Sem dinheiro e sem acordo
Sem dinheiro e sem acordo
Voltou à estaca zero a negociação para pôr fim à greve dos professores universitários, iniciada há mais de 70 dias. Ontem, quando representantes dos docentes e do Ministério da Educação estavam prestes a assinar o acordo, estabelecendo um cronograma para a volta ao trabalho, veio a notícia do Congresso: não existem mais os R$ 350 milhões acertados no Orçamento de 2002 para cobrir as reivindicações dos professores.
Os deputados disseram que só estão garantidos R$ 100 milhões. Segundo Gilmar Machado (PT-MG), sub-relator de Educação do Orçamento, os líderes dos partidos recusaram-se a tirar mais recursos das emendas de parlamentares e de bancadas para resolver o impasse. Já haviam sido retirados os R$ 150 milhões usados no acordo com os servidores, que encerraram a greve há duas semanas.
— O que foi dito é que o Legislativo não vai mais pagar para resolver um problema do Executivo — explicou Machado.
Os líderes decidiram transferir para o Executivo a tarefa de encontrar recursos no Orçamento para atender às reivindicações dos professores. O próprio líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), reconheceu que foi a esgotada a possibilidade de o Congresso resolver o problema. Na prática, os ministros da Educação, Paulo Renato Souza, e do Planejamento, Martus Tavares, serão os responsáveis por indicar de onde tirar dinheiro.
— Não vejo como o Congresso possa voltar a discutir esse assunto. O Orçamento de 2002 já está muito apertado, não tem de onde tirar esse dinheiro — disse Madeira.
O relator do Orçamento, deputado Sampaio Dória (PSDB-SP), explicou a dificuldade:
— A proposta orçamentária já é muita enxuta e são muitas as demandas: aumento de servidor, aumento de salário-mínimo e emendas de parlamentares.
Decisão de Marco Aurélio teria influído
A reação dos líderes teria sido, também, uma resposta do Congresso à decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Mello, que liberou o salário dos grevistas, retido desde outubro. Na opinião dos parlamentares, a decisão só complicou ainda mais uma greve, que já estava sendo marcada pelo enfrentamento. Ao sair de uma reunião na casa do presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), Madeira comentou com irritação a decisão judicial.
— Isso significa que grevista e quem não trabalha vai receber aumento do salário. Quem sabe então o ônus disso não deveria ir para o Judiciário — disse.
Marco Aurélio rebateu a crítica.
— Atuo na órbita do Direito. Vivemos no estado democrático de direito, em que as decisões judiciais devem ser observadas. Possíveis inconformismos devem ser feitos na seara própria — disse.
Com a reviravolta, o acordo não foi assinado.
— O ministro condicionou a assinatura do acordo à disponibilidade de recursos. Não posso assinar isso sem falar com ele — explicou a secretária de Ensino Superior, Maria Helena Castro.
Segundo Roberto Leher, presidente do Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes), o comando de greve está disposto a assinar o acordo assim que os recursos estiverem disponíveis. Mas a greve continua até que o dinheiro apareça. Com os salários de setembro pagos — o ministério liberou ontem a verba — os professores podem esperar.
— Só lamento pelos estudantes, pela sociedade. O custo dessa greve para a sociedade, que sustenta as universidades, é irrecuperável — disse Maria Helena.
Malan: governo não tem retido verbas
BRASÍLIA. Pressionado por parlamentares e até mesmo pelo ministro da Saúde, José Serra, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, divulgou ontem um balanço das liberações de recursos do governo para provar que não houve retenção do dinheiro destinado aos ministérios. Serra se reuniu com líderes da Câmara dos Deputados na terça-feira para pedir agilização na execução financeira da União. Malan explicou que, de janeiro a setembro, embora estivessem autorizados e prontos para ser liberados, R$ 5,85 bilhões não foram usados pelos órgãos do governo. Essa é a diferença entre os R$ 36,6 bilhões a que tinham direito pelo limite do decreto orçamentário e os R$ 30,8 bilhões que usaram.
— Liberamos recursos à medida que são solicitados. Esse dinheiro poderia ter sido gasto se fosse solicitado. Não são desígnios malévolos por parte do secretário do Tesouro Nacional ou do ministro da Fazenda. Não teríamos problemas se todos os ministérios tivessem pedido os recursos — disse Malan.
