Partidos nanicos armam plano para sobreviver




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Partidos nanicos armam plano para sobreviver
Pressionados pela cláusula de barreira, que exige melhor desempenho este ano, eles vão buscar vagas de deputado federal e deixar em segundo plano cargos majoritários

BRASÍLIA - Forçados a montar um plano de sobrevivência por causa da nova regra que exige dos partidos um melhor desempenho na eleição deste ano - a chamada cláusula de barreira -, pequenas e médias legendas, como PC do B, PL, PSB e PPS, definiram uma nova estratégia política. Eles vão concentrar esforços para conquistar mais votos nas eleições para a Câmara, deixando em segundo plano os cargos para o Senado e governos estaduais. Tentarão, ainda, o caminho jurídico para adiar a vigência da barreira eleitoral por meio de um recurso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A iniciativa dos dirigentes políticos foi motivada por uma interpretação do TSE na qual se definiu que já a partir deste ano, e não de 2006 como se pensou de início, os partidos terão de conquistar 5% dos votos válidos na disputa para a Câmara em todo País e 2% dos votos para deputado federal em, no mínimo, nove unidades da federação.

Esse mínimo, fixado na Lei 9.096 (de 1995, que dispõe sobre partidos políticos), deverá ser atingido para que as legendas garantam um maior espaço na propaganda gratuita de rádio e TV e ainda acesso ao fundo partidário. Ou seja, os partidos que não atingirem os porcentuais mínimos terão menos tempo de exposição no horário eleitoral.

Atualmente, os médios partidos têm direito, semestralmente, a um programa de 10 minutos em rede nacional, 20 minutos em cadeia nacional divididos em inserções e 20 minutos em rede estadual, também divididos em inserções. Se neste ano tiverem desempenho semelhante ao de 1998, essas legendas terão apenas tempo de 2 minutos por semestre em cadeia nacional. Para os pequenos, a situação é se manterá idêntica: eles poderão apresentar apenas um programa gratuito de 2 minutos por semestre em rede nacional.

Histórico - Após uma consulta do PL, o TSE definiu, em outubro do ano passado, que a cláusula de barreira, aprovada depois de uma longa polêmica no Congresso, entraria em vigor em 2002. Os pequenos e médios partidos ficaram surpresos. Seus dirigentes consideram que a Lei 9.096 é dúbia.

Por isso, o PC do B já definiu que vai recorrer da decisão do TSE, segundo garantiu o presidente nacional do partido, Renato Rabelo. Mas, conforme apurou o Estado, é quase impossível que o tribunal volte atrás.

Para o advogado especialista em direito eleitoral, o ex-ministro do TSE Torquato Jardim a nova regra tem mesmo de ser aplicada nesta eleição.

Segundo o especialista, ao aprovar a lei, o próprio Congresso reconheceu que não há espaço político razoável para 40 partidos e, por esse motivo, estabeleceu a cláusula de barreira.

Para Jardim, o Congresso perdeu a oportunidade de acabar de vez com os nanicos ao continuar permitindo as coligações entre partidos para as eleições proporcionais. "A tendência natural das democracias é ter um regime que estimule partidos maiores e mais representativos", explica, citando os exemplos dos Estados Unidos e a Inglaterra.

Reforma - Um dos defensores da reforma política, o presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), acredita que a cláusula de barreira será um dos instrumentos para revolucionar a estrutura partidária no País, forçando o fim das legendas nanicas. O Congresso poderá ainda dar um outro passo importante: aprovar a fidelidade partidária, a permissão para a constituição de federações partidárias e o fim das eleições proporcionais.

"Essas propostas estão na Câmara e já passaram pelo Senado. Se forem aprovadas neste semestre, teremos concluído 80% da reforma política", afirma o senador.

Bornhausen considera que o projeto que trata da autorização para a formação de federações (associações de partidos) poderá ser a salvação dos pequenos.

"Essas legendas poderão se agrupar em federações, já que o limite mínimo dos votos válidos nas eleições para a Câmara seria aplicado considerando essas novas unidades partidárias", opinou o pefelista.

