Apoio com restrições
Apoio com restrições
O PSB formaliza hoje apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República.
Mas, no Rio, a campanha pelo segundo turno presidencial já começa dividida: o candidato derrotado do PSB à Presidência, Anthony Garotinho, promete pedir votos para o petista, mas não admite subir no palanque do PT no estado. A decisão é fruto de feridas abertas durante a campanha de Rosinha Matheus (PSB) ao governo do estado pelo tom das críticas de sua adversária, a governadora Benedita da Silva, derrotada na tentativa de se reeleger.
— O PT jogou muito baixo. Chamaram a Rosinha de cara de pau, de mentirosa. Eu não quero conversa com o PT aqui no Rio. Minha questão é nacional — disse Garotinho.
— A minha dificuldade é subir no palanque do PT do Rio, depois de tantos arranhões. Vamos fazer um palanque paralelo do PSB para o apoio ao Lula. Vai ficar mais saudável — completou a governadora eleita Rosinha Matheus.
PT diz que pretende dividir governo
O porta-voz da campanha de Lula, André Singer, disse ontem que PPS, PSB e PDT deverão integrar o governo ao lado do PCdoB, do PL e do PT, caso o candidato petista seja eleito.
— Existe diferença entre aliança e apoio. Esses partidos (PPS, PSB e PDT) entrarão na aliança. E aliança é para ganhar a eleição e para governar — disse Singer.
De acordo com um alto dirigente petista, o partido tem deixado claro nas negociações com as legendas que apoiaram Ciro Gomes (PPS e PDT) e Garotinho que deverá entregar cargos no futuro governo. Segundo ele, Ciro, Garotinho e a direção do PDT, no entanto, não pediram cargos em troca do apoio a Lula. O partido só não abriria mão da área econômica, considerada fundamental para a implementação do projeto de governo petista.
Na reunião de hoje em Brasília, o PSB vai listar os cinco pontos de seu discurso que quer acrescentar ao programa de governo do PT. Em encontro ontem no Rio, Garotinho e o presidente nacional do PSB, Miguel Arraes, frisaram que os pontos não representam condições para o apoio. Mas o ex-governador do Rio ressaltou que, caso não sejam incluídos no programa de governo de Lula, serão pretexto para o PSB migrar para a oposição, caso o petista seja eleito.
— Nós vamos estabelecer a forma de apoio, porque existem diferenças programáticas que têm que ser discutidas e ajustadas. São questões gerais e necessárias para fazer campanha — disse Arraes.
PSB quer discurso duro contra a Alca
O PSB quer que o PT endureça o discurso em relação à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e à política externa brasileira. O partido de Arraes pede ainda que Lula mostre mais clareza em seu discurso sobre a instalação da base de Alcântara, no Maranhão. Outro ponto que estará no documento é o pedido para que Lula se comprometa a aumentar os recursos para as Forças Armadas e assuma como do partido a promessa de aumentar o salário-mínimo para R$ 280. O PT, porém, já disse que não se comprometerá com números.
— Estas não são condicionantes (ao apoio). São reafirmações partidárias e programáticas. Queremos reafirmar nossa identidade. São cinco questões das quais o PSB não abre mão — afirmou Garotinho.
O papel de Garotinho na campanha de Lula deverá, segundo o ex-governador, se restringir ao Rio. O PSB vai organizar comícios e caminhadas com o petista no estado. Mas a transferência de votos, na avaliação do ex-governador, não será imediata. Também não há garantias de que o voto dos evangélicos, que foram atraídos por Garotinho no primeiro turno, sejam transferidos para Lula.
— Os evangélicos não são um partido político. Cada um vai tomar sua decisão — disse Garotinho.
Os pontos que o PSB quer negociar foram apresentados ontem à tarde por Arraes a José Dirceu, presidente nacional do PT. Os dois disseram que não foi discutida distribuição de cargos.
Perguntado se o PT aceitou a proposta de fixar o mínimo em R$ 280, Dirceu foi enfático:
— Não. O que discutimos foi a proposta de recuperação do mínimo. Saio daqui com a discussão bem encaminhada.