Em termos absolutos, o Ministério da Educação foi o que menos utilizou os recursos a que tinha direito. Deixou de usar R$ 822,5 milhões dos R$ 3,9 bilhões previstos no limite de janeiro a setembro, ou seja, aproveitou 79,1% do total. O Ministério da Saúde, que deixou de sacar R$ 671,9 milhões dos R$ 14,9 bilhões a que tinha direito. Em termos percentuais, significa que usou 95,5% dos recursos previstos.
O balanço foi enviado ontem à Comissão Mista de Orçamento. Se esses recursos não forem usados e ficarem para 2002, é possível que os ministérios não consigam mais gastá-los: essas despesas, assim como os gastos previstos no Orçamento 2002, seriam contabilizadas como déficits nas contas públicas ao longo do ano e o governo tem uma meta fiscal a cumprir.
O ministro admitiu a possibilidade de se remanejarem recursos dentro dos órgãos do governo, mas destacou que essa não é uma função do Ministério da Fazenda:
— O presidente Fernando Henrique pode fazer o remanejamento que lhe parecer conveniente.
A reunião do ministro José Serra com o comando do PSDB para traçar uma estratégia de pressão por mais recursos para o setor provocou reação imediata da equipe econômica. No mesmo dia em que Malan concedeu entrevista para negar que esteja represando recursos para atendimento das emendas coletivas, o ministro do Planejamento, Martus Tavares, disse que a autorização de gastos depende da disponibilidade de caixa do Tesouro:
— O ministro não tem um saco cheio de dinheiro para tirar e gastar o quanto querem. Não está chovendo dinheiro nem no Ministério da Fazenda nem no Planejamento.
Chirac é só elogios a Fernando Henrique
PARIS. O reconhecimento dos franceses à importância política do presidente brasileiro surpreendeu o próprio Fernando Henrique e foi novamente manifestado ontem em Paris. Depois de ser aplaudido de pé no fim de seu discurso na Assembléia Nacional francesa, na terça-feira, Fernando Henrique foi chamado ontem pelo presidente da França, Jacques Chirac, de “um líder eminente do mundo contemporâneo”.
Chirac considerou marcante o discurso do presidente e destacou o fato de todos os parlamentares — de direita e de esquerda — terem aplaudido Fernando Henrique. Depois do almoço, o presidente brasileiro embarcou para o Brasil, encerrando uma viagem de sete dias a Madri e a Paris.
Os jornais franceses deram destaque à visita de Fernando Henrique e ao seu discurso. Mas também deram espaço à crise argentina, afirmando que o Brasil vem sendo afetado pelas dificuldades financeiras do país vizinho. O jornal “Le Figaro” chamou Fernando Henrique de “porta-voz dos países emergentes”. O “Libération”, o “Le Point” e o “Le Parisien” destacaram trechos do discurso do presidente sobre a proposta de criação de uma nova ordem mundial.
FH diz que relação com a França está progredindo
No almoço, Chirac e Fernando Henrique falaram sobre os avanços nas negociações entre Mercosul e União Européia, na reunião que acontece em Bruxelas. Apesar de não terem anunciado qualquer acordo entre os dois blocos ou entre Brasil e França, Fernando Henrique disse que as relações entre os dois países estão “progredin do muito positivamente”. Como não poderia deixar de ser, falaram sobre a situação mundial diante dos atentados terroristas ocorridos nos EUA e a reação militar americana no Afeganistão. Chirac disse que eles tinham uma “visão idêntica sobre os problemas que o mundo enfrenta e sobre as questões de interesse bilateral”.
— Temos uma amizade profunda, que não é afetada por nada — disse Chirac.
— Nossas convergências são enormes — afirmou Fernando Henrique.
Ao agradecer os elogios de Chirac, Fernando Henrique não escondeu a satisfação com a repercussão do seu discurso, mas disse que se tratava de uma homenagem ao Brasil.
— Fiquei surpreso. Não esperava que houvesse uma generosidade tão grande. Atribuo isso ao espírito francês e à amizade que a França tem pelo Brasil, muito mais do que às qualidades que eu possa ter — disse Fernando Henrique.
Chirac: “Não me lembro de sucesso tão considerável”
O presidente disse que estava emocionado pela forma como fora recebido na Assembléia Nacional francesa. Chirac quebrou o protocolo e falou ao lado de Fernando Henrique.