O senador Jefferson Péres (PDT-AM) também é um dos defensores da barreira legal. "Os partidos têm de parar de brincar de fazer política e garantir uma maior representatividade. Afinal, os pequenos partidos não podem ter os mesmos direitos dos demais e usar espaço na TV e dinheiro público", argumentou Péres. Segundo o senador, as limitações são necessárias para melhorar o quadro partidário no País.


Comunista tentará mudar lei e garantir tempo na televisão
Rabelo diz que bancada do PC do B brigará por limite de 2%, mesmo que isso só valha para 2006

BRASÍLIA - O presidente nacional do PC do B, Renato Rabelo, defende a cláusula de barreira, mas considera que o limite de 5% dos votos válidos para deputado federal tem de ser reduzido. Seu partido tentará modificar a lei eleitoral para diminuir o porcentual para 2%, por meio de uma proposta a ser levada à comissão especial que analisa a reforma política, na Câmara.

Eventuais alterações, no entanto, só terão validade na disputa de 2006.

"Nestas eleições, teremos dificuldade para atingir os 5%", reconheceu Rabelo. Em 1998, por exemplo, o partido só conseguiu atingir 1,2% dos votos.

Por isso, a legenda decidiu concentrar seus esforços na disputa pelas vagas de deputado federal. "Vamos privilegiar a eleição para a Câmara, porque ela vai garantir o espaço no horário eleitoral gratuito e o direito ao fundo partidário", afirmou. Assim, o PC do B mudou de estratégia ao definir a sua chapa para as disputas à Câmara e ao Senado. O deputado Agnelo Queiroz (PC do B-DF), que poderia ser lançado para o Senado, vai concorrer à reeleição.

Cálculos - Essa é a mesma preocupação do PPS.

Numa reunião da executiva nacional com as bancadas federais e dirigentes estaduais, ficou definido que o partido vai articular a formalização de alianças que garantam mais votos para os candidatos a deputado federal.

"Imaginávamos que a cláusula de barreira só entraria em vigor em 2006, mas, de acordo com o TSE, a regra já vale este ano", declarou o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR).

Segundo Bueno, o PPS só tem direito a dois minutos no horário eleitoral por semestre, em rede nacional, por ter conquistado poucos votos em 1998: 1,31% (847 mil) dos votos válidos. Pela estimativa feita pela cúpula do partido, o PPS terá 3,5 milhões de votos válidos em 2002.


Reforma política continua parada na Câmara
Mais de cem propostas, como a proibição das eleições proporcionais, estão na Casa há um ano

Mais de cem projetos de lei que tratam da reforma política estão parados na Câmara. Algumas das principais propostas, como a proibição de coligação para as eleições proporcionais e as mudanças no prazo obrigatório de filiação partidária, esperam aprovação há cerca de um ano, avalizados pelo Senado em 2000.

Nem mesmo as regras da próxima eleição foram mudadas. Apenas as normas para o horário eleitoral gratuito e os programas partidários no rádio e na TV serão diferentes, segundo a cláusula de barreira. Não houve disposição dos deputados para votar mudanças que, na versão deles, poderiam prejudicá-los na campanha que começa oficialmente no segundo semestre.

Agora, qualquer norma aprovada será válida apenas a partir de 2003. Mas o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), se mostra disposto a pôr em votação ainda em 2002 dois projetos: o aumento do prazo de filiação partidária e o financ iamento público de campanha."Sei que o projeto do financiamento é polêmico. Então, quero democratizar o debate, porque a primeira reação da sociedade não é positiva. Mas temos de mostrar que é muito mais barato, porque no momento em que acabar com o privado, acabam os privilégios indiretos", disse Aécio em entrevista ao Estado, em dezembro.

É exatamente por causa dessa possível reação da sociedade, citada pelo deputado, que vários parlamentares duvidam da aprovação da emenda em ano eleitoral. A proposta prevê a divisão de R$ 760 milhões entre todos os partidos (R$ 7 por eleitor), obedecendo a critérios válidos já para o fundo partidário existente. A verba seria repartida de acordo com o tamanho das legendas e tem o apoio dos principais partidos da base e da oposição.

