Serra, o delegado e o tesoureiro
Serra, o delegado e o tesoureiro
O amigo de José Serra na Polícia Federal, Marcelo Itagiba, afastou delegado de um inquérito que apurava o envolvimento de Ricardo Sérgio de Oliveira, também amigo de Serra, em irregularidades na privatização das empresas de telecomunicações
O ex-diretor da Área Internacional do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira é amigo do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra. Quando Serra elegeu-se para o Senado em 1994, Ricardo Sérgio foi o seu tesoureiro de campanha. Na prestação de contas da campanha de Serra ao Senado, ele aparece como o segundo maior doador como pessoa física. Depositou na conta de campanha do amigo R$ 8.571,77, em valores atualizados, ou 8.055,42 Ufir na época. O empresário Pedro Piva, suplente de Serra no Senado, doou R$ 7.272,22 como pessoa física.
O superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Marcelo Itagiba, é amigo de Serra. Ele já foi o coordenador do Centro de Inteligência da PF, onde tinha controle sobre todos os inquéritos importantes tocados pelo órgão. Chegou ao cargo com o apoio de Andrea Matarazzo, embaixador do Brasil na Itália, ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social do governo federal. Itagiba é casado com uma prima do embaixador. Matarazzo também é amigo de Serra.
O ex-delegado de Combate ao Crime Organizado e de Inquéritos Especiais do Rio de Janeiro (Delacoe), Deuler da Rocha, não é amigo de Serra. Na Delacoe, Deuler presidia o inquérito que apura suspeitas de corrupção ativa e passiva envolvendo acionistas da Telemar e do amigo de Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira. Quando dirigia a Área Internacional do Banco do Brasil, era Ricardo Sérgio o responsável por conceder as cartas de fiança do banco às empresas que pretendiam disputar o processo de privatização das empresas de telecomunicações, do grupo Telebrás, em 1998. Deuler estava perto da fase decisiva do inquérito. Hoje, ele receberia pedido do Ministério Público para ouvir de novo Ricardo Sérgio e tomar outros depoimentos importantes no processo: Carlos Jereissati e Daniel Dantas, sócios e inimigos na Telemar. Deuler não fará nada disso. O amigo de Serra, Marcelo Itagiba, afastou-o do cargo e do inquérito. Quem conduzirá o inquérito agora é a delegada Patrícia Freitas. Não se conhece a sua relação com José Serra.
Rotina administrativa
O amigo de Serra, Marcelo Itagiba, disse ontem que o afastamento do delegado foi ‘‘nada mais, nada menos que um ato de rotina administrativa’’. Itagiba assumiu a superintendência em maio do ano passado e, desde então, mudou os chefes de três das sete delegacias que comanda. Ele disse que fará novas mudanças. O novo delegado titular da Delacoe é Marcos David Salem, ex-corregedor de polícia, que assume o posto em substituição a Eduardo da Matta. A assessoria da Polícia Federal no Rio informou que a destituição de Deuler Rocha não teve ‘‘nenhuma conotação punitiva’’, mas o delegado disse à Agência Folha que foi ‘‘surpreendido’’ pela decisão.
‘‘Isso não é usual. Não há nada de rotina nesse tipo de ato’’, disse ao Correio um ex-diretor da Polícia Federal. De acordo com ele, Itagiba até poderia afastar Deuler da Delacoe como um ato administrativo. Mas substituir delegados responsáveis por um inquérito, principalmente quando esses inquéritos já estão próximos da fase de conclusão, não é uma coisa normal.
No lugar de Deuler da Rocha, a delegada Patrícia Freitas assume o inquérito sobre a Telemar. Ficará por sua conta tomar os depoimentos dos acionistas da Telemar Carlos Jereissati e Daniel Dantas. Ricardo Sérgio de Oliveira também será novamente ouvido, conforme pedido feito ontem à PF pelo procurador da República Marcelo André. Ele estava com o inquérito até ontem, quando devolveu-o à Justiça para que a PF retome as investigações. Por meio da assessoria de imprensa do Ministério Público, Marcelo André informou que não acredita que o inquérito da Telemar fique pronto, para oferecer denúncia à Justiça, antes do final do ano.
