PSDB avalia o estrago







PSDB avalia o estrago
Fernando Henrique Cardoso convoca reunião de emergência com a cúpula tucana. Em pauta, impacto das denúncias de arapongagem envolvendo o partido, investigação da Receita sobre ex-tesoureiros eleitorais, alianças políticas e votação da CPMF

Em meio à crise com o PFL e reportagens que reforçam indícios do envolvimento de tucanos com arapongagem, o presidente Fernando Henrique Cardoso convocou uma reunião de emergência no Palácio da Alvorada. O presidente está preocupado com as suspeitas que o PFL levanta sobre pessoas ligadas ao seu candidato à Presidência da República, o senador José Serra (PSDB-SP).

Por isso, reuniu-se com Serra, o coordenador político da campanha e ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, o presidente do PSDB, José Aníbal, e o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP). É quea semana foi pesada. Além do deputado Márcio Fortes (PSDB-RJ) ter sido apontado como suposto autor de dossiê contra a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), jornais disseram que o subprocurador geral da República José Roberto Santoro, ligado a Serra, esteve em Palmas (TO) há duas semanas. Na época, a Procuradoria da República no Tocantins preparou a operação policial na empresa Lunus, de Roseana e seu marido Jorge Murad —onde foram apreendidos R$ 1,3 milhão e documentos que relacionam Murad a fraudes na extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

Para completar, a Folha de S.Paulo trouxe reportagem que mostra o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira recusando-se a abrir suas contas bancárias para análise dos fiscais da Receita Federal (leia reportagem na página 11). ‘‘É muita coisa em dois dias’’, comentou um tucano.

Aníbal, Serra, Madeira e Pimenta não tinham previsto passar a tarde de domingo no Alvorada, o que demonstra que o caráter de emergência da reunião. Pimenta avisou a assessores na sexta-feira que ficaria em Minas Gerais. José Aníbal havia dito ao Correio na sexta-feira que só regressaria à Brasília na segunda-feira, depois de reunião hoje do PSDB em Campinas (SP). E José Serra tinha planos de só aterrissar na cidade na terça-feira.

Eles chegaram ao Alvorada um pouco depois das 15h. Ficaram aproximadamente três horas. Pimenta foi o último a sair, às 18h20, dirigindo seu próprio carro. ‘‘Não houve nenhuma conversa especial’’, despistou.
A versão oficial para o encontro foi a necessidade de mobilização da base governista para votar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) na Câmara, terça-feira. Uma das preocupações do governo é com os deputados do PFL, assunto da conversa do presidente ontem no Alvorada com o ministro do Tribunal de Contas da União Guilherme Palmeira, ex-senador pelo PFL de Alagoas.

Bombeiro pefelista
Em 1994, o alagoano foi registrado candidato a vice na chapa presidencial com Fernando Henrique, mas denúncias de envolvimento dele com usineiros levaram o PFL a substituí-lo pelo então senador Marco Maciel. Palmeira permanece, porém, um importante interlocutor do presidente e do partido. ‘‘Vim ajudar’’, comentou Palmeira.

O presidente viaja hoje para o Chile ‘‘atento’’ à votação da emenda que prorroga a CPMF e ao discurso que o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) promete fazer no Senado nesta terça-feira. Há uma preocupação sobre qual deve ser o comportamento de Serra, que, enquanto senador, terá que arrumar uma boa desculpa para ficar fora do plenário amanhã, se Sarney for à tribuna.

Enquanto observam Sarney, os tucanos temem pela CPMF. Avaliam que, se a emenda que prorroga o imposto do cheque não passar na Câmara esta semana, ficará configurada a crise política, com conseqüências desastrosas para a economia. Cogitam desde a alta do dólar até o rebaixamento do Brasil nas agências de avaliação de risco, o que traria prejuízos não só à governabilidade, mas também à candidatura de Serra.
Outra preocupação discutida no Alvorada foi a necessidade de fechar logo a aliança com o PMDB. Serra e Aníbal devem procurar o presidente do nacional do partido, o deputado Michel Temer (SP), para saber a resposta do convite para que o PMDB fique com a vaga de vice na chapa que disputa a Presidência. O nome preferido por Serra é o do governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos.