Arraes cobrou apoio de ex-governador
Na conversa de Arraes com Garotinho, segundo parlamentares do PSB, o presidente do partido lembrou ao ex-governador que ele dera sustentação política à sua candidatura à Presidência quando havia resistências. Arraes acrescentou que agora era a hora de Garotinho retribuir e aceitar a decisão do PSB de apoiar Lula.
O candidato derrotado do PSB afirmou que nunca houve possibilidade de ficar neutro no segundo turno das eleições. Ele afirmou que o que fez ficar indeciso foi a certeza de que não queria se misturar ao PT do Rio.
Dirceu, por sua vez, disse que a acirrada disputa entre a governadora eleita Rosinha Matheus e a atual governadora Benedita da Silva, no primeiro turno da eleição para o governo do Estado, está superada e não será empecilho para uma participação de Garotinho na campanha de Lula.
— A governadora Rosinha foi eleita legitimamente. Não temos ressentimento nenhum. Não trabalhamos com mágoas. Fazemos política em torno de pontos programáticos — disse Dirceu.
O PDT de Leonel Brizola, cujo apoio ao petista foi anunciado anteontem, já acerta com o PT questões de agenda e estrutura. O PT ofereceu salas para os novos aliados, que participarão das reuniões semanais do Conselho Político e terão voz ativa na condução da campanha. Em reunião de petistas com dirigentes pedetistas ontem, ficou acertado que o PDT cederá a Lula seus 78 comitês no Rio e toda a infra-estrutura nacional do partido.
— Não fizemos nenhuma exigência porque isso seria oportunismo e não pragmatismo — disse o vice-presidente nacional do PDT, Carlos Roberto Lupi, que ontem se reuniu com petistas em São Paulo.
Governo começa a liberar R$ 1,5 bi para gastos do Orçamento deste ano
BRASÍLIA. Uma das maiores reivindicações de aliados do tucano José Serra na reta final da campanha para o primeiro turno começou a ser atendida ontem pelo governo, que autorizou o início da liberação de mais R$ 1,5 bilhão para os gastos previstos no Orçamento da União deste ano. Outros R$ 500 milhões poderão ser contratados pelos ministérios a serem pagos posteriormente. Pelo cronograma da Lei de Responsabilidade Fiscal, essas liberações só deveriam ser feitas a partir de novembro, mas o governo alega que a maior arrecadação da história, de mais de R$ 22 bilhões em setembro, permitiu a antecipação para outubro.
Segundo o secretário do Tesouro, Eduardo Guardia, as receitas extraordinárias do mês, de R$ 2,8 bilhões, obtidas com o pagamento de dívidas atrasadas de contribuintes à Receita, permitem a liberação sem comprometer a meta de superávit primário de 3,88% do Produto Interno Bruto para 2002.
O ministro do Planejamento, Guilherme Dias, disse que a medida não teve motivações políticas.
— Quando foi necessário cortar, já em pleno processo eleitoral em função da frustração com as receitas da CPMF, nós cortamos. Havia obras paralisadas e não tem por que não retomá-las. Os ministérios estavam com dificuldades de manter a sua máquina. Os programas estratégicos do governo haviam sido os mais punidos com os cortes dos últimos meses — disse Dias.
Do R$ 1,57 bilhão, R$ 960 milhões já têm destino certo. O restante ainda não foi alocado. Os mais beneficiados serão os projetos estratégicos do governo (R$ 479,6 milhões adicionais). Entre ele estão programas de manutenção e construção de rodovias; projetos incluídos no Avança Brasil de recursos hídricos, no Nordeste; plano de segurança, sobretudo no Sudeste, e obras de infra-estrutura. A pasta dos Transportes terá o maior volume de recursos (R$ 110 milhões); o Ministério da Defesa, R$ 70,1 milhões; o da Integração Nacional, R$ 68 milhões adicionais; e o das Relações Exteriores, R$ 58,8 milhões.