— Vou expressar simplesmente a felicidade da França, e especialmente a minha, de receber aqui uma personalidade eminente do mundo contemporâneo e também um amigo da Europa e da França. E esse amigo que foi extraordinariamente apreciado no Parlamento francês. Não me lembro de um chefe de Estado que tenha tido um sucesso tão considerável — disse Chirac.
Na noite de terça, Fernando Henrique Cardoso relembrou seus tempos de sociólogo e professor na França, recebendo para jantar os intelectuais Edgard Morin e Alain Touraine, além do ex-primeiro-ministro francês Michel Rocard.
Oposição aplaude e tucanos criticam
BRASÍLIA. No Congresso, as declarações do governador do Ceará, Tasso Jereissati, contra a política social do governo deixaram constrangidos os tucanos e serviram de munição para críticas da oposição.
— No fundo, no fundo, todo mundo é um pouco PT — brincou o deputado José Genoino (PT-SP), que usou o slogan da campanha do partido.
O líder do bloco de oposição no Senado, José Eduardo Dutra (PT-SE), disse que Tasso demorou muito a assumir o discurso oposicionista:
— O que estranho é que tenha esperado sete anos para dizer o que já dizíamos desde o início do governo.
Madeira diz que governo investiu na área social
O líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), disse que é injusto falar mal do governo na área social. Madeira afirmou que o governo investiu muito no social e melhorou a educação, a saúde e a renda. Afirmou ainda que, se não fosse a estabilidade econômica, ninguém poderia falar em erradicar a pobreza.
— A marca forte desse governo é o social e quem é governo não ganha eleição com discurso de oposição — comentou Madeira.
O líder do governo no Senado, Artur da Távola (PSDB-RJ), disse que nunca se fez tanto na área social como no governo Fernando Henrique. Sobre a defesa de Tasso de maior presença do Estado, afirmou que é preciso cobrar maior responsabilidade da sociedade nas questões nacionais e presença menor do governo.
Távola: mérito do governo foi exigir participação
Para Távola, um dos méritos do governo foi justamente acabar com o Estado patriarcal e exigir a participação responsável da população nas decisões.
Para o deputado Jaques Wagner (PT-BA), o governador nada mais fez do que repetir o discurso recomendado pelos marqueteiros. Wagner disse que é fácil, depois de tanto tempo se beneficiando do governo, falar que o que é bom deve ser partilhado, e que o que é ruim deve ser excluído.
— Esse discurso foi encomendado sob medida para Tasso Jereissati e Roseana Sarney (governadora do Maranhão). Isso mostra como eles estão afinados — disse o deputado
Tasso: governo não reduziu desigualdades sociais
O governador do Ceará, Tasso Jereissati, pré-candidato do PSDB à Presidência, afirmou ontem que o governo Fernando Henrique foi incapaz de diminuir as desigualdades sociais e defendeu uma mudança de rumo, com a adoção de medidas que acelerem o crescimento econômico e tornem a sociedade brasileira mais justa. Ao discursar para empresários na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Tasso enumerou iniciativas do governo que, em sua opinião, devem ser preservadas. Citou o controle da inflação, o combate à corrupção e a melhoria de indicadores sociais. No entanto, disse que foram cometidos erros.
— Houve erros, que talvez eu também cometesse. Mas isso não interessa. Interessa que nós temos que enfrentar esses erros, esses problemas que foram criados — afirmou Tasso, que participou do Fórum da Gestão Pública Eficiente.
“Não podemos ser prósperos num país de miseráveis”
O principal desafio do país, disse, é diminuir o abismo entre ricos e pobres.
— Reconheço que não fomos capazes de reduzir a diferença entre os mais ricos e os mais pobres. Vivemos num país profundamente injusto e desigual, o que vai gerar problemas sociais mais profundos — disse Tasso, que completou:
— Não podemos ser prósperos num país miserável.
Para implementar as mudanças, disse Tasso, é preciso que o Estado brasileiro assuma uma função estratégica, na qual o Ministério da Fazenda não pode ter o papel preponderante que tem hoje. Tasso disse entender a importância dada à área econômica desde o início do primeiro governo Fernando Henrique, devido ao desafio representado pela escalada inflacionária e pelo desequilíbrio fiscal. Afirmou, porém, que as conjunturas nacional e internacional mudaram desde 1994 e que, por isso, é preciso acabar com o desequilíbrio provocado dentro do governo.
