Pesquisa não muda disputa









Pesquisa não muda disputa
Ciro se consolida na 2ª posição, com 27%

A nova pesquisa de intenção de voto do Ibope para a Presidência da República, feita entre os dias 10 e 12 e divulgada ontem, mostra situação semelhante à da semana passada e aponta a consolidação do candidato da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB), Ciro Gomes, na segunda posição, com o patamar de 27% - igual ao obtido na última enquete.

Dos quatro principais concorrentes à sucessão de Fernando Henrique Cardoso, apenas o petista Luiz Inácio Lula da Silva e o governista José Serra (PSDB) melhoraram o desempenho, porém em apenas 1 ponto percentual - dentro da margem de erro da enquete, de 2,2 pontos percentuais. Ciro e Anthony Garotinho (PSB) mantiveram os índices anteriores. Foram entrevistadas 2 mil pessoas, em 145 municípios do país. Votos brancos e nulos, somados, chegaram a 5% do total, e 10% das pessoas não opinaram.

Lula permanece na liderança da disputa, com 34%, patamar em que vem se mantendo há mais de um mês. Ele atingiu o seu ápice no início de junho, quando chegou a 39%, à época da exibição do programa de propaganda eleitoral na televisão e no rádio. A variação de Lula nos levantamentos é de apenas 1 ponto percentual nas seis pesquisas mais recentes do Ibope, o que demonstra sua estabilidade na faixa acima dos 30%.

A enquete publicada ontem indica uma freada na vertiginoso ascensão de Ciro Gomes. Do início de junho para agora, ele triplicou suas intenções de voto - de 9% para 27%. Com o salto, passou da modesta quarta posição - a última entre os principais candidatos à Presidência - para a vice-liderança. É a quarta vez seguida que ele se mantém entre os 25% e os 27%, o que sugere sua estabilização.

Os defensores do favorito de FH, José Serra, não conseguiram respirar aliviados ao ver os novos números. Anteontem, o coordenador de sua campanha, Pimenta da Veiga (PSDB-MG), admitiu que o tucano passa por um ''momento adverso'' e apontou os maus resultados dos últimos levantamentos como os principais responsáveis por isso. O fato é que Serra não ultrapassa a barreira dos 15% há um mês. Na semana passada, chegou ao seu índice mais baixo, 11%, e empatou com Garotinho, que se mantém nesse nível há quatro levantamentos.

Numa simulação de desempenho dos candidatos em um eventual segundo turno, de acordo com o Ibope, Ciro derrotaria Lula, por 47% a 42%.


Dirceu assume artilharia do PT
Ataque de Ciro à candidatura petista faz deputado chamar Ciro de ''mentiroso incontrolável'''

O breve tempo de paz entre os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, está com os dias contados. Na medida em que as pesquisas de opinião mostram a polarização entre os dois candidatos e aumentam a possibilidade da presença de ambos no segundo turno, os ataques começam a surgir. Ciro afirmou, ontem, durante sabatina promovida por um jornal paulista que Lula estaria ''pronto para ser domesticado e entregue ao sistema''.

A resposta foi quase imediata. Presidente do PT, o deputado federal José Dirceu assumiu prontamente a artilharia petista contra o adversário. ''O Ciro sofre de uma tendência incontrolável para mentir'', rebateu o deputado federal.

O desagravo ao presidenciável aconteceu durante a festa de lançamento do programa de governo do candidato do PT ao governo de São Paulo, José Genoino, na capital paulista. Aplaudido, o presidente do PT afirmou que procurou nos livros de medicina uma explicação para as atitudes de Ciro.

''Já é hora de a sociedade brasileira perceber que Ciro Gomes tem um problema sério, que é a tendência incontrolável para mentir. Descobri que isso se chama paralogia fantástica. É a síndrome de Ganser, descoberta em 1897. O problema de Ciro deixa de ser político, ele precisa de um divã. Precisa se tratar para deixar de ser desrespeitoso e rebaixar a discussão política'', avaliou o presidente do PT.

''Não temos medo de ser cooptados e não temos medo de conversar com o presidente, até porque nunca fomos do PSDB, nunca fomos do governo do PSDB e nunca, muito menos, fomos de partidos de direita no passado. Somos da esquerda, da oposição. Sabemos onde estamos e para onde vamos'', afirmou José Dirceu.

