Ciro pede 'isenção' dos EUA nas eleições
Ciro pede 'isenção' dos EUA nas eleições
Em reunião com Hrinak, ele defende distanciamento de americanos e afirma que oposição pode vencer
BRASILIA - O candidato à Presidência da República pelo PPS, Ciro Gomes, pediu ontem, em encontro com a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, que o governo americano assuma uma postura "isenta e distante" com relação às eleições brasileiras e defendeu o socorro financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do governo norte-americano à Argentina.
A frase sobre as eleições foi manifestada por Ciro quando a embaixadora quis saber qual deveria ser a melhor postura daquele país em relação à campanha eleitoral em curso no Brasil. "Não quero ser indelicado, mas gostaria que fosse de isenção e distância". Além de ouvir suas propostas, Donna Hrinak questionou o candidato a respeito das reais chances de a oposição assumir o poder no Brasil. Ciro respondeu afirmativamente com o argumento de que nenhum candidato à Presidência está propondo "aventuras". "Há uma sadia convergência de centro-esquerda", garantiu.
Antes de reunir-se com Ciro, Donna Hrinak já havia conversado com os presidenciáveis José Serra (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para conhecer suas idéias. No encontro com Ciro, ela fez poucas intervenções, mantendo-se mais na condição de ouvinte, mas quis conhecer detalhes das propostas de Ciro para a economia, opiniões sobre a Área de Livre Comércio (Alca), situação da economia argentina, direitos humanos, segurança pública e narcotráfico.
Argentina - Mesmo sendo crítico ferrenho da gestão do presidente Fernando Henrique, Ciro fez questão de mostrar, na maioria das vezes, convergência com a política internacional do País. A ajuda dos Estados Unidos, argumentou, tem de ser aprovada "fora do manual" de Wall Street. "Não dá para exigir mais arrocho da Argentina. E os Estados Unidos têm maior obrigação que outros países de fazer mais para ajudar", afirmou.
Com relação à Alca, o candidato defendeu uma posição diferente da de FHC.
Ele reivindicou o adiamento do encontro de 15 de janeiro de 2003 para discutir os rumos da Alca, alegando que seria um equívoco o novo presidente debater afobadamente um assunto de tamanha importância quinze dias após sua posse. A previsão de Ciro é que, nos primeiros meses de mandato, o futuro presidente estará empenhado em administrar uma crise financeira.
No encontro, defendeu ainda a redução das taxas de juros e informou ter evitado manifestar seu pessimismo em relação à economia brasileira. "Eu digo que os fundamentos da economia estão frágeis apenas em conversas com os brasileiros".
Ele criticou ainda a intervenção dos EUA no golpe da Venezuela e disse ser contrário a uma intervenção militar estrangeira na Colômbia para combater o narcotráfico.
Serra acusa oposição de criar 'clima de catástrofe'
Candidato do PSDB avalia que propostas de reestruturar a dívida são 'eufemismo para calote'
BRASÍLIA - O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, acusou seus adversários de contribuír para aumentar o nervosismo do mercado, que resultou em mais um rebaixamento do Brasil pelas agências de avaliação de risco. Mesmo com a ressalva de que a mais recente "perturbação" foi provocada por incertezas da economia dos Estados Unidos, e de que os fundamentos da economia estão bem, Serra disse que foi a oposição que criou um clima de catástrofe no Brasil.
"Combinam ignorância com catastrofismo", criticou. Ele disse que o discurso de seus adversários a favor de reestruturar a dívida "não passa de eufemismo para o calote".
Ao mesmo tempo que ataca rivais e apresenta sua coligação como "a mais preparada para manter a estabilidade", seus estrategistas de campanha responsabilizam o Banco Central por parcela do "tumulto" que agitou o mercado. Colaboradores de Serra contam que, embora tenha convidado o presidente do BC, Armínio Fraga, a ficar no posto em caso de vitória, ele faz reparos à sua atuação.
Referem-se a duas recentes decisões do BC que contrariaram expectativas do mercado: a manutenção da taxa de juros quando o viés era de baixa e todos contavam com redução e a mudança do critério de contabilidade dos títulos dos fundos de investimento pelo valor de mercado e não de face. O BC antecipou a chamada marcação ao mercado, prevista para setembro.