Já existe um acordo em torno da aprovação do aumento do prazo de filiação partidária, o que torna mais viável a votação ainda em 2002. O projeto obriga que o ocupante de cargo eletivo esteja no mesmo partido nos três anos anteriores à eleição, caso contrário, é proibido de disputar o pleito. Hoje, qualquer cidadão tem de estar filiado ao mesmo partido apenas um ano antes da eleição. O projeto, do senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), já foi votado no Senado, mas terá de ser apreciado novamente porque sofreu modificações.

Pacote - Os senadores aprovaram também nos últimos anos a cláusula de barreira, a proibição de coligações nas eleições proporcionais e a ampliação do número de candidaturas. Todos esses projetos já foram discutidos numa comissão especial na Câmara.

O deputado João Almeida (PSDB-BA), integrante da comissão, chegou a preparar um pacote com sete projetos menos polêmicos, de modo a conseguir votá-los no máximo até o início de outubro, mas desistiu. À época, Almeida afirmou que "o sistema partidário brasileiro está maduro para se desfazer de algumas normas legais que têm impedido que a composição e o funcionamento do Legislativo correspondam efetivamente à correlação de forças partidárias".

Ressaltou, por exemplo, que a coligação para as eleições proporcionais abre espaço para que partidos sem nenhuma expressão abriguem-se na proteção de uma legenda mais forte, elegendo representantes com poucos votos.

A ampliação do número de candidaturas visa a compensar a proibição das coligações proporcionais. Como a coligação garante um maior número de candidatos por vaga, esse limite por partido - hoje equivalente a uma vez e meia o total de cadeiras disponíveis no legislativo - seria ampliado. Cada legenda poderia oferecer duas vezes o número de vagas que está disputando.


Governador do RN quer apoio do PMDB a Serra
Garibaldi Alves promete fazer aproximação com partido e prefeitos ligados ao PFL elogiam ministro

JAÇANÃ – Em sua primeira viagem de campanha, o candidato tucano à Presidência, ministro José Serra (Saúde), teve tratamento privilegiado do governador do Rio Grande do Norte, Garibaldi Alves (PMDB) e de prefeitos ligados a caciques do PFL. Garibaldi e o candidato ao governo do PMDB, deputado Henrique Alves, prometeram trabalhar para que o partido apóie Serra.

Essa é a segunda promessa de adesão de integrantes de partidos da base desde o lançamento da candidatura, quinta-feira. O governador do Tocantins, Siqueira Campos (PFL), declarou seu apoio no mesmo dia.

No Rio Grande do Norte, ao lado de Garibaldi, Serra lançou o programa Bolsa-Alimentação e entregou duas unidades móveis de saúde. Ao discursar, o governador elogiou sua competência no ministério. “Estou fascinado pela plumagem tucana. Acredito na continuidade sem continuísmo”, disse referindo-se a um mote da campanha.

Na opinião de Henrique Alves, Serra começou “com o pé direito” a campanha. “Imagem de competência ele tem”, avaliou. “E ainda se mostra solto, abraçando o povo, o que é bom para desenvolver a simpatia.”

A prefeita de Mossoró, Rosalba Ciarlini, onde Serra esteve sexta-feira, e o de Jaçanã, Orlando Vasconcelos, que apesar de filiados ao PSB mantêm relações políticas com o PFL, pediram mais investimentos na área de saúde para a região. Vasconcelos, ligado ao senador pefelista José Agripino, lamentou o fato de Serra não ter lançado sua candidatura no município.

Pesquisa – O deputado Iberê Ferreira (PFL-RN), que é ligado ao vice-presidente Marco Maciel, acredita que o ministro vai disparar nas pesquisas logo que os eleitores tiverem a oportunidade de ouvi-lo na TV e no rádio. “Na hora em que começarem os debates e ele mostrar o seu preparo, não tenho dúvidas de que vai crescer.”

Questionado sobre a candidata a presidente de seu partido, o prefeito de Jaçanã foi sucinto. “Ela é bonita, educada, séria e tem competência.” Ainda assim, ele acredita que o desempenho de Roseana na disputa vai depender da escolha do candidto a vice-presidente. “O PFL é o mais competente e fez um jogo profissional ao escolher a Roseana”, defendeu. “Quero agora ver o timing do partido na hora de escolher o vice.”