No debate com jornalistas, ontem, no auditório do jornal Folha de São Paulo, Ciro negou que se deixará ser dominado pelas forças econômicas que formam o mercado de capitais no Brasil.

''Há uma certa cobrança à qual o Lula se rendeu e eu não me rendo. Não estou disposto a vender a alma para ser presidente do Brasil. Acho que quem mentir para a sociedade brasileira está condenado. Até pode se eleger, mas está condenado a sair pela porta dos fundos do Palácio, como experimentou o Fernando de La Rúa (ex-presidente da Argentina)'', comentou. Em seguida, foi ainda mais direto: ''Você serra meu braço e eles não vão me domesticar''.

E no Rio, ontem, durante debate no Conselho Regional de Economia, um dos assessores econômicos da candidatura Ciro Gomes, o economista Maurício Dias David, foi na direção oposta aos ataques promovidos de lado a lado. Ele preferiu seguir na linha de uma entrevista concedida por Ciro Gomes, com exclusividade ao Jornal do Brasil, há cerca de um mês, na qual propôs um ''governo de coalizão'' com o PT.

Dias David fez uma proposta clara ao PT: independentemente do vencedor no segundo turno, que o partido derrotado se comprometa a formar com o vencedor uma coalizão que garanta a governabilidade de um futuro governo de centro-esquerda.

Apesar do aceno, o assessor econômico do PT Antonio Prado não mordeu a isca. Mesmo assim, David não se fez de rogado. Repetiu o convite: ''Nossa proposta de um governo de coalizão não foi mencionada por vocês em nenhum momento, neste debate. Você fez questão de ignorar, como se não fosse uma coisa nem importante e nem decisiva para o futuro do Brasil'', queixou-se o assessor de Ciro, que refez o convite: ''Nós saberíamos muito bem como trabalhar com os quadros do PT''.


Rosinha mantém liderança
Jorge Roberto, que tem a menor rejeição, vai a 19% e Benedita cai para 12%

Pesquisa do Ibope divulgada ontem mostra que aumentam as chances de que o segundo turno da eleição para o governo do Rio seja disputado por Rosinha Garotinho (PSB) e Jorge Roberto Silveira (PDT). Rosinha continua na liderança e subiu dos 32% que tinha na pesquisa anterior - feita entre 28 e 31 de julho - para 36% das intenções de voto. Jorge Roberto, que tinha 16%, agora, tem 19%. Já a governadora Benedita da Silva (PT) caiu de 14% para 12%. Com isso, a diferença entre ela e Jorge Roberto, que era de dois pontos e estava na margem de erro, passou para sete pontos.

Os outros cinco candidatos que disputam o governo somaram 3%. Os votos nulos e em branco somam 7% e 16% não disseram em quem vão votar. A margem de erro é 2,8 pontos percentuais.

Nas simulações sobre segundo turno, Rosinha derrota tanto Jorge Roberto, por 52% contra 31%, como Benedita (53% a 29%).

O Ibope aferiu o grau de rejeição de cada candidato, o que é decisivo no segundo turno. A situação de Benedita é a pior: 35% afirmaram que não votariam nela em hipótese alguma. Rosinha tem 17% de rejeição, seguida de Solange, com 12%. Jorge Roberto é o que está em melhor situação neste quesito: só 8% dos eleitores o rejeitam.

Para o Senado, Sérgio Cabral Filho (PMDB) foi o nome mais lembrado: 37% votariam nele. Leonel Brizola, do PDT, tem 22%. Marcelo Crivella (PL), 19% e Arthur da Távola (PSDB), que tenta a reeleição, 14%. Este ano serão eleitos dois candidatos ao Senado por Estado. Assim, se a eleição fosse hoje, estariam eleitos Cabral e Brizola.

A segurança foi apontada como o principal problema por 37%. O desemprego vem depois (25%) e a saúde está em terceiro, com 14%.

A pesquisa mostrou também que o governo de Benedita não é bem avaliado. Só 2% dos ouvidos classificaram a administração como ótima; 13%, como boa; 41%, regular; 10%, ruim; e 26% a consideraram péssima. Não responderam 8% dos entrevistados. A soma dos que aprovaram o governo estadual, caracterizando-o como ótimo ou bom (15%) é muito inferior à dos que o consideraram ruim ou péssimo (36%).
O Ibope ouviu 1.200 pessoas em 35 cidades do Estado entre os dias 8 e 11 deste mês.


