Apoios incômodos
Apoios incômodos
Por ser inimigo de Serra, PTB recomenda apoio a Lula. ‘‘Essa não é nossa gente’’, disse o líder do partido, deputado Roberto Jefferson, ao recomendar o voto ao petista. Do lato do PT, a aliança foi recebida com discrição. Maluf (PPB) também aderiu
O presidente Fernando Henrique Cardoso bem que tentou evitar com o seu poder de sedução. Porém, a aversão a José Serra (PSDB) acabou sendo, de novo, determinante para que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistasse mais um apoio. O PTB, ex-integrante da Frente Trabalhista de Ciro Gomes (PPS), aprovou ontem recomendação de voto ao candidato petista. ‘‘Não tomamos essa decisão por amor ao Lula, mas sim por ódio ao Serra’’, disse o presidente nacional petebista, deputado José Carlos Martinez (PR), um dos estrategistas da campanha de Ciro. Depois do PL, é o apoio mais à direita feita por Lula. Legenda conhecida por abrigar ex-colloridos, o PTB também fez parte da base de sustentação durante o governo Fernando Henrique.
A decisão de declaração de voto em Lula foi anunciada como unâmime. Contudo, o líder do PTB na Câmara, deputado Roberto Jefferson (RJ), era contra. Por razões pessoais e de amizade a um outro tucano: na tarde de quarta-feira, ele recebeu um telefonema de Fernando Henrique. ‘‘Jefferson, o que você acha, hein?’’, disse. ‘‘Presidente, muito difícil. O Martinez está muito ressentido com o Serra’’, contou o líder petebista. ‘‘Coloca ele na linha. Vamos marcar uma conversa’’, insistiu o Fernando Henrique.
Pouco adiantou. O presidente do PTB até atendeu ao telefonema. Marcou a conversa para ontem à noite, mas à tarde já havia anunciado a decisão da Executiva do PTB. Poderia ter sido pior. O partido ameaçava declarar apoio formal a Lula. Mas, a pedido de Jefferson, acabaram decidindo apenas pela recomendação de voto.
Martinez e o candidato a vice derrotado na chapa de Ciro, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, consideram Serra o grande culpado pelos ataques que sofreram no primeiro turno. O presidente do PTB voltou às páginas dos jornais por causa de um empréstimo (cerca de R$ 30 milhões em valores atualizados) que ele recebeu, no começo dos anos 90, de Paulo César Farias, o PC, conhecido então como o influente tesoureiro de campanha de Fernando Collor.
O dinheiro foi utilizado para compra de canais de televisão no Paraná a fim de formar a rede CNT, da qual Martinez é proprietário. O retorno do assunto à mídia resultou no afastamento do presidente do PTB da coordenação geral da campanha de Ciro Gomes. Ontem, na reunião da Executiva do partido, Martinez relembrou a história ao defender o apoio a Lula. ‘‘Havia gente que não queria, mas decidimos fazer isso em desagravo ao Martinez’’, contou Jefferson.
Vento e tempestade
O ódio contra Serra também moveu Paulinho. Antes mesmo da reunião de ontem em Brasília, ele já havia declarado voto em Lula em São Paulo. ‘‘Quem planta vento colhe tempestade’’, afirmou, repetindo a frase já utilizada por Martinez para justificar o voto contra Serra. Presidente da Força Sindical, Paulinho é investigado por um suposto desvio de recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT) para compra de uma fazenda em Piraju, interior de São Paulo.
Nada tira da cabeça de Paulinho que a investigação contra ele tenha sido fomentada por Serra. ‘‘Isso está sendo utilizado para prejudicar a minha campanha’’, disse à época. O presidente da Força ficou ainda mais irritado depois que a Controladoria Geral da União, ligada à Presidência da República, recomendou ao Ministério do Trabalho o fim dos recursos do FAT para a Força. ‘‘Depois disso, eu não falo mais com o presidente’’, disse, magoado.
Nesse aspecto, ele diverge de Martinez. ‘‘Sempre fomos bem tratados pelo presidente Fernando Henrique. A gente fica muito triste de não poder apoiar um candidato indicado por ele’’, disse.