"Péssima idéia", na avaliação da cúpula da campanha.
Coordenador da assessoria técnica da campanha, o economista e prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas, reconhece que até entre serristas há controvérsias sobre o BC. "Mas eu queria que o otimismo do mercado fosse chancelado, mesmo porque toda vez que o governo não chancela, ele provoca mais prejuízo do que lucro", observa.
"Subestimaram o nervosismo do mercado", diz outro integrante da campanha.
Para ele, se nem quem opera a política monetária tem confiança para baixar os juros, é porque o cenário é mesmo de risco. Lucas salienta que a eleição já traz um componente de incerteza e o caso brasileiro é mais complicado.
"Ainda não temos um mercado saudável. Tanto é assim que se opera com altas taxas de juros para compensar riscos."
Ele acha os candidatos "bem comportados", já que nenhum fala hoje em calote ou romper com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas nem por isso discorda da tese de que a oposição contribui com a turbulência. "O ambiente de insegurança é grande porque, historicamente, as oposições sempre fizeram um discurso demagógico e sem consistência, propondo plebiscito do pagamento da dívida externa e o aumento das exportações só depois de matar a fome do povo", argumenta, referindo-se a duas propostas que já foram defendidas pelo PT.
Lula quer estatais sob comando de funcionários
Proposta é que empresas e bancos oficiais sejam dirigidos por servidor de carreira eleito por colegas
SALVADOR - O candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que empresas e bancos controlados pelo governo (como a Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica) devem ser dirigidos por funcionários de carreira, escolhidos pelos próprios colegas de trabalho.
"Isso para não se cometer o erro de pôr um intruso para ser presidente de uma empresa que ele nem conhece", justificou, em entrevista ao programa Jornal da Bahia no Ar, da Rádio Metrópole FM de Salvador. "Então, é melhor você passar a responsabilidade para aqueles que trabalham lá há 30, 40 anos e até estimular as pessoas numa perspectiva de crescimento dentro da empresa."
Para demonstrar como a atuação desses "intrusos" pode ser ruim, Lula citou uma experiência negativa que teve na época que o Banco do Brasil era presidido por Lafayete Coutinho (governo de Fernando Collor de Mello). Ele contou que o PT entrou com um pedido para obter um cartão de crédito personalizado. "Ficamos dois anos esperando resposta e, num belo dia, recebo o aviso de que não poderiam fornecer o cartão por questão política."
Para Lula, Coutinho não deveria pensar politicamente num caso desses e sim economicamente.
"Depois da negativa dele, procurei o Bradesco e em uma semana conseguimos o cartão e um crédito de R$ 400 mil", disse, reforçando sua preferência por "gente da própria corporação", para que as coisas funcionem. "O político é o ministro daquela área e não o seu dirigente."
Vários ouvintes telefonaram para o programa se queixando da falta de empregos e da inexistência de apoio às microempresas. Lula concordou que é necessária uma mudança de política dos órgãos financiadores do governo.
Contou que recentemente conheceu dois projetos de agricultura familiar em municípios do interior do Nordeste ond e, com pequenos financiamentos, lavradores conseguiam gerar um emprego com menos de R$ 5 mil. "A fábrica da Monsanto na Bahia recebeu R$ 770 milhões de financiamento, R$ 250 milhões a fundo perdido, para gerar apenas 300 empregos", disse. "Se esses recursos fossem empregados em projetos de agricultura familiar, seriam gerados pelo menos 157 mil empregos", comparou, declarado que se for eleito implantará uma política emergencial de geração de empregos que envolva a União, governos estaduais, prefeituras e empresas privadas. "Se não fizermos isso não conseguiremos arrumar o País."
Ataques - Ele voltou a responsabilizar Fernando Henrique Cardoso pela crise econômica, aproveitando uma pergunta do ouvinte Luís Medina, que lembrou recente declaração do presidente segundo a qual haverá uma "cultura argentina no Brasil", caso não consiga fazer o sucessor.
