Câmara convoca delegado









Câmara convoca delegado
arregado do inquérito da privatização da Telebrás vai depor dia 23

BRASíLIA - No dia 23, o delegado Deuler Rocha fala publicamente pela primeira vez desde que foi afastado da presidência do inquérito que investigava suspeitas de corrupção no processo de privatização da Telebrás.

Vai depor na Câmara dos Deputados. Em 13 de março, Rocha foi afastado da Delegacia de Inquéritos Especiais, a Delecoie justamente quando se preparava para indiciar o economista Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro de campanha do senador José Serra (SP), candidato do PSDB à Presidência da República.

As declarações do delegado têm tudo para piorar a crise aberta, agora, pelo envolvimento de Ricardo Sérgio também no caso de supostas propinas na privatização da Companhia Vale do Rio Doce. A origem da confusão está em um documento do Banco Central recebido em fevereiro por Rocha. Composto por atas de reuniões do Banco Opportunity e do Banco do Brasil, o relatório do BC demonstrava que Ricardo Sérgio, então diretor do BB, autorizara empréstimo de R 874 milhões à Solpart Participações. A empresa tinha um capital social de R 1 mil e fora criada, um mês antes do leilão de privatização da Telebrás, com o nome de Banco Opportunity Xin S/A.

''É tampa de caixão'', comentou o delegado, em voz alta, dentro da Delecoie, assim que viu o documento.

Deuler não sabia que as paredes do prédio da PF no Rio tinham ouvidos. Menos de um mês depois, encontrou na chefia, ocupada nos últimos cinco anos pelo delegado Eduardo da Matta, veterano na luta contra o crime organizado no Rio, Marcos Davi Salem. Rocha não teve tempo de combinar com o novo chefe a estratégia para pegar Ricardo Sérgio. No dia seguinte, foi transferido para a Delegacia de Polícia Marítima.

O superintendente Marcelo Itagiba costuma ter seu nome vinculado a José Serra. Os dois trabalharam juntos no Ministério da Saúde. Itagiba chefiava um núcleo de inteligência dentro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ele nega ter mexido na Delecoie para evitar o indiciamento do ex-caixa de campanha do candidato tucano. ''Reformulei as chefias em todas as delegacias''. explica. E avisa que Deuler Rocha pode falar o que quiser. Mas será responsabilizado pelo que vier a dizer.

Tecnicamente legal, a troca de comando no inquérito foi, no mínimo, estranha. Deuler Rocha está na PF desde 1996. Nesse período, especializou-se em combater crimes financeiros. Investigou o caso do Banco Marka, de Salvatore Cacciola, acusado de fraude cambial. Sua substituta, a delegada Patrícia de Freitas, não tem experiência nessa área. ''Isso está muito mal explicado'', diz o deputado Nelo Rodolpho (PMDB-SP), presidente da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara, onde Deuler Rocha fala no dia 23. ''Foi uma surpresa esse afastamento às vésperas do indiciamento de Ricardo Sérgio'', avalia


Garotinho perde o vice
lação de passado no SNI leva Costa Leite a desistir da disputa

BRASÍLIA - O único pré-candidato que tinha o vice definido agora está sem companheiro de chapa. Paulo Costa Leite, ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), desistiu ontem da candidatura à vice-Presidência da República na chapa do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho.

Em ''nota pública'', anunciou também sua desfiliação do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Ele deverá desistir definitivamente de tentar carreira política nas eleições deste ano - motivo pelo qual pediu aposentadoria do STJ. Passará a atuar apenas como advogado, mas sem deixar de ''participar ativamente da vida política'' brasileira.

As pretensões de Costa Leite foram atropeladas por uma reportagem da revista ''Época'' do último fim de semana, mostrando que ele foi funcionário do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) por mais de dez anos, nas décadas de 1970 e 1980. Costa Leite foi instrutor de quadros da Escola Nacional de Informações durante o regime militar. Lá, ele dava aulas a analistas de informações do SNI. Depois, trabalhou como assessor jurídico da Presidência.

O jurista decidiu renunciar porque não tinha mais apoio de Anthony Garotinho nem do PSB. A vaga aberta é um problema e tanto para o ex-governador, que ficou sem alternativas dentro do seu partido. Costa Leite e Garotinho se reuniram no fim da tarde de ontem para definir o que fazer a fim de minimizar o impacto da revelação na candidatura socialista.

