Disputa tem dois favoritos
Disputa tem dois favoritos
Pesquisa do instituto Vox Populi aponta Cristovam Buarque (PT) e Paulo Octávio (PFL) na liderança. Em terceiro aparece Jofran Frejat (PPB), do partido do vice-governador Benedito Domingos, mas apoiado por Roriz
São duas vagas e 15 candidatos na disputa pelo Senado Federal. O ex-governador Cristovam Buarque (PT) e o deputado federal Paulo Octávio (PFL), apoiado pelo governador Joaquim Roriz (PMDB), aparecem na frente da preferência do eleitorado, segundo pesquisa do instituto Vox Populi, feita a pedido do Correio. Cristovam tem 31% das intenções de votos, na pesquisa estimulada (quando uma relação dos candidatos é apresentada aos candidatos), e, Paulo Octávio, 26%.
Cristovam tem a liderança também na intenção de voto espontânea, em que o entrevistado cita, sem material de apoio, o nome do candidato. Nessa pesquisa, o candidato petista aparece com 18% dos votos e Paulo Octávio com 11% (leia quadro ao lado). Para o diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, o resultado da pesquisa dá amplo favoritismo a Paulo Octávio e Cristovam, mesmo com a imprevisibilidade do comportamento do eleitor por ter que votar em dois candidatos. ‘‘Há um favoritismo nítido de Cristovam e Paulo Octávio’’, analisa.
Somadas a primeira e a segunda citação dos entrevistados, Cristovam e Paulo Octávio saem vitoriosos, com 38% e 37% da preferência. O candidato do PT, no entanto, perde feio no segundo voto do eleitor para o Senado. Na segunda citação da pesquisa estimulada, Paulo Octávio e o deputado federal Jofran Frejat (PPB) empatam com 12%. Dessa vez, Cristovam fica com 6% das intenções de votos atrás do senador Lauro Campos (PDT), com 8% da preferência. Mas, como a margem de erro da pesquisa é de 3,7%, os dois estão tecnicamente empatados.
Segundo voto
O Vox Populi ouviu 702 eleitores, de diferentes segmentos socioeconômicos, em todas as cidades do Distrito Federal. A pesquisa foi feita de 28 a 30 de julho. Apesar do pior desempenho do ex-governador na segunda citação dos eleitores, em comparação a Paulo Octávio e Frejat, Coimbra afirma que Cristovam está bem posicionado.
‘‘Não dá para ter uma expectativa sobre o segundo voto. Como será a primeira eleição ao Senado com urna eletrônica, em que se escolhe dois candidatos, pode ser que muitos eleitores votem apenas no candidato preferido’’, acredita. Hipótese que, pela pesquisa da Vox Populi, favorece Cristovam, que várias vezes já demonstrou preocupação com o segundo voto para senador. É que não adianta Cristovam ter uma boa votação se os mesmo eleitores que optarem pelo nome dele darem o outro voto a um candidato apoiado por Roriz — Frejat e Paulo Octávio.
A pesquisa mostra o candidato preferido dos entrevistados de acordo com o voto para governador. Os simpatizantes do PT são os mais fiéis — 86% dos eleitores de Geraldo Magela votam em Cristovam. O percentual também é elevado entre os que votam em Carlos Alberto (PPS) e Rodrigo Rollemberg — 80% e 67% respectivamente.
Os eleitores de Roriz dividem a preferência pelo candidato ao Senado. Paulo Octávio tem 47% das intenções de voto e, Frejat, 26%. Já os eleitores de Benedito dão preferência a Cristovam (45%) e Frejat (41%). Paulo Octávio tem 34% dos votos. O apoio declarado pelo PSB de Rodrigo Rollemberg ao candidato do PT é seguido pelos seus eleitores — 67% votam em Cristovam e 33% em Paulo Octávio.
Nenhum dos candidatos ao Senado tem grande rejeição no eleitorado. Cristovam, nesse caso, tem 25% , mesmo percentual de Lauro Campos (PDT) e coronel Paulo Izaias (PRTB). Paulo Octávio teve 20% de rejeição e, Frejat, 22%.
Primeiro colocado nas pesquisas para senador, Cristovam Buarque, do PT, tem o voto garantido do empresário Adriano Albuquerque, 46 anos. ‘‘Ele é uma pessoa muito bem preparada’’, justifica. Já o aposentado José Costa, 71, aposta no pefelista Paulo Octávio. ‘‘Ele dá emprego a muita gente’’, explica.