"Alertei que o presidente não deveria brincar com coisa séria, que é crise econômica, e a bomba estourou no colo do governo", disse. "Eles (os tucanos) estão tentando jogar nas costas da oposição as suas próprias fragilidades, ou seja, estão tentando fazer do fracasso o sucesso do mandato de Fernando Henrique Cardoso."
PT acusa Serra de propaganda irregular
BRASÍLIA – Os advogados do PT pediram ontem ao TSE que multe o candidato tucano à Presidência, José Serra. Eles argumentam que, num comício dia 22 em Pernambuco, Serra fez propaganda eleitoral. Esse tipo de publicidade só será permitida a partir do dia 6. Se o TSE atender ao pedido do PT, não vai ser a primeira vez que o tucano será multado. Recentemente, os ministros decidiram aplicar uma multa de R$ 53,2 mil a Serra pela divulgação de uma pesquisa não registrada na Justiça Eleitoral.
Campanha tucana começará em Teresina
Pimenta diz que escolha do local do primeiro comício simboliza apoio de candidato ao Nordeste
BRASÍLIA - Além de montar a agenda com visitas a todos os Estados do Nordeste este mês, o candidato do PSDB a presidente, José Serra, decidiu abrir a campanha oficial com um comício em Teresina sábado. A escolha tem suas razões. "É uma mostra do formato que o governo Serra terá, de apoio às regiões e aos brasileiros mais carentes", diz o coordenador da campanha, deputado Pimenta da Veiga.
Não só. Há também a simbologia política local, como destaca o próprio Pimenta. "Firmamos no Piauí uma aliança do PSDB, que comanda a capital, com o PFL, que governa o Estado. E como o governador Hugo Napoleão é o líder vitalício do PFL no Senado, a parceria é emblemática", completa ele, empenhado em ampliar o apoio de pefelistas Brasil afora.
Foi exatamente com o objetivo de avançar sobre o PFL que Serra e seu coordenador de campanha comandaram ontem, em Brasília, reunião com dirigentes pefelistas de 14 Estados que apóiam a candidatura presidencial tucana. "O PFL já está conosco em 16 Estados, formal ou informalmente, dentre os quais os maiores colégios eleitorais, como Minas, São Paulo, Rio, Pernambuco e Paraná", afirma Pimenta.
Serra insistiu na reunião que dará espaço no eventual governo a todos os que o apoiarem. "Já disse com clareza que vamos ganhar juntos e governar juntos", repetiu. "Vamos compor uma base parlamentar majoritária. Aliás, já temos maioria na Câmara e Senado."
Além do Nordeste, o candidato visitará, até o início de agosto, todos os Estados do Norte e alguns do Centro-Oeste. Para cumprir o roteiro no curto espaço de tempo até a eleição, ele e o comando da campanha decidiram ontem cancelar a agenda internacional, que incluía uma viagem a Barcelona no dia 11.
Estrategistas tucanos sonhavam em ver Serra "brilhando" mais uma vez na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). Afinal, foi lá que ele conseguiu aprovar a quebra de patentes de medicamentos antiaids. "Seria ótimo ir a Barcelona e colher o reflexo positivo do prestígio internacional do candidato na campanha, mas infelizmente o tempo é curto e não permite", conforma-se Pimenta.
A ordem, agora, é investir no corpo-a-corpo. Para domingo à tarde, os estrategistas organizam um comício em Brasília, onde o PMDB do governador Joaquim Roriz é o maior aliado de Serra. A previsão é de que o "grande ato na capital federal" reúna 30 mil pessoas. "Depois do período penoso das composições políticas, ingressamos na fase eleitoral propriamente dita, em que o mais importante são os contatos com o eleitor. É hora de nosso candidato falar à Nação", diz Pimenta.
Artigos
O outro ouro da Copa
Roberto Macedo
O pentacampeonato mundial é muito mais do que um título futebolístico para o Brasil. Entre outros aspectos, melhora a auto-estima do País e de sua população, integra os brasileiros num sentimento de nacionalidade - quantas bandeiras! - e dá um pouco de alegria a esse povo tão sofrido.
Vejo também outro aspecto, de significado econômico, e que vale uma quantidade de ouro infinitamente maior que a da taça. No noticiário internacional recente, o Brasil ocupou enorme espaço com sua seleção e sua vitória, com desdobramentos que se prolongarão indefinidamente.
