candidato. "A candidatura Serra é definitiva e irreversível", disse Pimenta, que na noite de anteontem participou do jantar do presidente Fernando Henrique Cardoso com dois dirigentes do PFL, os senadores Jorge Bornhausen (SC) e José Jorge (PE).
O coordenador da campanha tucana aproveitou a polêmica provocada pela nota do PFL para reforçar a parceria com o PMDB, prevendo que será anunciado em muito breve o nome do companheiro de chapa de Serra. "Está ficando madura a indicação do vice", afirmou Pimenta, que ontem tomou parte de uma nova reunião, desta vez com representantes do PMDB.
O candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, também virou alvo de Pimenta.
De acordo com ele, não procedem as análises, feitas até mesmo por tucanos, de que a liderança do petista nas pesquisas não causa inquietação: "Inqueta, sim, uma vez que ele ainda não demonstrou preparo para dirigir o País."
Para Pimenta, mais corretas são as advertências divulgadas pelas agências internacionais de avaliação.
Devassa deve atingir Ricardo Sérgio e mais 8
Investigação a pedido do Ministério Público Federal vai envolver também nove empresas
BRASILIA - A devassa fiscal contra o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira atingirá mais nove empresas e oito pessoas que tiveram ligação com ele, incluindo dois ex-diretores da Previ, o fundo de pensão do banco. Um relatório enviado à Receita Federal pela Procuradoria da República revela que pelo menos um dos escritórios de Ricardo Sérgio teria movimentado dinheiro de comissões. "Fatos reforçam a suspeita de que a RMC (corretora do economista) pode ter sido utilizada por meio de operações simuladas para lavar dinheiro da propina da Telebrás", diz o procurador Luiz Francisco de Souza.
A auditoria fiscal foi pedida ontem pelo Ministério Público ao secretário da Receita, Everardo Maciel. No primeiro momento será para auxiliar as investigações da privatização do sistema de telecomunicações, mas, na próxima semana, procuradores devem pedir a ampliação da devassa para apurar a denúncia de que Ricardo Sérgio teria cobrado propina do empresário Benjamin Steinbruch, durante a privatização da Companhia Vale do Rio Doce.
Suspeitos - No pedido enviado à Receita, o Ministério Público Federal faz um longo relatório sobre as atividades de Ricardo Sérgio. Nele, o procurador Luiz Francisco de Souza descreve as transações feitas entre Ricardo Sérgio e o arquiteto Ronaldo de Souza, destacando a compra de prédios da Petros, o fundo de pensão da Petrobrás.
"Seu nome não aparece nas escrituras públicas de compra dos imóveis do fundo de pensão. Ele nomeou seu parceiro, Ronaldo de Souza, como procurador de sua empresa Planefin p ara efetuar a compra. Na hora de administrar o dinheiro, no entanto, é Ronaldo quem passa a procuração para o ex-diretor do BB", diz Luiz Francisco.
Além de Ricardo Sérgio e sua mulher, Elizabeth Salgueiro de Oliveira, o Ministério Público Federal requisitou a devassa fiscal de Ronaldo de Souza e sua mulher Vera Regina Freire, da RMC Corretora e da Planefin (propriedades de Ricardo Sérgio); da Consultatum, Antares e Antar Venture Investments (de Ronaldo de Souza); da Westchester Participações, off-shore de Ricardo Sérgio nas Ilhas Virgens Britânicas; de Sérgio Bernstein, diretor da empresa Rívoli; dos empresários Miguel Ethel (amigo pessoal de Jorge Murad) e José Brafman, que teriam feito a montagem de consórcios que participariam do processo de privatização das teles; de José Stefanis Gringo e sua construtora, a Ricci; da Rívoli Participações; da 141 Participações - que teria sido usada na negociação de pagamentos de propinas -; e dos ex-diretores da Previ, João Bosco Madeiro da Costa e Jair Bilachi.
Sem atitude - O Banco do Brasil não tomará nenhuma atitude em relação às denúncias contra seu ex-diretor da área internacional. Segundo o presidente do BB, Eduardo Guimarães, não houve nenhum fato envolvendo diretamente o banco: "O BB aparece apenas porque Ricardo Sérgio era diretor do banco. Se houver algo relacionando o BB, ele será apurado."
