Artigo: Paz na terra
Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.
(Carlos Drummond de Andrade)
Ainda sob o impacto imediato dos acontecimentos de 11 de setembro em Nova York e Washington, realizou-se uma pesquisa da rede The Washington Post/ABC News, sobre a opinião dos norte-americanos acerca dos atentados. O resultado não foi outro senão o esperado: 91% da população dizia confiar na capacidade dos EUA de achar e punir os responsáveis pelos ataques, 94% apoiaria uma ação militar contra os grupos ou nações identificados como responsáveis, 92% apoiaria uma ação militar, mesmo que ela levasse a uma guerra. É o espírito de vingança que impera no primeiro momento, mas seria necessário que a reflexão tivesse nos encaminhado para o diálogo e não à retaliação militar. No entanto, a guerra está na ordem do dia e sua área de conflito é muito maior do que o Afeganistão.
Sem dúvida, todo ato terrorista merece nossa indignação. Contudo, não podemos ceder a uma perigosa generalização que faz de todo árabe e muçulmano um terrorista. Estão muito claros os interesses “patrióticos”, xenófobos e da indústria armamentista na expansão e durabilidade da chamada guerra contra o terror. Sendo que, nesta hora, parece pouco interessar a multiplicação das vítimas, sejam crianças, mulheres, idosos, todos vivendo no país mais pobre do mundo. Não há uma só edição jornalística que deixe de registrar que alvos civis, população desarmada, doente e faminta, tenha sido atingida nas cidades afegãs.
É impossível não sentir-se atingido pela ação militar norte-americana, que pelo mundo afora provoca apelos diários à Paz, pois essa guerra agrava ainda mais a tensão que já existia na Palestina, no Golfo Pérsico e em diversos territórios espalhados pela América do Sul, África e Ásia, continentes com povos extremamente empobrecidos pela política econômica ditada pelas potências que formam o G-7.
Trata-se, portanto, de uma guerra sustentada pelo estado norte-americano, que procurava com urgência um alvo distante, externo, que não encontrava desde a guerra contra o Iraque. Buscava, portanto, uma fisionomia para o inimigo, que há pouco era a dos comunistas ou dos japoneses; e que, na ficção, ganhou também a face monstruosa de um alienígena. Como esquecer os filmes norte-americanos onde, invariavelmente, o alienígena se instala no interior daquele que se propõe a combatê-lo? Talvez, possamos ver nessas cenas uma metáfora da impossibilidade de se combater o terrorismo promovendo o terror de estado, fazendo a guerra.
Somente com a justiça social e o fim da miséria e do preconceito, a Terra viverá em paz. Então, deixará de ser um lugar do qual é preciso libertar-se através da morte, ou onde os estrangeiros, os diferentes em cultura e comportamento, são demonizados e até destruídos. Lembremos novamente, Drummond, que diz: “Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis. / A terra é mais colorida do que redonda”.
/17:18/
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