Não conheço números sobre o assunto, mas acredito que o futebol ganhe da soma de todos os demais esportes na atração do interesse mundial. Assim, chegar ao topo significa para o Brasil uma exposição - como dizem os publicitários - que, se orçada por agências do ramo, custaria bilhões de dólares, mas seria inimaginável garantir os mesmos efeitos.
Nesse topo pela quinta vez, o País consolida sua hegemonia no futebol. De alguma forma, precisa também capitalizar isso em proveito de sua economia.
Nossos melhores talentos de propaganda e marketing, hoje desviados para polir imagens de políticos cabeludos ou carecas, deveriam ser reunidos para examinar o que poderia ser feito para associar essa imagem do futebol à de nossos produtos e serviços, tanto para vender lá fora como para trazer turistas ao Brasil. Partiriam de uma ótima imagem construída no passado e engrandecida ainda mais nas últimas semanas.
Duas fotos da edição de terça-feira deste jornal foram as que mais me chamaram a atenção quanto ao impacto internacional da Copa e do Brasil, pois que alcançaram países longínquos e sem tradição no futebol. Uma foi a de um grupo de jovens em Bangladesh cortando o cabelo à la Ronaldo. A outra, de outro grupo de torcedores em Calcutá, na Índia, desfilando num riquixá, comemorando a nossa vitória e passando por um muro onde estava pintada a bandeira brasileira.
Tenho insistido em que no Brasil prevalece um noticiário negativista e catastrófico, como se estivéssemos no pior dos mundos. Na área econômica, por exemplo, há índices de desemprego que exageram na sua mensuração, estatísticas de rendimentos equivocadamente extrapoladas nos seus maus resultados e ênfase em dados conjunturais que não alcançam setores e regiões de maior dinamismo. A mais recente manifestação desse exercício de autoflagelação são os números que circulam por aí como "risco Brasil", e que muitos "analistas especializados" ficam a divulgar sem o devido cuidado de esclarecer do que efetivamente se trata.
Conforme mostrei no artigo da semana passada, um índice do banco J. P.
Morgan, mostrando o risco de títulos da dívida externa brasileira, é divulgado aqui como "risco Brasil". Na realidade, é o Emerging Markets Bonds Index (EMBI), ou Índice dos Títulos dos Mercados Emergentes (ITME), um grupo que inclui o Brasil. Os títulos brasileiros que circulam lá fora estão com cotação baixa, mas tomar isso como "risco Brasil" não se justifica, pois este é um conceito mais amplo, que, para ser mensurado, deveria incluir muitas outras variáveis.
Aliás, percebi que lá fora as publicações são mais cuidadosas em falar do assunto. Assim, a conceituada revista Th e Economist (29/6) refere-se ao índice pelo que de fato é, chamando-o de "prêmio de risco sobre os títulos brasileiros". Até o tão malhado FMI tem comportamento exemplar neste caso.
Estive olhando uma de suas publicações (IMF Survey, de 27/5) e vi que chama a coisa de
"margem do ITME do Brasil". Enquanto isso, aqui só vejo gente falando do índice como "risco Brasil", pintando com cores ainda mais negras um quadro já difícil e assustando o cidadão comum que toma a coisa ao pé da letra, agravando sua imagem negativa do País e tomando decisões, inclusive de consumo, de forma correspondente. Consumidores amedrontados são um desastre para o bom andamento da atividade produtiva.
Voltando ao futebol, se esta vem sendo a Copa mais festejada, antes de chegar lá a seleção foi a mais criticada, na mesma linha de só realçar defeitos e ignorar qualidades que tivemos, e superiores às de nossos adversários.
O mundo está reconhecendo essas qualidades no futebol. É ótimo que o faça, e essa faceta positiva deveria ser aproveitada no mundo dos negócios, numa tentativa de associar a marca do futebol à de outros produtos e serviços.
Improvisadamente, já fiz isso uma vez, quando fui dar umas aulas na África do Sul e levei camisetas da seleção para distribuir aos alunos. Foram avidamente disputadas por eles, que até as vestiam imediatamente sobre seus ternos. Gostaram das aulas, mas até hoje estou em dúvida se foi por conta delas ou das camisetas. O certo é que o peixe foi vendido.