Segundo turno é possível
A notícia veio como o melhor presente do aniversário. ‘‘A eleição está ganha. Eu fiz muitas obras e dei comida e moradia para a população’’, comemorou o governador e candidato Joaquim Roriz (PMDB) no final da missa dominical, na Catedral de Brasília, encomendada para comemorar seus 65 anos. A boa notícia, para ele, era a publicação, no Correio de ontem, da pesquisa do Instituto Vox Populi que lhe garantia 57% das intenções de voto, uma vitória no primeiro turno.
O segundo lugar na pesquisa mencionada por Roriz ficou com Geraldo Magela, do PT, com 15%. Cientistas políticos afirmam, no entanto, que é cedo para Roriz comemorar vitória no primeiro turno.
Seria a segunda vez que isso aconteceria na história do DF. Em 1990, Roriz derrotou o médico Carlos Saraiva e Saraiva (PT) com 55% dos votos válidos. ‘‘A campanha vai esquentar daqui para frente e o PT é uma oposição tradicionalmente forte no Distrito Federal’’, observa Paulo Kramer, analista político da Kramer e Ornelas Consultoria.
O professor de Ciências Políticas Luiz Pedone, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da Universidade de Brasília, também considera prematuro anunciar vitória de Roriz logo no primeiro turno. ‘‘Nesse momento, vale muito mais o resultado da pesquisa espontânea (aquela em o entrevistado diz, sem ajuda, em quem votará)’’, afirma Pedone. Por essa pesquisa, Roriz tem 44% dos votos e, portanto, não venceria no primeiro turno. A lei exige 50% dos votos válidos mais um.
Pedone destaca o alto índice de eleitores indecisos ou que afirmam votar nulo ou em branco — 40% dos entrevistados na pesquisa espontânea. ‘‘A eleição não está definida e o vice-governador Benedito Domingos tira votos de Roriz’’, diz o cientista político.
Os adversários de Roriz na disputa pelo governo também não acreditam no fim da eleição já no primeiro turno. ‘‘O horário político na TV não começou’’, diz Raimundo Júnior, coordenador da campanha de Magela. Uma das estratégias do PT para minguar a popularidade de Roriz é atacar os pontos fracos do seu governo, como a saúde pública, o desemprego e a violência urbana. Os três maiores problemas no DF apontados pelos entrevistados do Vox Populi. Aliás, os problemas foram a única coisa que Roriz não apreciou na pesquisa. ‘‘Hoje a saúde em Brasília é a melhor do Brasil’’, comentou.
‘‘Roriz terá uma decepção muito grande se sair por aí anunciando vitória no primeiro turno’’, comenta Benedito. O candidato do PPB aparece em quarto lugar na pesquisa estimulada. Tem 4% dos votos, atrás de Rodrigo Rollemberg, do PSB, com 7%.
Rollemberg também não acredita na vitória de Roriz no primeiro turno. ‘‘É natural que esteja na frente agora. Gasta quantias milionárias em propaganda’’, denuncia. O candidato do PPS, Carlos Alberto, com apenas 1% dos votos, também aposta no segundo turno. ‘‘Roriz priorizou grandes obras e a população quer é mais saúde, emprego e segurança’’.
Serra apanha de todos e desconta em Ciro
No primeiro debate na TV, Lula tenta passar despercebido. Candidato do PSDB atrapalha-se ao falar do governo e desmente números de Ciro. Garotinho foi o franco-atirador da noite
Os candidatos a presidente fizeram ontem o primeiro embate eleitoral na televisão, transmitido pela Rede Bandeirantes. Os primeiros blocos do programa foram marcados pelos ataques de Anthony Garotinho (PSB) a todos os candidatos, principalmente José Serra (PSDB), com quem está tecnicamente empatado, em terceiro lugar, nas pesquisas de intenção de votos.
O candidato do PSB perguntou ao tucano sobre que esperanças ele poderia dar ao povo brasileiro depois que o governo que o apóia deixou a população em situação difícil. Serra disse q ue representa a si mesmo. ‘‘Eu sou candidato do governo, do meu governo, do governo José Serra, isso deve ficar bem claro’’, respondeu.
