Serra enfrentará Ciro no Nordeste e no Norte
Serra enfrentará Ciro no Nordeste e no Norte
Candidato do PSDB percorrerá 57 municípios nas áreas mais pobres do País, na corrida pelo segundo turno
Nos próximos 45 dias, o candidato presidencial tucano José Serra vai percorrer 57 cidades em 16 Estados das regiões mais pobres do País. A intenção é levar a mensagem eleitoral da Grande Aliança, a coligação PSDB-PMDB, a 26 milhões de eleitores.
Serra resolveu botar o pé na estrada e atacar as trincheiras nas quais seu principal adversário na disputa pela segunda colocação em outubro, Ciro Gomes (PPS), é mais forte: o Norte e o Nordeste.
A jornada começou no final de semana em Floriano, interior do Piauí, e em Teresina, onde o candidato participou de comício organizado pelo PFL, que, no Estado, já garantiu apoio a ele. Na chegada, Serra foi recebido pelos caciques tucanos piauienses, o prefeito de Teresina, Firmino Filho, o senador Freitas Neto e o deputado B. Sá.
Em Teresina, porém, só deu PFL. Quem saudou Serra foi a primeira dama Leda Napoleão. Os candidatos pefelistas a senador Heráclito Fortes e a deputado federal Paes Landim não deixaram o candidato um minuto.
A estratégia estava traçada antes mesmo de Ciro ameaçar a segunda posição de Serra nas pesquisas.
Nos 50 primeiros dias após o início oficial da campanha, ocorrido ontem, Serra percorreria municípios-pólos, irradiadores de opinião, no Norte e Nordeste. Ontem, faria campanha no interior do Piauí, participando, depois, de uma carreata na capital, Teresina, seguida de comício.
A partir do dia 20 de agosto, o projeto presidencial do tucano joga seu futuro nos grandes colégios eleitorais, no horário gratuito de rádio e TV e nos debates programados pelas emissoras.
Até agosto, Serra quer consolidar as composições regionais. Com a eleição casada, na qual o eleitor vota para deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente, o PSDB avalia que as máquinas partidária e governamental serão decisivas.
Serra já dispõe do apoio do PMDB -partido ao qual estará coligado na Grande Aliança-, inclusive da ala dissidente da sigla. Na quarta passada, recebeu o apoio formal de 13 diretórios do PFL, mas espera contar com a adesão informal de pelo menos outros dez. No PPB, conta com 22 dos 27 diretórios regionais.
O PSDB espera chegar ao horário eleitoral gratuito com a eleição definitivamente polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Serra. Ou usar o tempo bem maior de que dispõe para se impor como o adversário de Lula.
Serra aposta nos debates não só para tentar destronar Lula, mas também para demonstrar que o discurso de Ciro é vazio e contraditório. A passagem de Ciro pelo Ministério da Fazenda, no governo Itamar Franco, é outro ponto que os tucanos consideram vulnerável no candidato do PPS e que pode ser atacado.
Por mais que os tucanos se mostrem publicamente despreocupados com a ascensão de Ciro, o fato é que o desempenho do candidato do PPS já preocupa. Até agora, Serra crescia quando Lula caía e vice-versa. Essa lógica parece em mutação, mas o PSDB vai esperar mais algum tempo para conferir.
Tasso ainda é problema para o PSDB
Com 4,7 milhões de eleitores e oitavo colégio eleitoral do País, o Ceará é hoje o Estado onde o candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, terá mais dificuldade para obter votos, embora disponha de dois palanques, do PSDB e do PMDB.
O pior de tudo é a indiferença do ex-governador Tasso Jereissati, hoje candidato a governador, que comanda o PSDB no Estado. Rival de Serra na disputa pela candidatura presidencial do partido, Tasso abriu mão da disputa sob a persuasão do Palácio do Planalto.
Compareceu a todas as solenidades de lançamento da candidatura de Serra, mas em momento algum mostrou entusiasmo. Em comentários a quem quisesse ouvir, lançou farpas contra o ex-ministro. E continua lançando.
Mais, evitou sistematicamente criticar o antigo aliado Ciro Gomes, que fez carreira puxado por ele. Ambos mantêm as ligações originais, embora Tasso não venha pedindo votos para o amigo. A propósito, Ciro teve mais votos que Fernando Henrique Cardoso no Ceará, nas eleições de 1998.
