ARTIGO: A CLT comprimida no elevador



 
Uma das ascensoristas que trabalha no elevador da Assembléia Legislativa do Estado é gordinha. Os elevadores da Assembléia (quatro para o público em geral e um exclusivo para os deputados) são os espaços em que os ouvidos se antenam. De repente, ouve-se alguma estratégia cochichada por assessores de partidos políticos. Alguém indelicado falara em uma das viagens, em cochicho audível, que a tal ascensorista tomava o espaço de duas pessoas. Os elevadores da Assembléia são os espaços mais disputados no prédio. Onde as pessoas de todas as classes sociais tocam-se e cheiram-se. Muitos são desempregados, procurando algum tipo de ajuda nos gabinetes dos parlamentares.

Perder o emprego perto do Natal é um baque grande. A gente sempre espera fazer a ceia com a impressão de estar com a vida um tanto segura para o próximo ano. Todo mundo vai encher as lojas e pagar dívidas com o 13º salário, uma garantia trabalhista que há 60 anos povoa de presentes as árvores de natais dos brasileiros. A Consolidação das Leis Trabalhistas, que eternizou o presidente Getúlio Vargas, não dá margem à enrolação quando o assunto é pagar o 13º, as férias, o repouso semanal, o FGTS, e outros benefícios. Agora há pressão para alterar a CLT, afirmando-se que os tempos, de pouco emprego, exigem a flexibilização de direitos dos 25 milhões que têm carteira assinada ou são funcionários públicos em um país cuja legião de trabalhadores ultrapassa os 75 milhões.

Parte do empresariado encara o celetista como um superprotegido pela lei. Um empregado do passado, que toma o espaço de dois no elevador que faz subir ou descer a sua lucratividade. O projeto do Governo Federal que tramita no Congresso Nacional revela-se um acordo tácito entre a parte que não quer perder o seu bojo tributário e aquela que precisa recompor o seu lucro. Sobrou para os sindicatos dos trabalhadores negociarem garantias até então certas na vida dos assalariados. Esses, que nem discutem mais reajuste salarial, mas a manutenção do emprego. Há pouco, os metalúrgicos do ABC paulista aceitaram reduzir no contracheque para não perder seu posto na fábrica da Volkswagen. O movimento sindical do ABC é famoso por sua representatividade de peso. E os demais sindicatos do país?
Se o elevador está cheio, quem sai?

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12/03/2001


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