Garotinho, na réplica, disse que Serra tinha vergonha de dizer que representa o governo de Fernando Henrique Cardoso. Serra demonstrou irritação. De maneira ríspida, falou que é amigo do presidente da República, mas que sempre deixou claro suas próprias idéias.
Jornalistas também fizeram perguntas aos candidatos. E a pendenga entre Garotinho e Serra continuou. Ao comentar uma pergunta feita anteriormente para Serra sobre o uso político da Polícia Federal, Garotinho provocou: ‘‘Pode ficar tranqüilo, no meu governo a Polícia Federal será usada para prender traficante e não para bisbilhotar.’’ Referia-se a supostos dossiês e espionagem contra os outros candidatos. Serra, por sua vez, respondeu que a polícia carioca, na época do governo Garotinho, não prendeu traficantes: ‘‘Agora, ele vai precisar da Polícia Federal para prender traficantes’’.
Ataque
Depois, Serra partiu para o ataque contra Ciro Gomes (PPS). Respondendo a uma pergunta de Lula sobre comércio exterior, disse que os problemas na economia do país tiveram início quando Ciro era ministro da Fazenda. Serra acusou Ciro de mentir sobre números de sua gestão, como valor de salário mínimo e índice de inflação. O candidato do PPS teve direito de resposta mas não deu resposta objetiva. ‘‘Saber economia é muito importante para não ser enganado em questões econômicas’’, disse.
Serra também acusou Ciro de infidelidade. O tucano lembrou que o candidato do PPS disse, há dois anos, que o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL da Bahia, era ‘‘mais sujo que pau de galinheiro’’ e, hoje, aparece nos jornais ao lado do cacique baiano.
Antes do debate, cada um dos candidatos estudou as fragilidades dos adversários e organizou as pastas levadas para o estúdio da TV. Ciro chegou em São Paulo na véspera do debate. Promoveu inclusive um ensaio com auxiliares no papel de adversários, com perguntas das mais embaraçosas, como, por exemplo, as denuncias contra seu candidato a vice, sindicalista Paulo Pereira da Silva. Mas o assunto não foi abordado.
Serra organizou todas as denúncias envolvendo os aliados de Ciro, como as ligações de José Carlos Martinez com o ex-tesoureiro de Collor, PC Farias. Lula reservou as horas que antecederam ao debate para a família. Em casa, Lula tem muito material guardado. Mas não usou. Apostou suas fichas na imagem moderada que vem construindo. Lula não atacou nenhum adversário’. Apenas falou mal do governo. E criticou a Petrobras for encomendar plataformas de mais de US$ 1 bilhão no exterior.
Entre todos os presidenciáveis, Garotinho foi quem menos teve tempo de preparar-se. Hospitalizado depois da queda de um palanque, durante um comício eleitoral no Rio, o ex-governador e a mulher dele e candidata ao governo estadual, Rosinha Matheus, tiveram alta na manhã de ontem. Do lado de fora da emissora, partidários’ de Serra e Ciro enfrentaram-se na rua. Um militante do PSDB recebeu uma pedrada e a polícia dispersou os manifestantes.
Agenda dos candidatos a presidente
Lula - PT
Às 11h, dá palestra na Associação Brasileira de Desenvolvimento da Indústria de Base e Infra-Estrutura Brasileira (ABDIB), em São Paulo. Às 15h30, estará na Bolsa de Valores de São Paulo.
Ciro - PPS
Não tem agenda durante o dia. À noite, a partir das 23h30, participa de entrevista no Jornal da Globo.
Serra - PSDB
Às 10h, faz visita à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e, no fim da tarde, vai ao instituto Ethos.
Garotinho - PSB
O candidato dá entrevista no Jornal Gente, da TV Bandeirantes, às 8h30. Logo depois, faz caminhada pelo centro de São Paulo. Às 12h30, a caminhada é em Osasco (SP).
José Maria - PSTU
Passa a manhã e o início da tarde em Belo Horizonte, onde dá entrevista a vários órgãos de imprensa.
Rui Pimenta -PCO
Vai a São Paulo onde reúne-se durante toda a tarde com a direção nacional do partido.
Agenda dos candidatos a governador (DF)
Joaquim Roriz - PMDB
Não forneceu.
Geraldo Magela - PT
Passa o dia reunido com coordenadores da campanha.