TSE acolhe reclamação de partidos
BRASÍLIA - O Tribunal Superior Eleitoral decidiu, ontem à noite, por unanimidade, que só nas urnas em que houver impressão do voto o eleitor terá que escolher todos os candidatos para que os votos computados sejam válidos. O TSE acolheu o pedido dos partidos políticos e resolveu que nas urnas onde não existem impressoras, os seis votos para deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente da República serão individuais. Isto significa que a cada confirmação o voto é computado na hora.
As urnas com sistema de impressão de voto estarão localizadas em todas as sessões eleitorais de Sergipe, Distrito Federal e em pelo menos dois municípios de cada Estado. Estas urnas não aceitam que os votos digitados parcialmente pelo eleitor sejam aproveitados.

O novo programa para as urnas que não têm módulo impressor modifica resolução anterior do TRE e será submetido pelo tribunal à avaliação dos partidos políticos.


Transição com reservas
Candidatos dizem que não irão a FH só para ouvir e cobram compromissos

BRASÍLIA - A transição política começa, oficialmente, na próxima segunda-feira, dia 19. Neste dia, o presidente Fernando Henrique irá se reunir com os quatro principais candidatos à presidência da República - Ciro Gomes (Frente Trabalhista), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Anthony Garotinho (PSB) e José Serra (PSDB) -, nesta ordem. Em encontros de uma hora, separadamente, a partir do meio-dia, eles irão debater com Fernando Henrique o acordo firmado pelo governo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O convite para os candidatos foi feito diretamente pelo ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, um dos integrantes do governo que estará presente à reunião. O outro convidado oficial é o ministro da Fazenda, Pedro Malan. A assessoria do Palácio do Planalto não confirmou, mas poderão ser convocados ainda o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e o secretário-geral da Presidência, Euclides Scalco. Esta definição será dada hoje pela Presidência, que deve confirmar também quantos assessores cada candidato poderá levar.

Para evitar constrangimentos, o cerimonial do Palácio do Planalto tomará o cuidado de evitar que os candidatos se encontrem no dia da reunião. Daí a separação de uma hora entre um e outro. Outra opção será aproveitar os diversos ambientes que compõem o gabinete presidencial, local marcado para o encontro. O encontro com os candidatos foi anunciado pelo ministro Pedro Parente na última terça-feira, através de nota oficial.

A ordem dos encontros, com Ciro em primeiro, seguido de Lula, Garotinho e Serra, virou chacota entre os aliados do candidato da Frente Trabalhista. ''O presidente está seguindo as pesquisas de votos. Convidou segundo a colocação de cada um'', tripudiou o ex-senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). ''Do jeito que está, nem precisa ouvir Serra e Garotinho. Escuta logo só os que vão para o segundo turno, para não perder tempo'', completou ACM.

O líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA) não gostou da brincadeira do desafeto político. ''Ele virou o bobo da corte, fica fazendo gracinhas e dizendo piadinhas bobas'', devolveu o peemedebista.


Tumulto em ato anti-Collor
Caras-pintadas e colloridos se chocam em Maceió. Doze são detidos

MACEIÓ - Uma confusão envolvendo integrantes do estudantes caras-pintadas e supostos simpatizantes do ex-presidente Fernando Collor de Mello levou à detenção de 12 pessoas, ontem, em Maceió, Alagoas, entre eles membros da campanha do ex-presidente da República ao governo do Estado.

O tumulto ocorreu nas imediações do Centro Educacional Antônio Gomes de Barros (CEAGB), o maior complexo educacional público do Estado. De acordo com informações do subtenente Claudionor Antônio da Silva, um dos responsáveis pela ronda escolar na área, tudo começou quando representantes dos caras-pintadas tentaram recolher panfletos que faziam crítica ao governador, Ronaldo Lessa (PSB), adversário de Collor.

Marcos Calheiros, um dos representantes dos caras-pintadas, afirmou ao policial que o material representava plágio do pasquim ''O Exemplo'', de autoria do movimento anti-Collor e que critica o ex-presidente.