''O maior serviço à democracia é impedir que forças ocultas impeçam um candidatura que será vitoriosa'', justificou o ex-presidente do STJ. Na opinião de Costa Leite, a campanha eleitoral deste ano deverá se caracterizar por ''muita baixaria''. ''Não posso prejudicar Garotinho nem criar constrangimento para quadros históricos do PSB.''


Presidente muda rumo de Serra
BRASÍLIA - Depois de quatro dias de turbulências no mercado financeiro, alimentadas por boatos de instabilidade na candidatura José Serra ao Palácio do Planalto, o presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu intervir. Está preocupado com os estragos que começa a computar na economia, desde que toda a sorte de especulações contaminaram a cena política e o mercado de capitais. Ontem, FH reuniu-se à tarde com Serra e decidiram fazer mudanças no comando da campanha do tucano. O Planalto está determinado a blindar Serra e enfrentar a ofensiva pela substituição do candidato, comandada pelo PFL. O presidente está convencido de que trocar Serra equivaleria a perder um anteparo importante e rifar o próprio governo.

No PSDB, no Planalto e nas bolsas de valores não cessaram de chegar informações sobre suposta pesquisa de opinião de um grande instituto que daria a Anthony Garotinho, do PSB, a segunda colocação na corrida sucessória. O candidato tucano teria caído para terceiro lugar. O dólar comercial subiu para R$ 2,472 para venda, com uma alta de 1,35%. É o maior valor desde os R$ 2,50 de 30 de novembro. A Bovespa fechou em queda de 4,08%. Os títulos da dívida externa brasileira, os C-Bonds tiveram nova queda no mercado internacional. ''O nervosismo do mercado se deve às fofocas de pesquisas eleitorais'', afirma o economista Fábio Akira, do banco BBV. Contribuíram também as baixas nos pregões de Wall Street.

Para tentar colocar ordem na campanha de Serra e aparar arestas foram convocados à campanha o ex-senador José Richa e o ex-ministro Milton Seligman. Richa dividirá o comando com Pimenta da Veiga, com quem Serra não estava se entendendo bem. O publicitário Nizan Guanaes, assumirá o marketing.

Desde a terça-feira, os boatos pessimistas sobre pesquisas contaminaram as reuniões do PSDB e do PMDB. Serviram de pretexto para que os descontentes do PMDB conseguissem postergar, mais uma vez, o anúncio do nome do vice de Serra. Será feito em 15 dias. Ontem, num almoço na casa de Pimenta, comentava-se sobre a suposta queda acentuada em uma pesquisa da Toledo e Associados, registrada na Justiça Eleitoral, a ser divulgada esta semana. No comitê do tucano chegou a informação de que ele estaria em quarto lugar. O instituto não quis dar informações. Serra participou dessa reunião. Constestou as avaliações pessimistas. Disse que foi bem no debate da CNI e pediu rapidez na escolha do vice, alegando que a demora o deixa vulnerável.

À tarde, a reunião se prolongou no Planalto. Serra tratou a sós dos problemas com o presidente, amigo de longa data e principal cabo-eleitoral. Também teve conversas reservadas com o secretário-geral da Presidência, Euclides Scalco, e o presidente da Câmara, Aécio Neves.


PFL gaúcho vai apoiar Britto
Brasília - A executiva do PFL gaúcho aceitou compor uma aliança com o pré-candidato do PPS ao governo do Rio Grande do Sul, Antônio Britto, pivô d as brigas da Frente Trabalhista, composta por PPS, PDT e PTB.

A chapa da coligação será integrada também pelo deputado estadual Germano Bonow, presidente estadual do PFL, como candidato a vice. Uma das vagas para o Senado será de José Fogaça (PPS), que tentará a reeleição. Para definir o outro candidato a senador, o PPS aguarda uma definição do PTB para apoiar Britto. Nesse caso, será o deputado estadual Sérgio Zambiasi (PTB).