Segundo Guimarães, o BB não pode nem sequer exigir que a Previ (o fundo de pensão dos funcionários da instituição) tome alguma iniciativa para apurar as denúncias. (Colaborou Sheila D'Amorim)
Artigos
O caroço do angu
José Nêumanne
Passada a tempestade provocada pelas avaliações negativas de bancos internacionais sobre o futuro da economia brasileira por conta de uma eventual vitória petista nas eleições presidenciais, peço vênia aos expertos e espertos das ciências econômicas e das artes políticas para meter uma colher de leigo nesse angu de caroço.
Analistas de riscos recomendaram aos investidores de seus bancos que tivessem cuidado com papéis da dívida brasileira, pois Luiz Inácio Lula da Silva pode ser o próximo presidente e, aí, esses papéis terão menos valor.
Nada de mais! Eles ganham para isso. E nem eles, nem seus patrões, nem seus clientes dão a essas análises a absoluta garantia de que se cumprirão. Uma das poucas vozes sensatas no turbilhão da semana passada foi a do ex-presidente do Banco Central Carlos Geraldo Langoni, que lembrou: "Se essas previsões se cumprissem plenamente, o Brasil já estaria quebrado faz tempo." E não está.
Mas também é verdadeiro o temor de que análises desse jaez acabem provocando turbulências desagradáveis, incômodas e, acima de tudo, nocivas neste delicado momento de equilíbrio por que passa a economia nacional. Esse não é, contudo, um axioma indiscutível: se tais profecias tivessem sempre a força de se fazer cumprir, o Brasil já teria quebrado, seguindo o mesmo raciocínio de Langoni.
Pois é. Como o Brasil não quebrou, e ainda não vai ser desta vez que vai quebrar, talvez tenha chegado a hora de questionar a unanimidade com que foi recebido o rebaixamento dos papéis da dívida externa por grupos políticos que se digladiam pelo poder de forma que parecem nunca concordar em nada. É o caso de parodiar Nélson Rodrigues, contradizendo-o: eis aí o exemplo de uma unanimidade que não é burra, mas esperta. Ao elegerem os analistas de riscos de Wall Street como adversário comum, os pretendentes à Presidência tentam escamotear sua própria responsabilidade naquilo que realmente interessa (e fica oculto em seu inflamado discurso nacionalista) no imbróglio:
A dependência da saúde financeira da décima economia do mundo dos humores isolados desses analistas; e a incapacidade de consolidar os fundamentos da estabilidade econômica por imaturidade política.
O resto é lorota eleiçoeira. Fernando Henrique garantiu que movimentos especulativos do mercado financeiro não afetarão a governabilidade em seu último ano de governo. Só faltava essa. Não há bolsa sem movimentos especulativos. Se a governabilidade de um país é por eles afetada, o problema é evidentemente do país, não do mercado. Mas, ao transferir a própria responsabilidade para outrem, o presidente tentou jogar para baixo do tapete as evidências de que em oito anos de governo ele avançou muito, ao dar estabilidade à economia e restaurar sua confiabilidade externa, mas não a ponto de cristalizar essas conquistas institucionalmente. Seu sucessor, seja quem for, terá o poder de jogar todas essas conquistas no lixo, pois poderá nomear e demitir a diretoria do Banco Central, decretar a moratória da dívida ou promover o desequilíbrio fiscal, tendo como instrumento apenas o chumbo com que se imprime o Diário Oficial da União. Alguém duvida?
Luiz Inácio Lula da Silva, o mais cotado, pelo menos neste instante, para ser esse sucessor, pediu, primeiramente, "respeito" aos banqueiros internacionais. Não percebeu que o "efeito Lula", como indica a própria expressão, conota, mais do que respeito, temor, não propriamente por ele, mas pelo poder que ele poderá ter daqui a oito meses e pela forma como poderá usá-lo. Não é uma questão de respeito, mas de confiança. E quem se deu ao trabalho de ler a documentação que o PT produziu, desde sua criação até esta campanha, sobre os fundamentos que mantêm o crédito no Brasil no exterior - estabilidade, equilíbrio fiscal e, sobretudo, compromisso fechado com o pagamento dos débitos assumidos - sabe que os temores dos analistas, sob esse ponto de vista, estão longe de ser infundados.
Depois, o favorito tentou minimizar os efeitos das previsões, afirmando que rebaixamentos do gênero repercutem até resultados de futebol. Se isso fosse verdade, o assunto certamente não provocaria o estardalhaço que causou.
O fato é que esses abalos sísmicos sempre ocorrerão em anos de eleições presidenciais no Brasil.