— Há um desequilíbrio em relação ao peso do Ministério da Fazenda e o resto do governo. Hoje, o Ministério da Fazenda é o grande centro do governo. Compreensível, porque esse governo começou com uma hiperinflação, com ameaças de descontrole total — disse Tasso.
Apesar da crítica, Tasso elogiou o ministro Pedro Malan, que, segundo ele, prestou grandes serviços ao país. O governador disse que a mudança de foco tornou-se necessária porque a realidade atual é muito diferente do quadro existente há oito anos:
— A idéia de que a economia poderia resolver sozinha a questão do desemprego e gerar renda não funcionou entre nós. E acho que não funciona em lugar nenhum. É preciso mais Estado. Não o Estado empresário, não o Estado ineficiente. É preciso mais Estado, capaz de corrigir esse desequilíbrio.
Privatização reduziu a corrupção, diz governador
No início de sua exposição, Tasso afirmou que pretendia esclarecer o que dissera na semana passada, no lançamento de sua pré-candidatura, quando suas declarações foram interpretadas como críticas a Malan. O governador passou metade de sua palestra enumerando as conquistas do governo. Elogiou avanços nas áreas de educação e saúde. Previu que o analfabetismo será erradicado em futuro próximo e afirmou que as taxas de mortalidade infantil caíram e se aproximam de padrões europeus.
O processo de privatização, segundo Tasso, também contribuiu para diminuir a corrupção, cujo foco principal, segundo o governador, estava nas empresas estatais. Elogiou também o processo de reforma agrária, aproveitando para criticar o MST:
— Há muito tempo o MST perdeu suas características de movimento que defendia os camponeses sem terra. Tornou-se um movimento meramente político, com características revolucionárias.
Senado arquiva investigação sobre Eduardo Jorge
BRASÍLIA. Foi arquivada ontem pelo Senado, definitivamente, a investigação sobre o ex-secretário geral da Presidência Eduardo Jorge. Apesar de o caso ter sido encerrad o na semana passada na Comissão de Fiscalização e Controle, a oposição pediu que fosse revisto pelo plenário.
O relatório aprovado afirma que não foi encontrada irregularidade nas declarações de renda e nas contas bancárias do ex-secretário.
— Isso é uma questão meramente política. O Senado precisa acabar com esse moralismo vingador — disse o líder do governo, senador Artur da Távola (PSDB-RJ).
Já o líder do bloco da oposição, José Eduardo Dutra, voltou a dizer que o senador Ney Suassuna (PMDB-PB) arquivara o caso na semana passada em retribuição à sua indicação para o Ministério da Integração Nacional.
Proliferação de fitas atinge o PT
PORTO ALEGRE e BRASÍLIA. O delegado Wilson Müller entregou ontem à CPI da Segurança do Rio Grande do Sul mais uma fita que, segundo ele, compromete o governo Olívio Dutra com o jogo do bicho. A fita seria degravada na noite de ontem. Foi Müller quem entregou a primeira fita, semana passada, na qual o coordenador da campanha eleitoral de Olívio, Diógenes de Oliveira, pedia à polícia que não reprimisse o jogo do bicho.
Uma segunda fita foi entregue por Müller ao Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. Ela comprometeria a atuação do secretário de Segurança Pública gaúcho, José Paulo Bisol. A gravação, realizada em abril de 1999, no gabinete do secretário, refere-se a um episódio ocorrido no fim de 1998 e conhecido no Estado como o “caso Konrath”. A fita reproduz um diálogo travado entre Bisol e um grupo de mulheres de soldados da Brigada Militar, presos por assassinarem um menor de 14 anos, no município de São Francisco de Paula. O menor havia assassinado um soldado da corporação.
Na conversa com as mulheres dos policiais, José Paulo Bisol, afirma:
— Se o soldado cooperar com a verdade e expor a verdade, isso vai ser levado em consideração e vai diminuir sua pena.
Segundo o Movimento de Justiça e Direitos Humanos, a promessa de redução da punição mediante a confissão de culpa não está prevista no Código Penal Brasileiro.
Denúncias contra mais um governador petista
Mais um governador petista, Jorge Vianna, do Acre, pode ter problemas por envolvimento de subordinados com supostas irregularidades. No Acre, existe uma conversa telefônica gravada entre um empresário que seria um dos líderes do cartel de combustível do estado, Antônio Santana de Souza, com Jorge Fernando Oliveira Lima, ex-presidente da comissão de licitação do Acre e ex-secretário de campanha de Jorge Vianna. Na conversa, Santana e Jorge Lima teriam fechado um acordo: o fornecimento de gasolina na campanha em troca de apoio na hora de contratar as empresas que vendem combustível para o governo do estado. O posto escolhido pelo governo seria o de Santana.