Tesoureiro em apuros
Receita Federal investiga contas de Ricardo Sérgio, um dos responsáveis pela arrecadação de dinheiro para campanhas do PSDB. A pefelista Roseana Sarney e Jorge Murad são os próximos alvos do fisco

O ex-diretor da Área Internacional do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira virou uma pedra no sapato do amigo José Serra, candidato do PSDB à Presidência da República. Reportagem do jornalista Josias de Souza publicada ontem pela Folha de S. Paulo mostra que os fiscais da Receita descobriram que ex-funcionário do BB movimentou em 1998 e 1999 R$ 4,5 milhões. Os fiscais chegaram a esse valor ao analisar a Contribuição Provisória sobre Movimentação financeira (CPMF) arrecadada das contas de Ricardo Sérgio.
Ter dinheiro não é crime, mas passa a ser objeto de investigação quando o valor é incompatível com as declarações de renda no período — caso de Ricardo Sérgio, que não é o único na mira da Receita Federal, mas até agora, o que desperta mais o instinto de apuração dos fiscais.

Junto com o ex-diretor do Banco do Brasil são investigadas há oito meses outras sete pessoas que recolheram dinheiro para as campanhas presidenciais de Fernando Henrique Cardoso. Entre elas, os ex-ministros da Administração Luiz Carlos Bresser Pereira, da Secretaria de Comunicação Andrea Matarazzo, das Comunicações Sérgio Motta, que morreu em março de 1998. Estão ainda na lista o ex-presidente dos Correios Egydio Bianchi, o ex-diretor do antigo Bamerindus Ademar Cesar Ribeiro, o publicitário Luiz Fernando Furquim e Humberto Motta, da Associação Comercial do Rio de Janeiro.

A reportagem mostra que, intimados pela Receita por meio de um ‘‘termo de início de fiscalização’’ no ano passado, Bresser, Bianchi e Matarazzo mandaram todos os esclarecimentos à Receita. Inclusive, os extratos de contas bancárias solicitados. Ricardo Sérgio, não. Por isso, recebeu nova carta da Receita, no dia 28 de janeiro de 2002, intitulado ‘‘termo de reintimação fiscal’’.

Diante da insistência dos fiscais, o ex-diretor do Banco do Brasil optou por constituir advogado, Luiz Rodrigues Corvo, de São Paulo, para evitar que sua movimentação financeira fosse vasculhada. Conseguiu mediante liminar da Justiça Federal em Brasília, evitar que, pelo menos, por enquanto, o fisco analise suas contas. O argumento de Ricardo Sérgio e de seu advogado é o de que a Receita pode pedir, mas para ter acesso a sigilo bancário os fiscais precisam ter autorização judicial.

A reportagem da Folha anuncia ainda que nos próximos dias, a Receita deflagra uma devassa em outro ponto nevrálgico da política brasileira: a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, e seu marido Jorge Murad. Mostra que essas investigações se processam num momento em que há uma forte pressão no governo para que o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, seja transferido para o Ministério da Previdência. Não é a primeira vez que o nome de Everardo é cogitado para a pasta. No ano passado, quando Waldeck Ornélas deixou o cargo em meio à briga do padrinho, ex-senador Antonio Carlos Magalhães, com o presidente Fernando Henrique, o secretário da Receita chegou a fazer um jantar com amigos íntimos para comemorar a transferência.


Desperdício sem punição
Redes antigas cheias de vazamento, gatos e falta de investimentos na área de saneamento básico contribuem para aumentar ainda mais o prejuízo das empresas

O Brasil está jogando água tratada fora. Números da Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (Sedu) mostram o crescimento do prejuízo das companhias estaduais de saneamento. A média nacional aponta para um aumento de 1,2% no desperdício entre 1999 e 2000 (último dado disponível). O número seco esconde a verdadeira dimensão desse aumento. Uma cidade como Fortaleza, por exemplo, consome 59 milhões de metros cúbicos (m³) de água por ano. Um volume que não chega a representar um terço da quantidade a mais do precioso líquido que escoou pelo ralo dos brasileiros em 2000.

