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"o Carteiro E O Poeta"
(Antônio Skármeta)

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Quem já leu o livro ?O Carteiro e o Poeta? e viu o filme nele baseado, sabe Que há diferenças entre um e outro em função mesma da adaptação. No filme, o poeta Pablo Neruda é exilado na Itália, onde conhece Mário Jiménez. No livro, Neruda vive no Chile mesmo, na Ilha Negra. Obviamente as duas cidades têm as mesmas características: são pequenas, litorâneas, com moradores simples, já que em sua maioria são pescadores, e contando apenas com uma pessoa letrada, que é o carteiro.

Essa diferença nos locais de acomodação do poeta não muda coisa alguma do enredo do livro, pois, se na obra escrita o poeta tem que ir a Paris por ter sido nomeado embaixador pelo presidente eleito, Salvador Allende, no filme ele teve que retornar ao Chile por ter sido convidado para participar da campanha presidencial. São deslocações do tempo que em nada ferem a essência da novela naquilo que envolve a nostalgia pelo distanciamento entre dois amigos e as boas lembranças de sua grande amizade.

Talvez a maior diferença esteja no final, pois no livro morre o poeta de doença pulmonar, e depois, sugere a cena, também Mário Jiménez sob a ditadura recém instaurada pelo general Pinochet: dentro do carro dos soldados que o foram buscar em casa, Mário Jiménez ouve pelo rádio que os militares chilenos haviam começado a seqüestrar a edição de várias revistas subversivas, dentre as quais, La Quinta Rueda. No filme, morre apenas o carteiro.

Todavia, em relação ao livro exclusivamente, há uma questão que surge já partir de sua apresentação, ganhando vulto na parte final do texto: quem está falando nessas duas ocasiões é o autor do livro ou narrador da trama? Quem lê o prólogo e o epílogo de ?O carteiro..? logo se questiona: trata-se da mesma pessoa falando? No início temos convicção de se tratar do autor do livro, Antônio Skármeta, falando sobre as circunstâncias em que o escreveu. No fim, temos a palavra do narrador, uma vez que há a referência ao passado ficcional, ocasião em que ele lembra do poema ?Retrato a lápis de Pablo Neftalu Jiménez Gonzales?, que seria publicado em outubro de 1973 na revista ?subversiva? La Quinta Rueda.

A menos que, sendo uma novela semi-ficcional, realmente tenha existido uma revista com aquele nome e alguém que um dia escreveu um poema com aquele título, fatos a que o autor faz referência no epílogo, para encerrar a melancólica sina poética de Mário Jiménez.

Esse narrador onisciente, que penetra no universo psicológico dos personagens, identificando as mínimas variações em seu estado mental, na disposição de alma de cada um, levando-nos a conhecer as mais íntimas cogitações de Beatriz, de Mário, Dona Rosa e mesmo do poeta Neruda, há de ser confundido com o autor? Ou melhor, até que ponto o autor reproduz em seus personagens sua impressão da realidade, sua leitura de mundo, suas convicções políticas, religiosas, ideológicas e filosóficas?

No prefácio de O carteiro...o autor faz referência a uma Beatriz Gonzales, a qual o teria pedido que lhe contasse a história de Mário Jiménez, não importando a demora ou a invenção de fatos a que o autor viesse a recorrer no processo criativo. Faz ainda referência à novela que chegava às mãos do leitor como um elemento à parte daquele intróito e não sua imediata continuação, visto que, também citando Mário, diz que um dos motivos que o levou a escrever o livro foi a possibilidade de o poeta Neruda prefaciá-lo depois de pronto. Quer dizer, ele se coloca como um autor que está apresentando sua obra ao mesmo tempo em que nos induz a confundi-lo com o narrador da novela, o que não se consuma pela absoluta ausência do autor que fala no prefácio no restante do trama, havendo uma descontinuidade evidente, uma ruptura marcante entre a fala introdutória e a posterior narração.

A questão é que essa confusão aumenta ainda mais no final da novela pelo fato de o narrador, aparentemente, dar continuidade às reminiscências presentes noprólogo: ?Na época eu trabalhava como redator cultural...?, quando, agora no epílogo, diz: ?Anos depois me inteirei pela revista Hoy que um redator literário...?

Nesse momento da novela, o narrador rememora fatos presentes na ficção, não sendo lógico afirmar que a voz do epílogo é a do autor despido daquela condição, na exata medida em que não é lógico afirmar que no prólogo a voz é a do narrador, porque nesse primeiro momento é feita menção a fatos que não estão presentes na ficção -não há nenhum jornalista hospedado na pousada em Ilha Negra querendo entrevistar Neruda, e que tenha, no decurso dos dias ali presente, testemunhado os fatos os quais a seguir começa narrar. Além do que, está dito no prólogo que todos os fatos envolvidos naquela tarefa, ou seja, a entrevista a Neruda, foram o mote do escritor para iniciar sua novela, que, segundo ainda o autor, levou quatorze anos para ser concluída.

Como a prudência e a humildade que me recomenda a condição de estudante com pretensões literárias, e não a de crítico literário (atividade inócua a meu ver), estou propenso a admitir que, salvo melhor juízo, Antônio Skármeta não se preocupou em estabelecer uma distinção nítida e inequívoca entre o autor e o narrador, confundidos que estão no prólogo e no epílogo de ?O carteiro e o poeta?, pelas razões aqui expostas.




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