O processo estava correndo em sigilo, mas o deputado estadual João Correa (PMDB) divulgou seu conteúdo, e ainda acusou a Polícia Federal de ter feito adulterações na degravação, para encobrir o envolvimento do secretário de Fazenda do estado, Mâncio Lima Cordeiro. O senador Tião Vianna (PT-AC), irmão do governador, afirma que o caso está sendo investigado e continuará sendo. Ele também desmente a adulteração da fita.
Justiça livra Maluf de punição na investigação sobre os precatórios
SÃO PAULO. A juíza Adriana Pillegi de Soveral, da 8 Vara Criminal Federal, decretou ontem a prescrição dos crimes de responsabilidade e falsidade ideológica que teriam sido cometidos pelo ex-prefeito Paulo Maluf no caso dos precatórios emitidos irregularmente pela Prefeitura de São Paulo em 1994, quando ele era prefeito. Como Maluf completou 70 anos em setembro e a lei prevê que septuagenários têm pena reduzida à metade, pelos cálculos da juíza os crimes estariam prescritos em 30 de novembro de 2000.
A juíza explica, num despacho de 20 páginas, que “o prazo prescricional dos crimes atribuídos a Paulo Maluf se deu em 30 de novembro de 2000. O prazo prescricional caiu pela metade em razão de o réu já ter completado 70 anos. Assim, a pena máxima que lhe poderia ser atribuída (12 anos) ficou reduzida a seis anos. Como a ocorrência do último delito se deu em 30 de novembro de 1994, ficou o crime prescrito desde 30 de novembro de 2000. Deste modo, o Estado perdeu o direito de punir”.
Demais réus continuam respondendo a processo
O Ministério Público Federal recorrerá da sentença. Na ação que investiga o desvio de R$ 600 milhões da prefeitura para o pagamento de precatórios são réus ainda o ex-prefeito Celso Pitta e o ex- coordenador da Dívida Pública Wagner Batista Ramos, que continuam respondendo a processo.
A juíza decidiu que a investigação sobre as supostas contas de Maluf na Suíça e nas Ilhas de Jersey devem continuar, mas os advogados do ex-prefeito pretendem usar a sentença para encerrar a apuração sobre os US$ 200 milhões que Maluf teria no exterior.
— O Ministério da Justiça estava se baseando no processo dos precatórios para afirmar que Maluf teria desviado para o exterior dinheiro da emissão dos títulos públicos para o pagamento de precatórios. Se a Justiça Federal determinou a extinção da punibilidade do ex-prefeito no caso, não se justifica também a investigação no caso das contas no exterior — disse o advogado Ricardo Tosto.
Anteontem, Maluf obteve outra vitória na Justiça. A 3 Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a decisão judicial que determinou a quebra do sigilo bancário e telefônico dos parentes do ex-prefeito. A quebra do sigilo de Maluf está valendo.
CPI quebra sigilo bancário e fiscal de lobista
BRASÍLIA. O lobista Alexandre Paes dos Santos e o ex-assessor do Ministério da Fazenda Hugo Braga serão investigados pelo Congresso. A Comissão Parlamentar de Inquérito Mista que apura o roubo de cargas aprovou ontem requerimentos apresentados pelo PT com os pedidos de quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dos dois, além da convocação de ambos. A justificativa para fechar o cerco ao lobista e ao funcionário que usava motorista pago por ele foi o possível lobby em favor dos supermercados Carrefour.
A CPI já investigava a suspeita de que o Carrefour seria comprador de mercadorias roubadas. Alexandre foi contratado pela empresa para assessorá-la nas sessões da CPI. Na sessão presidida pelo senador Romeu Tuma (PFL-SP), seu filho, deputado Robson Tuma (PFL-SP), citado na agenda do lobista, defendeu a aprovação dos requerimentos e disse que vai interpelar Santos judicialmente.
Líder quer ouvir ministros na Comissão de Orçamento
A oposição trabalha com a hipótese de conseguir desvendar o esquema de lobby de Santos no Executivo e no Legislativo. O líder do PT na Câmara, Walter Pinheiro (BA), desistiu da convocação dos ministros da Fazenda, Pedro Malan, e da Saúde, José Serra, na Comissão de Fiscalização e Controle. Pinheiro agora acha que o melhor lugar para ouvir os ministros será na Comissão Mista de Orçamento, área de maior atuação dos lobistas.