Durante a confusão, membros da campanha de Collor foram ao local e também acabaram detidos. Célio Gomes, assessor de imprensa de Collor, disse que o seu pessoal foi ao CEAGB por ''pura precaução''. Ele negou que haja vinculação entre o pasquim com crítica a Lessa e a campanha de Collor. A Secretaria de Comunicação do governo informou que Lessa estava hoje em Brasília e não poderia comentar o ocorrido.

No confronto, um dos estudantes, Márcio Santos, teria sido agredido com um soco na boca pelo presidente do Diretório do Curso de Direito da Faculdade de Alagoas, Deyvis Klinger. Depois do inicio da briga, uma guarnição da Policia Militar chegou ao local e interviu para acabar com a briga entre os dois grupos.

Os informativos distribuídos pelos colloridos eram muito semelhantes aos panfletos distribuídos pelos caras-pintadas, ligados a Lessa. Tinham o mesmo nome, a mesma diagramação, o mesmo endereço. Só tinham de diferente o número da edição. O pró-Collor tinha a indicação de 3ª edição; já o pró-Lessa; de 1ª edição.

O ato de violência política deve ser investigado pelo superintendente da Polícia Federal, delegado Bergson Toledo. A juíza eleitoral Elizabeth Nascimento disse que vai esperar um relatório da Polícia Civil para definir o envolvimento dos estudantes em crime eleitoral, que seria investigado pela PF.

Depois de mais de três horas de depoimentos, na tarde de ontem, o delegado Jobson Cabral acabou liberando os 12 estudantes. Ele instaurou, porém, um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) para apurar as denúncias de Santos, que alegou que teria sido agredido com um soco por Deyvis.

O delegado Cabral disse que iria enviar uma cópia dos dois informativos para o Instituto de Criminalística (I.C.) para definir a instauração de um inquérito para apurar o crime de falsidade ideológica contra os responsáveis pela produção do informativo pró-Collor.


Outdoor de Serra e de Roriz é alvejado
BRASÍLIA - Um outdoor do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, foi alvo de pedradas e quase acabou destruído hoje, em Brasília, durante passeata para comemorar os dez anos dos cara-pintadas -movimento de estudantes que pediu o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

O cartaz só não foi derrubado porque a organização do evento pediu, pelo sistema de som, que os estudantes ''não desvirtuassem a passeata''. No outdoor, Serra aparece ao lado de Joaquim Roriz (PMDB-DF), candidato à reeleição no DF.

Cerca de 2.000 estudantes participaram da manifestação que saiu da Universidade de Brasília (UnB) e seguiu até o Palácio do Planalto, onde entidades ligadas ao ensino no país protocolaram uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso. A passeata teve a presença do presidenciável José Maria de Almeida (PSTU).


Artigos

Liberdade de opinião
Octávio Costa

É melhor mudar de assunto. Poderia fazer como o Estad ão nos tempos da censura e reproduzir nesta coluna receitas de culinária e trechos dos Lusíadas. O leitor sairia ganhando. Ler o relato de Camões sobre a epopéia de Portugal enriquece a cultura e alimenta o espírito. Não morro pela boca, mas degustar bons pratos também é sonho de muita gente. Mino Carta, na revista Veja, respondeu à censura com preciosas fábulas sobre o diabo. E Alberto Dines, na estréia do AI-5, usou aqui no JB artifício antológico: na previsão do tempo, anunciou dias cinzentos de chuvas e trovoadas.

Não sei o que Mino e Dines fariam no meu lugar. Mas, já que a Justiça não me deixa fazer críticas, vou falar do que gosto. De tudo que li, a impressão mais forte coube às tragédias do bardo inglês. O ser humano fica mais transparente nas páginas de Hamlet, Rei Lear, Júlio César, Otelo, Romeu e Julieta e Macbeth. Tenho devoção especial por Macbeth, retrato fiel das loucuras do poder. Certa vez, resolvi ler para minha filha, então com 10 anos, o drama do tirano escocês. Ela acompanhou atenta, mas ficou intrigada com o regicídio. ''Pai, por que Macbeth matou o rei Duncan, não eram amigos?'' Depois, perto do fim, preocupou-se com o destino de Lady Macbeth. ''Por que ela vê sangue nas mãos, ficou maluca?'' O bosque de Birnam andou, Macduff, nascido a fórceps, matou o usurpador, e fechou-se a página da ambição desmedida. Macbeth é leitura obrigatória para quem se interessa por política.