A Companhia de Abastecimento de Água de Brasília (Caesb), que mantém o melhor índice do país, acumulou aumento no desperdício entre 1997 e 2000. Em 1997, a empresa perdeu 16,7% do volume de água tratada. Em 2000, o volume chegou a 21,5%. O triste crescimento tem explicações parecidas no Distrito Federal e no Brasil.

Em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, as redes antigas cheias de vazamento contribuem muito para as perdas. A expansão do sistema de saneamento para atender novos consumidores nas grandes cidades, inclusive no DF, também aumentam o desperdício. Isso porque jogar água fora no Brasil faz parte da prática das companhias de esgoto. A cada ligação de água feita no país escoa pelo ralo 500 litros/dia, o suficiente para o consumo de três pessoas.

O crescimento da pobreza e da periferia urbana também aumentam a sangria da água. As ligações clandestinas, os chamados gatos, são responsáveis por grande parte das perdas registradas. No DF, a Caesb começou em 2001 um programa de caça aos gatos. Os fiscais visitam locais de provável incidência de ligações clandestinas como chácaras, mansões, invasões e assentamentos e retiram a ligação. Em áreas sem regularização, a Caesb fica proibida de atuar.

As companhias de saneamento se defendem. Acusam o governo federal de falta de investimento nos últimos anos. ‘‘Nesse setor tudo custa muito caro, inclusive a manutenção. É difícil manter o padrão e ainda atender mais gente sem injeção de recursos públicos’’, reclama Tânia Baylão, superintendente de Operação e Tratamento de Água da Caesb.

O governo não contesta a falta de investimentos. Mas culpa as próprias companhias pelo desperdício. ‘‘O custo das perdas é embutido nas tarifas, isso reduz muito a pressão sobre as empresas para parar de esbanjar’’, observa Marcos Thadeu Abicalil, da Sedu. Na realidade, falta qualquer incentivo para a conservação da água tratada no Brasil. Não existem regras que penalizem pessoas comuns, empresas de qualquer tipo ou agricultores por jogar água fora.

Devagar começam a surgir iniciativas isoladas para conter o desperdício. Na semana passada, pela primeira vez foi aprovada a cobrança de uma taxa pelo uso de um rio brasileiro. A experiência começa em julho na bacia do Paraíba do Sul que passa por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Empresas e pessoas que retiram água diretamente do rio pagarão R$ 0,008 por metro cúbico do líquido. A taxa para empresas que devolverem esgoto sem tratamento para o rio é mais alta de R$ 0,02. Os recursos arrecadados irão para a recuperação do Paraíba do Sul. A decisão partiu dos próprio usuários do rio. Foi um ano de discussão para chegar à proposta aprovada pelo Conselho.


Torneira aberta
Em 2000, 77,8% das casas brasileiras estavam ligadas à rede de abastecimento de água. O número não inclui aqueles servidos por poços artesianos. Uma das metas dos governos federal, estadual e municipal é chegar a todos os domicílios. O desperdício, no entanto, força a exploração de novos mananciais. Uma necessidade que poderia ser dispensada se os atuais níveis de perdas fossem reduzidos consideravelmente.

Nem todo o rio, lago ou lençol subterrâneo tem água com qualidade suficiente para ser tratada para o consumo humano. Em alguns locais do país, pobres em recursos hídricos como o semi-árido nordestino o problema se agrava. Perto das grandes regiões industriais ou de grande concentração populacional também. Ali, o esgoto sem tratamento lançado nos rios e os dejetos das fábricas aumentam a poluição.

O caso da cidade do Recife exemplifica bem o problema do desperdício. Em 1999, os moradores ficaram com o fornecimento suspenso por alguns dias da semana. Os mais abastados gastavam pequenas fortunas para comprar carros-pipa para abastecer a caixa d’água dos prédios. Caso o desperdício registrado pela companhia de saneamento estadual fosse eliminado não haveria necessidade de racionamento.