Evangélicos ligados a Garotinho resistem a Lula
Líderes das principais igrejas evangélicas decidem até amanhã como vão orientar o rebanho estimado em 16 milhões de fiéis e nove mil pastores. A avaliação é que os votos, dados em sua maioria ao candidato do PSB, Anthony Garotinho, não migrarão com tanta naturalidade para o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, e que a declaração de apoio do ex-governador se restringiu a um ato partidário.
— É uma decisão do PSB e pessoal, já que os líderes evangélicos ainda não foram consultados — disse o pastor Manoel Ferreira, da Assembléia de Deus e candidato derrotado ao Senado pelo PPB. O presidente regional do PPB, Francisco Dornelles, apóia o tucano José Serra.
Escolha no primeiro turno foi por afinidade religiosa
Os evangélicos do Rio dizem que, no primeiro turno, houve uma escolha pela afinidade religiosa e que será complicado transferir esses votos baseado numa orientação política. Mas caso Garotinho se mostre aliado do petista, será suficiente para exorcizar o preconceito em relação ao partido.
— Se Garotinho grava um programa eleitoral ao lado de Lula, isso já tranqüiliza os evangélicos. Ele é um líder político e trouxe muitos votos para os evangélicos, como Manoel Ferreira e Crivella. Louvo a idéia de ele apoiar Lula — afirmou o presidente regional do PL, Bispo Rodrigues, da Igreja Universal do Reino de Deus e reeleito deputado federal.
Amanhã, Garotinho almoçará, numa churrascaria do Rio, com os líderes evangélicos que apoiaram sua candidatura e, dependendo do empenho dele nessa reunião, alguns novos pastores podem se somar à corrente religiosa de Lula. O pastor Nilson Fanini, presidente da Convenção Batista Brasileira, é um dos que estão esperando essa conversa.
— No primeiro turno, votamos no irmão Garotinho. No segundo, vamos considerar as propostas dos candidatos. Teremos uma reunião sexta-feira e, se for preciso, faremos outros encontros — disse.
A Assembléia de Deus reunirá seu conselho político amanhã em Brasília. Segundo Ferreira, o PT ainda encontra resistências dentro da igreja pelas propostas liberais, que vão desde o passado socialista até a defesa da união entre homossexuais.
— O problema não está no Lula, mas nas posições do partido, conflitantes com as dos evangélicos. A foice e o martelo ainda amedrontam muito. Mas temos que admitir que o PT amadureceu e tem coisas extraordinárias — disse.
Depois de ter comparado Lula ao demônio no jornal “Folha Universal”, na eleição de 1998, o Bispo Rodrigues afirmou ontem:
— Fabricamos o veneno. Por isso, sabemos qual é o antídoto.
A tensão que dói no bolso
O aumento na cotação do dólar, que ontem fechou a R$ 3,87, está pesando cada vez mais no bolso do consumidor. Os supermercados já estão recebendo das indústrias novas tabelas de preços, com reajustes que serão repassados até novembro. Entre os produtos estão as cervejas, com aumentos entre 5% e 20%; as massas alimentícias, que estão subindo 10%; e os artigos de limpeza e higiene, com reajustes de 5% a 15%.
— Estamos negociando muito para reduzir os índices, porque há um pouco de especulação nas tabelas — disse Nelson Sendas, vice-presidente da Sendas, com 78 filiais.
Além disso, o custo da cesta básica no Rio subiu 3,65% na primeira semana deste mês, em comparação com o mesmo período de setembro. Foi a maior alta desde 1999.
Os alimentos já foram os principais responsáveis pela alta da inflação em setembro, mostra o IBGE. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado ontem, ficou em 0,72% no mês, dos quais 60% em conseqüência das altas nos alimentos. O grupo alimentação e bebidas teve reajuste de 1,96%. Com isso, o IPCA de setembro ficou bem acima da expectativa do mercado, que era de 0,60%. Como o dólar não dá sinal de trégua, as projeções agora são que a inflação continue pressionada até o fim do ano.
— O câmbio está se cristalizando em patamares mais elevados — explica Luiz Roberto Cunha, diretor do Instituto Fecomércio-RJ.