Entusiasmado, Iberê pediu pressa na formação de uma coligação de apoio a Serra. Lembrando o sucesso da música Trem das Onze, ele a parodiou: “Em Jaçanã, não podemos perder o trem da candidatura que tem tudo para dar certo.”

O ministro passa o dia de hoje em São Paulo, onde se reunirá com os colegas do PSDB para avaliar a repercussão da viagem e programar a agenda para os próximos dias. Amanhã, ele estará no Rio, na inauguração do hospital do aparelho locomotor da Rede Sarah.


Peemedebistas viram alvo de cobiça de PSDB e PFL
Apoio da sigla pode ser crucial para impulsionar ou esvaziar candidaturas de tucano e Roseana

BRASÍLIA – Um partido de muitos comandos, vários interlocutores e poucas chances de emplacar um candidato à Presidência com possibilidade de vitória. Ainda assim, o PMDB entra na sucessão cobiçado. Não sem motivo: tem tempo de TV para oferecer como dote e pode se transformar no fiel da balança entre os candidatos da situação: a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), e o ministro da Saúde, José Serra (PSDB).

“O PMDB vai decidir de olho nas pesquisas”, diz um político ligado a Serra. Para o ministro, o apoio do PMDB poderá significar um empurrão nas pesquisas, já que hoje ele tem 7% da preferência do eleitorado. Para Roseana, a consolidação no segundo lugar que ocupa há alguns meses, atrás do líder Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Lula tem 30% e Roseana, 21%.

O líder do PMDB na Câmara, Geddel Veira Lima (BA), um dos interlocutores do partido, admite a hipótese de apoiar Serra. Com receio da saia-justa na Bahia, onde convive com seu maior adversário, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL), Geddel prefere o palanque tucano. Conhecido por sua independência, ele poderá declarar apoio a Serra sem consultar as bases partidárias. O risco é de Serra não decolar nos próximos dois meses e Roseana tornar-se a opção de centro.

Divisão – O PMDB marcou prévia para 17 de março, para escolher seu candidato a presidente. Estão inscritos o governador mineiro, Itamar Franco, o senador Pedro Simon (RS) e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann. Na presidência do partido, o deputado Michel Temer (SP) já admite a idéia de adiar a prévia. Alega que é preciso ser “pragmático” e esperar para ver o desempenho dos candidatos nos próximos dois meses. Na prática, a cúpula quer sepultar a idéia de chapa própria, embora o discurso oficial seja na direção contrária.

Caso Serra e Roseana continuem no páreo, o PMDB fará sua escolha. Para Geddel, “está ficando cada vez mais estreita” a hipótese de candidato próprio. “É o preço da falta de unidade”, diz. E um lugar de vice? “A eventual escolha do vice do PMDB, se evoluir como espero, dependerá estrategicamente da região que queiram alcançar.”

O apoio de Itamar é disputado por partidos de várias cores: além de ter votos, ele governa o segundo maior colégio eleitoral do País. Mas Serra gostaria é de ter como vice o de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, um de seus principais defensores no PMDB. Outro nome lembrado é o do governador do Rio Grande do Norte, Garibaldi Alves.

Negociações – Temer trata do tema com discrição. Tem conversado com os presidentes do PSDB, deputado José Aníbal (SP), e do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC). Nem sempre juntos. Serra ofereceu ao PMDB a vaga de vice e cargos em ministérios, se for eleito. “Não estamos atrelados ao governo num destino de vida e morte”, protesta Simon. “Discordo que o MDB seja fadado a não ter chance e vá ficar falando sozinho.”

Mas o burburinho pré-eleitoral vai além. Freqüentemente, Bornhausen troca “figurinha” com Temer. O senador Teotônio Vilela (AL), ex-presidente do PSDB, tem conversado com o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL). E o senador José Sarney (PMDB-AP) vem falando com Itamar, que, por sua vez, faz acenos a Serra.

“Esse pessoal governista quer fazer um acertão para ganhar as eleições”, critica o senador Roberto Requião, que não participa das conversas sobre Roseana e Serra. Pré-candidato ao governo do Paraná, ele negocia o apoio do PT. O maior objetivo do partido, porém, é atrair Itamar, que vai reunir-se esta semana com o presidente petista, deputado José Dirceu (SP).