No começo da noite, Roberto Jefferson ligou para o presidente e avisou sobre o apoio petebista a Lula. A nova aliança não anima nada o líder do PTB. ‘‘Essa não é nossa gente. Para mim vão fazer um governo de inquisição. Mas o Brasil vai ter de passar por isso’’, disse. O apoio do PTB a Lula foi articulado por José Dirceu, presidente nacional do PT. Tudo aconteceu sem alarde e deve continuar assim (leia mais sobre apoios a Lula na página 8). Segundo Martinez, não deverá haver uma reunião de integrantes do partido com Lula.
A debandada direitista para a candidatura de Lula foi ampliada em São Paulo. O outro apoio incômodo é o do candidato derrotado do PPB ao governo paulista, Paulo Maluf, decidiu apoiar Lula, mas não subirá no palanque petista. A declaração de voto, porém, somente será dada depois que a Executiva do PPB e a bancada federal divulgarem, na semana que vem, a posição oficial sobre os rumos que o partido tomará neste segundo turno.
Serra com vergonha de aliados
Mesmo com as dificuldades para conseguir apoios que o ajudem a reverter a vantagem de 20 milhões de votos de Lula, candidato do PSDB evita aparecer com aliados envolvidos em escândalos, como Roriz, Jader Barbalho e Taniguchi
O governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, o deputado eleito Jader Barbalho (PMDB) e o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi (PFL), são alguns dos aliados dos quais o candidato a presidente José Serra prefere manter distância na campanha do segundo turno. Mesmo desesperado atrás de votos que reduzam sua enorme desvantagem em relação ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, Serra tem medo de ver seu nome envolvido em escândalos e situações constrangedoras.
O caso de Roriz é o mais recente. Ele e Serra desfilaram juntos em quatro comícios no Distrito Federal e numa visita ao restaurante comunitário de Samambaia na campanha do primeiro turno. Mas ontem, em seu primeiro compromisso público em Brasília depois da primeira rodada de votação, Serra apareceu sozinho para receber o apoio de líderes da igreja evangélica Assembléia de Deus.
A ausência de Roriz não foi um mero problema de agenda, como afirmaram pastores da igreja. Os tucanos e a própria cúpula do partido de Roriz, o PMDB, querem distância do que consideram aliados-problema. E Roriz encabeça a lista, principalmente depois de denúncias que o envolveram com acusados de grilagem de terras e do desgaste político de ter obtido, na Justiça, a divulgação de fitas gravadas que o incriminariam.
A equipe de Serra faz ainda algumas contas para justificar seu afastamento de Roriz. No Distrito Federal, o candidato a presidente obteve 16,8% dos votos válidos e o candidato a governador, 42% — prova de que Roriz não transferiu ou votos para Serra. Os votos de Serra no DF ficaram sete pontos abaixo da média nacional.
Por isso, políticos do PMDB e do PSDB acham que é melhor deixar os dois separados no segundo turno. Os tucanos avaliam que Roriz terá obrigatoriamente que defender o voto em Serra para tentar reduzir a transferência de votos de Lula para o candidato do PT a governador, Geraldo Magela. Além disso, Lula poderia, como presidente, passar o controle das terras públicas do DF para a União.
O cabo eleitoral que a equipe de Serra pretende usar no Distrito Federal é a deputada Maria Abadia (PSDB), candidata a vice-governadora na chapa de Roriz. Essa saída foi aprovada inclusive pelo PMDB durante reunião na casa do presidente do partido, Michel Temer, há dois dias. Para ampliar a votação de Serra no DF, a idéia é aproximar Abadia de Rita Camata, candidata a vice-presidente.
No norte e no sul
Abadia não tem qualquer vinculação com as denúncias de grilagem de terra. Ela e Rita, como deputadas, sempre tiveram um bom relacionamento no Congresso. Quando Rita foi anunciada candidata a vice-presidente, Abadia estava nas primeiras fileiras para cumprimentá-la. Na próxima semana, as duas devem estar juntas numa reunião de mulheres.