Marcas líderes são deixadas de lado
Este ano, o dólar já subiu 67% frente ao real. Apesar da resistência do varejo a repassar as tabelas da indústria, pesquisa da Associação dos Supermercados do Rio (Asserj) mostra que o consumidor já vem pagando caro com a disparada do dólar. Nas últimas quatro semanas, o óleo de soja subiu 21,6%; a margarina, 15%; o frango, 8,6%; o arroz, 8,2%; e o leite em pó, 5,8%.
— Os preços só devem baixar se o dólar se acalmar. E isto deve ocorrer após as eleições — acredita Aylton Fornari, presidente da Asserj.
Na inflação medida pelo IBGE, o óleo de soja já subiu 37,09% de janeiro a setembro e a farinha de trigo, 29,58%. São produtos diretamente afetados pelo câmbio, pois são cotados no mercado internacional.
Entretanto, na divulgação do IPCA de setembro, o que preocupou mais foi a constatação de que os efeitos do dólar já se disseminaram por vários produtos. A gerente do Sistema de Índice de Preços do IBGE, Eulina Nunes, explica que, nos meses anteriores, o impacto do câmbio era concentrado em alguns preços.
— Mas, em setembro, a abrangência foi maior e vários produtos foram contaminados, devido ao aumento de custos, como embalagens e insumos — diz Eulina.
Assustadas com os aumentos, as donas de casa estão esquecendo as marcas líderes e procurando as de promoção. É o caso de Leda Borges, que, depois de uma boa pesquisa, levou o macarrão Cadore em promoção por R$ 1,25.
— Estamos voltando à época da inflação. Para economizar, só correndo atrás de ofertas.
O presidente da Associação Paulista de Supermercados, Sussumu Honda, concorda que o dólar forçou uma migração do consumidor das marcas líderes para mais baratas:
— O consumidor não deixa de comprar macarrão ou biscoitos porque este já é um hábito arraigado. Mas ele passou a fazer a opção pela marca de menor preço — disse.
Maioria das categorias conseguiu repor inflação no primeiro semestre
SÃO PAULO. Mais da metade (59%) das categorias profissionais que negociaram seus salários no primeiro semestre deste ano conquistaram pelo menos a reposição das perdas da inflação de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo IBGE. Em quase todos os casos, no entanto, o aumento não passou de 2% acima da inflação. Além disso, o percentual de categorias que conseguiu recuperar pelo menos a inflação perdida é menor do que o registrado no primeiro semestre de 2001, ou seja, 68%.
O resultado foi divulgado ontem pelo Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas (Dieese), em São Paulo. Os dados são relativos a 248 categorias profissionais em quase todos os estados. O INPC acumulado em 12 meses terminado em junho foi de 9,03%. Dos 32,26% que receberam reajuste acima da inflação, 28% tiveram aumento de até 2% no salário. Um aumento superior a 5% foi registrado em apenas duas categorias, o que representa 0,81% do total.
— A alta taxa de desemprego e a inflação em patamar elevado não possibilitam boas negociações para os trabalhadores — afirmou o coordenador de atendimento do Dieese, Wilson Amorim. — As perspectivas não são boas para as negociações salariais e o segundo semestre é uma incógnita. Deverá ser um período de muita dificuldade, já que a produção está sendo paralisada na indústria e a atividade econômica parece não crescer.
Artigos
Vamos com calma
Fabiano Santos
Depois de cada pleito, invariavelmente, analistas, políticos, cidadãos em geral são quase unânimes em afirmar que mudanças no sistema eleitoral são necessárias e até mesmo inevitáveis. Agora, por exemplo, diz-se que a reforma política é necessária porque o sistema eleitoral utilizado no país está se extinguindo em outras regiões do mundo. De fato, nosso sistema proporcional com listas abertas é um sistema raro; mas é preciso saber que todo e qualquer sistema eleitoral é raro, no sentido de que não existem dois países que possuem exatamente o mesmo conjunto de regras.