O PT lhe oferece apoio para a disputa ao Senado ou até à reeleição. Em troca, quer palanque para Lula. Em conversas reservadas, dirigentes têm dito que, se Itamar estiver com eles, farão tudo para ajudá-lo. Se não, lançarão o senador José Alencar (PL) ao governo. Alencar também é cotado para vice de Lula.


Governador tem enfrentado várias ações na Justiça
Até o próprio Judiciário pediu denúncia contra ele, por difamar os desembargadores do TJ

BRASÍLIA - As principais crises vividas por Joaquim Roriz no governo atual provocaram a abertura de inquéritos no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

No mais recente deles, o governador foi denunciado pelo Ministério Público Federal por suposto crime de difamação contra os desembargadores que integram o Tribunal de Justiça (TJ) do Distrito Federal.

O fato que originou a denúncia ocorreu no dia 24 de outubro do ano passado, durante um comício na cidade-satélite de Recanto das Emas. Segundo a acusação, Roriz teria ofendido a reputação dos desembargadores e do próprio TJ.

O governador teria dito publicamente que um dos desembargadores do Distrito Federal lhe garantira não ver a hora de "rasgar e mandar para o arquivo" um processo que resultou na sua condenação na Justiça de primeira instância por ato de improbidade administrativa.

Descontentes com o ocorrido, os desembargadores decidiram pedir ao Ministério Público que processasse Roriz por difamação. De acordo com o órgão, as declarações do governador puseram em dúvida duas características essenciais para um julgador, que são a independência e a imparcialidade.

Grilagem - Além do caso envolvendo os desembargadores, Roriz teve de enfrentar uma ação na qual é acusado de envolvimento com a máfia da grilagem, que atua no Distrito Federal por meio de invasão, ocupação e exploração ilegal de terras públicas. O governador responde ainda a um inquérito por crime eleitoral no STJ. Ele é acusado de incentivar, em 1998, eleitores a não pagarem lotes com a promessa de que anularia a dívida se fosse eleito.

Joaquim Roriz também foi investigado por suspeita de desviar R$ 35,9 milhões da educação. De acordo com denúncia de um deputado distrital do PT, as verbas foram destinadas para o pagamento de serviços de manutenção de áreas urbanizadas e ajardinamento, limpeza pública, publicidade e despesas com pessoal e administrativas da Novacap, empresa responsável pela urbanização do Distrito Federal desde a construção de Brasília.

Outro inquérito aberto no STJ investiga possíveis desvios de recursos destinados à obra do metrô de Brasília. Os valores teriam sido usados nas campanhas eleitorais dos municípios goianos de Luziânia e Padre Bernardo.


Artigos

A força da correnteza
Fernando Pedreira

Há tempos, ainda no começo de seu governo, o presidente Fernando Henrique gostava de lembrar sua primeira visita à Rússia e seu encontro com Boris Yeltsin. O ex-presidente russo era homem temperamental, de hábitos pouco confiáveis, e o Itamaraty, prudentemente, cercou o encontro de sigilo, só o anunciando quando de fato ocorreu. Temia-se que o anfitrião tomasse uma carraspana, na véspera, e cancelasse tudo à última hora.

Yeltsin era uma espécie de irreprimível Jânio Quadros das estepes. Recebeu Fernando Henrique com calorosa cordialidade e, até, com entusiasmo. Gostava - disse ele - de países grandes como o Brasil e a Rússia, que dominavam continentes inteiros. Aliás, no caso da Rússia - acrescentou -, na verdade dois continentes, a Europa e a Ásia... Sob seu governo, a URSS, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, havia se dissolvido; os países do Leste Europeu tinham se libertado e, na própria Ásia, grandes nações novas (na verdade, antiqüíssimas) tomavam rumo independente. Mas nada disso parecia abalar o "senso histórico" do ex-presidente.