''A única coisa que pode modificar nossa decisão é uma definição do PFL nacional favorável a alguma candidatura presidencial que inviabilize nossa aliança (se o PFL optar por apoiar o candidato tucano à Presidência, por exemplo). Mas estamos trabalhando com a hipótese de que não tenhamos um candidato presidencial e estejamos com os Estados liberados'', disse Bonow.

Quanto ao PTB, a situação é mais difícil. O diretório gaúcho apóia o nome de Britto, mas, caso entre na aliança, pode sofrer a intervenção do PTB nacional. PDT e PTB devem formar uma chapa com Zambiasi como candidato a senador e a vereadora Sônia Santos (PTB) a vice de José Fortunati (PDT).

Os três partidos apóiam nacionalmente Ciro Gomes (PPS). O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, rejeitou o nome de Britto, seu adversário político.


Supremo processa deputado
BRASíLIA - O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu, ontem, mais um processo penal contra parlamentar, depois da emenda constitucional que acabou com a exigência de licença especial pelo Congresso.

Por unanimidade, o plenário do Supremo transformou em processo o inquérito contra o deputado federal Edison Andrino (PMDB-SC), por crime de responsabilidade, suspostamente praticado, em 1988, quando o parlamentar exercia o cargo de prefeito de Florianópolis.

Segundo a acusação, relatada pelo ministro Maurício Corrêa, o atual congressista admitiu, na condição de prefeito, vários servidores, sem concurso público, no período de 30 de junho a 31 de dezembro daquele ano.

A denúncia do Ministério Público Federal teve por base o Decreto-Lei 201/67, além da exigência
constitucional de concurso prévio para o preenchimento de funçõees públicas.

Ocorre também que a Lei 7664, de 29/6/88, proibiu a contratação de servidores, a partir de sua entrada em vigor, até o término dos mandatos dos prefeitos então no exercício de seus mandatos.

Pelo decreto-lei que define os crimes de responsabilidade praticados por prefeitos, a pena para a contratação ilegal de funcionários é de detenção, de três meses a três anos.


FH discute cortes com Judiciário
BRASília - O presidente Fernando Henrique Cardoso, em reunião com os presidentes dos tribunais superiores, prometeu rever a proposta de corte de R 111,5 milhões em investimentos no Judiciário. A redução é conseqüência do atraso na votação da CPMF. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, engrossou o coro dos que cobram a votação. ''É preciso que os representantes do Legislativo sejam sensíveis a isso'', disse. Para não reduzir muito os gastos com investimentos, os presidentes dos tribunais pretendem transferir o contigenciamento para custeio. ''A saída seria contingenciar apenas 50% dos R 111,5 milhões para não parar obras em andamento'', argumenta Marco Aurélio.

Mais tarde, ao discursar na 29ª Reunião da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), FH frisou que exerce ''temporariamente'' as funções e desautorizou a iniciativa do PFL de consultar o TSE sobre a disputar mais um mandato. ''Insisto no temporário, diante de alguns rumores de má-fé'', disse, provocando risos na platéia.


Artigos

De que é feita uma bomba humana?
demar Zusman

A maioria das guerras impressiona pela introdução de armas que excedem e ultrapassam velhos trabucos e surrados artifícios estratégicos. Os progressos tecnológicos otimizam o belicismo humano.

Foi assim na Segunda Guerra Mundial com as chamadas bombas voadoras, com as quais Hitler reduziu uma boa parte de Londres a escombros.

Depois vieram as bombas atômicas lançadas pelos aliados sobre Hiroxima e Nagasaki, destruindo quase toda a população e quase todos os prédios dessas duas cidades e pondo fim à guerra.

Instrumentada pela ciência a destrutividade humana assusta e assombra mais do que envaidece.

Na guerra do Oriente Médio, no entanto, o que assusta e assombra não é uma inovação científica, mas um velho e desgraçado tipo de comportamento humano, o de suicidar-se.

Revestido da aura de heroísmo, dá a quem o pratica um duvidoso salvo-conduto para um céu habitado por 70.000 virgens, como apregoam os muçulmanos.

A história dos suicídios é tão longa como o é a história da vida.

Viver é sempre uma decisão entre existir e desistir, por menor que seja a consciência que se tem da opção que se faz entre uma coisa e outra.

Hamlet já o dizia em seu famoso monólogo, perguntando: ''Ser ou não ser?''