E só não voltarão a ocorrer no dia em que, em vez de se unirem para maldizer Wall Street, os políticos brasileiros criarem instituições sólidas que garantam o cumprimento de alguns preceitos básicos, dos quais ninguém abre mão no mundo civilizado - o cumprimento dos contratos, a estabilidade da moeda e o equilíbrio fiscal -, seja quem for o poderoso da vez. Mas isso é tão improvável que ocorra que dificilmente fará parte de alguma análise de riscos digna de nota. Aí está o caroço desse angu.
Colunistas
RACHEL DE QUEIROZ
As várias faces da violência
Diz todo mundo, mostra-se na TV, que São Paulo, Rio - e todas as grandes cidades brasileiras atravessam uma fase de incrível violência. As pessoas se matam nas ruas, nas favelas e nas avenidas, como o cinema conta que se matava em Chicago de Al Capone.
É verdade. Mas o pior é que não é só aqui. Não é um fenômeno particular. A violência ataca o mundo inteiro. Agora mesmo, a Alemanha, ainda está em estado de choque com a chacina no colégio Gutenberg, em Erfurt: um ex-aluno, revoltado porque fora expulso pela falsificação de um atestado médico, em apenas l5 minutos disparou 40 tiros na escola, matando 16 pessoas, entre alunos, professores e funcionários do colégio, suicidando-se depois.
Alguns dos 12 professores foram mortos como numa execução: o garoto assassino exigiu que eles ficassem de joelhos antes de matá-los com um tiro na cabeça.
Depois dessa tragédia, que abalou toda a Alemanha, retorno às aulas, agora, é sob o domínio da tensão e do medo: de repente, os professores começaram a levar a sério ameaças de alunos descontentes com notas baixas. Num ginásio de Varel, perto de Bremen, a prova de conclusão do curso foi realizada sob forte proteção policial: o diretor do ginásio recebeu uma carta em que um aluno ameaçava suicidar -se e levar com ele o maior número possível de alunos e professores. A carta revela que o autor é um fanático religioso. Ele disse que faria tudo por ordem de Deus.
No Oriente Médio - Europa, França e Bahia - só se briga, só se mata - é só tocar com o dedo um ponto do mapa-múndi, e se vai encontrar sempre sangue correndo, fogo queimando.
E daí? Mas será que não foi sempre assim? As guerras foram sempre o tema dominante na História. A verdade é que desde que o mundo é mundo, vivemos sob a marca da violência. Todo bicho maior usa o direito de matar o bicho menor, e os do mesmo tamanho batalham mortalmente entre si. Até no lar, doce lar. Mamãe castiga o bebê. Como? Com uma palmada. Ele não sabe falar, mas sabe que dói: violência educativa. Aliás, tudo não começou no Gênesis, quando o primeiro filho do primeiro casal humano matou o irmão? Eram só eles dois, mas eram dois machos, Caim sentiu que devia acabar com Abel para ficar o senhor da futura tribo.
Sim, hoje a violência é demais, e isso é terrível. A gente tem medo de mandar as crianças para a escola, de deixar os filhos adolescentes saírem para o futebol, morre-se de medo quando os jovens se juntam num bar, à noite, para um chopinho. Quem tem família tem medo de tudo! E com razão, o medo é justificado. Grande parte dos pais já teve a prova amarga na própria carne.
E volto à minha velha tese: esse agravamento da violência no mundo inteiro é porque tem gente demais neste dito mundo. Até as florestas da Amazônia, da África, da Austrália fervilham de índios, de negros, de "aborígines", como diziam os ingleses colonizadores. Os quinhões de terra e comida para cada um vão ficando cada vez menores, mais magros, e então se briga.
E isso sem falar na situação dramática dos espaços urbanos. E fora a violência pelo espaço e pelo pão, ainda existe a violência pela pura diversão, como espetáculo. Haverá nada mais brutal do que uma tourada? E o boxe? Milhares de pessoas enlouquecidas ante dois brutamontes seminus, se matando aos socos?
Nas batalhas modernas acabaram-se os combates a espada e lança, depois que se inventou a pólvora. E depois se inventou a dinamite, ainda mais mortífera. E logo se chegou à bomba atômica: uma só mata milhões. E se ainda se mantém uma paz relativa, em muitas partes da Terra, é porque uns têm medo dos arsenais dos outros. Já pensou na quantidade imensa de explosivos que existe armazenada nesses arsenais espalhados por todo o mundo? Daria, talvez, para liquidar não só com o nosso planeta, mas com todo o sistema solar!