Além da concorrência de Ciro Gomes, sobra para Serra a irritação dos tucanos cearenses que se sentem preteridos na liberação de verbas do governo federal. Os senadores Lúcio Alcântara, candidato ao governo, e Luiz Ponte, ambos do PSDB, afirmam que não ter motivos para serem hostis à candidatura de Ciro.
O mesmo não acontece com relação ao governo do presidente Fernando Henrique. A maior queixa é quanto à falta de recursos para a Barragem do Castanhão. Principal obra no Estado da gestão de Fernando Henrique, a construção deveria ter sido concluída há dois anos, mas o governo ainda não deu sinais de quando vai liberar os R$ 53 milhões previstos no orçamento deste ano.
Os parlamentares se queixam ainda do apoio do Planalto à indicação do maior adversário local, o senador Sérgio Machado (PMDB), também candidato ao governo, para o cargo de relator-geral do orçamento de 2003. "É uma situação anti-ética", protesta Ponte.
Os parlamentares cearenses afirmam que não participarão da campanha de Ciro. Mas é certo que nem eles nem Tasso Jereissati arregaçarão as mangas para eleger José Serra.
Na largada da campanha de rua, feita justamente no Ceará,no sábado, saindo do principal ponto de encontro de Sobral, o Beco do Cotovelo, Ciro Gomes marcou um ponto a seu favor: ele se comportou com naturalidade e nem de longe lembrou o estilo brigão, de saco roxo, do ex-presidente Fernando Collor. A comparação se explica pela semelhança física e pela jeito destemido que ambos adotam quando falam em público. Mas não agrada nem um pouco ao candidato.
Patrícia Pillar fará campanha nas ruas
A partir de agora, quase toda a campanha do candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, será desenvolvida nas ruas, com comícios e caminhadas. Sempre que possível, em companhia da atriz e namorada Patrícia Pillar. A meta é visitar cinco cidades por dia.
Ciro acredita que até o primeiro turno da eleição, em 6 de outubro, conseguirá pedir votos pessoalmente em cerca de 400 localidades brasileiras. O candidato diz que dará o mesmo tipo de atenção a todos os Estados. O roteiro das viagens está sendo preparado por sua assessoria. "O que eu sei é que vou andar, andar, falar com as pessoas e fazer comícios", informa o candidato. Esta semana, ele tem compromissos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Brasília, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Pernambuco e Ceará.
O estilo das viagens será melhor do que o adotado até aqui. Em vez dos aviões de carreira, o candidato disporá de um jatinho alugado pela Frente ou usará caronas.
Falta povo para ouvir Garotinho
O candidato do PSB à presidência da República, Anthony Garotinho, enfrentou falta de público nos eventos de que participou em Pernambuco. O PSB do Estado anunciou o evento Vamos abraçar o presidente, que seria o primeiro grande ato de caráter político da campanha, ao meio-dia de ontem, em Jaboatão dos Guararapes. Um comício fecharia o ato, a expectativa era de público de 5 mil pessoas, mas apenas 100 pessoas foram ao local, a maioria crianças.
Antes, foi improvisada uma carreata, do centro de Jaboatão dos Guararapes até o local do comício, sem carro de som anunciando a presença do candidato. Não havia ninguém para distribuir os panfletos, que durante o trajeto continuaram nas mãos de correligionários que acompanhavam Garotinho em cima de uma caminhonete.
Apenas no final do roteiro a caravana teve a ajuda de um carro de som, despertando a atenção dos moradores locais. Para Garotinho, "não houve fra casso, está tudo bem, o importante é caminhar", disse ele.
Morre vereador que foi baleado no Rio
Os médicos da Casa de Saúde Grande Rio, em Rio de Janeiro, constataram a morte cerebral do vereador Luiz Carlos Aguiar (PSC) baleado na madrugada de ontem, na porta de sua casa.
Segundo boletim médico emitido nesta tarde, foram constatados "sinais clínicos de morte cerebral" após avaliação neurológica.
O vereador depende da ajuda de aparelhos para respirar e é submetido a "medicação para controle da hipertensão intracraneana", conforme o boletim.