Telemar
O inquérito da Telemar foi aberto em agosto do ano passado, três anos depois da privatização. A justificativa para a abertura de inquérito, pedido pelo procurador Paulo Fernando Corrêa, foram denúncias do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. Segundo ACM, Oliveira teria cobrado R$ 90 milhões para acertar a participação da Previ (fundo de pensão dos empregados do Banco do Brasil) no consórcio que comprou a Tele Norte Leste (Telemar). A PF investiga também se a Previ atuou como banco (atividade para a qual não está autorizada) ao emprestar dinheiro para os sócios fazerem o pagamento da primeira parcela após o arremate da companhia telefônica. A Secretaria de Previdência Complementar também faz esta investigação. A Telemar explora a concessão de serviço de telefonia fixa no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Espírito Santo e nos nove estados do Nordeste, além do Pará, do Amapá, de Roraima e do Amazonas. ‘‘É preciso investigar tudo isso. Isso tudo é muito estranho’’, reagiu ACM.
Homem de hábitos refinados, Marcelo Itagiba subiu na burocracia da Polícia Federal, de acordo com seus desafetos, por causa da sua proximidade com tucanos poderosos, como Serra. A vontade de subir na burocracia era tanta que passou a incomodar o então diretor-geral da Polícia Federal, Vicente Chelloti. Destituído por Chelloti, foi transferido para São Paulo, onde ocupou cargos de chefia na Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) e no Aeroporto de Guarulhos.
A intimidade com o tucanato permitiu a Itagiba voltar a Brasília para assessorar José Serra no Ministério da Saúde. Agora, Itagiba ficou no centro das acusações de espionagem ilegal contra a governadora do Maranhão, Roseana Sarney. José Heitor Nunes, dono da empresa Interfort, e Johanathan Sardenberg, agente da PF, também apontados pelo grupo de José Sarney como suspeitos de participação na arapongagem, são seus amigos.
CPI para apurar a arapongagem
PT e PFL articulam-se para criar comissão de inquérito para investigar o envolvimento do PSDB e do governo no esquema de espionagem e montagem de dossiês contra candidatos à Presidência da República adversários de José Serra
O PT começa hoje a colher assinaturas para o pedido de abertura de uma CPI Mista — com deputados e senadores — para investigar o esquema de espionagem encravado na administração federal. O pedido é sob medida para receber as assinaturas dos 95 deputados e 17 senadores do PFL, tão interessados em uma CPI quanto no resultado do pedido de cassação do deputado Márcio Fortes (RJ), secretário-geral do PSDB, entregue ontem à Mesa da Câmara pelo líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE).
‘‘Se querem guerra, vão ter guerra’’, avisou o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, aos companheiros de partido. ‘‘O Brasil precisa de explicações claras’’, completou. ‘‘O governo federal especializou-se em alta tecnologia de espionagem’’, dispara o deputado Walter Pinheiro (BA), vice-líder do PT. Segundo ele, o PT não quer apenas investigar os grampos descobertos nos últimos anos na administração federal, como o Sivam e o BNDES. ‘‘Queremos partir destes casos para chegar aos responsáveis. A estrutura de inteligência do governo tem que responder pelos fatos de espionagem na esfera pública’’, diz o deputado.
A escolha por uma CPI Mista deve-se ao fato de não haver nenhum pedido semelhante aguardando na fila do Congresso, o que permitiria a imediata instalação da comissão. ‘‘Essa eu assino’’, disse Inocêncio Oliveira. ‘‘Como não tem fila, ninguém vai enganar a opinião pública querendo fazer uma CPI impossível.’’
No Senado, o PFL quer convocar o ministro da Saúde, Barjas Negri, para explicar a contratação da e mpresa Fence Consultoria Empresarial por R$ 1,8 milhão para fazer varreduras contra grampo telefônico no Ministério. Os pefelistas consideraram ‘‘o fato mais importante da semana’’ a descoberta do contrato, assinado pelo candidato do PSDB à Presidência, José Serra quando era ministro. A informação foi publicada ontem pelo Correio. ‘‘É altamente estranhável que exista um contrato como esse. Queremos explicações’’, avaliou Bornhausen.