Ainda ontem, Santos recebeu da Corregedoria da Câmara um convite para que preste depoimento ao corregedor, Barbosa Neto (PMDB-GO).
Até agora acuado pelas denúncias, o lobista decidiu partir para o ataque. Ele disse ontem que sua agenda apreendida pela Polícia Federal foi adulterada e sugeriu que seja investigada a informação que circula entre representantes de laboratórios em São Paulo sobre supostas cobranças de comissão envolvendo servidores do Ministério da Saúde.
— Vou desmascarar essa farsa. O que estão fazendo deve ser para encobrir outras coisas — afirmou Santos.
Reunido o dia todo com seu advogado Felipe Amodeo, no Rio, o lobista confirma que foi ele quem pagou o motorista usado pelo ex-assessor parlamentar do Ministério da Fazenda Hugo Braga. Santos disse que o moto rista é de sua empresa e que eventualmente era cedido para o ex-assessor. O lobista afirma, no entanto, que não há qualquer irregularidade na cessão de seus quatro motoristas a Hugo Braga.
— Fazia isso porque o Hugo é meu amigo. O conheci antes mesmo dele ir para o ministério — afirmou.
Santos afirmou que estão faltando 14 páginas na sua agenda, apreendida pela PF. Segundo o lobista, sumiram uma página de anotações esparsas, duas páginas para agendamentos para 2002 e a lista completa de nomes e telefones.
Nicolau vai voltar para a prisão especial da PF
SÃO PAULO. A permanência do juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto numa cela comum da Polícia Federal, em São Paulo, durou pouco. A desembargadora Suzana Camargo, do Tribunal Regional Federal (TRF), determinou ontem sua transferência para uma sala no piso superior da Casa de Custódia da PF, adaptada como cela especial. A transferência estava prevista para acontecer na noite de ontem.
O lugar é o mesmo em que o juiz esteve preso desde que se entregou à PF, em 8 de dezembro de 2000, até ser beneficiado pela prisão domiciliar, em 29 de junho. A sala tem de seis metros quadrados e uma janela. O cômodo não tem banheiro, mas Nicolau poderá usar o mesmo que é utilizado por agentes federais, com chuveiro quente. No período em que esteve na cela, Nicolau tinha uma cama, cadeira, televisão e videocassete.
A decisão da desembargadora atendeu ao pedido dos advogados de Nicolau, que protestaram contra a prisão na cela comum situada no porão do casarão da PF.
Artigos
A hora de ser humano
EMERSON KAPAZ e ODED GRAJEW
Aguerra no Afeganistão e o terrorismo bacteriológico desbancaram do noticiário um fato igualmente assustador: o ovo da serpente do racismo e da intolerância religiosa eclodiu novamente. Meses atrás, no encontro de Durban, destilava-se ódio contra americanos e israelenses.
Na seqüência, após o hediondo atentado terrorista aos Estados Unidos, começou uma onda de discriminação contra afegãos, árabes e muçulmanos.
Infelizmente, nada leva a crer que o aumento da intolerância tenha arrefecido. Ao contrário, ele volta a se manifestar diariamente nas entrelinhas das declarações de chefes de Estado; no desconforto dos passageiros dos aviões quando alguém com outra cor de pele se senta ao lado deles; no recrudescimento da violência e das repressões no Oriente Médio; e por aí afora.
Abominável e injustificável, o recrudescimento do preconceito tem razões que merecem uma reflexão mais profunda. Historicamente, ele se nutre de um fenômeno comum: o enfraquecimento da valorização do ser humano.
Tanto no sistema de valores do fundamentalismo fanatizado como na sofisticação tecnológica a que se chegou no mundo ocidental, a vida humana perde importância. Isto é visível na criança que aparece portando armas ou é obrigada a trabalhar, no adolescente destituído de ideais e utopias sadias e no adulto que sofre com os modelos econômicos que alargam a distância entre o Primeiro Mundo e o restante da Humanidade, aumentando o fosso entre ricos e pobres, separando o Ocidente do Oriente.