Aguiar foi abordado por homens armados quando saía de casa, em Parada de Lucas. Parentes do vereador testemunharam o crime.
Ainda não há informações se ele foi vítima de tentativa de assalto ou atentado. Os criminosos fugiram sem levar nada.
Inflação terá novo índice, calculado para todo o País
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estuda a criação de um índice de inflação nacional que poderá substituir o atual, feito com base no acompanhamento de preço em apenas 11 locais. O novo índice surgiria a partir da base da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), a primeira de abrangência nacional, que será oficialmente lançada nesta semana. Além disso, o instituto já desenha outra medição nova: a da inflação ao produtor industrial.
"Estamos analisando a expansão do índice metropolitano. A taxa nacional complementa muito, não tanto pela mensuração da inflação, porque o índice atual é de bom tamanho para este uso. Mas as recomendações para os sistemas estatísticos apontam que seus indicadores devem ser nacionais", disse a diretora de Pesquisa do IBGE, Martha Mayer. A viabilidade do indicador e a proposta de custo serão definidos ao longo deste ano e de 2003.
O professor da PUC/RJ Luiz Roberto Cunha avalia que, caso seja criado, o índice de inflação nacional geraria apenas mudanças marginais. "Os preços absolutos poderiam até variar, mas as variações, não", explicou, citando que as regiões pesquisadas são as principais do País. Quanto ao Índice de Preço ao Produtor (IPP), afirmou que "este é fundamental", até como parâmetro ao Índice de Preços do Atacado (IPA), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Os índices de preços do IBGE, dentre eles o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que serve de parâmetro para a política monetária, levam em conta a coleta nas nove principais regiões metropolitanas do País, inclusive Distrito Federal.
Em preparo há duas semanas, a nova POF será urbana e rural, envolverá 40 mil domicílios e o trabalho de 480 pesquisadores, durante 12 meses.
O período de um ano é essencial para captar a sazonalidade do consumo, que pode variar conforme a época do ano. Um avanço tecnológico, destaca Mayer, é o uso de computadores portáteis na coleta e transmissão das informações da pesquisa.
Os dados preliminares da POF serão divulgados a partir do fim do ano que vem. Na prática, a nova pesquisa gera uma base que permite atualizar a estrutura de índice de preços, com os novos pesos dos gastos familiares.
Artigos
Fiscalizar o transporte alternativo
José Luiz Oliveira
O transporte coletivo urbano mudou muito em poucos anos. As empresas de ônibus não exercem mais o monopólio deste serviço essencial à vida dos grandes centros, embora ainda detenham a maior e mais apetitosa fatia do mercado. Nem as empresas mandam e desmandam como até bem pouco tempo atrás, nem os rodoviários fazem a cidade tremer quando anunciam greve. Aos poucos, as metrópoles vão se libertando da camisa-de-força representada pela disfarçada e nefasta aliança entre os donos dos ônibus e o sindicato dos motoristas, todos querendo aumento. Nada contra o reajuste do salário dos trabalhadores, que precisam de boa remuneração para ter a serenidade que a profissão exige. Difícil é engolir a posição de patrões e empregados na defesa do aumento da passagem todas as vezes que sentam à mesa para negociar. Ninguém pensa no usuário.
Discretamente incentivado pelos governos, que vêem na iniciativa uma porta para escapar das pressões, e pelas montadoras em busca de mercado, o transporte alternativo ganha espaço. Na verdade, não havia outra saída que não a legalização. A clandestinidade complicava o trânsito e trazia riscos para os usuários, já que a maioria dos veículos trafegava sem as mínimas condições de segurança. Na legalidade, os motoristas têm de cumprir exigências e os órgãos de trânsito mais facilidade para fiscalizá-los.
A invasão dos clandestinos, agora transformados em transporte alternativo, deve-se também à decepção do usuário com o transporte convencional. É caro, não cumpre horários e os motoristas dirigem como se estivessem em um bólido. Param distante dos pontos, iniciam a marcha quando o passageiro ainda está descendo ou subindo e dirigem aos solavancos, fazendo manobras arriscadíssimas para quem está dentro e fora do ônibus.