Desta vez, no lugar do gigante Yeltsin lá estava Vladimir Putin, um homem de estatura normal, sólido, compacto, discreto, que parece saber muito bem para onde vai. Putin vem da mesma escola ou, se quiserem, do mesmo "celeiro" que formou (antes dele e do próprio Yeltsin) Andropov e Gorbachev: a temível polícia política do regime soviético. Mas isso não chega a preocupar exageradamente seus interlocutores do Ocidente. É um comandante "duro", sem grandes escrúpulos, digamos, democráticos, e o fato de se ter, no Kremlin, um homem como ele, que conhece o terreno onde pisa e sabe avançar com aparente segurança, não deixa de ser um grande alívio para todos, ao menos depois dos grandes sustos e solavancos da era Yeltsin.

Falando da Rússia e de seus líderes, na verdade, é impossível não lembrar a figura de Kutusov, o general que derrotou Napoleão, e o retrato que dele fez Tolstoi em Guerra e Paz. Os comandantes russos, ao menos os melhores, são como hábeis barqueiros que conhecem bem a correnteza do rio, e sabem que ela os levará exatamente aonde querem chegar, se ao menos souberem usar sua força imensa e seus caprichosos meneios. Putin parece ser assim (Gorbachev, antes dele, talvez não tenha sido), obediente à História e seguro dela, e o mesmo talvez se possa dizer também de Fernando Henrique, embora o Brasil seja, sem dúvida, mais moço, menos carregado de taras e sobrecargas antigas, ancestrais.

Países grandes, cuja influência se estende por continentes inteiros...

Lembro-me de quando éramos ainda estudantes e fomos pela primeira vez à Europa. O Brasil era, então, virtualmente desconhecido entre europeus, um vasto "arquipélago" republicano perdido no Atlântico Sul, mas isso não nos impedia de nos sentirmos, em nossa jovem ignorância, representantes de um grande país; não apenas fisicamente grande, geograficamente grande, mas moralmente e politicamente também. Nessa meia dúzia de décadas que nos separam daqueles anos, o Brasil desenvolveu-se enormemente, cresceu em todas (ou quase todas) as dimensões possíveis; vai-se tornando de fato e de direito, aos olhos do mundo, o grande país que imaginávamos, e talvez o governo Fernando Henrique e o próprio presidente FHC não sejam outra coisa senão isto: a condensação, a consolidação, a conscientização desse processo histórico, dessa profunda e forte correnteza que nos arrasta, freqüentemente à revelia de nós mesmos, e vai construindo uma realidad e nova, apesar do sarcasmo, da descrença e das dúvidas de um país machadiano, que desconfia do próprio heroísmo e do próprio destino...

Falando na Universidade de Moscou terça-feira última, observou Fernando Henrique: "Costumo dizer que o Brasil é uma Rússia tropical. Quero com isso ressaltar o fato de os dois países estarem inseridos de maneira singular no Ocidente, de constituírem uma espécie de outro Ocidente." Firmado nessa similaridade e nesse parentesco, FHC aproveitou a visita para fazer o que foi certamente o seu mais claro e decidido apelo por uma nova ordem nos negócios internacionais. É preciso reconhecer que a economia está hoje globalizada, mas não a política, disse ele. É preciso dar ao mundo mecanismos de governança adaptem as exigências do mercado às necessidades das comunidades nacionais. O sistema de Bretton Woods está obsoleto, se é que algum dia cumpriu os objetivos para os quais foi criado.

FHC se disse convencido de que, em muitas das teses e propostas que formulou em seu discurso, os dois países podem caminhar juntos. "Vim à Rússia", concluiu, "partilhar anseios, mas também colher ensinamentos de uma tradição talvez única no apreço às idéias como motor da História. A luta das idéias exige devoção, tenacidade, persistência, paixão, tudo aquilo que se costuma associar à alma russa"...

Faltou, talvez, dizer que, no caso do mundo de hoje, a paixão parece certamente menos necessária que a tenacidade e a persistência, somadas à contribuição propriamente brasileira, "fernandista", da paciência e da tolerância. Sem isso, sem essa contribuição até certo ponto original, que é a nossa, e que se deve somar ao pragmatismo bem conhecido de americanos e anglo-saxões, só restaria o descaminho da violência: a violência dos manifestantes da antiglobalização, a violência do terror ou a violência "parteira da História", como queria Marx, aquela que dá à luz com freqüência, como pudemos ver ao longo do próprio século 20, aleijões e monstros variados.