Nos hinos e nos discursos, nas pregações religiosas clamamos que "somos todos irmãos". Verdade. Somos irmãos, desde Caim e Abel.
Editorial
BOM MOMENTO PARA CORTAR OS JUROS
A inflação continua baixa e sob controle e há espaço para redução de juros, segundo o economista Heron do Carmo, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe-USP. A maior parte dos preços continua a oscilar normalmente, sem grandes variações, e, por esse lado, nada justifica maiores inquietações no mercado financeiro. Em abril, de acordo com essa pesquisa, o custo de vida na cidade de São Paulo aumentou apenas 0,06%, acumulando no ano uma alta de 0,96%. A economia brasileira, portanto, poderia estar crescendo mais velozmente, sem as amarras que o Banco Central (BC), por excesso de precaução, insiste em manter.
Tanto os analistas de mercado quanto os técnicos do governo, especialmente do BC, deveriam examinar com atenção os dados da Fipe e os comentários de Heron do Carmo. Nos setores sujeitos a concorrência, as oscilações do câmbio e mesmo a alta dos combustíveis produziram pouco ou nenhum efeito. A oferta de alimentos é mais que suficiente e a demanda de consumo permanece deprimida. Isso se explica em parte pelos juros ainda muito altos. Mas a política de juros, que impõe um severo sacrifício às empresas e famílias, é praticamente inútil quando se trata de conter as tarifas dos serviços de utilidade pública, administrados de acordo com os contratos de concessão, e os preços de monopólio fixados pela Petrobrás.
O custo do arrocho monetário é desproporcional, como bem mostra o economista da Fipe, aos benefícios produzidos por essa política. Heron do Carmo poderia ter acrescentado: uma economia mais ativa estaria produzindo, com certeza, uma receita maior de impostos. O governo poderia, portanto, alcançar as metas fiscais com maior facilidade, em 2002, se os juros estivessem mais baixos. Isso contribuiria para maior tranqüilidade no mercado financeiro e para avaliações mais favoráveis do quadro brasileiro. Os juros básicos, de acordo com o economista e professor da USP, poderiam cair, gradativamente, até 13% ao ano, sem comprometer a meta de inflação.
Será possível sustentar essa argumentação com base nos números do Dieese, que também pesquisa os preços ao consumidor na cidade de São Paulo? A resposta é positiva, embora o índice do Dieese tenha subido 0,74% em abril.
Sem o aumento dos combustíveis, os preços no mercado paulistano teriam subido 0,23%, segundo essa pesquisa. Seria o mesmo número apurado em março, revelador de uma inflação ainda moderada.
Também a pesquisa diária da cesta básica de consumo, realizada pelo Dieese por encomenda do Procon, mostra uma oscilação de preços bastante aceitável.
A cesta, composta de produtos de alimentação, limpeza doméstica e higiene pessoal, custou no dia 2 de maio R$ 154,22. Um mês antes, custava R$ 155,30.
No dia 3 de janeiro, R$ 158,71. Nada, nesse conjunto de produtos, indica pressões inflacionárias anormais. Os preços vêm simplesmente oscilando segundo as circunstâncias próprias do mercado, com altas e baixas em valores correntes. O que tem realmente pesado no bolso dos consumidores é a alta de tarifas administradas e de preços dos combustíveis, que a política de juros não chega a neutralizar. Uma política monetária mais folgada pouco afetaria os preços nos mercados sujeitos à concorrência. Em março, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria, as fábricas ocupavam 80,7% de sua capacidade. Um ano antes, a ocupação era de 81,9%. Essas médias foram obtidas em pesquisa mensal conduzida em 12 Estados. Em 8 dos 12, a massa de salários líquidos reais, em março, foi menor que a de um ano antes. Essa é mais uma indicação do sacrifício imposto à economia brasileira - tanto às empresas quanto às famílias - por uma política desnecessariamente restritiva. Nenhum economista sensato propõe um afrouxamento imediato e radical da política de juros. Mas parece claro que o BC daria uma contribuição relevante ao crescimento econômico e ao próprio governo se avançasse com um pouco mais de ousadia na redução do custo do dinheiro. O cenário internacional, com os juros ainda baixos nos Estados Unidos e com a redução das pressões no mercado de petróleo, favorece uma política mais ousada.
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05/08/2002
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