Ligações perigosas
Chamou a atenção dos pefelistas a rede de ligações entre o superintendente da Polícia Federal no Rio, Marcelo Itajiba, ex-assessor de Serra e ex-chefe do Centro de Inteligência da PF, e o dono da Fence, Enio Gomes Fontenelle, ex-agente do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI).
Os pefelistas querem saber por que a pasta comandada por Serra precisou contratar uma empresa privada para fazer o serviço de varredura por um valor infinitamente maior que o pago por outros ministérios. Além de Barjas Negri, o próprio Serra pode ser pressionado a dar explicações.
De acordo com o líder do PFL no Senado, José Agripino Maia (RN), o Ministério de Esporte e Turismo, até a semana passada comandado pelo pefelista Carlos Melles, gastou menos de R$ 10 mil em dois anos pelo mesmo serviço. ‘‘Tanto dinheiro foi gasto só para rastreamento de grampo telefônico, ou para algum serviço mais?’’, pergunta Agripino. ‘‘O trabalho de remover grampo poderia ser feito a custo zero pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), pela Polícia Federal ou pelas concessionárias de telefonia.’’
Agripino diz enxergar um ‘‘núcleo dentro do governo federal exercendo o poder de uma forma inaceitável em um regime democrático’’. Até o início da semana o líder pefelista decidirá em que termos e para que comissão será convocado Barjas Negri. ‘‘Não precisamos fazer nada a toque de caixa. O foro escolhido tem que ser o mais eficaz’’, avalia.
Na próxima quarta-feira, o diretor-geral da PF, Agílio Monteiro, irá à Comissão de Fiscalização e Controle do Senado. Ele e os deputados Paulo de Tarso e Élvio Dias Leite, que participaram da operação de busca e apreensão na Lunus, de Roseana Sarney, serão ouvidos em sessão secreta. O PFL contratou um criminalista para ajudar seus senadores a prepararem o questionário.
Operação para blindar candidato
PSDB aconselha Serra a mergulhar e permanecer em silêncio até o fim do tiroteio com o PFL. Enquanto isso, os líderes do partido trabalham para neutralizar o sucesso das investigações sobre grampos e arapongagem
Convencido de que o objetivo do PFL hoje é acabar com a candidatura de José Serra à Presidência da República, o PSDB prepara uma verdadeira blindagem para evitar que seu candidato se exponha numa briga contra o PFL ou fique na defensiva respondendo a denúncias publicadas nos jornais. A ordem de preservar Serra foi transmitida ontem pelo presidente do PSDB, José Aníbal, a todos os tucanos. A determinação do comando tucano é deixar que parlamentares e ministros respondam às acusações, protegendo o candidato de entrar em bate-boca com os pefelistas.
Essa operação foi posta em prática ontem mesmo. No Rio, o deputado Márcio Fortes prometeu ingressar com uma representação por ‘‘denunciação caluniosa’’ contra pefelistas na Câmara para contrapor à representação que o PFL apresentou contra ele, acusando-o de envolvimento em arapongagem. No Ministério da Saúde, o ministro Barjas Negri foi encarregado de explicar o contrato com empresa especializada em identificar escutas telefônicas publicado ontem pelo Correio.
No Congresso, a defesa do PSDB foi comandada pelo deputado Alberto Goldman (PSDB-SP) e pelo líder no Senado, Geraldo Melo (PSDB-RN). Goldman classificou a representação contra Márcio Fortes como parte de um plano para tentar desestabilizar o PSDB e recuperar a candidata Roseana Sarney (PFL) — cuja empresa, Lunus, que ela mantém em sociedade com seu marido, Jorge Murad, foi alvo de uma ação policial há 14 dias com uma apreensão de R$ 1,3 milhão em espécie. ‘‘Essa representação é sórdida. Daqui a pouco, o PFL vai dizer que foi o PSDB quem deu o dinheiro para a Lunus’’, afirmou Goldman. ‘‘Eles (os pefelistas) não responderam as denúncias contra a Lunus e agora querem nos puxar para o nível deles. Não vai colar’’, disse Goldman.