Carlos Alberto - PPS
Pela manhã, reúne-se com assessores da campanha. Às 19h30, participa de debate no Café com Letras, na 203 Sul.
Rodrigo Rollemberg - PSB
À tarde, reúne-se com coordenadores da campanha. À noite, participa de um jantar de adesão à sua candidatura, na Churrascaria do Lago.
Benedito Domingos - PPB
Toma café da manhã com presidentes de partidos de cidades do Entorno. Às 11h, reúne-se com assessores. À noite, participa de inauguração de comitê, em Taguatinga Norte.
Expedito Mendonça - PCO
Participa do encerramento do acampamento de férias da Aliança Juventude Revolucionária (AJR), na Chapada dos Veadeiros.
Orlando Cariello - PSTU
Passa o dia em manifestações contra o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O’Neill.
Guilherme Trotta - PRTB
Passa o dia reunido com o presidente nacional do partido.
Negociação evita greve
Em assembléia realizada em Pindamonhangaba (SP), os 2.800 metalúrgicos da Aços Villares aceitaram a proposta da empresa de pagamento de R$ 8,1 milhões referentes às horas de trabalho excedentes entre1988 a 1992. Na época, a empresa contrariou a lei e manteve as 8 horas diárias em vez de alterar a jornada para 6 horas por dia. O sindicato entrou com uma ação judicial e a Villares decidiu negociar. As indenizações variam de R$ 1.100 a R$ 2.000.
Artigos
Uma espécie em extinção
Rachel de Queiroz
A moça, estudante de Letras, me perguntou o que eu achava da avassaladora invasão de neologismos no nosso idioma. Bem, acho que da nova linguagem que acompanhou e acompanha a era dos computadores, é muito difícil escapar. Ninguém vai ficar inventando traduções para coisas que não fomos nós que inventamos e na maioria nós mal sabemos do que se trata. Deletar, por exemplo, não tem um sentido muito mais amplo do que simplesmente apagar? Mas não quero me arvorar nessa discussão de filólogos, mormente que não me entendo com computador. Aliás, fora esses, que vêm no bojo das novas tecnologias, neologismos, principalmente os de gíria, têm quase sempre nascimento humilde. As pessoas mais cultas, ou escutam as palavras difíceis na sua própria casa ou as consultam nos dicionários. O ignorante comum tem seu próprio dicionário na cabeça, restrito, é verdade, muito faltoso na conjugação dos verbos, mas dono de um toque pessoal iniludível.
Foi um assunto que sempre me impressionou, como é que nasce uma linguagem. Quando eu era ainda menina e começaram a me ensinar francês, o grande mistério para mim era: como foi que eles deram para falar desse jeito? Inventaram primeiro as palavras todas e desandaram falando, ou foram inventando as palavras de uma em uma?
Devemos confessar que, a essa altura do mundo, ainda sabemos muito pouco da invenção da linguagem. Claro que os especialistas explicam tudo a respeito, mas quem é que acredita em especialista? Por exemplo: na nossa língua se diz menino-menina. De repente veio alguém, que inventou ‘‘criança’’, uma palavra só para dizer, no lugar das duas. E, afinal, todas essas minhas hipóteses são justas, pois ninguém sabe mesmo como é que nasce um idioma. Descartando-se a origem bíblica do par inicial, Adão e Eva, que já nasceu grandinho e falando tudo, como é que começa uma língua? Tudo virá mesmo de um casal inicial? Porque, em resumo, a indagação principal é esta: a gente provém de um par humano único ou da lenta transformação de macacos em homens? E, mesmo dentro desta h ipótese, como começou o primeiro casal de macacos? Os livros de História Natural não nos ensinam nada disso. Será que a princípio foi uma bolha e dentro da bolha havia um ponto de vida, e esse ponto virou um animálculo, e o animálculo foi-se dividindo em duas partes, e depois suas metades se dividiram em duas, de divisão em divisão, chegaram ao homem? No colégio da Imaculada, quando estudávamos para normalistas, o nosso professor, um médico, ateu, citou as diversas hipóteses para a criação da vida e seu desenvolvimento, e nos disse sorrindo: ‘‘Escolham a melhor que lhes parecer dessas hipóteses, mas não contem às irmãs que eu desdenhei de Adão e Eva’’.