As empresas perdem faturamento junto com a água que escoa pelo ralo. Isso reduz a capacidade de investimento da companhia em novas redes de saneamento. Um problema grave num país com apenas 47,2% dos domicílios com serviço de esgoto.

O desperdício também encarece as contas de água. As companhias repassam aos consumidores grande parte das perdas. O peso do repasse no bolso sobe com o desperdício. No nordeste, por exemplo, a situação agrava-se com até 50% da água tratada sumindo pelo ralo.

As ligações clandestinas também provocam pequenos vazamentos na rede de distribuição. O trabalho de captação da água, feito artesanalmente, danifica a tubulação. Os chamados gatos também causam alteração da pressão dentro dos canos. Em alguns pontos diminui a vazão. Em outros, há estouro da tubulação.


O rolo da CEB
Procurador da República acusará a Companhia Energética de Brasília de preparar licitação superfaturada para que uma empresa baiana vencesse. Além disso, processo de disputa teria ferido a lei que rege esse tipo de concorrência

A Concorrência número 24 realizada pela Companhia Energética de Brasília (CEB) no ano passado está na mira do Ministério Público Federal. O procurador da República Luiz Francisco de Souza irá, nos próximos dias, ajuizar uma ação civil pública pedindo a anulação da licitação vencida pelo consórcio formado pelas empresas Citeluz, de Salvador, e Delta Engenharia Indústria e Comércio, do Distrito Federal. Os problemas envolvem direcionamento do edital para vitória da Citeluz, superfaturamento e desrespeito à Lei de Licitações.

Com a vitória na concorrência, as duas empresas embolsarão, no primeiro ano de contrato, R$ 42,72 milhões para realizar obras de ampliação e manutenção integrada da rede de iluminação pública; troca de lâmpadas, luminárias e reatores de 77 mil pontos de luz, número que equivale a 39% dos 197 mil pontos de luz do Distrito Federal. Desse total, R$ 32 milhões são recursos da Eletrobrás, oriundos do programa federal de eficientização de energia, o Reluz.

Segundo o procurador, o processo licitatório está recheado de irregularidades que começaram bem antes da publicação do edital, em 27 de julho de 2001. Entre janeiro e abril do ano passado, o superintendente de Iluminação Pública da CEB, José Gabriel Filho, presidente da Comissão Especial de Licitação e responsável pela elaboração do edital, trocou e-mails (leia quadro) com o diretor de operações da empresa Citeluz, César Teixeira. Nos e-mails, César orientou Gabriel sobre a elaboração do edital e até pediu ao superintendente para corrigir os itens que divergiam da proposta que ele havia enviado.

‘‘A troca de e-mails entre a empresa vencedora e o presidente da comissão de licitação meses antes de seu início é uma prova irrefutável de que o edital foi direcionado’’, afirma Luiz Francisco. O presidente da Comissão de Licitação, Gabriel Filho, garante que não recebeu nenhum dos dois e-mails, ao contrário do que disse o diretor da Citeluz, César Teixeira, que reconheceu um deles. ‘‘É natural que as empresas troquem informações sobre o projeto. Estávamos falando sobre o fluxo financeiro do contrato. Não era parte da licitação’’, defende-se Teixei ra.

A lei de licitações
O edital ganhou as ruas no final de julho do ano passado. Mas, segundo o procurador, passou por cima de três artigos da Lei de Licitações (Lei 8666 de 1993). O primeiro: artigo 46. O edital da CEB estabelece uma concorrência diferente, exigindo que as empresas disputem por técnica e preço. Mas a lei prevê que ‘‘os tipos de licitação melhor técnica ou o tipo melhor técnica e preço serão utilizados exclusivamente para serviços de natureza predominantemente intelectual, em especial na elaboração de projetos, cálculos, fiscalização, supervisão e gerenciamento e de engenharia consultiva em geral’’. Para elea licitação da CEB é de serviços e não têm predominância intelectual.