Mas os aliados incômodos para Serra estão também fora do DF. O PMDB do Pará abriu palanque no estado para Serra, mas a dificuldade é colocar o candidato ao lado do deputado eleito Jader Barbalho (PA). Ex-senador, Barbalho renunciou ao mandato para não enfrentar um processo de cassação por envolvimento com denúncias de corrupção na Superintendência de desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Por isso, Serra fez-se de desentendido ao ser convidado pelo diretório regional do PMDB para visitar o estado.
No Paraná, o aliado-problema é do PFL. O prefeito Cássio Taniguchi, serrista de primeira hora, é acusado de montar um caixa-dois na sua campanha de 2000, enfraquecendo ainda mais o partido no estado, onde a eleição será decidida entre Álvaro Dias, do PDT, e Roberto Requião, do PT. Dias apoiou Ciro Gomes e Requião apoiou Lula no primeiro turno. Com o PFL do governador Jaime Lerner abatido, Lula venceu a eleição no Paraná com mais de 50% dos votos válidos.
Com o grupo pefelista sem força, Serra investe no PDT de Álvaro Dias. O problema é que tanto Álvaro quanto seu irmão, o senador Osmar Dias, foram ameaçados de expulsão do PSDB por apoiarem a instalação da CPI da Corrupção, proposta pelo PT no ano passado. Ambos deixaram o partido.
Garotinho no palanque de Lula
Candidato derrotado do PSB garante que vai trabalhar pela vitória do adversário de Serra. Mas capricha nas críticas ao PT e evita que seu partido aceite discutir participação em eventual governo petista, como quer Miguel Arraes
O apoio do candidato derrotado do PPS, Ciro Gomes, ao candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno, é, segundo ele própria classificou, ‘‘entusiástico e incondicional’’. O apoio do candidato derrotado do PSB, Anthony Garotinho, viu-se ontem, leva em conta uma condição: mantê-lo distante o suficiente para que possa se apresentar, desde já, ao eleitor como uma alternativa de esquerda. E, como conseqüência de não ser ‘‘incondicional’’, também não é tão ‘‘entusiástico’’ assim. Durante todo o dia, Garotinho empenhou-se em rechear as suas declarações de apoio a Lula com críticas ao PT. Em alguns momentos, discordava frontalmente do que dizia o presidente do PSB, Miguel Arraes. À noite, ao oficializar o apoio a Lula, chegou a bater boca com o candidato petista.
‘‘Eu não vou fazer como o PT que, em 94, recomendou que as pessoas anulassem o voto em vez de votar em mim’’, disse Garotinho à tarde, caprichando no semblante magoado. Em 1994, Garotinho disputou o segundo turno para o governo do Rio com Marcello Alencar, do PSDB, e acabou perdendo. Lula soube da frase de Garotinho. Quando o candidato do PT chegou à sede do PSB, na sobreloja do Bloco A da 304 Norte, fez questão de rebater a declaração ressentida feita antes por Garotinho. ‘‘Em 94, no segundo turno, você deve se lembrar, Garotinho, eu estava no comício que você fez na Cinelândia’’, respondeu Lula. Foi nesse clima que ele declarou ontem apoio ao candidato do PT à Presidência na sua disputa com José Serra, do PSDB.
‘‘Essas críticas são naturais. Ele foi candidato contra nós. Nós teremos humildade suficiente para levar os comentários dele em consideração’’, afirmou o presidente do PT, José Dirceu. Mas o estilo distante e crítico de Garotinho incomodou o próprio PSB. Nem mesmo sua mulher, Rosinha Matheus, que disputou e venceu no Rio a eleição contra a governadora petista Benedita da Silva, foi tão dura com o PT. E foi Rosinha a vítima dos ataques petistas na campanha. ‘‘Tem tempo que ele só nos traz problemas’’, comentou um membro da Executiva do partido, que preferia que Garotinho tivesse renunciado em favor de Lula no primeiro turno. Tanto os petistas quanto os socialistas, no entanto, concordam que Garotinho vai falar, vai fazer críticas, mas não trabalhará contra Lula. A ele interessa, avaliam, que Lula vença. Somente assim ele poderia seguir com seu plano de se apresentar como a alternativa de esquerda. Numa vitória de Serra, a primeira opção nesse campo continuará sendo Lula.