Nas relações mundanas, sou mais Machado de Assis (que, sem as pressões da corte elizabetana, passou ao largo da política). Fui ler o bruxo em idade madura e acho que fiz bem. No panteão da literatura brasileira, Guimarães Rosa descansa tranqüilo. E o colega Euclides da Cunha assegurou o lugar com a cobertura grandiosa da Guerra de Canudos. Entre os estrangeiros, meu pai me apresentou Dostoievski e dobrei-me à paixão de minha irmã Cecília por Balzac e Thomas Mann. Em plano bem mais raso (o dos contos policiais), tornei-me colecionador dos livros de Patrícia Highsmith. Com a ajuda da internet, comprei os que faltavam. Hoje, tenho toda a obra da nova-iorquina que criou Tom Ripley.

Na poesia, amo Pessoa, Bandeira, Drummond e Cecília Meirelles. Mas, se cunhado não é parente, faço um justo registro: no sábado, Ivan Junqueira leu um dos poemas de seu próximo livro. Escolheu o que fala dos rios que viu, como o Arno, o Tejo e o Neva, e dos que não viu, caso do Tâmisa (T.S.Eliot viu por ele). Lembra também o Paraíba de sua infância. Os rios de Ivan passaram e ficamos todos extasiados com o sentimento de mundo.

Por falar em rios, o centro histórico de Praga está ameaçado pela cheia do Vltava. São impressionantes as imagens da água já na altura da Ponte Charles. Praga é, sem dúvida, uma das mais lindas cidades que visitei. Rezo para que o Vltava volte ao leito normal. Emoção igual às das praças e ruelas de Praga só senti quando as cortinas do Hotel Rússia se abriram e surgiram a pouco mais de 100 metros os muros do Kremlin e a Catedral de São Basílio. Nelson Rodrigues, com ironia amarga, recomendou aos jovens que envelhecessem. Sei que o dinheiro anda escasso, mas, se possível, viajem. Não precisam ir tão longe. Buenos Aires é encantadora e está bem ali.


Colunistas

COISAS DA POLÍTICA – Dora Kramer

PMDB cobra mais política
A cúpula do PMDB esteve domingo com o presidente Fernando Henrique Cardoso e, pela enésima vez, repetiu que falta ação política à campanha de José Serra. Os pemedebistas depositam esperanças no horário eleitoral, mas não com a fé inabalável dos tucanos.

Eles acham que se não houver nitidez e lógica no discurso do candidato no que tange às relações dele com o atual governo, não haverá milagre de marketing que dê jeito na candidatura.

E aí, por mais que a direção reitere seu apoio a Serra _ entre outros motivos porque não lhe resta outra saída _, não conseguirá segurar a tropa se as pesquisas não refletirem avanços na preferência do eleitorado pelo candidato oficial.

Os sobreviventes tanto poderão aderir a Ciro Gomes como se aliar a Luiz Inácio Lula da Silva, destino mais provável daqueles que hoje juram fidelidade a Serra ''até o fim''. E por ''fim'' entenda-se 15 ou 20 dias antes da eleição.

O que FH vem ouvindo desse grupo, integrado por Michel Temer, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Eliseu Padilha, é que não adianta insistir apenas na tecla da ''mudança'' porque, além desta palavra de ordem pertencer à oposição, trata-se de uma idéia de difícil compreensão para o eleitorado que viu José Serra participar do governo Fernando Henrique durante dois mandatos.

As divergências que externava como ministro do Planejamento, senador e, depois, ministro da Saúde são, por esse raciocínio, desconhecidas da grande massa. E esta, pondera o PMDB, precisa saber qual é, afinal de contas, a razão lógica para escolher José Serra como presidente da República.

Nesse ponto, os pemedebistas discordam dos marqueteiros e até de alguns políticos do PSDB que acreditam na possibilidade de Serra capitalizar o desejo por novos rumos, apenas pelo fato de ter uma identidade própria.