O segundo artigo é o 33. Para Luiz Francisco, o edital feriu o princípio de legalidade ao restringir a constituição do consórcio a apenas duas empresas. A lei não prevê essa limitação. O terceiro artigo é o 23. Segundo o procurador, o edital trouxe vários tipos de serviços distintos, que serão realizados pelo consórcio Citeluz-Delta. Mas esses serviços poderiam ter contratos independentes, com licitações separadas. O objetivo, nesse caso, é aumentar a competitividade, algo que ajudaria o poder público a conseguir o melhor preço.
Esses itens também foram questionados pela inspetoria do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF). Por isso, em 11 de setembro do ano passado, determinou que a CEB realizasse a licitação, mas que não homologasse o resultado. Assim, os envelopes com propostas poderiam ser abertos e até indicada a vencedora, mas a empresa só assinaria contrato após autorização do TCDF.

Suspeita de superfaturamento
Diante desse problema (não poderia ficar sem empresas cuidando da iluminação) a CEB teve que fazer uma contratação emergencial de serviços. Escolheu três empresas e enviou carta-convite a cada uma explicando o contrato e pedindo propostas no mesmo dia. Venceria quem apresentasse o menor preço, porque um contrato emergencial não precisa de licitação. As empresas correram e enviaram proposta. A Citeluz venceu. O que mais espanta o procurador Luiz Francisco é que todo o processo de abertura da contratação até a homologação da vencedora foi feito no dia 28 de dezembro de 2001, uma sexta-feira, véspera de ano novo.

A Citeluz, que venceu a licitação, é uma empresa baiana, criada em 1999 a partir da sociedade da multinacional francesa Citélum com a empresa de consultores baianos, Ecoluz. E tem uma trajetória invejável. Começou com capital social de R$ 120 mil em 1999 e desde o ano passado exibe um capital de R$ 2 milhões. Como a Citeluz não tinha filial no Distrito Federal nem funcionários quando ganhou a contratação emergencial, teve de sub-contratar quatro empresas para executar os serviços de manutenção. Escolheu a Delta, a SRE, a Engelux e a ETE, todas de Brasília ou com filial na cidade.

A partir desse novo contrato, o Ministério Público Federal aponta outra irregularidade na licitação: o superfaturamento. Para a nova empresa trabalhar emergencialmente por seis meses, a CEB pagará R$ 4,8 milhões (valor que equivaleria a R$ 9,6 milhões por ano). Para as sete empresas que cuidavam da manutenção da iluminação pública de todo o Distrito Federal desde 1997, a CEB pagava R$ 5,3 milhões por ano. No edital de licitação, a companhia apresentou orçamento de R$ 10,6 milhões a serem pagos anualmente à empresa vencedora apenas para cuidar da manutenção.

Uma licitação desse porte é explicada pelo diretor de Distribuição da CEB, Silvio Queiroz, como necessária para dar um tratamento adequado à capital do país. ‘‘Brasília é uma cidade com quadras residenciais escuras e luminárias de diversas cores, sem nenhuma padronização.’’

Primeiras denúncias
Segundo ele, quando a CEB realiza licitações onde busca apenas o menor preço, está colocando empresas pouco comprometidas com a qualidade dos serviços. ‘‘Vamos elaborar um plano diretor para o Distrito Federal que defina que tipo de iluminação se adapta melhor a cada endereço. Em cinco anos economizaremos 36% em energia.’’

As primeiras denúncias de irregularidades na licitação da Companhia Energética de Brasília (CEB) foram apresentadas pela procuradora do Ministério Público junto ao TCDF, Claudia Fernanda de Oliveira Pereira. Ao receber documentos que reforçavam os indícios de direcionamento, em 18 de fevereiro deste ano, a procuradora entrou com uma representação junto ao TCDF para que tudo fosse investigado. A partir das denúncias, a procuradora-geral do MP junto ao TCDF, Márcia Farias, deu parecer favorável à investigação e sugeriu que o processo do TCDF fosse encaminhado ao Ministério Público do Distrito Federal para também ser averiguado.