Qual de nós, na hora das desgraças e dos infortúnios, já não se fez, inúmeras vezes, essa mesma pergunta, posta por Shakespeare na boca do seu famoso personagem ?

O suicídio, por mais que possa parecer, jamais foi um ato solitário.

Quem se mata, mata dentro de si todos os que habitam o seu mundo interno.

A vida mental do suicida é por ele sentida, conscientemente ou não, como povoada por figuras hostis que lhe infringiram decepções e sofrimentos, sentidos como imperdoáveis, a quem ele quer destruir, ainda que pelo preço da própria vida.

Salvo em circunstancias repentinas de intolerável sofrimento, ou como tal avaliadas, o suicídio é, quase sempre, uma longa e acariciada decisão, tão temida quanto desejada, em diferentes proporções.

Há suicidas pacientes, que aguardam por situações justificadoras dos seu gesto tresloucado.

Esses são os que primeiro saltam da cobertura de um prédio em chamas, como aconteceu há alguns anos no incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo. Os que esperaram por auxilio foram resgatados por helicópteros.

Há suicidas (pré-suicidas) que optam por profissões ou por esportes de alto risco.

Há suicidas que, silenciosamente, fazem doenças auto-agressivas ( auto-imunes) que a medicina começa agora, depois de Freud, a melhor compreender.

Entre o desejo de se matar e a coragem de faze-lo há um espaço que é ocupado pela vergonha e pela culpa de perpetrar a destruição de sua vida e de todos os que a concederam.

É nesse espaço que se insere a propaganda de guerra que fornece ao suicida temas heróicos e promessas mirabolantes, como a dos gozos infindáveis das 70 mil virgens.

A civilização, que já entendeu o suicídio, em todas as suas formas e modalidades, como sintoma de uma doença mental comumente chamada de Depressão, não pode se deixar iludir pela má-fé da exaltação patriótica de um quadro mental do qual políticos ignorantes e inescrupulosos procuram tirar partido.

Homens-bomba são pessoas deprimidas, politicamente manipuladas.

Em geral são jovens, que deviam ser encaminhados a tratamentos psicológicos.

Mesmo nas guerras há uma ética.


Colunistas

COISAS DA POLÍTICA – Dora Kramer

Quanto menos quente, melhor
O pedido de CPI vai ficar em banho-maria, no aguardo de fatos novos que venham a possibilitar a ligação dos movimentos suspeitos do ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio ao candidato do PSDB, José Serra. Da mesma forma, o PT decidiu que, em guerra de dossiês não entra, sob pena de, com investigações inconsistentes, documentos questionáveis, acabar contribuindo para imprimir um clima de turbulência à campanha eleitoral.

Diante de sse tipo de postura, é possível concluir que o PT esteja mesmo querendo promover uma aproximação entre a prática e o discurso algo moderado que assumiu desta vez.

O líder do partido na Câmara, João Paulo Cunha, diz que é isso mesmo e esclarece: ''Ao PT, quanto mais calmo for o clima eleitoral, melhor, já que as turbulências são sempre associados ao potencial de baderna que a ascensão do partido ao poder pode instalar no país.''

Na visão, não apenas de João Paulo, mas de gente destacada dentro do PT como o deputado Aloizio Mercadante, o partido não leva vantagem alguma em embarcar na ofensiva pefelista contra a candidatura José Serra. Se outras razões não houvesse, no mínimo porque, assim como os tucanos preferem o embate com Luiz Inácio Lula da Silva, os petistas consideram que a situação ideal será a do enfrentamento entre um candidato da oposição - representado por Lula - e outro do governo.

Em tese, para o PT, tanto faria se o nome dele fosse Tasso, Serra, Aécio, Pedro, João ou Joaquim. Mas, na prática, neste momento o PT considera a troca de candidato um fator de tumulto no processo e perigosa concessão a setores mais atrasados da sociedade. Mercadante enxerga, inclusive, a participação de gente ligada ao PSDB no que chama de operação anti-Serra. ''Ele está sendo atacado por seus defeitos, mas também por suas virtudes.''