Disputa
A queda-de-braço entre Garotinho e Arraes, que ficou clara ontem, é também fruto desse projeto do candidato derrotado do PSB. Arraes queria um apoio mais entusiasmado, que colocasse o PSB no centro da campanha petista e desse chance ao partido de discutir desde já uma participação em um eventual governo Lula. Isso não está nos planos de Garotinho. Ele quer ficar mais neutro para poder ser crítico caso o PT chegue ao poder.
Na reunião da executiva do partido, pela manhã, Garotinho foi ainda mais crítico ao PT. Arraes abriu a reunião dizendo que o partido havia decidido dar apoio unânime e ‘‘irrestrito’’ a Lula. ‘‘Irrestrito, não’’, corrigiu Garotinho, imediatamente. No Rio de Janeiro e no Maranhão, Lula terá de subir em palanques apenas do PSB, sem a presença de petistas. O PT aceita a exigência sem problemas. O candidato à Presidência derrotado informou que hoje reunirá no Rio, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, 1.500 militantes que trabalharam na sua candidatura para organizá-los agora na campanha para Lula. Perguntado se, assim, seus votos seriam revertidos para o candidato do PT, respondeu: ‘‘Não tenho bola de cristal. Como é que eu vou saber?’’. Ajuda para que Lula busque apoio entre os evangélicos? ‘‘Fui candidato a presidente, não a pastor. O Lula é que tem de buscar apoio entre os evangélicos’’, respondeu. Mais tarde, o deputado Alexandre Cardoso (PSB-RJ), seu coordenador de campanha, viu-se obrigado a ser mais enfático: ‘‘Nós vamos fazer carreata, comício. Vamos transferir votos, sim’’.
À noite, na presença de Lula, Garotinho amenizou seu tom. Procurou explicar as críticas da manhã. ‘‘É claro que, durante a campanha, tivemos posições muitas vezes conflitantes. Se fossem iguais, não haveria necessidade de ter duas candidaturas’’, explicou. O candidato derrotado completou que não iria pregar ‘‘voto nulo’’. Foi a deixa para Lula rebatê-lo. ‘‘Que Deus lhe abençoe’’, desejou, então, Garotinho. Agora, Lula tentará se aproximar de outros interlocutores no PSB para neutralizar as críticas a Garotinho. Como fizera com o PPS, convidou Arraes a integrar seu partido no comando da campanha no segundo turno.
Os petistas admitem que o apoio crítico de Garotinho pode trazer problemas. Mas o partido nunca esperou obter todos os votos dados ao candidato do PSB. O comando de Lula sabe que uma parte deles foi em função da sua condição de líder evangélico, e não de candidato de esquerda. Não há muita certeza do destino desse voto. A avaliação mais pessimista, porém, é de que ocorra para Lula a transferência de 30% dos votos dados a Garotinho no primeiro turno. É, calculam, o suficiente para assegurar agora a vitória.
‘‘Não sabemos como será a campanha do adversário, mas eles não vão ficar passivos com a possibilidade de perder o poder no país mais importante da América Latina. Nós não ganhamos nada. O jogo ainda está sendo jogado’’, disse Lula, em Belo Horizonte, antes de embarcar para Brasília.
Ainda em Minas, Lula disse que reservou a primeira semana de campanha ao trabalho de consolidar apoios de políticos, de partidos e de segmentos sociais. Nesse sentido, não tem o que reclamar da colheita. O número de apoios declarados a ele nesta primeira semana de segundo turno é muito maior que os obtidos por José Serra.
O recorde do PT
Levantamento feito pelo Correio mostra que o PT conseguiu 125 milhões de votos e ultrapassou a marca alcançada pelo PMDB do Plano Cruzado
A onda oposicionista deste ano transformou o PT no partido brasileiro com mais votos conquistados em uma única eleição. Foram mais de 125 milhões de sufrágios para presidente, governador, senador, deputado federal e estadual. A marca anterior era do PMDB. Em 1986, o partido conseguiu 114 milhões de votos, mesmo sem o cargo de presidente estar em disputa.