Na última quinta-feira, por meio de votação entre os cinco conselheiros (três votos a favor da licitação e dois contra), o TCDF considerou a licitação regular e permitiu que a CEB homologasse o resultado. A decisão não surpreendeu o procurador Luiz Francisco, que fundamenta sua ação na representação da procuradora Claudia Fernanda e no parecer da procuradora-geral Márcia Farias. ‘‘Os três conselheiros que votaram a favor da licitação ocupam o cargo porque foram indicados pelo governador Joaquim Roriz. Não votariam de outra maneira’’, resume. Votaram a favor da licitação os conselheiros Manoel Andrade (relator do processo no TCDF e ex-secretário de Administração do GDF), Jorge Ulisses Jacoby (ex-procurador do Ministério Público no TCDF) e Paulo César Ávila e Silva (ex-assessor jurídico de Roriz). Votaram contra os conselheiros Renato Rainha (ex-deputado distrital pelo PL), e Jorge Caetano, ex-procurador do Ministério Público junto ao TCDF.


Fracassa acordo de paz
Após três dias de relativa calma e esperanças de um cessar-fogo, região retoma rotina de violência. Dois atentados terroristas matam uma israelense e ferem seis. Em retaliação, tanques ocupam centro de Belém, na mais ampla operação militar na cidade

A calma dos últimos três dias acabou na explosiva região do Oriente Médio. Ontem, o Exército de Israel ocupou a cidade de Belém, no território palestino da Cisjordânia, após dois atentados que mataram um israelense e feriram seis. A repressão em Belém deixou um palestino morto. Outros dois palestinos foram mortos por soldados quando tentavam jogar granadas num assentamento judaico na Faixa de Gaza.

Apesar dos esforços do emissário norte-americano, general Anthony Zinni, e da pressão do governo dos Estados Unidos, não há sinal à vista de qualquer acordo para pôr fim às hostilidades entre israelenses e árabes. A Casa Branca não contava com esse contratempo quando agendou a visita a Israel do vice-presidente Dick Cheney. Tudo indicava que, após três dias de trabalho, o emissário Zinni conseguiria qualquer acordo antes de Cheney chegar, hoje.

Enquanto o general norte-americano conversava ontem com o presidente de Israel, Moshe Katsav, na casa do dirigente, um pistoleiro atirava em israelenses nas ruas de Kfar Saba, nos arredores de Telavive, e um terrorista suicida detonava explosivos perto de um ônibus em Jerusalém. O terrorista do ônibus morreu na explosão que feriu seis israelenses, e o atirador de Telavive foi abatido a tiros pela polícia, depois de ter matado uma mulher e ferido sete.

As Brigadas dos Mártires da Al Aqsa, grupo armado ligado ao Fatah do presidente palestino Yaseer Arafat, reivindicou, em um comunicado, o ataque em Kfar Saba. Já o atentado suicida de Jerusalém foi para a conta da Jihad Islâmica.

À tarde, Zinni ainda tentava alinhavar um acordo com o líder palestino Yasser Arafat, num novo encontro — o terceiro desde a chegada do enviado norte-americano à região na sexta-feira. No dia anterior, depois de encontros com Arafat e o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, o general norte-americano e stava otimista e chegou a anunciar uma reunião para ontem, quando seriam definidas as bases de um cessar-fogo. Horas depois, Zinni era desmentido por membros do gabinete de Sharon.

A versão sobre o fracasso das iniciativas de paz de Zinni em Israel eram contraditórias. Funcionários do governo israelense revelaram que a reunião de fato havia ficado acertada depois do encontro entre Zinni e Sharon, mas que informações sobre algumas exigências dos palestinos fizeram o governo recuar.
Naquela noite, oficiais de segurança palestinos e israelenses se encontraram na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. A informação foi confirmada pelo ministro da Defesa israelense, Benjamin Ben Eliezer, que não deu detalhes sobre o que foi discutido nos encontros.

Mohammed Dahlan, chefe de segurança em Gaza, disse à TV israelense que os palestinos não iriam se reunir com os israelenses até que estes se retirassem de todas as áreas palestinas e aceitassem discutir assuntos políticos, e não apenas uma trégua.