Ódio destilado
Os integrantes do PSDB avaliam que as declarações do presidente do PFL, Jorge Bornhausen (SC), na última quarta-feira acabaram com qualquer chance de reaproximação eleitoral entre os dois partidos, pelo menos, por enquanto. Na avaliação da cúpula do PSDB, Bornhausen ‘‘destilou ódio contra o PSDB sem provas’’ e acusou Aloysio Nunes Ferreira de não fazer uma sindicância que está em curso e terá resultado nos próximos dias.
A justificativa que os tucanos encontram para a declaração de guerra do PFL contra o PSDB está na expectativa dos pefelistas de reconquistar o eleitorado que Roseana perdeu com a investigação do envolvimento da Lunus com fraudes na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).‘‘A estratégia deles é transformar o PSDB em algoz do PFL, vendendo o desastre da candidatura Roseana como uma trama urdida por nós’’, disse Goldman. ‘‘Querem nos manchar com um comportamento anti-ético que não adotamos’’, afirmou Goldman.
Enquanto isso, no Senado, Geraldo Melo defendia o contrato do Ministério da Saúde com a empresa Fence.‘‘Não há nenhuma ilegalidade nisso, pois o serviço de varredura nos telefones é para neutralizar uma ilegalidade que é o grampo’’, afirmou, lembrando que outras instituições do governo contrataram esse tipo de serviço. Citou inclusive o Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto, vinculado ao Ministério dos Esportes, que até a semana passada era comandado pelo PFL. ‘‘O que me preocupa não é esse assunto, mas o rumo da campanha eleitoral, que deve ser uma campanha alta e não esta baixaria que está aí’’, comentou o senador.
Nesse clima de ‘‘baixaria’’, Serra foi aconselhado a ‘‘mergulhar’’ — expressão que, em política, significa sair de cena. Ele deve ir ao México e ao Chile na semana que vem, bem longe do bote-boca entre PFL e PSDB.
“Futricas” irritam FHC
O atraso da votação da CPMF na Câmara emperra a pauta do Senado. Assustado com a perda semanal de R$ 400 milhões, presidente pede o fim das brigas
A vingança do PFL de não votar a emenda constitucional que prorroga a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) não atrapalha apenas a pauta da Câmara, onde a emenda tramita. Por vias transversas, a rebeldia pefelista também está impedindo o Senado de votar seus projetos. A bancada do governo no Senado decidiu impedir a votação da Medida Provisória (MP) que renegocia as dívidas originárias do crédito rural. Como a MP vai receber emendas dos senadores, a matéria terá que ser votada novamente pelos deputados. Ao chegar na Câmara, ela trancará a pauta. Isto é, nada mais poderá ser votado enquanto a MP não for apreciada. Ou seja: hoje, correr com a pauta do Senado é atrasar ainda mais a votação da CPMF na Câmara. ‘‘Neste caso, a obstrução não significa um desleixo com a matéria. É uma obstrução do bem: para salvar a CPMF’’, justificou o líder do governo no Senado, Artur da Távola (PSDB-RJ).
O líder do PFL na Câmara, deputado Inocêncio de Oliveira (PE), garantiu ontem que a votação da CPMF está mantida para terça-feira. Como, porém, só se agrava a crise entre o partido e o governo, há quem desconfie que o assunto possa mesmo começar a ser definido na semana que vem. ‘‘Nós temos palavra’’, enfatizou, no mesmo dia em que protocolou na Secretaria Geral da Mesa da Câmara uma representação contra o secretário-geral do PSDB, deputado M árcio Fortes (RJ), por suspeita de ser autor de um dossiê contra a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (MA).
Diante da gravidade da situação, o presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a fazer um apelo ao PFL para que vote logo a emenda constitucional que prorroga a CPMF. ‘‘O partido (PFL) é importante, é responsável e do voto dele depende a CPMF. E eu estou confiante de que vão votar, e logo, porque eu tenho a palavra de seus líderes’’, disse o presidente, no discurso de inauguração de um complexo de pontes no distrito de Porto Camargo, no Paraná. ‘‘O Brasil não pode perder R$ 400 milhões por semana por causa de tricas e futricas’’, ressaltou o presidente, referindo-se à perda de arrecadação, sem a prorrogação da CPMF. O governo estima que já perdeu cerca de R$ 2 bilhões.