As listas abertas têm contribuído muito para a democracia em nosso país. A quantidade de jovens líderes políticos que, a cada nova eleição, emergem por fora dos quadros que dominam a burocracia dos grandes partidos é a garantia de que o Brasil não acabará como a Argentina ou a Venezuela, países que praticam a lista fechada. O fechamento da lista engessa o processo de renovação política, porque tudo se torna um jogo de bastidores e combinação entre líderes. Contudo, a energia gasta com o embate interno cega os políticos para aquilo que é vital em uma democracia: a voz das ruas, do homem comum, de suas necessidades e carências.
Um segundo argumento pró-reforma deriva do aparente absurdo, ocorrido em São Paulo, de candidatos com uma quantidade mínima de votos se elegendo na “carona” da espetacular votação do candidato Enéas. Em primeiro lugar, é preciso aceitar que um milhão e meio de paulistas decidiram votar em Enéas para deputado federal. Se adotarmos a lista fechada, o problema continuará a existir, ou seja, razoável parcela do eleitorado desse estado não deixará de se identificar com as propostas radicais de direita do Prona. Por outro lado, seis deputados de orientação radical pouca coisa poderão fazer em uma Câmara com 513 deputados.
Por fim, nada mais antidemocrático do que promover reformas institucionais para evitar determinados resultados porque estes não correspondem às nossas preferências. Por óbvio, é possível aperfeiçoar nosso sistema. O problema é a pedagogia política por detrás do ataque às nossas instituições. As coisas são ditas sem conhecimento de causa, com açodamento e, o que talvez seja pior, sem a adequada avaliação dos bons frutos que esse complexo e rico sistema político tem trazido para o povo de nosso país.
Colunistas
PANORAMA POLÍTICO – Tereza Cruvinel
Adeus, trator
Seja Lula ou Serra, o futuro presidente não poderá ligar o trator da maioria e passá-lo sobre a oposição para aprovar projetos. E com a centro-esquerda ocupando quase metade da Câmara, o balcão de negócios não deve funcionar, a não ser que esses parlamentares se revelem idênticos aos outros. O PT tirou das urnas o direito de indicar o novo presidente da Câmara, que a princípio seria José Dirceu.
Se Lula for presidente, será ponto pacífico, a não ser que ele resolva abdicar desse cargo em alguma negociação. Se Serra for o presidente, terá um adversário presidindo a Câmara. A menos que seus aliados do PFL e do PMDB façam alguma manobra, como a formação de um bloco. Teríamos a primeira crise parlamentar do novo governo.
Ninguém no PT está lançando Dirceu para a presidência da Câmara, muito pelo contrário, mas é uma dedução natural. Num governo Lula, seria o grande negociador político, nessa ou em outra posição, função que já exerce no PT e na coligação. E se o PT, apesar de ter recebido a maioria dos votos para o Congresso, terminar na oposição, aí é que não abdicará de comandar a Casa onde terá maioria.
Dirceu teve mais de 500 mil votos para deputado federal em São Paulo, perdendo apenas para o fenomenal Enéas. É o quadro político de maior projeção do PT e é a ele, principalmente, que Lula e o partido devem a construção da aliança que garantiu o lugar de vice ao senador-empresário José Alencar. É Dirceu o interlocutor dos novos aliados, que, além da oposição, incluem novos atores do PMDB e mesmo do PFL, como o vice-governador eleito de Minas, Clésio Andrade. Seu nome é o mais natural para presidir a nova Câmara.
Caso o eleito seja Serra, será um desconforto não ter um aliado presidindo a Câmara. Fernando Henrique, ao longo de seus oito anos, tratou com o maior zelo essa distribuição de poderes, garantindo a harmonia na base aliada. Quando ACM vetou Jader Barbalho para a presidência do Senado e o PSDB garantiu a eleição de Aécio Neves para a da Câmara com o apoio do PMDB, teve início a crise da aliança que agora se recompõe em torno de Serra. Mas, no caso presente, só uma rasteira pode tirar o posto do PT. E uma manobra no início do mandato seria um péssimo começo.Mais do que a votação de Lula, a eleição da maior bancada da Câmara pelo PT empurrou o PFL para os braços de Serra. Foi também isso o que mais impressionou FH.Correndo para Minas
Os votos de Minas Gerais, segundo colégio eleitoral, foram os mais disputados no primeiro turno. Continuam sendo. Lula estará hoje em Belo Horizonte, onde se reúne com deputados eleitos de sua coligação, prefeitos e apoiadores de outros partidos. Depois, encontra o governador Itamar Franco, mais disposto do que antes a arregaçar as mangas para eleger Lula.
