ARTIGO/Quem embarga a Alca?



Anti-Davos em Porto Alegre, a vaca louca européia e o clube fechado da América do Norte. O ano começa com repercussões mundiais cujos protagonistas somos nós, cidadãos de um país ainda com empenho social subdesenvolvido, embora mais ousado. E vamos admitir: nos atrevemos a fazer um fórum social mundial para discutirmos o incômodo impacto crescente da globalização sobre nossas vidas. A Porto Alegre brasileira foi de satélite para o mundo e com ela o eco de que nem tudo que é bom para um, serve ao outro. Por exemplo: o que é bom para os Estados Unidos, Canadá e México pode não ser apropriado aqui. A vaca entrou de forma louca nessa guerra silenciosa, e nos descobrimos no front. Imaginem a transformação do mapa-múndi em megapaíses chamados União Européia, Alca, Sudeste Asiático, cumprindo o desejo de multinacionais que passam ao largo de projetos sociais nas terras onde se instalam. Na teleconferência entre o Fórum de Porto Alegre e o de Davos, um falante no mundo suiço disse não entender a relação entre criança faminta e a lucratividade das empresas transnacionais. Os governos que aplicam políticas neoliberais anseiam privatizar a sua água, como se desconhecessem os estudos sobre as reservas que minguam no planeta, ano após ano. E o Brasil tem muita água doce. Onde não se morre de sede, se padece de doenças da pobreza. A Nafta, esse grupo norte-americano para o livre comércio, mataria a sede de comandante de um megapaís chamado Alca? Um novo bloco econômico que engoliria o Mercosul, e poria fim a surtos de indecisões tais como a do Chile? Não é fácil assim. O veto à carne brasileira gerou reclamações até daqueles que desconheciam ou desprezavam o ato de protestar. E com eles toda uma população pôs-se em alerta, porque da carne dependem empregos e o lucro local. O que se viu nos últimos dias foi um governo despindo-se da formalidade com que trata assuntos internos, vociferando declarações de cunho nacionalista, e até puxando as orelhas de transnacionais canadenses que atuam em solo brasileiro, premiadas com a política de desestatização. Quem desdenhou do fórum anti-davos, rotulando de malucos aqueles que acham perigoso o modelo vigente de globalização, estremeceram com a petulância da Nafta, e sentiram-se mais seguros com o apoio dos anti-liberais. Quando estive em Brasília, esta semana, acompanhando os protestos de vários setores contra o embargo à carne bovina, senti o choque de convicções. De um lado, um país que agora galga a difícil escalada do comércio exterior vendendo não só itens agrícolas mas também tecnologia. De outro, uma américa nortista habituada a meio século de comando mundial, e que deseja modelar a Alca em um comércio continental com chefia já garantida. O confronto com Canadá serviu para realizarmos, na prática, o que teorizamos no evento de Porto Alegre: um fórum brasileiro contra a globalização. Quando nos defendemos com a devida seriedade de quem já não pode ser puxado pela mão, compreendemos a grandeza do Brasil, se despido da mentalidade arcaica do capital para poucos e a miséria para muitos. Fato de um país com 55 milhões de pessoas na penúria e cuja fábrica de aviões vendeu ao exterior 2,7 bilhões de dólares só no ano passado. Então, a pergunta: o Brasil irá à Conferência das Américas, em abril próximo, no Canadá, onde chefes de Estado discutirão a Alca? *José Gomes é deputado estadual pelo PT

02/09/2001


Artigos Relacionados


ARTIGO/O pastel da Alca

Povo é quem deve decidir sobre o ingresso do Brasil na ALCA, diz Saturnino

Superintendência do Trabalho embarga obra em Santa Maria (RS)

Ibama embarga carvão ilegal utilizado em siderúrgicas do Pará

Ibama embarga área de 700 hectares de desmatamento ilegal em Mato Grosso

Ibama embarga carvoarias e depósitos de carvão vegetal por falta de licença ambietal