O Brasil apóia a Rússia na Organização Mundial do Comércio; a Rússia apóia o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Europa vem de unir-se em torno de sua moeda única, o euro. Um mundo "macro", um sistema de grandes entidades continentais e transcontinentais, que começam a entender-se e a organizar-se e a conceber as próprias crises internacionais, tal como esta última, como oportunidades de "repensar os padrões de convivência entre os povos". Haja esperança.


Colunistas

RACHEL DE QUEIROZ

Esse estranho animal
Ah, o animal urbano humano é mesmo essencialmente gregário, como os carneiros e as andorinhas. Só esse instinto ancestral, que se traz enrustido nos ossos e na carne (ou nos nervos e na pele?), é que explicará nossa absurda paixão por morar amontoados em edifícios de mais de 20 andares, ou formigando pelas ruas numa massa fechada de carros que se entrechocam, se amassam, se batem com fúria, matando e ferindo não apenas quem está dentro deles, mas o infeliz pedestre que não pertence à aristocracia rodante, e se arrisca pelo asfalto, território privativo das feras de rodas.

Você já estudou, do alto de um edifício, um engarrafamento, lá embaixo? Não dá para entender porque eles se obstinam naquela fúria impaciente, em se concentrar todos na mesma pista, como se no mundo só existisse aquele caminho, como se fugissem de um perigo invisível que por trás os açoitasse; a cada rua transversal entrem mais carros - em vez de saírem, fugirem, por aquele caminho aberto!

Mas não, e você vê com espanto que eles desdenham as possibilidades de fuga, fazem questão de ficar no sufoco sem sentido, numa velocidade de cem metros por hora. Outra comparação que nos lembram são aqueles enxames de abelhas africanas que atacam uma árvore, uma cerca, até um telhado, em vôo cego, e ficam tentando se mover para diante ou para os lados, num zumbido que já parece um rugido; e do local onde se concentram caem muitas mortas, mas parece que isso lhes é indiferente, são tantas que nem podem olhar para as vítimas. Igualzinho aos engarrafamentos.

Numa cidade grande qualquer, pequeno embaraço é uma tragédia. Se falta água, se há uma pane na eletricidade, se os ônibus se declaram em greve, tudo pára e entra em crise. Com as torneiras secas, mesmo só por algumas horas, os restaurantes não podem servir comida, nas residências o pânico se instala, desde as crianças gritando que não podem ir para a escola sem escovar os dentes! E os hospitais que não têm como acudir os doentes - sem água?

Pois embora a gente não seja peixe, a água é, depois do ar, o elemento mais indispensável à nossa sobrevivência. E faltando luz? Já experimentou subir, sem elevador, ao seu apartamento no quinto, décimo, vigésimo andar? E os que se arriscam, se arriscam mesmo a um enfarte, a uma crise respiratória, a todos os males que ameaçam o citadino sedentário, que só sabe "andar" sentado no carro, no ônibus, na moto.

Agora, em todas as cidades, anda o povo exigindo que lhe abram os metrôs, subterrâneos, onde poderão continuar se engarrafando, descarrilando, debaixo da terra, como se não lhes bastasse o que fazem lá em cima...

E como cai a qualidade de vida na cidade grande. Desde o ar que se respira, poluído, envenenado, à água que vem (ou não vem!) pelos canos, o pequeno espaço dentro dos apartamentos, o leite engarrafado, a carne congelada.

O pior de tudo é que esse frenesi "civilizatório" já está até perturbando a condição de vida nas cidades de pequeno porte. As ruas se enchem de carros e a maior glória dos prefeitos é instalar sinal luminoso nos cruzamentos. Já não se pode comprar leite mungido nas vacarias; os supermercados já invadiram tudo, passaram até a se chamar de "shopping" e só vendem leite de caixa.

Creio que a psicologia do homem urbano pode se traduzir com especial fidelidade numa frase de Pedro Nava, num baile carnavalesco no salão de cima do velho "High Life" (ah, saudosas décadas passadas!), vestido num macacão cáqui, Nava suava e sufocava empurrado e empurrando num cordão; a gente lhe propôs sair dali, ir para o jardim, lá embaixo: "Aqui está muito quente, muito apertado!" E o Nava o suor em bicas, enxugando a cara na manga, parou um instante para recusar: "Mas eu gosto é do quente e do apertado!" E seguiu no cordão.