Infelizmente, essa realidade não mudou com a chegada dos alternativos. Parece até ter se agravado porque, além dos vícios do convencional, a disputa pelos passageiros transforma as linhas em pista de corrida. Pega mais passageiro quem chega primeiro ao ponto. Outra coisa: não se respeita o limite máximo de passageiros. Em certos horários, as vans circulam abarrotadas, verdadeiras latas de sardinha a desafiar a segurança no trânsito.
Semana passada o GDF autorizou a circulação de mais uma leva de vans. Medida que chegou em boa hora, sobretudo porque vai beneficiar os condomínios, fora da rota do transporte convencional. Bom para os condomínios e bom para os donos de vans, que já faziam estes percursos na clandestinidade. Mas o governo precisa pensar, também, numa forma de acabar com os abusos e a imprudência dos alternativos (ressaltem-se as exceções de sempre).
Aliás, o governo não precisa inventar nada. Basta colocar as autoridades de trânsito para desempenhar o seu papel com eficiência. Se deixar correr solto, daqui a pouco ninguém segura a bagunça.
Colunistas
CLÁUDIO HUMBERTO
Aos arapongas da Abin, tudo
Tratados a pão-de-ló, os arapongas da Agência Brasileira de Inteligência devem ser mais importantes que os demais servidores federais. Eles recebem gentilezas do erário – de sofisticados equipamentos de ginástica e mordomias variadas. Agora, a Abin fez a Viúva gastar R$ 57.471,00 na compra de uma ambulância para uso exclusivo da rapaziada, em Brasília, segundo comprovante em poder da coluna. Igualzinha à do presidente.
O candidato de Tasso
Com a queda de José Serra nas pesquisas, ninguém segura mais: Tasso Jereissati vai mesmo subir no palanque de Ciro Gomes, seu candidato a presidente. Tasso posa para fotos com Serra fora do Ceará. Mas, lá, não tem jeito: seu candidato é Ciro. E também de Lúcio Alcântara, seu candidato ao governo do Ceará.
Independente
Parece fácil a eleição de Tasso Jereissati para senador. Já eleger a ex-Patrícia de Ciro Gomes, na segunda vaga, é mais complicado. Mas Tasso não está muito preocupado. Ele a considera "independente demais".
Pelas barbas de Fidel
Já não se fazem mais petistas como antigamente. O deputado Marcos Rolim (PT-RS) enviou ofício ao presidente da Comissão de Direitos Humanos, Orlando Fantazzini Neto (PT-SP), pedindo providências para o caso do físico cubano Juan Lópes Linares, impedido de ver o filho de três anos, em Cuba. É bata quente à cubana.
Receita da greve
Os auditores federais em greve querem um colega de carreira na chefia da Receita. Protestam não só contra o baixo salário e o fim da paridade salarial de ativos e aposentados. Também denunciam o recorde na arrecadação de tributos de assala riados com a enorme carga tributária; a generosidade do Refis com os grandes contribuintes, e a MP 38, que facilita a sonegação.
Ó, Calcutá!
O prefeito do Rio escreve nos jornais, mas não os lê. Uma checada diária nas cartas dos leitores revela a insatisfação geral com a degradação urbana da cidade: camelôs, mendigos, calçadas esburacadas, estacionamento irregular e poluição sonora. Bela vitrine para um aliado de FhC.
Humor coletivo
O leitor Flávio José de Almeida diz que Itamar Franco já veio ao mundo enjoado porque nasceu num navio. E pergunta como Lula pode querer ganhar no primeiro turno, se quando era torneiro mecânico sempre trabalhou em dois? E a candidatura Serra, tem remédio?
Lições argentinas
Das lições que temos aprendido com os irmãos do sul, é bom guardar uma: enquanto as turbulências políticas e econômicas agiram só o mercado, tudo bem. O sinal vermelho é quando elas atingem o supermercado.
Duro de engolir
O Greenpeace mantém a mortadela Bolognella da Perdigão na lista vermelha dos transgênicos, apesar do ok do laboratório brasileiro Transigência Biotecnologia. O suíço Belp Ag e o DNA chips, de Hong Kong, comprovaram 12% de soja Roundup Ready no produto.
Perdoa por me traíres
Nos Estados, candidatos a governador abrem palanques para candidatos a presidente de vários partidos. Ignoram a chamada "verticalização" do ministro Nelson Jobim para inaugurar o palanque-rodízio.