O sucesso do partido de Ulysses Guimarães naquele ano decorreu dos altos índices de popularidade conferidos ao então presidente José Sarney pelo Plano Cruzado, o pacote econômico que represou a inflação por nove meses. Se forem computados todos os votos dados aos partidos desde 1982, o PMDB ainda é o recordista com 390 milhões. No mesmo período, o PT teve 314 milhões de votos.
O resultado histórico obtido pelo PT ainda não tem explicações conclusivas, mas as alianças feitas com setores conservadores e o desgaste do governo Fernando Henrique Cardoso depois de oito anos no poder certamente contribuíram para o crescimento do partido. A façanha petista torna-se ainda mais impressionante se for levado em conta que na primeira eleição disputada pela legenda, em 1982, o número de votos alcançados foi de 4,4 milhões. De lá para cá, o partido cresceu 28 vezes, segundo o critério de número de votos.
O PT foi criado em 1980, depois que a reforma partidária de 1979 acabou com 14 anos de bipartidarismo e enterrou Arena e MDB, únicas legendas permitidas pela ditadura. Com as novas regras, surgiram PDS, PMDB, PTB, PDT e PT. As cinco novas legendas estrearam nas urnas em 1982.
A disputa daquele ano marcou o início da redemocratização. Depois de 17 anos de governadores indicados pelos presidentes da ditadura, os brasileiros reconquistaram o direito de escolher os dirigentes estaduais. O oposicionista PMDB obteve 62 milhões de votos, contra 60 milhões do PDS, o partido governista, sucessor da antiga Arena. Dos 22 governadores, 12 foram eleitos pelo PDS, nove pelo PMDB e o PDT levou Leonel Brizola ao Palácio da Guanabara, no Rio de Janeiro.
Os números que comprovam o extraordinário crescimento do PT foram revelados por uma pesquisa feita durante três dias por oito repórteres do Correio, quatro deles em tempo integral. Os únicos dados não computados são os referentes aos votos obtidos pelos candidatos ao Senado derrotados nas eleições de 1982, 1986 e 1990 porque não estavam disponíveis em nenhuma das fontes de informação pesquisadas pelo jornal, nem mesmo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou no Senado Federal. Por terem sido derrotados, esses candidatos não conseguiram os 11 milhões de votos necessários para impedir o recorde do PT.
Também foram deixados de lado o PRN, partido que conseguiu 55 milhões de votos nos dois turnos disputados em 1989 por Fernando Collor de Mello, eleito presidente naquele ano. O critério, nesse caso, foi o curto período de existência da legenda, criada em 1989 e extinta em 1991. Para que pudesse ser feita uma comparação, a pesquisa também não incluiu os votos dados nas eleições para as prefeituras.
Nesses vinte anos de eleições democráticas, o desempenho dos partidos variou muito a cada disputa. O poderoso PDS de 1982 caiu dos 60 milhões de 1982 para 24 milhões deste ano, agora com o nome de PPB. Um dos maiores fenômenos de votos nesse período foi o PSDB. Criado em 1988, o partido que saiu de um racha do PMDB elegeu duas vezes o presidente Fernando Henrique Cardoso, a primeira em 1994 e a segunda em 1998.
O sucesso do PSDB dificilmente será suficiente para o partido quebrar o recorde petista, mesmo que o candidato José Serra vença o segundo turno das eleições presidenciais, a ser disputado no dia 27. Com 83 milhões de votos conquistados no primeiro turno, a legenda ficou muito distante dos 125 milhões do partido de Luiz Inácio Lula da Silva.