Pela análise dos parceiros de aliança de Serra, essa é uma argumentação complexa e tortuosa demais para convencer o eleitorado menos informado, a maioria. Na opinião deles, o mais correto seria Fernando Henrique tomar a iniciativa de dizer que seu governo acertou em alguns pontos, errou em outros, não conseguiu fazer tudo o que pretendeu, já representou uma mudança em relação ao passado e Serra seria o presidente ideal para continuar o processo de mudanças.

Ou seja, preserva-se a ''continuidade'' do slogan inicial e arquiva-se a idéia de rejeitar o ''continuísmo'', dada a dubiedade do conceito. Na conversa de domingo, mais uma vez Fernando Henrique ouviu que apresentar Serra como o candidato da mudança pura e simples fere a lógica dos fatos. E impede que se estabeleça uma relação de confiança entre o candidato e o eleitorado.

Em resumo, o discurso soa falso.

Na concepção dos pemedebistas está faltando aos publicitários responsáveis pela campanha a captação do sentimento político dos aliados que, nas andanças país afora cuidando das próprias campanhas, estão percebendo uma total incompreensão do que significa a candidatura José Serra.

Faltam argumentos que justifiquem o voto nele, mesmo àqueles cuja posição tende a ser favorável ao governo. Nesse vácuo, cresce Ciro Gomes pela percepção de que faria muito mais sem destruir o que está feito.

Justamente o caminho que o PMDB enxerga para a recuperação de Serra.

Apresentá-lo apenas como ''o mais preparado'' tem sido insuficiente. Há cerca de um ano, quando dava os primeiros sinais de rejeição a José Serra, o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, alertava que para fazer do tucano um candidato viável seria preciso mais do que lhe ressaltar a sabedoria.

Afinal, dizia o pefelista, eleição não é vestibular.

Como de resto também não deveria servir de instrumento para lavagem de biografias, mas esta é uma outra história.

Briga inútil
Pressão é o que não falta para José Serra romper publicamente com Tasso Jereissati. O candidato, no entanto, resiste. Pelas declarações amenas que tem feito quando cobrado sobre o apoio de Tasso a Ciro Gomes, Serra prefere fazer de conta que não é com ele.

Evidente que não nutre a menor ilusão a respeito da posição do ex-governador, que também não age às escondidas.

A questão é que, nesta altura dos acontecimentos, Serra não está exatamente precisando de atritos nem de transformar um adversário implícito em inimigo explícito.

Ainda mais um inimigo com a eleição de senador garantida e que, hoje, é tido nas conversas de bastidor como provável futuro presidente do Senado.

Numa ca sa que tudo indica abrigará de Antonio Carlos Magalhães a Leonel Brizola, o rompimento com Tasso configura-se contraproducente para qualquer um que tenha projeto político nacional.


Editorial

INIMIGO Nº 1

O corregedor-geral das polícias, Aldney Peixoto, confirma que está sendo investigada a denúncia de que o traficante Elias Maluco, procurado por ter executado pessoalmente o jornalista Tim Lopes, teria pago R$ 600 mil para subornar PMs que o teriam prendido há duas semanas.

Solto, Elias Maluco continua sua saga de inimigo público nº 1, com a agravante de que conta com auxílio de determinados policiais para continuar livre. Já que sempre consegue escapar das operações policiais, ou, conforme deduziu o corregedor-geral, goza de algum dom especial ou vazam as informações sobre as operações .

Coloca-se aí o dedo na ferida policial, que não cicatriza por falta de esprit de corps das corporações fluminenses. De nada adianta tentar reformar a polícia se existe movimento em sentido contrário dentro dela própria. O caso Elias Maluco comprova mais uma vez que as maçãs podres contaminam o cesto inteiro. É como se duas partes estivessem empenhadas num cabo de guerra em que cada uma delas puxa para seu lado, inviabilizando qualquer resultado final.

A deterioração policial salta aos olhos. A antinomia civil/militar não leva a parte alguma. A PM não vigia as ruas a contento e a Polícia Civil não investiga satisfatoriamente os crimes e os delitos - tanto que 90% dos processos enviados à Justiça dão em nada.

Qualquer Elias Maluco brinca de rato e gato com a polícia, equivalendo a brincar sinistramente com a sociedade inteira, que, no seu dia-a-dia, sente--se desprotegida.


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08/14/2002


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