Quais sejam, a da expectativa do enfrentamento com gente mais arraigada a métodos e modos patrimonialistas de manejo da coisa pública, cujo desejo não é o de aprofundar as mudanças do governo Fernando Henrique Cardoso, de certo modo circunscritas ao limite do permitido pelas forças políticas que o sustentavam.

Não que o PT considere Serra um candidato totalmente desvinculado dos compromissos assumidos pela estrutura do poder atual. Ao contrário. ''Ele ainda é o preferido pelo PIB'', afirma Mercadante. Mas o que o partido de Lula não quer é servir de bode expiatório para uma briga que não é dele.

Daí a preocupação de Mercadante com as insinuações de que seria ele, pela amizade que tem com Benjamin Steinbruch, o autor original da divulgação das conversas em que o ex-cabeça do consórcio que comprou a Vale do Rio Doce denunciou o pedido de propina por parte de Ricardo Sérgio de Oliveira. ''Se eu tivesse um tiro desse para dar e, se esse fosse o meu estilo, não daria agora, deixaria para disparar quando o nome de Serra tivesse deslanchado'', pondera Mercadante, ressalvando, no entanto, que o PT não pretende recorrer a esses expedientes durante a campanha.

''Nós estamos sendo limpos com Serra e esperamos que ele também o seja conosco'', diz. É a mesma a expectativa do líder petista na Câmara, João Paulo, para quem a disputa final com o PSDB - ''se for impossível ganhar no primeiro turno'' - teria um caráter muito mais orgânico do que o embate com qualquer outro dos candidatos.

Por isso mesmo, o deputado acha que o tucano erra a cada vez que procura se afastar do governo. ''Se nós, da oposição, temos quase 70% dos votos pelas pesquisas, o governo tem pelo menos 30% que, se bem trabalhados por Serra, garantiriam a chegada dele ao segundo turno'', raciocina.

Mas, ainda assim, João Paulo enxerga dificuldades para o adversário no presente momento, uma vez que as denúncias contra Ricardo Sérgio, embora não tenham uma ligação direta com o candidato, atingem o governo que não apurou, à época, a denúncia de tentativa de extorsão. ''Ele vive esse dilema: a aproximação prejudica, mas a distância não beneficia.''

Equipe antecipada
Embora muitos empresários digam que o problema deles com o PT não é ideológico, mas de eficiência, o partido ainda acredita que o receio da turbulência política e/ou econômica ainda seja o grande obstáculo a ser enfrentado por Lula.

''O aspecto da eficiência é ressaltado por um número pequeno de eleitores, embora sejam opiniões qualificadas, enquanto o medo do desconhecido seja um elemento subjetivo que atinge universo muito mais amplo'', considera o deputado João Paulo Cunha.

Por isso, ele acha que o PT deve tratar primeiro de assegurar tranqüilidade institucional e, apenas, num segundo momento, cuidar de aprofundar o aspecto da competência. Ele acredita que é possível fazer isso de duas maneiras: ressaltando as administrações bem-sucedidas e antecipando, para meados de setembro, por exemplo, o anúncio do ministério nomeado por Lula em caso de vitória.


Editorial

INCLUSÃO: DESAFIO NACIONAL

Várias leituras podem ser feitas a partir dos dados do Censo 2000 divulgados pelo IBGE. Sob prisma positivo porém realista, verifica-se que o Brasil realizou avanços gigantescos na última década no campo da saúde e da educação, a começar pela forte queda na taxa de mortalidade infantil. Em 1991, para cada mil nascidos vivos, 45,3 morriam. Agora, são apenas 29,6 os óbitos. Apesar do quadro ainda preocupante no Nordeste, o país se aproxima de nível considerado baixo pela Organização Mundial da Saúde. Nota-se também progresso sensível nas taxas de escolarização. Na área da educação pré-escolar, o universo de crianças assistidas quase dobrou. Na faixa de 7 a 14 anos, 94% das crianças e adolescentes freqüentavam escolas à época do Censo. A rede pública recebe ampla maioria dos estudantes. Existem, portanto, motivos para comemorar. Educação e saúde são indicadores tradicionais de desenvolvimento humano.