A conta dos votos para vencer o 2º turno
Geraldo Magela precisa de 61% da votação dos candidatos derrotados para vencer as eleições. Cálculo leva em conta que diminuição de abstenções e de pessoas que votarão nulo em 27 de outubro beneficiarão Joaquim Roriz
O candidato do PT, Geraldo Magela, precisará conquistar pelo menos 61% dos votos dos seis concorrentes derrotados no primeiro turno para vencer o governador Joaquim Roriz (PMDB). Levando-se em conta que o alto percentual de abstenções em redutos do candidato à reeleição poderá cair e que o número de votos nulos costuma diminuir no segundo turno, o petista terá que conseguir pelo menos 117,9 mil dos 193,3 mil votos obtidos no primeiro turno por Benedito Domingos (PPB), Rodrigo Rollemberg (PSB), Carlos Alberto Torres (PPS), Orlando Cariello (PSTU), Guilherme Trotta (PRTB) e Expedito Mendonça (PCO).
A diferença entre Roriz e Magela no primeiro turno ficou em 25.120 votos. Para o segundo turno, tanto petistas como rorizistas avaliam que o governador pode ter mais votos com uma provável redução da abstenção em localidades como Paranoá, São Sebastião, Recanto das Emas e Samambaia. Nessas cidades, que apresentaram os maiores índices de abstenção, houve demora e eleitores precisaram ficar até tarde da noite para votar.
Outra vantagem inicial de Roriz sobre Magela é a tradição de queda no número de votos nulos do primeiro para o segundo turno. PT e PMDB também trabalham com a possibilidade de o governador receber a maior parte dos votos de eleitores que erraram no domingo e acertarão no próximo dia 27.
Na hipótese de o percentual de abstenções cair de 16,3% para a média registrada no primeiro turno de 1998, de 15,49%, haverá um acréscimo de 11.193 eleitores que votarão no segundo turno. Entre integrantes da coordenação de campanha do próprio PT estima-se que Roriz teria a preferência de cerca de 70% desses novos eleitores, o equivalente a 8.346 votos. Magela ficaria com 3.577.
No primeiro turno, os votos nulos somaram 3,71% do total. É provável que o percentual caia no segundo turno, porque os eleitores só precisarão votar para dois candidatos em vez de seis. Se o número de nulos cair para a média obtida no segundo turno de 1998, de apenas 1,77%, também ocorrerá um aumento de votos válidos — algo em torno de 24.481. A avaliação entre os partidos é de que Roriz conquistaria 75% desses votos contra 25% de Magela. Seriam mais 18.390 votos para o governador e 6.121 para o candidato do PT.
Apenas com a diminuição das abstenções e dos votos nulos, Roriz abriria uma vantagem de 42.128 votos, obrigando Magela a conquistar pelo menos 61% dos votos dos seis concorrentes derrotados no primeiro turno para virar o jogo.
Oposição unida
No primeiro compromisso público como aliados oficiais, Geraldo Magela e Benedito Domingos participam da formalização do apoio do PSB de Anthony Garotinho e Miguel Arraes à candidatura de Lula à presidência
O vice-governador Benedito Domingos (PPB) pôs fim ao suspense. Bateu o martelo e confirmou o apoio à candidatura de Geraldo Magela (PT) no segundo turno da disputa pelo Governo do Distrito Federal. O primeiro compromisso dos dois, já como aliados, aconteceu no início da noite de ontem, no encontro que formalizou o apoio do Partido Socialista Brasileiro (PSB) à candidatura de Luís Inácio Lula da Silva (PT) à presidência da República. Lideranças nacionais e locais dos dois partidos se reuniram na sede regional do PSB, na comercial da 304 Norte.
A união entre Benedito e Magela foi oficializada pela manhã, no comitê central de Benedito, em Taguatinga. O evento seria apenas uma entrevista coletiva para a imprensa, mas acabou se transformando em uma grande festa, com a presença do senador eleito Cristovam Buarque e de dezenas de candidatos petistas: alguns com mandato garantido, outros derrotados.
Dentro do comitê, Benedito e Magela posaram para fotógrafos abraçados, de mãos dadas, e fazendo ‘‘V’’ de vitória com os dedos. Adesivos com o slogan ‘‘Sou Benedito, agora sou mais Magela’’, preparados com antecedência pela assessoria do vice-governador, também foram distribuído s. Até mesmo uma camiseta vermelha, com o nome dos dois políticos, apareceu para as fotos. Do lado de fora, a militância petista misturava-se aos apoiadores de Benedito. ‘‘Magela e Benedito, nessa dupla eu acredito’’, gritavam.