É neste quadro que ganha força o traficante idolatrado por garotos da periferia, o terrorista amado pelos meninos miseráveis que já nasceram excluídos de uma existência digna, o político que prega a expulsão dos imigrantes ou o governante que lança seu país a conflitos étnicos.
A satanização do diferente, impingindo-lhe toda a culpa pelo sofrimento humano, encontra um terreno igualmente fértil entre os filhos da opulência e da miséria.
Assim, o ser humano, o grande artífice da civilização e que deveria ser o maior beneficiário do processo de desenvolvimento sustentável e dos avanços na qualidade de vida, está se perdendo.
De um lado, mais de seis mil pessoas de 62 nacionalidades foram assassinadas no World Trade Center porque duas dezenas de terroristas preencheram o vazio de suas existências com uma ideologia carregada de ódio e preconceito.
De outro, tentam obrigar-nos a engolir um discurso pseudo-salvacionista e igualmente preconceituoso, dotado de um maniqueísmo primitivo do tipo “quem não está conosco, está contra nós”, e que só levará a uma ampliação da violência mundial.
É o momento de resistir, a partir de uma profunda reflexão sobre o que está ocorrendo. Independente de crença, raça, cor, sexo, tradições, objetivos econômicos e políticos, qual é a responsabilidade comum a toda a humanidade? Qual é o modelo de inserção social, de aumento da qualidade de vida que devemos perseguir, tendo o ser humano como pressuposto e fim, e não o sobe-e-desce de ações, moedas e patrimônios materiais?
O que temos a oferecer como novas propostas ideológicas contra o fanatismo e o obscurantismo, que hoje parecem ainda mais fortes, apesar de terem dizimado mais de cem milhões de pessoas no século passado?
É perfeitamente possível construir caminhos comuns, respeitando crenças e individualidades. Dos autores deste artigo, um é descendente de árabes, outro de judeus; um milita no PPS, outro no PT. O que não impediu que já fizéssemos várias coisas em conjunto, com a esperança em uma sociedade menos desigual.
Trata-se de um mero exemplo de como é possível se opor a preconceitos e construir projetos de renovação social. É disso que o mundo de hoje mais precisa, e não de ações que aumentem a degradação da Humanidade.
O maior desafio que o homem tem pela frente é como ser humano, em todos os sentidos, reconstruindo o mundo para torná-lo habitável e digno para nós e nossos filhos. Caso contrário, nada valerá a pena.
Colunistas
PANORAMA POLÍTICO –TEREZA CRUVINEL
Negação do ser
Há uma diferença, ainda que sutil, entre criticar e fazer reparos. Ao falar ontem na Firjan, o governador Tasso Jereissati fez reparos ao governo FH, irritando tucanos mais próximos do presidente. É o que também faz, com freqüência menor, por ora, o ministro José Serra. Mas está posto um dilema da sucessão no campo governista: a dificuldade do presidente FH de assimilar reparos a seu governo. Ou críticas.
Esse é um assunto sobre o qual têm conversado os tucanos grandes, inclusive com Serra e Tasso. Acham que não há saída senão a transigência: trata-se de uma eleição, a função do candidato é despertar esperança no eleitor, convencê-lo de que tem a melhor proposta e ganhar seu voto. E terá que fazer isso dentro do quadro de expectativas do momento. O de hoje comporta o reconhecimento de alguns feitos do governo, principalmente o fim da inflação, mas é fortemente marcado pelo desejo de mudanças. Toda e qualquer pesquisa diz isso. Em tal situação, e tratando-se de uma eleição, repete um dirigente tucano, não se pode esperar do candidato oficial a defesa plena e intransigente do governo. Isso podem fazer o presidente, o ministro Malan e outros que não tenham de subir no palanque.
Mas o presidente, intelectualmente vaidoso e politicamente narcisista, como já confessou, terá imensa dificuldade de assimilar tais comportamentos de campanha. Na semana passada, não escondeu de alguns seu descontentamento com a fala de Tasso em São Paulo. E mesmo com a metáfora de Serra (que recebeu por escrito) sobre a necessidade de responsabilidade cambial, uma farpa remota contra a sobrevalorização cambial. Ontem, ao saber da fala de Tasso, dois líderes muito próximos do presidente, Artur da Távola e Arnaldo Madeira, saíram em defesa do governo.
O que disse Tasso de muito grave? Louvou o governo, mas tocou em dois pontos nevrálgicos. Não pela primeira fez, discordou de fundamentos do receituário liberal:
— A idéia de que a economia poderia resolver sozinha a questão do desemprego e g erar renda não funcionou entre nós. E acho que não funciona em lugar nenhum.