A preocupação do PSDB não é só com a perda na arrecadação. A paralisação também traz conseqüências políticas negativas para o governo. Sete projetos da área de segurança pública, por exemplo, já estão prontos para irem a plenário em regime de urgência, mas, por enquanto, estão guardados na gaveta do presidente da Câmara, deputado Aécio Neves (PSDB-MG). Um assessor da presidência explicou que é arriscado colocar os projetos em votação com o PFL na oposição porque não são matérias de consenso. A intenção de Aécio Neves era votar todas as matérias até o final de junho. Agora este cronograma pode ser prejudicado.
Outro projeto que está com a tramitação atrasada no Senado é a emenda constitucional que permite a participação do capital estrangeiro nas empresas de comunicação. O relator da matéria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Romeu Tuma (PFL-SP), em princípio se mostrou favorável ao texto aprovado na Câmara, mas agora, depois do rompimento com o governo, alguns senadores pefelistas prometem estudar algumas propostas separadamente. Se for modificada no Senado, a emenda terá que passar por nova votação na Câmara, atrasando a promulgação da nova lei.
Novos empregos em Brasília
O Conselho de Desenvolvimento Integrado do Distrito Federal aprovou ontem os projetos de instalação ou ampliação de 167 empresas. Em curto prazo, esses empreendimentos vão propiciar a abertura de 1.271 empregos diretos na região. Serão investidos R$ 21,6 milhões de recursos privados nos empreendimentos, que receberão incentivos do Programa de Promoção de Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável do Distrito Federal.
O número - Cheques sem fundos
17,2%
Esse é o percentual de cheques devolvidos no mês passado. O aumento no número de devoluções refere-se à comparação com fevereiro de 2001. Segundo a Serasa (Centralizaçao de Serviços Bancários), de cada mil cheques compensados no mês passado, 13,6 não tinham fundos.
Artigos
Ontem e hoje, argentinos
Hoje, a Argentina afunda num poço de degradação que suga até as parcas lembranças dos anos dourados, quando chegou a ser a quarta economia do mundo. Há fome no país que já foi um dos celeiros do universo
Newton Carlos
O estadista francês Clemenceau esteve na Argentina nos anos 10. Deixou elogios rasgados no livro de visitas. Encantou-se com metrô abaixo da linha do Equador. Hoje, a Argentina afunda num poço de degradação que suga inclusive as parcas lembranças dos anos dourados, quando chegou a ser a quarta economia do mundo. Há fome no país que já foi um dos celeiros do universo. São mais de 15 milhões de pobres, numa população de menos de 40 milhões.
Os ‘‘novos pobres’’ saem de uma classe média antes pujante e segmento social dominante. O voto é secreto na Argentina desde 1912. Num processo de ‘‘hegemonia burguesa’’, na época único na América Latina, eleitores urbanos tiraram a oligarquia do poder por meio do voto. Era a Argentina dos anos 10 e 20, da rebelião universitária de Córdoba, origem de uma nova ‘‘religião’’, a da autonomia das universidades. Depois do crack de 1929, Yrigoyen, o herói da classe média, foi golpeado.
Também crack no estilo de vida argentino, com incursão na ‘‘década infame’’, a dos anos 30. Bochinchos até os ‘‘descamisados’’ se jogarem nos braços do populismo peronista. A classe média perdia peso para os párias da industrialização. Esgotaram-se as reservas conseguidas com as vendas agrícolas na Segunda Guerra, e a economia se enfraqueceu. O peronismo ficou sem caixa que financiasse seu populismo.
A reversão foi brutal. Nada de volta ao império da classe média. Tomaram o poder, como parte de um ciclo de 50 anos de turbulências, militares associados a uma elite rançosa e racista. As ditaduras, os ‘‘estados de segurança nacional’’, não se limitaram a reprimir a ‘‘ameaça comunista’’. Patrocinaram equipes econômicas com manuais padronizados de combate ao ‘‘nacional-populismo’’. Com o golpe de 1976, contra estertores do velho peronismo, pela primeira vez foi montado um projeto antiperonista ‘‘consistente’’.