Depois da festa em Taguatinga, Benedito e Magela se encontraram novamente na sede do PSB, na Asa Norte. Lá, os dois ouviram Lula dizer que usará o potencial da esquerda para ajudar os candidatos dos dois partidos que disputam o segundo turno, em nove estados e no DF. ‘‘Vamos preparar Garotinho para fazer comício com a gente nos estados, inclusive aqui em Brasília, para ajudar Geraldo Magela.’’ Para o candidato do PT ao GDF, o apoio de Ciro Gomes (PPS) e Garotinho a Lula será fundamental para fortalecer os partidos aliados que disputam o segundo turno.
Geraldo Magela disse ainda que a negociação com Benedito começou antes do primeiro turno (leia matéria abaixo). A partir da última segunda-feira, quando se confirmou que haveria segundo turno no DF, as conversas se intensificaram. ‘‘O apoio de Benedito foi trabalhado. Tínhamos a convicção de que poderíamos conseguir. Agora, vamos tranqüilos para o segundo turno.’’ No fim do encontro na sede do PSB, Magela foi cercado por militantes dos dois partidos. Junto com o senador eleito Cristovam Buarque, posou para fotos e distribuiu autógrafos.
Benedito reconheceu que o segmento evangélico — do qual é representante máximo no DF — está dividido. ‘‘Quem vota em Roriz não deve mudar. Quem está comigo será fiel, pois venho para somar. Espero que meus eleitores confiem em Magela assim como confiaram em meu nome. E vamos para a vitória no dia 27.’’ Rodrigo Rollemberg, candidato do PSB que ficou em quarto lugar na primeira rodada da disputa pelo GDF, não foi ao encontro porque rompeu com Garotinho antes do primeiro turno. Na quarta-feira, Rollemberg já tinha confirmado apoio a Magela.
Com medo da urna eletrônica
Primeiro país a adotar a votação digital em todo o processo eleitoral, o Brasil avança tecnologicamente. Porém, as eleições revelaram a dura realidade dos que não têm acesso ao mundo informatizado
A maquininha eletrônica que despertou a ira do governador Joaquim Roriz é um avanço na história da democracia brasileira. Tão grande quanto a criação do voto secreto. Antes da década de 30, o eleitor não tinha liberdade de escolha garantida porque não havia sigilo na hora de votar. Também eram comuns as chamadas eleições ‘‘bico-de-pena’’, em que as cédulas eram preenchidas pelos mesários de acordo com a vontade do coronel.
As urnas eletrônicas vieram com a promessa de dar rapidez às eleições e acabar com as fraudes na hora da apuração dos votos. No entanto, diante da confusões de 6 de outubro, a pergunta é se o Brasil, primeiro país com as eleições totalmente informatizadas, está preparado para usá-las.
No Distrito Federal, os eleitores passaram até quatro horas esperando na fila. No Gama, um eleitor demorou trinta minutos para votar. No Rio de Janeiro, uma senhora de classe média passou 20 minutos na cabine de votação — quem aguardava na fila bateu palmas quando ela deixou a seção eleitoral, no Jardim Botânico. ‘‘Era visível o constrangimento das pessoas na fila, todos tinham medo de errar’’, lembra a cientista política Lúcia Hippólito.
Artigos
O verdadeiro culpado
Verene Wolke
Conhecidos os resultados das eleições de domingo, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, repete a ladainha de que o mercado financeiro anda agitado por conta da insegurança em relação a eventuais mudanças na política econômica. De fato, o mercado anda muito nervoso, quase à beira da histeria. A agitação nas mesas de câmbio é tanta que a cotação do dólar chegou a romper ontem a barreira dos R$ 4. Mas, ao contrário do que diz Fraga, a corrida pela moeda americana nos últimos dias não se deve apenas às idéias ‘‘exóticas e pouco ortodoxas’’ de quem se opõe ao governo de Fernando Henrique Cardoso.
A crise de confiança no país a que se refere o presidente do Banco Central vai muito além do medo de uma vitória do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno das eleições. Na verdade, a crise cambial deste e dos outros anos nada mais é do que o resultado da política econômica implementada pelo atual governo.