Editorial

OS TROPEÇOS DO PROCESSO DE PAZ

A continuidade das negociações de paz na Colômbia - hoje se diz "processo de paz" - continua por um fio. O ultimato dado pelo presidente Andrés Pastrana às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), para que abandonassem as exigências de que o governo eliminasse os controles militares em torno da zona desmilitarizada e voltassem à mesa de negociações, foi atendido na undécima hora, graças aos esforços do chamado "grupo de facilitadores" - representantes da ONU e da Igreja e embaixadores do Canadá, Cuba, México, Espanha, França, Itália, Noruega, Suécia, Suíça e Venezuela.

Mas o prazo de concessão da zona desmilitarizada de 42 mil quilômetros quadrados - um santuário que a guerrilha vem usando para treinamentos, como cativeiro de seqüestrados e local de plantio e refino de coca - termina hoje. Se as Farc não aceitarem um plano que defina prazos para a redução da intensidade do conflito, a trégua e o cessar-fogo, Pastrana não renovará a concessão por seis meses, o que equivale ao rompimento das negociações.

O plano foi entregue aos representantes da guerrilha na quinta-feira. Mas o processo de tomada de decisão das Farc é demorado e complicado. Os delegados de Manuel "Tirofijo" Marulanda, o líder da guerrilha narcomarxista, não têm poder de decisão e precisam consultar a direção das Farc. O futuro das negociações, portanto, transformou -se numa corrida contra o relógio.

Uma coisa é certa. Pastrana não aceita mais negociar a paz, na tranqüilidade da chamada Farclândia, enquanto os guerilheiros transformam o resto da Colômbia num inferno. Nos últimos dias, as Farc derrubaram sete torres de transmissão de energia, uma delas em Bogotá, deixando 12 municípios sem eletricidade. Demoliram uma ponte, deixando sem ligação rodoviária com o resto do país 4 dos 12 municípios da zona desmilitarizada, explodiram pela quinta vez, em uma semana, um gasoduto, que no ano passado foi sabotado 170 vezes, e mataram 16 policiais e soldados.

Pastrana demorou mais de três anos para perceber que não é possível chegar a um entendimento razoável com um inimigo que, enquanto conversa, pratica sabotagem econômica, seqüestra, aterroriza a população e ataca postos policiais e unidades do exército. Sem um cessar-fogo e um cronograma para que as partes cheguem a resultados concretos, o processo de paz, até agora, foi um expediente para que as Farc se fortalecessem militarmente e enchessem as burras com o dinheiro dos seqüestros e do narcotráfico.

Nos últimos meses, também as Forças Armadas colombianas se reequiparam e se adestraram para enfrentar a guerrilha. Em novembro, o presidente Andrés Pastrana pediu ao governo norte-americano autorização para utilizar contra a guerrilha parte da ajuda que a Colômbia recebe para combater o narcotráfico.

Segundo o Washington Post, o governo americano estaria disposto a atender ao pedido, até porque não é possível distinguir a guerrilha do narcotráfico, que operam em perfeita sincronia.

O reforço das Forças Armadas colombianas é essencial para que seja rompido o impasse criado pelo fato de o governo não ter condições para vencer a guerrilha e a guerrilha não ter condições de derrotar o governo e tomar o poder. Se os guerrilheiros perceberem que a balança começa a pender para o lado do governo, voltarão à mesa de negociações.

A guerra civil colombiana é fator de inquietação e desestabilização de toda a região. Nenhum dos vizinhos da Colômbia está imune ao risco de contaminação pelo conflito - e isso inclui o Brasil. Na verdade, os efeitos dessa guerra prolongada já são sentidos, seja pela ampliação do tráfico de drogas, seja pelo grande número de refugiados colombianos que buscam asilo nos países vizinhos, seja pela ameaça latente, mas real, de que venha a se instalar na Colômbia um regime narcomarxista. Os países da região, principalmente o Brasil, querem ver o fim do conflito, ou pela derrota militar das Farc, ou pela sua incorporação à vida política normal da Colômbia, como um partido político qualquer, tal como ocorreu com o M-19, no começo da década passada.


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01/20/2002


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