Os riscos Brasil
Políticos que defendem a candidatura governista de José Serra dizem ao mercado que se outros candidatos vencerem, o Brasil poderia se transformar numa nova Argentina. Seremos então uma nação múltipla, vez que, há tempos, graças ao crime organizado, já somos uma nova Colômbia.
A vez da ciência
Será lançada na 54ª Reunião Anual da SBPC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a revista Ciência e Cultura, totalmente reformulada. Divulgando a pesquisa nacional há 54 anos, terá sempre um núcleo temático, com noticiário e artigos científicos do Brasil e do mundo. Este mês aborda a Violência, coordenado pelo sociólogo Sérgio Adorno, da USP.
Coca Corporation
Que celular, nada. A revista americana Business 2.0 revela a sofisticada estrutura tecnológica do cartel colombiano, numa empresa que poderia figurar entre as maiores da Fortune. Capaz de rastrear radares de vigilância, controlar suprimentos da droga em navios, lava dinheiro na web, tem minissubmarinos etc. O chefão, fugido, é Archangel Henao.
Marketing
O esquema de propaganda em torno da seleção é tão grande (carro da cerveja, em vez de carro de bombeiro) que daqui a pouco não escolherão mais os melhores da Copa, mas os melhores do copo.
Tal e qual
Um velho ditado diz que a diferença entre capitalismo e comunismo é que o primeiro se serve da exploração do homem pelo homem, e o segundo faz o contrário. Depois de passar os últimos anos acusando o ex-ministro Eduardo Jorge, o PT se vê envolvido em denúncias que envolvem seu militante Jorge Eduardo no financiamento ilegal de campanhas, em Brasília.
Poder sem Pudor
Vontade de Deus
Tendo o deputado Tilden Santiago (PT-MG) como testemunha, dom Serafim Fernandes, torcedor fanático do Atlético Mineiro, reagiu assim quando foi nomeado cardeal-arcebispo de Belo Horizonte:
– Como Deus é parcimonioso, deu um cardeal à torcida do Atlético e tirou do time as vitórias...
Editorial
Pequeno investidor à deriva
O recorde na captação líquida da poupança (que mede os recursos aplicados descontados os retirados) no mês de junho poderia ser comemorado em outra conjuntura. Mas no estágio atual, os R$ 6,092 bilhões que engordaram a aplicação na caderneta são o sinal claro de como está perdido o brasileiro que tem algumas economias para investir. Segue como um barco no meio de uma tempestade, tonto, atrás de ilhas virtuais. E o pior: com menos dinheiro.
Depois de conviver um tempo com a economia estabilizada, o brasileiro médio já estava se acostumando com opções diferentes de investimento e fugindo do monocórdio caderneta de poupança. Havia gente aplicando em fundos, bolsa ou mesmo imóvel. Os cidadãos haviam passado por uma espécie de educação financeira.
Mas de uma hora para outra foi tudo por água abaixo. Perdeu-se o norte e grande parte dos investidores, desesperados, voltaram para a poupança no pior dos momentos. Primeiro porque fizeram o que o mercado chama de realizar o prejuízo, ou seja, venderam em baixa. Segundo porque pagaram CPMF em cima de um dinheiro que estava parado. E terceiro porque trocaram para o investimento de pior rendimento no período.
A caderneta de poupança só não foi pior do que a bolsa de valores, que sofreu um forte abalo com as fraudes nos balanços de grandes empresas norte-americanas. Quem aplicou R$ 1 mil terá no final do ano um rendimento de R$ 87,31. Os que deixaram a mesma quantia nos fundos vão receber R$ 126, descontados o Imposto de Renda e a Taxa de Administração.
A poupança tem seu espaço como forma de investimento, mas apenas para um determinado perfil. Não se perde, mas se deixa de ganhar dinheiro se não houver diversificação nas aplicações. O problema é que a sociedade ficou órfã de segurança, e o medo de perder o que se tem induz a erros.
A prova que fica é que o Brasil avançou para um regime de capitalismo pleno, mas deu dois passos atrás. E os grandes investidores dificilmente perdem. A conta fica para os pequenos. Perdidos como um barco à deriva.
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07/08/2002
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