É claro que só marketing não resolve, mas, novamente, a experiência da seleção serve de exemplo, com a competência que demonstrou ao juntar bons jogadores, pondo-os para jogar em equipe e mostrar serviço. Aliás, em lugar de contratar "gurus" de administração estrangeiros para dar palestras aqui, os promotores desses eventos deveriam chamar o Felipão, para falar de gerência, e o Ronaldo, juntamente com ele, para abordar motivação e empenho na superação de dificuldades.
Aliando a imagem positiva do futebol ao esforço produtivo, o Brasil deve ir ao ataque comercial, pois o momento é oportuno para marcar gols e ganhar também nesse campo. No futebol, como em outras áreas, o sucesso se faz a partir de oportunidades percebidas e realizadas.
Editorial
POR QUE ESSA PRESSA?
O relator do substitutivo ao Plano Diretor da cidade de São Paulo, vereador Nabil Bonduki (PT), anunciou 60 alterações no projeto de lei original, inclusive no que se refere à "outorga onerosa", assunto que acendeu a maior polêmica desde que o plano foi apresentado. Bonduki esclareceu que as alterações serão feitas levando-se em conta as demandas de todos os segmentos da sociedade que contribuíram com propostas.
Mas não é isso que indica o anúncio veiculado na imprensa, segundo a Secretaria de Comunicações, "para tornar clara a posição da Prefeitura", no qual ela responde ao manifesto das entidades lideradas pelo Secovi, publicado dias antes sob o título Quem perde com o novo Plano Diretor. Na peça publicitária do governo, intitulada Quem ganha com o novo Plano Diretor, fica clara a intenção da Prefeitura de não mudar nada no projeto original. As alterações mencionadas pelo relator do substitutivo são cosméticas, e a menção que se faz ao ponto mais controvertido - o nivelamento para uma vez a área do terreno do coeficiente de construção em toda a cidade - é vaga demais para poder ser apreciada. O relator diz que "o cálculo será mudado", mas não diz como nem quando.
A anunciada criação de um Conselho de Política Urbana - composto por representantes da Prefeitura, associações de moradores e entidades de setores profissionais de classe, como o da construção civil - parece-nos apenas uma tática para fazer de conta que há participação da sociedade, uma vez que o Conselho não terá poder para alterar nada. É a mesma tática, aliás, que foi usada nas audiências públicas que hoje o PT invoca para afirmar que houve um "debate democrático" do Plano Diretor, que agora pode ser submetido à Câmara Municipal que o partido controla. Como lembrou o professor de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) Cândido Malta nessas audiências não foram discutidas as questões fundamentais do projeto; foram apresentadas apenas soluções fechadas "com a aparência de soluções únicas", para uma porcentagem da população que, além de mínima, se mostrou desinformada sobre os problemas urbanos. Para ele, essas audiências não passaram de "reuniões unidirecionais do expositor do plano".
O fato é que há menos de um mês, quando a prefeita começou a pressionar o Legislativo para votar o Plano Diretor em regime de urgência, alegando que já tinha havido "oito meses de debate público" sobre ele, a maior parte dos parlamentares declarou não ter conhecimento suficiente do projeto para votá-lo. Que dirá a média da população...
A Prefeitura passou todo o primeiro ano de governo fazendo mistério sobre o conteúdo do plano, realizou audiências com representatividade mais que questionável e, agora, prepara um substitutivo que, supostamente, conseguirá colocar em votação até o fim da semana. Por que tanta pressa? Faria, de fato, diferença se esse debate se prolongasse por mais seis meses ou um ano, numa cidade que cresce 10 milhões de metros quadrados de construção por ano, e vem fazendo isso sem esse plano há tanto tempo? Certamente nenhuma. Mas faria enorme diferença para o PT, que só tem quatro anos à frente do governo, ficar mais um sem arrecadar o que espera arrecadar com o seu golpe do coeficiente de construção.
Não é o ordenamento da cidade que preocupa a Prefeitura. É o caixa.
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07/04/2002
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