O ministro da Economia, Martinez de Hoz, era de família oligarca, com profundas raízes no campo conservador. Sua equipe contraiu salários e escancarou a economia. Além de acumular uma dívida externa de 43 bilhões de dólares, ‘‘Joe y sus muchachos’’, segundo o Centro de Pesquisas Sociais, produziram ‘‘fratura na evolução da sociedade argentina’’. Modo acadêmico de falar da ampliação da pobreza. A dívida e essa ampliação encostaram contra a parede o primeiro governo da redemocratização, o de Raul Alfonsin, e desde então só cresceram.
Com alguma relutância, Alfonsin acabou se encaixando nos modelos do FMI e sequer teve fôlego para completar o mandato. Naufragou na hiperinflação e num transbordamento social parecido com o de agora. Saques, violência em manifestações de ruas, angústias populares, muita raiva etc. Menem, o sucessor de Alfonsin, assumiu em 1989 dizendo que ‘‘a dor, a violência, o analfabetismo e a marginalidade golpeiam às portas de nove milhões de argentinos’’, quase um terço da população.
Convocou para o ‘‘nascimento de novos tempos, novas oportunidades, talvez as últimas’’. No primeiro qüinqüênio da ‘‘era Menem’’, a pobreza duplicou na Argentina. No final dos 10 anos, além de muita corrupção, de cada 1.750 pessoas que empobreciam, mil migravam da classe média para baixo, num desmanche que continua. É o fantasma da fome no encalço do Consenso de Washington, do qual Menem foi fiel seguidor.
Nas eleições de outubro de 1999, os argentinos apostaram em mudanças e perderam a aposta. As coisas só pioraram. E agora? Terão peças de reposição política? Se têm, não estão à vista.
Editorial
TÊNUE ESPERANÇA
O Conselho de Segurança da ONU pegou o mundo de surpresa. Aprovou a Resolução 1.397, que cita a existência de uma Palestina ‘‘lado a lado com Israel, com segurança e fronteiras reconhecidas’’. A decisão ganha importância por duas razões. A primeira: foi apresentada pelos Estados Unidos, único país com poder de atuar efetivamente no processo de paz da região. A segunda: é a primeira vez que o Conselho de Segurança refere-se à criação de um Estado palestino.
O recado parece claro. A comunidade internacional não vê outra saída para os torturados assuntos do Oriente Médio senão a criação de um país para os palestinos. A escalada da violência, que escandaliza as consciências civilizadas do planeta há 17 meses, faz vítimas dos dois lados. Só em março, o número de mortos ultrapassa a centena e meia. Um terço, pelo menos, é israelita. Tempos atrás, óbitos judeus eram raros. Agora, crescem dia após dia. Sharon e Arafat perderam o controle da situação.
A medida da ONU coincide co m a visita a Israel de Anthony Zinni, enviado americano à região. Neste momento, a retomada do processo de paz interessa ao governo Bush. O fim dos combates e o avanço nas difíceis negociações entre judeus e palestinos constituem passo importante, senão indispensável, no propósito de Washington de adotar medidas contra o Iraque.
Há indícios de que o ataque a Bagdá se concretize em novembro, mês de eleições parlamentares nos Estados Unidos. Bush precisa da guerra para sustentar a popularidade interna. O apoio de nações árabes é indispensável na concretização da empreitada contra Sadam Hussein.
A resolução também pode contribuir para o sucesso da discussão do plano de paz apresentado pelo príncipe Abdullah, da Arábia Saudita. Riad propôs o reatamento das relações de Telavive com todos os países árabes em troca da retirada israelense dos territórios da Autoridade Palestina. A Liga Árabe se reunirá em Beirute no fim de março para analisar a proposta e esclarecer-lhe os termos.
É ingênuo imaginar que as ações ora esboçadas garantam a paz. Mas permitem acender tênue luz no fim do túnel. A decisão da ONU foi bem recebida tanto por Sharon quanto por Arafat. Os dois governantes têm sofrido desgastes crescentes com a impotência de conseguir algum recuo dos radicais de ambos os lados. A reação da maioria da população dá um recado claro. O povo está cansado de adubar a terra com sangue. Exige uma chance para a paz.
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03/15/2002
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