Vocês já pensaram o seria essa frase do professor, ou antes, essa dúvida para um auditório de meninas, composto de adolescentes como eu, que era a mais nova, mulheres já feitas, muitas delas se preparando para o noviciado religioso?
Bem, para as postulantes, as quase freiras, não havia problema, já estavam encartadas no papel, tinham ouvidos moucos para tudo que fugisse à doutrina. Mas o meu time fervia, cada uma inventava a sua teoria da criação e da reprodução, mas éramos tão excessivamente ignorantes que nada sabíamos, mas nada mesmo, da anatomia humana. Um menino de cinco anos, nu, de certa forma era defeso ao nosso olhar. Menina, desde pequenina, não se misturava com meninos. Maria Vicência, uma das nossas auxiliares de disciplina, nos obrigava a tomar banho de chuveiro, vestidas em camisolões, e uma das auxiliares da disciplina ensinava às pequenas a se enxugar e mudar de roupa. Nós que nos virássemos, protegidas pela toalha que se destinava originalmente não só a nos enxugar, como a nos cobrir. Curioso é que jamais discutíamos em casa a obsessão de modéstia imposta no internato. Em casa víamos nossas tias jovens e as primas passeando pelo quarto em trajes menores, sem qualquer curiosidade de nossa parte. Talvez pensássemos obscuramente que as mulheres de casa compunham um núcleo especial.
Engraçado é que, da adolescência à velhice, a gente evolui muito menos do que pensa. Mesmo depois de tanta idade, ainda temos uma vasta cópia de curiosidades reprimidas.
Talvez as moças de hoje já procedam diversamente. Mas nós, coitadas, vamos morrer mesmo como espécies de uma raça extinta.
Editorial
NÃO À ALCA
Durante quatro anos o Senado dos Estados Unidos negou amplos poderes ao ex-presidente Bill Clinton para que ele negociasse a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Esse mecanismo, conhecido como fast-track, também foi recusado ao presidente George W. Bush no primeiro ano de seu mandato. De uma hora para outra, o Congresso norte-americano decidiu aprovar a medida, às vésperas da visita do secretário do Tesouro, Paul O’Neill, a Argentina, Brasil e Uruguai, países que formam o Mercosul juntamente com o Paraguai.
Quando cogitou-se a criação da Alca, a América Latina acreditou na possibilidade de ganhar um acesso amplo e livre ao mercado mais importante do mundo. A medida atraiu o apoio de industriais e grandes produtores agrícolas do continente. Essa ilusão feneceu aos poucos, com sucessivas medidas protecionistas impostas pelo governo dos Estados Unidos voltadas contra exportações originárias de países sul e centro-americanos.
No documento preparatório da Alca, os Estados Unidos afirmam que manterão mecanismos de proteção, inclusive subsídios, a 300 produtos agrícolas e semi-acabados até 2010, cinco anos depois da data prevista para implantação do bloco. Coincidentemente, relacionam-se apenas itens onde países latino-americanos apresentam alta competitividade.
É preciso lembrar que a melhoria da produtividade latino-americana foi conquistada graças a um doloroso processo de reestruturação. O caso do aço brasileiro é exemplar: investiu-se pesadamente em equipamentos e dispensou-se numeroso contingente de mão-de-obra. O sacrifício imposto pela globalização foi punido pelos Estados Unidos com sobretaxas e cotas, inclusive a tipos de aço não manufaturados por empresas norte-americanas.
A visão contrária a uma Alca criada em termos unilaterais é compartilhada no Brasil pelo governo e partidos de oposição. O Itamaraty regularmente manifesta seu repúdio às pretensões estadunidenses, atraindo, por isso, a ira manifesta de legisladores daquele país. Pesquisa aplicada pelo Gallup no Capitólio, sede do parlamento norte-americano, comprova isso. Mais de 80% dos deputados e senadores apontaram o Brasil como o maior entrave às pretensões comerciais dos Estados Unidos.
Dependendo dos dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do apoio do governo norte-americano para liberá-los, os países do Mercosul, único obstáculo no continente às pretensões hegemônicas dos Estados Unidos, encontram-se numa posição de evidente fragilidade. Seguramente, Paul O’Neill pressionará no sentido de quebrar a posição do grupo contrária à Alca. Nos termos atuais, ingressar na Alca é abrir o mercado aos Estados Unidos sem ter uma justa contrapartida.
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08/05/2002
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