Depois, afirmou que o governo de seu partido não conseguiu reduzir a pobreza nem a diferença entre ricos e pobres. Essa é uma afirmação que deve incomodar muito mais o presidente, que tanto se empenhou na Europa em destacar suas políticas sociais, cujo impacto, segundo ele, será percebido a longo prazo.
O gasto social de fato cresceu muito em seu governo. Os programas de renda-mínima, incluindo o Funrural e as diferentes bolsas, consomem R$ 30 bilhões/ano, mas não mudaram a face do país. Ou porque o buraco é bem maior e/ou porque há erros de implantação e “eleição do público alvo”, como diz o PFL. Sim, porque não só os tucanos tentam se descolar do governo. E isso também o ego de FH terá que assimilar.O PPB anda um tanto indócil. Depois do lançamento da candidatura de Pratini de Moraes, a bancada disse a Aécio Neves que está com ele para o que der e vier.A França Antártica
O sucesso de FH na Europa e principalmente o aplauso da esquerda francesa esquentaram o debate político ontem: governistas louvando, adversários cobrando ambivalência entre discurso e prática, a própria esquerda rachada entre a severidade do PT e a benevolência de Roberto Freire, do PPS. O que esse alvoroço prova é que FH acertou na estratégia centrípeta, ao buscar reforço político interno com sua exposição externa.
No falatório, uma explicação mais original para o encantamento francês, a do deputado Paulo Delgado (PT-MG):
— Acima de tudo, a França tem hoje uma atração estratégica pelo Brasil. Cansada de esperar a emancipação de Quebec, procura um parceiro relevante na América Latina, e o Brasil tem o melhor potencial, inclusive por razões culturais. FH não disse o “Vive la France” por pura emoção.Navalha na carne
Do deputado José Genoino sobre o caso Olívio Dutra-bicheiros:
— Concordo com Tarso Genro, o PT não é uma legião de anjos. Mas sabe cortar na própria carne e expulsar os demônios que atentam contra a ética.
Está selado o destino do ex-tesoureiro do PT gaúcho.Sossega tucano
Do senador Carlos Wilson (PTB-PE), primeiro secretário do Senado, sobre os reparos de Tasso Jereissati ao governo FH:
— Os tucanos estão irritados à toa. Tasso mostrou que está afinado com o que diz o presidente. Só que na Europa.
OS GOVERNISTAS ensaiavam não aprovar em segundo turno a emenda do senador Ademir Andrade (PSB-PA) que permite o confisco das terras onde se pratica trabalho escravo. Ainda existem, se alguém duvida, sobretudo no Norte. Ademir apelou ao líder Geraldo Mello: “Não podemos desmentir o discurso social-humanista do presidente na França”.
Editorial
Era de desafios
Aprimeira reação dos EUA aos atentados de 11 de setembro não poderia ser outra senão a militar. E diga-se, a favor do presidente Bush, que não houve precipitação ou improviso. Ele próprio teve o bom senso de preparar a opinião pública para uma guerra longa e pouco convencional. E desde o começo alerta que a destruição de Osama bin Laden não bastará para restaurar o tipo de ordem mundial em que seja possível sair de casa sem medo.
Mas as dificuldades têm se revelado maiores do que o esperado — e isso se reflete em perplexidade e desgaste político. Está claro que não se sabe como enfrentar a ameaça do bioterrorismo. O despreparo pode ser medido pelo recente alerta do procurador-geral, John Ashcroft, aos americanos sobre a possibilidade de novos ataques nos próximos dias: ele não quis ou não pôde especificar onde e quando.
Nada ilustra melhor a complexidade da desordem atual, e da ordem que se configura, do que o caso da Arábia Saudita. Um dos principais elos da aliança formada pelos EUA contra o terror, essa inesgotável fonte de petróleo é um poço de ambigüidades. Além de financiar os talibãs, a Arábia Saudita permitiu o levantamento de recursos para Bin Laden, desde que o dinheiro não fosse usado para atacar o regime saudita.
Outro sintoma dos tempos atuais são os milhões de jovens muçulmanos pobres, sem horizontes visíveis no mundo globalizado. Eles funcionam como um exército de reserva à disposição do radicalismo. As respostas dadas até agora ainda não estão à altura da nova realidade.
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11/01/2001
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