Desde que tomou posse, em 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentou várias crises cambiais. Em 1997, quando não havia eleições à vista, o país foi varrido pela falência dos Tigres Asiáticos e teve de pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1999, logo depois de ter assumido o segundo mandato, Fernando Henrique desvalorizou o real, em meio à pior crise cambial recente do país. Em 2000, o Brasil sofreu os efeitos da derrocada argentina. Em 2001, vieram os ataques terroristas de 11 de setembro.
Em 2002, no final de oito anos de governo, o presidente anda às voltas com novas turbulências financeiras, queda na produção das empresas, aumento do desemprego e outro pacote de ajuda do FMI. Desta vez, o inimigo externo é a desaceleração da economia mundial e a série de escândalos contábeis em grandes empresas americanas. O inimigo interno, na avaliação dos assessores de Fernando Henrique e de analistas de mercado, é a instabilidade provocada pela eventual vitória de Lula nas eleições.
É verdade que as eleições serviram de combustível para a especulação financeira. Mas quem olha com cuidado as contas do país constata que a desconfiança do mercado se deve muito mais à estratosférica dívida pública de quase R$ 900 bilhões contraída pelo governo do que à possibilidade de Lula ganhar a eleição. Se Fernando Henrique Cardoso tivesse, ao longo dos últimos anos, tomado providências para reduzir o endividamento e a dependência do país ao capital estrangeiro, certamente o mercado não estaria tão nervoso. E o resultado das urnas poderia até ser mais favorável aos candidatos do governo.
Editorial
A DISPARADA DO DÓLAR
O dólar comercial chegou a ser vendido por R$ 4 ontem. Um número que demonstra não só a atual fragilidade do real, mas também o elevado grau de especulação do mercado financeiro. Trata-se de valor descolado da realidade econômica do país que, de fato, não é boa, mas está longe de ser desesperadora. Basta lembrar que um dólar vale 3,68 pesos na Argentina, país que luta para reconstruir sua economia.
A especulação garante bons lucros para grandes investidores, eleva a dívida pública e afeta a população diretamente. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 5,6% entre janeiro e setembro. Ultrapassou, portanto, o teto da meta para todo este ano, que é de 5,5%. A população de baixa renda é atingida em cheio. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que mede a inflação dos consumidores com renda de até oito salários mínimos, foi de 0,83% em setembro — índice superior ao do IPCA, (40 salários) do mesmo mês, 0,72%.
O Banco Central não pode se omitir num momento desses, mas tem que agir responsavelmente. Recentemente elevou a proporção de capital que os bancos precisam para comprar dólares. Tem negado rolar dívidas vinculadas ao dólar quando os investidores exigem juros altos demais. Muitos especuladores estão se aproveitando das incertezas provocadas pela eleição presidencial para abater o valor do real.
É o valor da moeda que, em última instância, precisa ser preservado, pois foi a maior conquista do Brasil nos últimos dez anos. Portanto, é admissível que algumas batalhas sejam perdidas, mas o objetivo final de manter a inflação baixa e o país administrável não pode ser perdido.
Uma das formas de combater a alta do dólar é fabricar aqui produtos e equipamentos que nossos empresários têm de comprar no exterior. Dessa forma, o gasto de dólares é reduzido e ainda se criam empregos no país. Informação divulgada pelo IBGE na terça-feira confirma que há um processo de substituição de importações no setor de máquinas e equipamentos. Prova disso são as compras de bens de capital no exterior, que têm caído num ritmo muito mais intenso do que a produção interna dos mesmos bens.
As importações de máquinas e equipamentos caíram 19,2% de janeiro a agosto ante igual período de 2001, segundo a Secretaria de Comércio Exterior. Por seu lado, a produção de bens de capital teve queda de apenas 2,3% até agosto. Grande parte disso se deve, com certeza, à estagnação econômica. Mas, de toda forma, o fato demonstra que o governo não está de braços cruzados. Ao mesmo tempo, deixa claro que é preciso criar mecanismos capazes de acelerar o processo.
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10/11/2002
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