Já o ministro do Exterior de Israel, Shimon Peres, disse que as tropas de seu país só sairiam dos territórios se houvesse garantias de segurança na região. ‘‘Tudo que estamos pedindo é que os palestinos tomem os passos necessários para que nossa saída não leve a uma situação ingovernável’’, disse Shimon, um dos membros mais moderados do gabinete de Sharon.

‘‘Israel ofereceu um cessar-fogo, retirou a maioria de suas tropas dos territórios palestinos como sinal de boa-fé. E essa parece ser a resposta que Israel recebeu’’, disse Dore Gold, assessor do primeiro-ministro. A Autoridade Palestina não quis comentar os atentados nem as negociações com o emissário dos Estados Unidos.

Retirada parcial
Sob intensa pressão da Casa Branca — que chegou a bloquear fundos de US$ 800 bilhões para Israel e mandou o secretário de Estado Colin Powell dar um ultimato em Sharon —, forças israelenses deixaram três cidades da Cisjordânia na sexta-feira, dia em que desembarcou Zinni em Israel.

Ontem, após os atentados, tanques e blindados israelenses avançaram em direção ao centro de Belém, estacionando a 200 metros da Igreja da Natividade, construída no local onde os cristão acreditam que nasceu Jesus Cristo. À tarde, as tropas recuaram para os arredores da cidade. Um palestino morreu na incursão israelense.

A Palestina e Israel vivem os dias mais violentos desde o início da segunda Intifada — como ficou conhecida a revolta dos palestinos desde a visita, em setembro de 2000 do então parlamentar de direita Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, local sagrado dos muçulmanos, em Jerusalém. Mais de 190 palestinos e 60 israelenses morreram neste mês.


Editorial

CRIME E TERROR

O Primeiro Comando da Capital, mais conhecido pela sigla PCC, tornou-se talvez mais perigoso que os grupos terroristas internacionais. Um e outros são parecidos nos métodos, mas diferentes nos objetivos. O terror internacional tem pretensões políticas. É o caso do ETA, que atua no País Basco e prega a separação da Espanha. Já o PCC recorre à violência pela violência.

Há representantes do PCC em carceragens de todo o país. Integrar suas fileiras virou moda entre os presos. Reverenciar a sigla, nascida no começo dos anos 90 em São Paulo, transformou-se em status, em sinal de poder nas cadeias. Pior: o bando já não é apenas um sindicato de presos. Ganhou ramificações externas, com representantes fora das penitenciárias.

Nos últimos dias, o PCC, quintessência do crime organizado no Brasil, intensificou as semelhanças com o terror. Incorporou a seu arsenal novas armas e novos alvos. Ao ameaçar com bombas o Poder Judiciário, o PCC torna-se agente do terror. Torna o Estado refém do medo e tem ambições de conduzir o país a uma situação semelhante à vivida pela Colômbia.

Na nação vizinha, metade do território é dominada por auto-intitulados guerrilheiros que, na realidade, são agentes do tráfico internacional. Ou seja, são bandidos comuns enrolados numa bandeira com cores políticas. Permitir que o PCC espalhe bombas pela cidade de São Paulo é permitir que a violência mude de patamar. Grupos criminosos, como o PCC (com conexões com o tráfico internacional de drogas e armas), não podem acreditar que, com bombas, vão dobrar o Estado.

Há que tratar a ameaça como prioridade, conectando as investigações da polícia paulista com a Polícia Federal. O Estado precisa rever sua estratégia. Nos últimos meses, as autoridades de segurança pública de São Paulo, em atrapalhada tentativa de minar a influência do grupo, espalharam seus líderes por penitenciárias de todo o país. Resultado: a agremiação de marginais paulistas virou organização criminosa nacional.
Impõe-se frear a expansão do PCC. Do contrário, o recurso continuado ao terror transformará a violência em ideologia. O terror pode ser elevado à condição de instrumento legítimo de luta e passará a se associar artificialmente a causas sociais — quando, na realidade, o que move o PCC é o crime comum, a violência pela violência.


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03/18/2002


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