Dos 12,6 milhões de eleitores mineiros, 10,5 milhões foram às urnas. Lula obteve 4,9 milhões (53,01%) e Serra, 2,1 milhões (22,86%). O candidato tucano, que corre atrás de 22 milhões de eleitores para ganhar no segundo turno, tentará reduzir a vantagem do petista em Minas com a ajuda do governador eleito Aécio Neves.
Apesar dos apoios recebidos do PFL e do PPB, a campanha de Serra entende que o mecanismo de transferência de votos é incontrolável e, por isso mesmo, continua apostando no programa de televisão e nos debates. Serra queria fazer cinco, Lula aceita apenas um, alegando o tempo curto da campanha. Sabe que Serra tentará pegá-lo em tecnicalidades, perguntando, por exemplo, a quantas alíquotas pretende reduzir o ICMS numa reforma tributária.
Feitiço contra o feiticeiro. Serra foi um dos defensores do encurtamento do intervalo entre o primeiro e o segundo turnos na campanha de 1998. Para evitar marola na reeleição que acabou ocorrendo em primeiro turno mesmo.Males do segundo turno
Alguns tucanos torceram o nariz ontem para as observações de Aécio Neves sobre a inconveniência de um segundo turno sangrento e a necessidade de se preservar um padrão de campanha que não prejudique a governabilidade. Aécio acrescenta que o sistema de dois turnos, se tem a vantagem de produzir um governante com maior legitimidade, por outro lado leva a uma campanha que realça mais os defeitos do que as qualidades dos contendores. Um dos quais será presidente, chegando ao cargo enfraquecido por esse embate.APESAR da votação de Enéas, o deputado federal proporcionalmente mais votado do Brasil foi José Roberto Arruda (PFL), que obteve 26% dos votos do Distrito Federal (Enéas teve 8%). A segunda é Vanessa Grazziotin, do PCdoB, que ficou com 17% dos votos do Amazonas.
O PRESIDENTE do PFL, Jorge Bornhausen, que agora apóia Serra, trabalha para conseguir o apoio do PFL cearense ao tucano Lúcio Alcântara. Ainda que o faça mais por Tasso Jereissati do que por Serra. No primeiro turno, o PFL-CE apoiou para governador o candidato do PMDB, Sérgio Machado.
Editorial
EFEITO ENÉAS
Nada contra o milhão e meio de eleitores do candidato a deputado federal por São Paulo Enéas Carneiro, do Prona. Cada um desses cidadãos exerceu o direito constitucional de se expressar pelo voto. Tampouco nada a opor a este ou àquele candidato, por ser ou não exótico.
O problema surge quando se constata que parte desses votos de Enéas Carneiro foi transferida para outros candidatos da legenda e garantiu assento, na Câmara de Deputados, a quem teve menos vot os do que alguns síndicos de condomínio ou diretores de clubes sociais.
A percepção de que há algo errado no sistema eleitoral se torna mais intensa diante da outra face desta aberração: enquanto três dos novos deputados federais do Prona paulista estão incluídos entre os vencedores das eleições de 2002 com menos de mil votos cada um — um dos eleitos teve o ralo apoio de 274 correligionários — candidatos de outras legendas encontram-se na lista dos derrotados, mesmo com milhares de votos conquistados.
Diante do efeito Enéas, não há mais dúvida de que uma das importantes missões da próxima legislatura é acelerar a reforma política. Está em jogo a qualidade da representação da sociedade no poder legislativo.
Pelo menos, já vigorará, em 2006, a chamada cláusula de barreira, pela qual só terão presença no Congresso legendas com, no mínimo, 5% dos votos nacionais e 2% em nove estados. A medida acabará com a excessiva pulverização de partidos.
Já o problema do sistema eleitoral terá de ser resolvido depois de intensas discussões sobre os diversos tipos de voto distrital.
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10/10/2002
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