Nem tudo, porém, são flores. O Brasil continua a merecer a marca de ''país dos excluídos''. Mais de 15% dos 76,158 milhões que formam a População Economicamente Ativa (PEA) estavam desempregados. Ou seja, 11,4 milhões de brasileiros procuravam ocupação em 2.000. No início da década, o contingente de desempregados era bem menor: 3,1 milhões de pessoas, apenas 5,4% do PEA. O índice triplicou para espanto de economistas e demógrafos. Na opinião do economista André Urani, da UFRJ, ''ou houve uma piora no mercado de trabalho ou há incompatibilidade entre as pesquisas ou houve um erro de tabulação do IBGE''.

Outro indicador que traz desalento é o da distribuição de renda. Apenas 2,6% da população ganham acima de 20 salários mínimos, enquanto 24,4% (15,7 milhões de pessoas) vivem com menos de um salário mínimo.

Resultado da aguda concentração de renda: mais da metade dos brasileiros (51,9%) ganha até dois salários.

Diante da crueza dos números, até mesmo o presidente Fernando Henrique ficou impressionado. E acusou discrepância entre os indicadores de renda e emprego e os que mostram evolução no consumo de bens duráveis. O presidente destacou que o consumo de carros subiu 82% e concluiu: ''Há alguma coisa de ilógico''.

De fato, cresceu não apenas a venda de automóveis. Registrou-se também aumento de 113% no total de domicílios atendidos por linhas telefônicas e a iluminação elétrica está quase universalizada, cobrindo 93% das residências. Houve melhora visível tanto em relação aos bens quanto aos serviços. Mas um fosso ainda separa o país da era do conhecimento digital: apenas 10% dos domicílios dispõem de computador. Internet é serviço restrito ao Sul e ao Centro- Sul. Nas demais regiões é luxo ao alcance de ínfima minoria.

Pode haver algum vetor errado nas tabulações do IBGE. Mas a exclusão social está à vista de todos. E a inclusão é desafio nacional. Basta pôr o pé nas ruas das grandes cidades para assistir ao drama da miséria e do abandono. Se nos centros urbanos a pobreza bate à porta, que dirá na periferia e nos grotões, onde é pequena a presença do poder público? Não se faça confusão: famílias da classe média podem se endividar para comprar um carro ou um eletrodoméstico, mas isso não significa que a renda do brasileiro melhorou. Ilógico às vezes é o apelo ao consumo. O certo é que a maioria das famílias vive com orçamento apertado. E grande parte não sabe sequer o que é orçamento. Mal tem como viver.

A inclusão social é o grande desafio do Brasil neste início de século. Como aumenta o número de brasileiros que não têm crença religiosa, torna-se remota a possibilidade de um milagre. Para os que crêem (os católicos são a maioria - 73,8% contra 15,4% de evangélicos), Deus já ajudou bastante, com terra, clima e gente excepcionais. Cabe, porém, aos homens reduzir as flagrantes desigualdades sociais. Se o país conseguiu baixar em 38% a taxa de mortalidade infantil e oferecer escolas à quase totalidade de crianças e adolescentes, não será tarefa impossível elevar a qualidade de vida da população. Antes de mais nada, há que enfrentar o problema, sem constrangimento. Como dizem os economistas, problemas existem para serem resolvidos. Não adianta contorná-los ou jogá-los para baixo do tapete. Mais ainda quando determinam o destino de milhões e milhões de pessoas.

A tomada de consciência é fundamental. Toda a sociedade deve se sentir responsável. A exclusão social é uma chaga que envergonha a nós todos. É o problema número 1 do país. Neste ano de eleições gerais, é pauta obrigatória dos candidatos. Todos eles devem se manifestar e apresentar suas políticas voltadas para a geração de renda e emprego. Não pensem, contudo, que os eleitores se deixarão iludir por promessas demagógicas, incompatíveis com a realidade. Se a taxa de desemprego chegou a 15% e a renda média estacionou, não foi por maldade ou falta de empenho do presidente Fernando Henrique. Na década passada - como ainda agora - o Brasil foi afetado por abalos na economia internacional, e o preço se refletiu na taxa de crescimento.

Os fundamentos da economia brasileira estão razoavelmente preservados. A prioridade daqui para a frente consiste em combater a exclusão social sem colocar em risco a estabilidade. A palavra de ordem é inclusão.


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05/10/2002


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